Ttulo: A Andorinha E O Colibri
Autor: Santa Montefiore
Ttulo original: The Swallow and the Hummingbird
Gnero: Romance
Editora: Crculo de Leitores
Digitalizao: Ftima Toms
Reviso: Joo Nobre
Numerao de pgina: Cabealho

AANDORINHA E o COLIBRI
Santa montefiore

Santa Montfiore
AANDORINHA E o COLIBRI
Traduo de HELENA RAMOS
Crculo de Leitores
TTULO ORIGINAL: The Swallow and the Hummingbird
AUTOR: Santa Montefiore
(c) 2004 by Santa Montefiore
REVISO: Fernanda Alves
DESIGN DA CAPA: iarb
FOTO DA CAPA: (c) Opalworks
PR-IMPRESSO: Fotocompogrfica, Lda.
IMPRESSO: Printer Portuguesa Casais de Mem Martins, Rio de Mouro em Dezembro de 2008
NMERO DE EDIO: 7264 DEPSITO LEGAL NMERO 284 135/08
ISBN 978-972-42-4360-3
Crculo de Leitores, S
Rua Prof. Jorge da Silva Horta, 1, 1500-499 Lisboa
www.circuloleitores.pt
Reservados todos os direitos. Nos termos do Cdigo do Direito de Autor,  expressamente proibida a reproduo total ou parcial desta obra por qualquer meio, incluindo
a fotocpia e o tratamento informtico, sem a autorizao expressa dos titulares dos direitos.

Ao meu filho, Sasha Woolf

AGRADECIMENTOS
Gostaria de expressar a minha profunda gratido s seguintes pessoas, que ajudaram a tornar este livro possvel: o capito Denis Robinson, que partilhou comigo as
suas experincias da Batalha de Inglaterra e respondeu a um nmero interminvel de perguntas com pacincia e humor; Eileen Brittle e Joan Laprell, cujas recordaes
da guerra foram sempre fascinantes e muitas vezes hilariantes; Hugh Kavanagh, um entusistico observador de aves, que me prestou um servio inestimvel quando as
obras de referncia no bastaram; Ian Bond, que me introduziu no mundo magnfico das nogueiras e chegou mesmo a entusiasmar-me a ponto de me levar a associar-me
ao Walnut Club!; Lia Rueda, que me convidou para a sua belssima quinta no Norte da Argentina e me esclareceu acerca da agricultura que ali se pratica; Annabel Elliot
e o meu tio, Jeremy Palmer-Tomkinson, que recordaram, de forma um tanto vaga, a vida nos anos 60; e o meu pai, que ao longo de toda a minha vida me ensinou muito
acerca de agricultura, da fauna e da flora.
A minha me merece os maiores elogios pelo seu trabalho de edio do primeiro esboo do livro, que fez com grande dedicao, e por todas as histrias que foi acumulando
ao longo dos anos que viveu na Amrica do Sul, que recordei com grande pormenor e usei descaradamente. Sinto-me profundamente agradecida  minha tia, Naomi Dawson,
por ter vindo em meu socorro nas semanas que se seguiram ao nascimento do nosso filho, e em que no pude usar o meu computador. Seria impossvel agradecer devidamente
 minha editora, Susan Fletcher, por me ter dedicado tanto do seu tempo e por me ter aconselhado com tanta sensatez; estou-lhe verdadeiramente grata pelo seu entusiasmo
e encorajamento.
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Gostaria ainda de agradecer ao meu agente, Jo Frank, o seu apoio incondicional, e  minha amiga Kate Rock, uma vez que sem qualquer deles no seria agora escritora.
Por fim, agradeo ao meu marido, Sebag, que teve a ideia ao conduzir na M3 s seis da manh, depois de uma noite em branco por causa da nossa filha.  ele o impulsionador
da minha escrita.


I PARTE

CAPTULO 1
Primavera de 1945
Mrs. Megalith olhou o corpo e suspirou profundamente. Que espectculo to desagradvel para comear a manh... Estava rgido e frio e pelo aspecto poderia ser qualquer
coisa de papier mch que um dos seus netos tivesse feito na escola, embora dessa vez no se tratasse de nenhuma brincadeira pateta. Teve um gesto de contrariedade
e, por fim, vestiu esforadamente o roupo. Com a bengala, comeou a empurrar o cadver. No passava de uma carcaa de carne, ossos e pele em decomposio, de resto
uma pele com muito mau aspecto. Olhou a morte e pensou que o corpo era muito pouco interessante, mesmo para um gato, uma vez separado do esprito. No se condoeu
especialmente; sentiu-se apenas um pouco contrariada. J tivera tantos gatos que lhes perdera a conta. Apesar de tudo continuavam a aparecer, embora lhes prestasse
pouca ateno e nem sequer os conhecesse pelos nomes. No fazia ideia de onde vinham nem da razo por que a procuravam, mas pareciam atrados por uma fora misteriosa.
Uma vez que Mrs. Megalith era uma vidente dotada, era natural que assim fosse.
Pegou no gato e ps-se a magicar na razo por que, com tantos stios para morrer, escolhera precisamente o seu quarto. A coxear, atravessou o corredor em direco
s escadas. Era um sinal, um mau augrio, disso tinha a certeza. Encontrou Max na cozinha, a preparar uma chvena de Ovaltine.
- Que fazes a p a estas horas, meu filho?
Eram seis da manh e Max raramente aparecia antes das oito e meia.
- Encontrei um gato morto no meu quarto - respondeu despreocupadamente. Ainda conservava o sotaque de Viena, e se no fosse pelo
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sangue judeu que corria nas suas veias, Hitler poderia t-lo considerado o exemplo perfeito do homem ariano: cabelo louro forte, olhos azuis como a sodalite, uma
expresso nobre, mas tambm sensvel, num rosto largo e inteligente. Apesar do seu ar despreocupado, era um jovem reflectido, com um corao mais complexo do que
deixava transparecer, com rugas profundas e recantos do rosto onde as sombras se demoravam. Pouco mostrava das emoes que a se ocultavam; o seu pai no teria gostado
que o medo ou o sofrimento se revelassem sem impedimentos, teria querido que se mostrasse forte pela irm, Ruth. Max sentia que o devia ao pai.
Riu-se quando viu o gato morto pender da mo de Mrs. Megalith. Estava habituado aos gatos e encarava-os como parte da moblia. Quando chegara a Elvestree House,
em 1938, era um pequeno refugiado de dez anos, cheio de medo das criaturas solitrias que ali viviam e o observavam, desconfiadas, de todas as janelas ou por cima
das mesas, mas Mrs. Megalith dera-lhes, a ele e a Ruth, um gatinho de prenda. Nessa altura no sabia que no voltaria a ver os pais, mas tinha saudades do cheiro
familiar de casa. O gatinho ajudara a reconfort-lo.
- No teu tambm? Que horror... - Mrs. Megalith fez um gesto reprovador. - Um gato morto j  mau, mas dois  preocupante. No anunciam nada de bom. Mas que estaro
a tentar dizer-me? Afinal ganhmos a guerra, por amor de Deus!
Semicerrou os olhos, de um cinzento leitoso da cor da selenite que ornamentava o seu busto generoso, e fez um estalido com a lngua. Max pegou no gato morto, abriu
a porta das traseiras e p-lo junto do que j l estava. Quando voltou, encontrou-a sentada no cadeiro ao lado do fogo de cozinha.
- Est sempre a ler sentidos ocultos em tudo o que v, Primrose - disse ele. - De certeza que foi apenas por coincidncia que dois gatos morreram na mesma noite.
Se calhar comeram veneno para ratos...
Mrs. Megalith contraiu os lbios.
- De maneira nenhuma. O pressgio  claro como gua.
- A guerra terminou - disse Max. - E Hitler no vai voltar.
- Louvado seja Deus! E eu j uma vez estive por pouco, por isso no posso ser eu! - replicou, recordando uma noite durante o blit em que ficara em casa da irm em
Londres. Nessa altura tambm morrera um gato. Contudo, Mrs. Megalith era uma fora da natureza; podia coxear
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e refilar sem um minuto de descanso, mas estava mais viva do que nunca. - No, este pressgio no diz respeito  guerra. Tem a ver com qualquer coisa muito mais
prxima - acrescentou, esfregando o queixo pensativamente.
- George chega hoje de Frana - disse Max, pensando em Rita e fazendo votos para que o mau pressgio no tivesse nada a ver com ela. J George era outra questo.
- Claro, tens razo! - exclamou Mrs. Megalith. -  humilhante sermos velhos. Em tempos, tive uma excelente memria e agora  to m como a dos outros todos. - E
com estas palavras bufou, impaciente. - O jovem George Bolton... S por milagre sobreviveu naquelas latas de conserva voadoras.  graas a jovens como ele que agora
no andamos todos a aprender alemo e eu no tenho de me esconder no sto. O meu sto no  nada confortvel. Mas tu terias uma vantagem sobre todos ns, a falares
alemo to bem... - Nessa altura a sua ateno voltou-se para a neta. - A Rita no v o George h trs anos.
-  muito tempo, no ? - observou Max, esperanosamente. Desde a primeira vez que pusera os olhos em Rita Fairweather que estava desesperadamente apaixonado por
ela. A paixoneta infantil amadurecera pouco a pouco at se transformar num sentimento mais profundo. Rita era trs anos mais velha do que ele e o seu corao j
no era livre.
- Durante a Primeira Guerra Mundial no vi o Denzil durante quatro anos, e isso no teve importncia nenhuma.
- Mas a Mrs. Megalith no  como as outras pessoas - arreliou-a Max. -  uma bruxa.
O rosto de Mrs. Megalith pareceu suavizar-se um pouco, o suficiente para ela sorrir a Max. No eram muitos os que se atreviam a brincar com a "bruxa de Elvestree",
alm de que era sabido que ela achava a maior parte das pessoas insuportveis. No entanto, Max estava acima de qualquer crtica. Mrs. Megalith conseguia ver aquilo
que mais ningum via, os recantos escuros e sombrios do seu corao, onde ele escondia um grande sofrimento. Nunca esqueceria o dia em que as duas pequenas crianas
desamparadas haviam sido entregues ao seu cuidado. Amava Max e Ruth intensamente, mais do que alguma vez amara os prprios filhos, uns privilegiados que nunca tinham
sabido o que era o medo. Era o mais prximo que ambos tinham de uma famlia e amava-os em vez da me e do pai, que j no estavam vivos para lhes darem aquilo a
que todas as crianas tm direito.
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- Eu posso ser uma bruxa, Max, mas sou to humana como outra mulher qualquer e senti muito a falta do Denzil. Como  evidente, tive amantes. - Max ergueu o sobrolho.
- Podes rir-te, se quiseres - disse, apontando-lhe um dedo longo, - mas no meu tempo era uma bela mulher.
Levantou-se com dificuldade, o corpo rgido, apoiada na bengala, e disse a Max:
- Porque no voltas para a cama? Pareces cansado.
- Agora j no vale a pena. O Sol j nasceu. O melhor  ir enterrar os mortos - respondeu ele, dirigindo-se  porta das traseiras.
- Atira-os para os arbustos, Max. - Acenou-lhe com a mo e os seus anis com cristais encastrados brilharam ao sol como rebuados. - Eu vou l para fora gozar a
alvorada.
A casa de Mrs. Megalith era um edifcio branco de grandes dimenses, simtrico, de propores equilibradas. Metade estava coberta de delicadas clematites cor-de-rosa,
as ptalas a flutuarem ao vento como confetti, e a outra metade de rosas e glicnias. As janelas abertas mostravam as cortinas s flores, os gernios em vasos e
um ou outro gato a dormir ao sol. Mrs. Megalith tinha ainda duas vacas que lhe davam leite, alm de galinhas, que criava por causa dos ovos e para comer, e cinco
patos brancos Aylesbury, apenas pelo prazer de os ver nadar no seu charco. As raposas gostavam especialmente de patos Aylesbury por eles no voarem, de maneira que
ela deixava uma lanterna a petrleo acesa toda a noite para as afastar. Era uma jardineira entusistica e plantava onde quer que houvesse um pequeno espao, sem
plano nem regra. Com a ajuda de Nestor, o velho jardineiro, cavara metade do relvado para semear papoilas, centureas e outras flores silvestres. Alm disso, entre
as roseiras costumava plantar miostis. Estes iam-se introduzindo por entre os amores-perfeitos, as campnulas e as eufrbias que definiam os limites dos canteiros.
As malvas-rosas eram levadas pelo vento e pelos pssaros, enraizando-se nas rachas da laje do terrao e entre os tijolos do muro que cercava o jardim. O ar recendia
ao aroma adocicado da relva cortada e dos choupos, e a fragrncia intensa das campainhas do bosque, que existiam por trs da casa, era para ali arrastada pela brisa.
Elvestree House tinha ainda a vantagem da vista para o esturio, onde se encontravam todos os tipos de aves marinhas, desde a gaivota-argntea, de cor acinzentada,
ao corvo-marinho, de cor negra. Nesse momento,
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o seu alarido espalhava-se ao longo do imenso areal, onde a mar deixara um banquete apetecvel de minhocas e pequenos crustceos. Mrs. Megalith olhou para o mar,
em direco ao horizonte, e lembrou-se dos gatos mortos e dos maus pressgios que ensombravam o dia soalheiro e o cu azul. Sabia que Rita andava pela praia, a observar
a mesma vista que ela prpria, a sonhar com o regresso de George de Frana e a realizao de todos os seus sonhos.
Rita no tinha pregado olho nessa noite. A expectativa era demasiado intensa. Tinha na mo a carta que George enviara de Frana, com a data e a hora a que chegaria.
Era transparente, com palavras quase gastas pela doce corroso do amor. Rita estava sentada no alto da falsia, a olhar o mar impetuoso sobre o qual as gaivotas
se agitavam, o mesmo mar que os separara tanto tempo e naquele dia o traria de regresso a casa.
At o nascer do Sol parecia mais belo neste dia. A cor do cu era menos intensa, mais translcida, e a luz do Sol era como o toque suave de um beijo. Gostava de
observar o mar mais do que qualquer outra coisa, porque o mar tinha caprichos como as pessoas; ora estava calmo e sereno, ora se mostrava em toda a sua fria. No
entanto, as suas guas eram mais profundas do que qualquer pessoa poderia ser. Apesar da sua natureza tumultuosa, o mar era constante, fivel e capaz de tornar o
esprito de Rita mais ligeiro que qualquer outra coisa. Olhar a vasta extenso do oceano tocava-a no mais profundo do seu ser. Por vezes, ao anoitecer, quando o
cu reflectia os dourados e os vermelhos do Sol-poente e o mar estava calmo, quase parado, como impressionado pela cena celeste representada a grande altitude, Rita
tinha a certeza de que existia um Deus. No o Deus distante de que lhe haviam falado na escola e na igreja, mas o Deus da sua av: um Deus que era parte integrante
do mar, das nuvens, das rvores, das flores, dos animais e dos peixes, e tambm dela mesma. Por vezes, cerrava os olhos e imaginava que era um pssaro a voar sobre
a terra, com o vento a bater-lhe no rosto e a penetrar-lhe no cabelo.
Rita amava a natureza. Em criana, as nicas aulas que lhe agradavam eram as de cincias naturais; todas as outras lhe pareciam difceis e inteis. Enquanto os outros
midos brincavam no recreio, Rita deitava-se sobre a relva a observar as joaninhas, uma gota de orvalho sobre uma folha ou a atrair os chapins com avels do jardim
do pai de George.
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Desenhava insectos, observando todos os seus pormenores com grande curiosidade. Tinha poucos amigos chegados. No havia mais ningum com o interesse ou a pacincia
necessrios para ficar tanto tempo parado no mesmo stio. Apesar disso, todos gostavam dela, embora a considerassem um pouco excntrica, porque era uma criana doce
e cheia de encanto.
Mas naquele dia havia outras coisas na sua mente alm do movimento fluido das gaivotas ou dos escaravelhos que percorriam a erva em busca de alimentos. George regressava
a casa. Rezou para que fizesse uma boa viagem, sussurrando as palavras ao vento, como fizera durante a guerra, especialmente nos momentos dolorosos, depois da morte
do filho do reverendo e de Mrs. Hammond e de o noivo de Elsa Shelby ter sido morto em combate. Mas George fora poupado. Tinha uma certa vergonha de falar da sua
gratido, no fosse isso chamar o azar. Assim, agradeceu a Deus quase em silncio, com palavras que se perderam por entre o estrpito do mar e os gritos das aves
que planavam de asas bem abertas sobre a brisa fresca. Abriu os braos e correu pelo areal imitando os seus movimentos, o corao dilatado pela alegria e pela esperana,
sem que ningum estivesse presente para ouvir o seu riso e observar a sua exuberncia infantil.
Rita sempre conhecera George. Os pais de ambos eram amigos, e os dois tinham andado na mesma escola de aldeia, embora George no tivesse sido da mesma classe, uma
vez que era trs anos mais velho que ela. Esperava por ela no fim das aulas e acompanhava-a a casa antes de se encaminhar, de bicicleta, para a dele, que ficava
fora da aldeia, j que o seu pai era agricultor e vivia a alguns quilmetros da escola. Fora ele que a ensinara a jogar s trs pedrinhas, a apanhar camares e ourios-do-mar
nas poas entre as rochas, na praia, e no Vero a acender uma fogueira apenas com dois pedaos de vidro. Quando ela fizera treze anos, fora ele o primeiro a beij-la,
porque, segundo explicara, no quisera que nenhuma outra pessoa o fizesse. Cabia-lhe a responsabilidade de o fazer com delicadeza porque, se assim no fosse, uma
m primeira experincia poderia deix-la marcada para sempre. Abraara-a na gruta escura que se tornara o seu esconderijo especial e colara os lbios aos dela enquanto
a mar espreitava  entrada para testemunhar o seu segredo antes de o apagar de vez. Fora dessa maneira que haviam descoberto uma nova dimenso da sua amizade, e,
com o entusiasmo de duas crianas com um brinquedo novo, escondiam-se na gruta sempre que podiam para se
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entregarem, horas a fio, a beijos, apenas interrompidos por alguma gaivota ou gaivina curiosas que entrassem inesperadamente na sua gruta.
George sempre sonhara voar. Tambm ele adorava sentar-se no alto das falsias a observar as aves que voavam sobre o mar. Observava-as com grande ateno, via-as
deslizar no ar antes de mergulharem bruscamente em direco  gua. Estudou a maneira como levantavam voo e aterravam e jurou a Rita que um dia voaria como elas
num avio. Assim que a guerra comeou, aproveitou a oportunidade de realizar o seu sonho, sem olhar ao perigo que isso representava. Era jovem e estava certo de
ser imortal. Iniciara a sua grande aventura, e Rita sentira-se orgulhosa e cheia de admirao por ele. Depois observou os faises e as perdizes que o pai caava
e comeou a recear por ele.
Sentou-se numa rocha na gruta de ambos e recordou os beijos de outros tempos. Lembrava-se ainda do cheiro da pele dele, do seu cabelo, da sua roupa, todos to familiares
e iguais a si mesmos ao longo dos anos. Parecia v-lo ali, a sua presena to dominadora que tornava a gruta minscula. Imaginou-o a acender um cigarro, a percorrer
o cabelo castanho encaracolado com os dedos, a fixar nela os olhos cinzentos, a sorrir-lhe apenas com um canto da boca,  sua maneira com um esgar irnico e malicioso.
Recordou o maxilar largo, o queixo quadrado, as linhas que se formavam ao canto dos olhos quando sorria. Recordou o que os unia, reconfortada por um futuro que era
uma tranquilizadora continuao do passado. Envelheceriam juntos naquela praia, naquela gruta, naquela pequena aldeia do Devon marcada pelas pegadas indelveis da
infncia de ambos.
Quando voltou a casa a me estava a fazer papas de aveia, o cabelo ruivo pintado preso em rolos e a sua figura de matrona envolvida por um robe cor-de-rosa.
- Meu Deus, ainda me custa acreditar que j  sexta-feira! Parecia que o dia de hoje nunca mais chegava. Ao fim de tantos anos... Estou cheia de nervos. - Pousou
a colher de pau e abraou a filha com emoo. - Deus te abenoe, Rita acresceu com ar srio, afastando-se um pouco e observando-a com os olhos hmidos. - Neste domingo
devias ir  igreja com muita gratido na alma. Houve muitos que no tiveram a mesma sorte. O Trees e a Faye devem estar loucos de excitao. S de pensar que o filho
voltou a casa at sinto um n na garganta.
Voltou-se de novo para os tachos, limpou os olhos e suspirou.
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Hannah Fairweather era uma mulher profundamente sentimental. Tinha um rosto largo e generoso, olhos onde as lgrimas surgiam com frequncia, especialmente com tudo
o que dizia respeito aos filhos, e um peito generoso e macio, com que alimentara as trs filhas muito para alm do seu primeiro ano. Era uma me telrica, cujo propsito
na vida era apenas criar e amar os filhos, o que fizera com um imenso orgulho. Como as pegas, guardava tudo e mais alguma coisa: o primeiro par de sapatos de Rita,
o primeiro desenho de Maddie, um caracol de Eddie. As pedras das lareiras e as paredes estavam cobertos de recordaes que nada diriam a uma visita, mas eram tudo
para Hannah: um verdadeiro museu do seu passado.
A casa dos Fairweather ficava na pequena aldeia de Frognal Point, junto  costa, escondida atrs de tlias e de arbustos altos de teixo e rodeada por um jardim bem
cuidado e povoado por muita passarada. A filha mais nova de Hannah tinha catorze anos e passava o dia na escola, de maneira que os pssaros que alimentava e lhe
comiam  mo eram como uma famlia para ela. O rouxinol que tinha o ninho na sebe, o chapim gracioso que chegava no Outono e comia migalhas da sua mo, e as andorinhas,
as suas preferidas, que regressavam todas as Primaveras para fazer os ninhos sob o alpendre. To doce e humilde como um pequeno pardal, Hannah tinha um bom corao
como acontece muitas vezes com as crianas criadas por mes dominadoras.
Porque ser que a nossa Rita tem hoje um aspecto to radioso? - perguntou Humphrey quando entrou na cozinha, atrado pelo cheiro das papas de aveia e do po torrado.
Baixo e robusto, com calas cinzentas seguras por suspensrios vermelhos sobre uma camisa branca bem passada, era quase careca, se exceptuarmos alguns caracis brancos
sobre as orelhas. Inclinou-se, beijou a filha no rosto e deu-lhe uma palmadinha nas costas com a mo quente.
- Chegou agora da praia - respondeu Hannah. Humphrey sentou-se  cabeceira da mesa e serviu-se de ch.
- Nesse caso, no tem nada a ver com o regresso de George? - Com uma risada, abriu o jornal, a Southern Gazette, de que era chefe de redaco. Com um resmungo expressou
a sua aprovao pela primeira pgina, onde se via uma fotografia de grande formato com uma jovem que beijava um soldado que regressava da guerra. Se George tivesse
boas histrias de aces hericas e aventurosas, Humphrey teria todo o gosto
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em public-las no seu jornal. Era o que as pessoas queriam ouvir, histrias de herosmo, histrias vitoriosas com aces hericas.
- Estou to excitada, pai, mas tambm estou cheia de medo. - Humphrey encarou a filha por cima do jornal aberto.
- No h razo para estares com medo, Rita. Ele vai regressar so e salvo.
- No, no  por isso. - Fez uma pausa e mordiscou uma torrada. - No acha que ele pode ter mudado?
Hannah encheu de papas de aveia o prato do marido.
- Claro que mudou - disse ela. - Agora j  um homem.
Rita corou e sorriu.
- Espero que no fique desapontado comigo.
- Quem poderia ficar desapontado contigo, minha filha? - Humphrey riu-se e escondeu-se de novo atrs do jornal. - Para o George s como a casa dele, assim como a
tua me era a minha. No penses que isso  uma coisa sem importncia.
- Ainda me lembro de quando o teu pai regressou dos Dardanelos. Vinha to moreno que quase no o reconheci, e magro. Tive de lhe dar de comer como s galinhas da
av. Mas, pouco depois, voltmos a conhecer-nos um ao outro. O George vai precisar de algum tempo para se adaptar, mas vai estar em casa junto da sua amada. A guerra
ensina que a nica coisa importante na vida so as pessoas que amamos. Tu tens sido a sua bia de salvao todos estes anos, Rita. - A voz de Hannah alterou-se quando
ela recordou os horrores da Primeira Guerra Mundial e o desnimo dos que lhe haviam sobrevivido. - Onde est a Eddie? Ainda chega atrasada  escola. - E apressou-se
a ir acordar a filha mais nova.
Quando Eddie entrou na cozinha, ainda meio a dormir, resmungou uma espcie de bons dias antes de se lembrar de que era o dia em que George regressaria.
- Deves estar muito excitada, Rita - disse, j acordada. - Agora vais deixar que ele faa amor contigo?
O rosto estupefacto de Humphrey espreitou por cima do jornal enquanto Hannah dava meia-volta e olhava horrorizada a filha de catorze anos.
- Eddie! - conseguiu exclamar. - Humphrey, diz-lhe qualquer coisa!
Humphrey ps um ar exageradamente carrancudo.
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- Que sabes tu desse assunto, Eddie? - perguntou, tentando adivinhar quem teria corrompido a sua mente.
- O namorado da Elsa Shelby voltou h uma semana e eles fizeram amor nesse mesmo dia. Eu sei porque a Amy me contou.
A irm mais nova de Elsa era to indiscreta como a prpria Eddie.
- O que  que a Amy percebe do assunto? - disse Hannah, com as mos nas ancas e os rolos quase a saltarem-lhe do cabelo.
- Foi a Elsa que lhe contou. Disse-lhe que era como tomar banho numa banheira cheia de mel quente.
Eddie sorriu com malcia ao ver o rosto do pai descontrair-se num sorriso divertido.
- Minha querida - disse Hannah com severidade, ignorando o sorriso claramente divertido do marido, - o amor fsico serve para procriar dentro da unio do matrimnio.
- Eles esto noivos - protestou Eddie, deitando uma olhadela  irm, que de repente corara e se remexera na cadeira, muito inquieta. - Alm disso, ela chegou a pensar
que ele tinha morrido!
- Mesmo assim deviam ter esperado. Afinal o que so meia dzia de meses? - argumentou Hannah.
- O George e a Rita vo ficar noivos muito brevemente. - Eddie voltou-se para a irm. - Tu vais contar-me como  quando tiveres feito, no vais?
Rita deixou o longo cabelo castanho encaracolado cobrir-lhe o rosto e mexeu-se nervosamente na cadeira, embaraada.
- Edwina, despacha-te a tomar o pequeno-almoo ou ainda chegas atrasada - disse Hannah, mudando de assunto. Estava habituada  tendncia de Eddie para dizer precisamente
o que pensava, sem se ralar se era apropriado o que dizia, uma coisa que herdara da av.
Eddie viu a me deitar algumas conchas de papas numa tigela e depois trocou um olhar com o pai. A sua expresso era de indulgncia.
- Eddie, era mesmo preciso trazeres o Harvey para a mesa? - disse a me, reparando no pequeno morcego pendurado na camisola de l da filha.
- J lhe expliquei que ele no gosta de ficar sozinho. Agora est habituado a mim.
Hannah suspirou e bebeu um gole de ch, to diludo como gua de lavar a loua.
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- Os combates podem j ter terminado, mas ainda vai ser preciso muito tempo para este pas voltar a pr-se de p. Quando voltaremos a beber uma boa chvena de ch
bem doce?
Maddie tinha dezanove anos. Era uma jovem determinada, que no via necessidade de se levantar a uma hora to desagradvel. Embora os pais a incentivassem a procurar
emprego, Maddie tinha a impresso de que no era urgente. Alm disso, acabaria por arranjar marido e depois j no teria necessidade de trabalhar. Via como Rita
saa de casa cedo para trabalhar na quinta de Trees Bolton e como regressava ao fim do dia com as mos sujas e o cabelo cheio de p, a cheirar a vacas e a estrume,
e sentia-se grata por ter conseguido evitar o trabalho manual daquele tipo. Havia gente que chegasse para manter as coisas a funcionarem sem que ela tivesse de se
juntar aos demais. Era uma pena os homens que trabalhavam na quinta serem to feios e velhos, porque se fossem jovens e elegantes como os soldados americanos, ela
teria arranjado qualquer coisa em que valesse a pena trabalhar, como incentiv-los de cima dos montes de feno. Voltou-se na cama e pensou na possibilidade de arranjar
o cabelo e talvez de pintar as unhas. Depois lembrou-se que era nesse dia que o George voltava da guerra.
Vestiu um roupo e desceu as escadas  pressa. Encontrou o pai e a Rita a prepararem-se para sair.
- Boa sorte, Rita - disse-lhe. - Vou pensar em ti. Quatro, no ? Volta cedo, para eu ter tempo de arranjar o teu cabelo acrescentou, reparando no ar pouco cuidado
da irm. Mas, na verdade, sabia que no valia a pena. Rita era to natural como o mar que tanto amava e os seus caracis seriam sempre to emaranhados como as algas
que chegavam  areia. - Eu ajudo-te. Tens de ter bom aspecto para receber o George. - Depois voltou-se para a me e acrescentou: - No acha que  a coisa mais romntica
do mundo, me?
Rita partiu de bicicleta, Humphrey no seu Lee Francis e Eddie saiu relutantemente para a escola com Harvey, de maneira que Maddie ficou sozinha com a me a comer
o que sobrara das papas de aveia, j frias e com uma crosta grossa por cima. Hannah no tivera coragem de dizer a Rita que arrumasse o quarto e fora tambm de propsito
que ignorara o seu aspecto desmazelado. Voltou-se para a filha do meio. Rita podia ser desarrumada, mas pelo menos no era ociosa como Maddie.
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- Que tencionas fazer hoje? - perguntou-lhe, procurando uma maneira de a encorajar a fazer qualquer coisa til com o seu tempo livre.
Maddie suspirou e franziu o sobrolho.
- Vou arranjar o cabelo - respondeu, debicando uma torrada, como a irm fizera.
- Mas achas que isso  mesmo preciso?
- Tambm quero ter bom aspecto quando o George chegar! - insistiu, embora soubesse perfeitamente que George no era para ali chamado. - Pensei fazer um penteado
como o da Lauren Bacall. Alm disso, hoje  noite  a festa de boas-vindas ao George e nunca se sabe quem l vai estar. Talvez eu conhea ali o homem com quem virei
a casar. E quero que ele me veja com bom aspecto!
- Porque no vens comigo a casa da av? - perguntou Hannah. - O bosque est cheio de campainhas e o jardim dela est muito bonito. Podamos almoar l. Sempre ajudava
a passar o tempo.
Maddie torceu o nariz.
- Ela s sabe  pregar-me sermes.
- E dizer-te que arranjes um emprego. - Maddie olhou para a me com um ar enjoado.
- S nunca me diz o que eu quero ouvir - queixou-se.
- Isso  porque nunca mente. - Hannah comeou a levantar a mesa do pequeno-almoo. - Sabes como  a av. Leva aquelas cartas muito a srio.
- Ferramentas do esprito - disse Maddie, imitando a voz profunda da av. - Est bem, eu vou, mas s porque no h nada melhor para fazer.
Quem lhe dera que as tropas americanas no tivessem regressado ao seu pas. Sorriu intimamente ao imagin-los a regressar s suas mulheres e namoradas com fotografias
dela nos bolsos das camisas.
Hannah e Maddie foram de bicicleta a casa de Mrs. Megalith, porque ainda havia falta de gasolina. A Primavera fizera florescer os campos e pintara as rvores e os
arbustos com uma paleta fresca de cores. Os pilriteiros rosa e as flores brancas das macieiras brilhavam entre o verde fluorescente das folhas e da erva. O cu brilhava
com um azul profundo, sobre o qual deslizavam pequenas nuvens brancas, como espuma sobre o oceano. Hannah absorveu esta cena encantadora, com o sentimento da presena
de Deus na beleza e no poder da natureza.
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- No acham este quartzo rseo absolutamente glorioso? - disse Mrs. Megalith quando a filha e a neta entraram pela porta da cozinha. Olhou-as por cima dos culos
e sorriu-lhes calorosamente. Maddie olhou para os cristais de todas as cores e tamanhos arrumados em filas sobre a mesa da cozinha e fez uma careta de desagrado
quando sentiu o cheiro forte dos gatos.
- Para que servem? - perguntou, torcendo o nariz  excentricidade da av. Desde que estivera na ndia, entre as duas guerras, que a av ficara deslumbrada com as
coisas mais extraordinrias.
- Esta, por exemplo - replicou a av, com o quartzo rseo na mo, -  a pedra do amor delicado. A sua energia  suave e sedosa, e tambm calmante. Restabelece a
harmonia e a clareza das emoes. Mas a pobre precisa de uma boa limpeza. Vou lav-la bem com sal e depois deixo-a no jardim durante um dia inteiro para que absorva
bem os elementos. Depois j se h-de sentir melhor. - E com isto acariciou-a afectuosamente. - Continuas sem nada que fazer, Madeleine?
Maddie revirou os olhos com impacincia.
- Eu vou casar com um homem muito rico e no vou precisar de trabalhar - explicou, erguendo as sobrancelhas de forma provocadora.
- Isso  capaz de ser mais difcil do que imaginas. No sei se reparaste, mas houve uma guerra - respondeu-lhe Mrs. Megalith, enterrando o queixo no peito. - Como
vai a nossa Rita? - perguntou a Hannah.
- Precisa de quartzo rseo, desconfio - disse Maddie, pegando distraidamente num fulgurito.
- Est to excitada... - contou Hannah. - Duvido que hoje faa alguma coisa de jeito na quinta.
- Querida Rita... Espero que o George case com ela este Vero. Ela tem sido um modelo de pacincia. D-me a minha bengala. - Acenou a mo cheia de anis em direco
 neta e em seguida ps-se esforadamente de p. O vestido azul que usava nesse dia assentou sobre as suas pernas como uma tenda, apoiado no seu peito opulento e
na trave dos seus ombros. - Venham da ver o jardim. Parece que estamos no Cu.
Percorreram o corredor, onde os gatos descansavam preguiosamente sobre os parapeitos das janelas aquecidos pelo sol. Maddie espirrou. Nunca tinha gostado muito
de gatos. Mrs. Megalith lembrou-se dos dois que tinha encontrado mortos.
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- Digam  Rita que venha ver-me amanh. Quero ler as cartas. Estou a sentir qualquer coisa nos meus ossos. No me perguntem o qu, que eu no sei. Mas agora que
o George vai regressar parece-me que ela precisa de uma orientao da velha bruxa.
- Umas centenas de anos atrs tinham-na queimado na fogueira, av.
- Eu sei, Madeleine, querida. J fui queimada durante a Inquisio Espanhola e no foi nada agradvel. Mas voltei  vida, muitas vezes. A verdade vence as chamas
e um dia as pessoas deixaro de ter medo do poder que se encontra em todos ns. Mesmo os cpticos como o teu Humphrey, Hannah. Mesmo ele.
Passearam pelo jardim, admirando os pequenos rebentos que cresciam em lugares to inspitos como as rachas dos muros e entre as lajes, e deram comida aos patos que
nadavam satisfeitos debaixo dos salgueiros e dos choupos. Depois sentaram-se  frente da casa a beber licor caseiro preparado pela prpria Mrs. Megalith. A guerra
parecia no ter afectado Elvestree House, onde havia fartura de ovos, de leite e de queijo. Mrs. Megalith trocava manteiga por carne e peixe e arranjava maneira
de comprar cupes no mercado negro por apenas uma libra. At conseguia criar bananas na sua estufa, atribuindo todo o crdito do feito aos cristais que espalhava
entre as rvores. No havia nada que no se criasse em Elvestree e, para desgosto de Hannah, o jardim da me era um paraso para todo o tipo de passarada, mesmo
para o papagaio-do-mar e a lavandisca, que, em princpio, no passavam por Inglaterra. Por qualquer razo, Elvestree era um refgio para as aves migratrias, que
por vezes se afastavam muitos quilmetros dos seus percursos habituais para ali chegarem.
Almoaram uma galinha suculenta acompanhada de hortalias criadas na horta e depois Hannah e Maddie ajudaram Mrs. Megalith a limpar os cristais. Quando foram para
o jardim, o ar tinha mudado e a luz tornara-se mais suave. Cada uma delas olhou para o relgio. Eram trs e meia. Quase no tinham dado pela passagem do tempo.
- Valha-me Deus, Hannah - exclamou Mrs. Megalith, atrapalhada com o fio de contas que atara aos culos para no os perder. - George!
- E eu que tinha prometido arranjar-lhe o cabelo! - lamentou-se Maddie, com um sentimento de culpa. Mas a av voltou-se para ela zangada.
- O George no vai reparar no cabelo dela, Madeleine. Ele ama-a como ela .

CAPTULO 2
Rita estava junto da paragem da camioneta a roer as unhas. Junto dela estava a famlia de George, mas, apesar disso, sentia-se completamente sozinha, isolada numa
pequena ilha de medo, excitao e esperana. Observava Trees e Faye Bolton e percebia que eles se sentiam como ela. Havia sempre a possibilidade de ele no vir na
camioneta, de ter acontecido alguma coisa na viagem desde Frana. A ansiedade era visvel nos msculos tensos em volta dos olhos e escondida nos sorrisos. Esperavam
o filho na companhia de Alice, a filha, e dos dois filhos pequenos desta. George no era o nico jovem que regressava da guerra; havia outras famlias  espera,
todas prudentemente optimistas, mas receosas de celebrar antes do tempo. O ar parecia vibrar com uma apreenso que os unia a todos.
-  um horror, no ? - disse Faye a Rita. - Estou to nervosa que nem sei o que fazer.
Olhou a filha de relance com ar maternal. O marido desta, Geoffrey, ainda no fora desmobilizado. Tinha pena dela. Alice nunca fora uma criana queixosa; sempre
se afastara para dar lugar a George, impulsivo e impaciente. Sempre o centro das atenes. Faye nunca precisara de se preocupar com Alice, e continuava a no precisar.
Era uma mulher tranquila, de temperamento filosfico, que parecia deixar-se levar pela corrente da vida, evitando com facilidade escolhos e remoinhos. Prometera
a si mesma que dedicaria  filha a ateno que ela merecia quando Geoffrey regressasse de Frana, mas aquele dia pertencia a George.
Faye tinha um rosto muito belo. Parecia no ter envelhecido: no tinha rugas no rosto, macio como algodo cardado. Usava o cabelo louro preso num chignon, que lhe
acentuava as linhas delicadas do maxilar e das
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mas do rosto. Os seus olhos eram da cor do cu numa manh enevoada. Estavam acostumados a chorar com uma pea de msica, uma pintura bela ou uma histria triste;
adorava Tolstoi, Pushkin e Oscar Wilde. S as mos, rudes e speras, denunciavam o seu ofcio. Contudo, conseguiam moldar o que quer que fosse em barro; o seu verdadeiro
talento era modelar o barro. Sempre tencionara vender os objectos que fazia; o dinheiro dar-lhes-ia muito jeito, mas apegava-se de mais a eles. "Criei-os com amor
e agora fazem parte de mim", costumava dizer, e acabava por espalh-los pela casa, entre os livros, as pinturas e as partituras que tocava no piano vertical, num
verdadeiro caleidoscpio de tudo aquilo que amava.
Trees passou-lhe o brao  volta da cintura sem dizer o que quer que fosse. Era um homem de poucas palavras. Alto e magro, com braos e pernas compridos, chamavam-lhe
Trees por causa das nogueiras, a sua grande paixo. Passava os dias no campo, a cuidar dos animais, com a sua cadela preferida, Mildred. Tinha um rosto nobre, elegante
como um busto romano, com um nariz aquilino e olhos profundos, de um esplndido castanho-claro. Faye inclinou-se para ele instintivamente. Adorava Trees, mas nunca
conseguira toc-lo verdadeiramente. O seu marido era um homem distante, mais interessado nas suas rvores do que em quaisquer outras criaturas vivas. No se sentia
de maneira nenhuma culpada por ter um amante. As mulheres tm necessidade de ser amadas e Faye sentia ainda mais necessidade de afecto que a maioria. Para ela, o
amor era inseparvel da msica e da arte e, como dispensava todo o seu amor s peas de barro que modelava e ao piano, achava natural receber qualquer coisa em troca.
Deu o brao a Rita.
- A espera est quase a chegar ao fim. Vens connosco, no vens? O George leva-te a casa depois do ch.
Rita acenou afirmativamente e suspendeu a respirao quando, por cima do ombro de Faye, viu a camioneta descer o caminho com solenidade.
Todos se voltaram na sua direco e o silncio instalou-se. A camioneta parecia aproximar-se em cmara lenta e os que a esperavam estendiam o pescoo para espreitarem
para l das janelas, mas tudo o que conseguiam ver era o nevoeiro nos prprios olhos, que ansiavam por vislumbrar os rostos dos jovens que amavam. Por fim, o rudo
dos traves e em seguida o bater da porta ao abrir preencheram o silncio. Uma exploso
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de alegria submergiu uma famlia, cujo filho foi o primeiro a descer. Avanaram todos para ele, em conjunto, como uma vaga, e em seguida recuaram, arrastando-o na
sua companhia, de tal maneira que o bon azul do seu uniforme era a nica coisa visvel por cima dos braos e das mos de todos os que o esperavam. Em seguida saiu
outro jovem soldado, que foi objecto de uma recepo semelhante, e por fim, quando Rita comeava a acreditar nos horrores anunciados pelos seus piores pesadelos,
George apareceu ao cimo dos degraus, com um sorriso que atravessava o seu rosto de lado a lado.
Saltou da camioneta para os braos da me. Era muito mais alto que ela, de maneira que teve de se inclinar para esconder o rosto no pescoo dela e aspirar o cheiro
familiar da sua infncia. O pai deu-lhe uma palmada nas costas, um pouco forte de mais, e os seus olhos brilharam com alegria. Alice pegou na filha de dois anos
e George abraou-as, s duas, em seguida baixou-se para abraar o rapazinho, que vira uma nica vez. Intimidado pelo desconhecido com o uniforme azul da RAF, o mido,
assustado, agarrou-se s pernas da me.
George levantou-se e olhou por cima das cabeas da pequena multido. Foi nessa altura que viu o rosto plido da namorada. Sentiu um n formar-se na garganta. Estava
perfeitamente imvel. Apenas o seu cabelo longo voava ao vento, cobrindo-lhe a boca e enrolando-se no pescoo. Ento, com grande ternura, tomou-a nos braos e apertou-a
contra si. Fechou os olhos e sentiu o cabelo dela no seu rosto, murmurando "minha querida Rita" vezes sem conta. As lgrimas desciam pelo rosto de Rita, que no
sentia vergonha, apenas o alvio que a dominava.
George afastou-se e tomou o queixo dela nas suas mos antes de a beijar ardentemente nos lbios. Rita estava estupefacta. Parecia diferente, mais ardente, mais apaixonado.
O seu rosto parecia spero e as mos dele estavam secas e calejadas; mesmo o cheiro da sua pele se tinha modificado, parecia mais animal. Foi ento que percebeu
que a me tinha razo, que ele partira um rapaz e regressara um homem. Este pensamento aqueceu o sangue nas suas veias e fez a sua pele arrepiar-se com um sentimento
bsico e primitivo.
Trees viera  cidade na sua camioneta, de maneira que ele, Faye e Alice sentaram-se no banco da frente com os midos e Rita e George foram deixados sozinhos atrs,
com o vento a bater-lhes no rosto e a fazer esvoaar os seus cabelos. George encostou-se  cabina com o brao sobre os ombros dela e o queixo apoiado no seu cabelo.
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- Sonhei com este momento durante muitos anos - murmurou.
- Belisca-me, George - disse ela com uma risada. - Mostra-me que isto est mesmo a acontecer.
Ele apertou-a com fora e beijou-a no pescoo.
- Andei sempre com a tua fotografia e olhava para ela quando me sentia triste. Nunca deixei de sentir a tua falta. Eram as tuas cartas que me davam nimo para continuar.
- Voltou a estreit-la e suspirou. - Isto parece-me o paraso. A Inglaterra parece ainda mais bela do que eu a recordo. - Interrompeu-se por momentos e depois acrescentou:
- E tu tambm.
Ambos tinham conscincia de que estavam separados da famlia dele apenas por um vidro, por isso contentaram-se com alguns beijos castos e palavras trocadas em sussurro.
- Cheiras a violetas - disse ele, aspirando o aroma que se desprendia dela. - Tenho vontade de te beijar da cabea aos ps.
Ela riu-se nervosamente, sem reconhecer as estranhas sombras nos seus olhos. Ele percorreu-lhe o brao nu at lhe tomar a mo, e continuou por cima do tecido fino
do vestido dela, enfunado pelo vento, mas que revelava as suas pernas finas. Notou que ela estava um pouco mais cheia, que os peitos estavam maiores, mas o brilho
acrianado no desaparecera do seu rosto franco e dos seus olhos doces. Ela no tinha mudado, mas ele sim, e de sbito recuou perante tanta pureza e inocncia.
Que se tornara ele durante os anos da guerra? A que nveis de depravao descera? A quantas vidas teria posto fim? Sentiu-se maculado at ao fundo da alma, como
se a tivesse entregado ao Diabo e naquele momento precisasse de a recuperar. S que isso j no era possvel. No era assim que o Diabo trabalhava. Nunca poderia
apagar as coisas impensveis que fizera. A guerra modificara-o de forma irreversvel, e naquele momento ansiava por voltar a ser o rapaz que dali partira.
Alm de ter ele prprio tirado a vida a outros, fora testemunha da matana de muitos que se haviam tornado seus irmos. Mergulhara num inferno que era s dele, lamentando
a morte dos amigos, temendo a sua prpria destruio e o vazio inevitvel da morte. Tambm os seus valores haviam mudado. Tudo o que importava era o amor e a vida,
e tambm esquecer... mas como poderia Rita entender? Olhou-a nos olhos confiantes e resolveu casar com ela e assegurar a prpria imortalidade com um grande nmero
de filhos. Arriscara a vida para salvar o seu pas da
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Alemanha nazi, mas pelo caminho perdera a infncia e as expectativas inocentes da sua juventude.
Quando chegaram  quinta, o cheiro doce das vacas misturava-se com o aroma frtil dos campos ao acordarem. George saltou da camioneta para abraar Mildred, que ladrava
por trs do porto. Trees estacionou a camioneta ao lado de um pilriteiro e ajudou a mulher e os netos a descerem. Rita viu Cyril, o feitor, aproximar-se com outros
empregados da quinta para receberem o homem que conheciam desde criana. Mildred ps-se aos saltos  volta de George quando ele abriu o porto para a deixar passar,
enlouquecida pela excitao. Acariciou-a e beijou-lhe o nariz rosado e depois voltou-se para cumprimentar Cyril, que lhe deu duas palmadas firmes nas costas. Rita
observava-os da camioneta. Sentia-se cheia de orgulho e admirao. George estava muito elegante de uniforme. Deu por si a pensar em Elsa Shelby e a perguntar a si
mesma se seria realmente como um banho de mel.
Faye e Alice entraram em casa com os midos. Era uma casa de tijolo vermelho envelhecido bem marcado pelo tempo, com janelas pequenas, tectos baixos e as traves
de madeira  vista, tpica do sculo XVII. Trees era avesso a gastar dinheiro com reparaes que achava ser capaz de fazer por si mesmo, de maneira que no Inverno
havia por toda a parte baldes a apararem a chuva que caa na direco das telhas partidas e panos por cima das carpetes nos stios onde havia manchas de humidade
ou buracos feitos pelos ratos. Havia sempre msica clssica, vinda quer do gramofone, quer do piano de Faye, alm de flores frescas num grande nmero de jarras,
com o objectivo de desviar a ateno da desarrumao e da decorao de gosto duvidoso.
George estendeu as mos a Rita, que saltou da camioneta. Estavam os dois conscientes da tenso sexual entre ambos e nos seus rostos vermelhos a expectativa era evidente.
- Vem ter comigo  praia depois do lanche - soprou-lhe ele ao ouvido. - Quero um bocadinho a ss contigo.
Sentindo a respirao dele na sua pele, Rita concordou prontamente.
George sentiu prazer em despir o uniforme e em encontrar o velho quarto exactamente como o deixara. A me mantivera-o limpo e arrumado; a nica diviso da casa que
no fora afectada pela desarrumao. Olhou os objectos que o rodeavam e que haviam sido o seu santurio em criana e sentiu-se triste quando teve a impresso de
que nesse momento
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pertenciam a outra pessoa, a um rapazinho inocente que ainda no se tornara um homem. Atirou a nostalgia para trs das costas e vestiu umas calas largas e uma camisa.
Depois lembrou-se que em seguida ia  gruta e calou um par de botas castanhas.
Faye tinha feito um bolo propositadamente para receber o filho. Felizmente tinham ovos das galinhas da quinta e manteiga do leite das vacas. Os filhos de Alice tinham
enfeitado a cobertura com pequenos doces que Trees conseguira no mercado negro em troca de um porco. Havia um bule de ch fumegante e chvenas de um servio de porcelana
chinesa que lhes fora dado como prenda de casamento pelos pais de Trees. Sentaram-se na sala de estar, rodeados pelo caos familiar da vida artstica de Faye. O pequeno
Johnnie martelava as teclas do piano at que Alice o mandou sentar-se e comer as sanduches que a av tinha preparado.
- Pra com isso, filho - disse-lhe. - Se continuares a martelar as teclas dessa maneira, no conseguimos ouvir a msica da av.
- Quando fores um bocadinho mais crescido ensino-te a tocar como deve ser - sugeriu Faye vendo-o descer com relutncia do banco do piano. A criana olhava para George
com olhos cheios de curiosidade.
- Eu no quero tocar, quero ser um soldado como o tio George - choramingou, ao mesmo tempo que se servia de uma sanduche.
- Quando quiseres podes brincar comigo aos soldados - disse George.
- Tens uma espingarda? O av tem uma espingarda e mata coelhos. Ns comemos um coelho, no comemos, mam?
Alice sorriu-lhe com indulgncia.
- Comemos sim, Johnnie. E estava muito bom, no estava?
- Tu matas coelhos, tio George?
- s vezes.
- Ensinas-me a matar coelhos? O av diz que ainda sou muito pequeno.
- Porque no vais buscar a caixa de brinquedos da av? - interrompeu Alice, empurrando-o com delicadeza para o armrio. - Sabes onde eles esto.
E Johnnie escapuliu-se para os ir buscar.
Houve um momento de silncio em que ningum soube o que dizer. George tinha estado fora tanto tempo que ningum sabia por onde comear. Rita estava boquiaberta de
amor e admirao e Faye sentia-se
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dominada pela felicidade com alguma ansiedade  mistura. Notou que havia algo de estranho no rosto do filho, qualquer coisa sombria que no lhe era familiar. George
sabia que nunca conseguiria explicar-lhes os horrores indizveis da guerra, que nunca poderia partilhar com ningum. Estavam para alm da capacidade de compreenso
de qualquer pessoa decente. Apenas Trees sabia a que ponto o filho voltara mudado, porque tambm ele vivera os horrores da Primeira Guerra Mundial.
- Ento, filho, que tal te parece a tua casa? - perguntou, e todos o olharam surpreendidos, porque nem parecia dele participar assim em conversas de passar o tempo.
- Est tudo na mesma, pai - respondeu-lhe. De repente pareceu cansado. Estava sentado no banco corrido  frente da lareira, com os joelhos afastados e as mos apoiadas
nas coxas. A chvena de porcelana chinesa parecia ridiculamente pequena nas suas mos enormes. Abanando a cabea, fixou os olhos nas folhas de ch. - No mudou nada.
Est tudo precisamente como eu recordo.
Como poderia descrever o seu sentimento de perda, de culpa? Sobrevivera enquanto muitos outros tinham morrido. Como poderia explicar que se sentia deslocado, e que
isso acontecia por se ver de repente na sala arejada e soalheira da me, a beber ch por uma chvena bonita de porcelana chinesa, num stio em que no havia vestgios
do conflito? Era como se a guerra no tivesse acontecido para eles. Nunca poderiam entender.
- Tivemos uma boa colheita de cevada - continuou Trees, para grande surpresa da mulher, que olhava ansiosamente ora para ele, ora para o filho.
- Ainda bem - replicou George. - E o gado?
- Tambm no tem corrido nada mal. No fim de contas toda a gente precisa de leite...
- L isso  verdade.
- O Ray deixou de trabalhar, o que foi uma pena. Mas levantar-se to cedo pela manh estava a dar cabo dele, especialmente no Inverno.
- Quem  que trata das vacas agora?
- Tem sido o Barry.
- Ainda bem.
- O Ray  que no ficou satisfeito. Mas foi para o bem dele - a voz de Trees ia-se arrastando. Por fim, o pai de George levou a chvena aos lbios.
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Mais uma vez houve um longo momento de silncio. Rita teve vontade de dizer qualquer coisa, mas foi impedida pela timidez. Por fim, foi George que falou.
- Este bolo est muito bom, me. - Comeu mais um pouco e acenou apreciativamente  me. Faye tentou esconder as lgrimas porque percebeu o que o marido estava a
tentar fazer. Tudo se devia s estranhas sombras nos olhos do filho, que apenas Trees reconhecia e percebia.
- A Faye  uma pasteleira terrvel - disse Trees subitamente, pousando o seu prato. - O melhor  admitirmos a verdade. O bolo est pssimo.
Faye olhou para o marido e, por fim, com a mo sobre a boca, ocultou uma risada nervosa.
- Trees, querido, podes no falar muito, mas quando falas vais direito ao assunto.
George riu-se igualmente e de repente a atmosfera tornou-se mais leve, como o ar hmido depois de uma boa chuvada.
-  um bolo chocante - concordou George, que se ria tanto que mal conseguia falar.
- Mas os ovos eram muito frescos - protestou Faye.
- Alm dos ovos, o que ps no bolo, me?
- No est assim to mau - disse Alice com lealdade, com os ombros a estremecerem na tentativa de dominar o riso. - Que te parece, Rita?
- No perguntes nada  Rita. Ela no consegue deixar de ser educada - interrompeu George.
Rita sorriu e mordeu os lbios, corando quando ouviu o seu nome ser pronunciado por ele.
Nessa altura, George conseguiu comear a contar algumas das suas histrias. As lgrimas nos olhos de Faye desapareceram e Trees voltou a ficar em silncio. A normalidade
fora restabelecida. Depois de comear a falar, George no conseguiu parar. Todos o ouviram com interesse e prazer, porque ele tinha o dom de contar boas histrias.
Rita no conseguia despregar os olhos dele, que sentiu a sua ateno como os raios quentes do Sol. Contudo, ao mesmo tempo que ia contando as suas experincias ia-se
apercebendo de que os minutos iam passando e o seu desejo de se encontrar a ss com Rita na sua gruta era cada vez maior. Por fim levantou-se e pousou a sua chvena
de ch.
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- Podia ficar aqui a contar histrias toda a noite, mas est a fazer-se tarde e eu tenho de ir levar a Rita - disse.
Rita teve a impresso que as palmas das suas mos tinham ficado hmidas s da perspectiva de ficar a ss com ele. Com nervosismo, puxou o cabelo para trs das orelhas
e ps-se de p.
- Obrigada pelo ch - disse a Faye.
- De nada, Rita. Parece-me que o Trees no precisa de ti no fim-de-semana.
- Agora j tem o George para o ajudar - respondeu Rita, imaginando como seria divertido trabalharem lado a lado os dois.
- E tu s capaz de ficar to ocupada com o George que no vais ter tempo para as lies de cermica.
Faye ficara satisfeita por ver as suas mos femininas a trabalharem em coisas mais interessantes que as coisas da quinta. Alm disso, a companhia agradava-lhe, apesar
de Rita no ter queda natural para as artes.
Rita acenou negativamente de maneira decidida.
- Nem pensar. Adoro trabalhar o barro. Hei-de arranjar tempo para as lies.
- Ainda bem - respondeu-lhe Faye, pegando-lhe afectuosamente no brao. - Sendo assim, vemos-te amanh  noite na festa. Obrigada por teres ajudado o Trees a limpar
o celeiro. S espero que o tempo esteja bom.
- De certeza que vai estar.
- Leva a camioneta - disse Trees ao filho. George agradeceu com um gesto de cabea e ps a mo  volta da cintura de Rita, afastando-se na companhia dela.
Por fim estavam ss. George meteu uma mudana e quando chegaram  estrada principal entrelaou os seus dedos nos de Rita.
- Vamos directamente para a praia.
- A mar vai estar alta - disse-lhe ela.
- Nesse caso vamos ter de molhar os ps. - Desviou os olhos da estrada para lhe sorrir. Tinha um sorriso rasgado, que parecia reduzir o seu rosto s linhas que lhe
rodeavam a boca e os olhos, onde terminavam em ps de galinha. - Sabe bem estar outra vez em casa.
- A tua me teve uma trabalheira para fazer o bolo - disse, e riu-se um pouco. - No ficou assim to mau.
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- Ficou pssimo. At chego a sonhar com o bolo de nozes da tua me. A minha  um desastre como cozinheira.  bastante melhor a trabalhar o barro.
- J a minha me seria incapaz de modelar fosse o que fosse, mesmo que a sobrevivncia dela dependesse disso.
- Como est a Hannah?
- Como tu disseste, nada mudou.
- Ainda bem. Detestava que a boa velha Hannah mudasse. E a tua av? Imagino que continue forte como sempre.
- Sim, como sempre.
Riram-se ambos ao recordar Mrs. Megalith.
- Continua a ler as malfadadas cartas de taro?
- Lamento ter de responder que sim.
- Tenho de me lembrar de cobrir-me de alho antes de a cumprimentar.
- Ela no  nenhum vampiro!
- Ento que podemos usar para nos proteger das bruxas?
- De bruxas no percebo nada, mas ela detesta os ces porque perseguem os gatos dela.
- Nesse caso levo a Mildred.
- E corres o risco de ela te lanar algum feitio mau? No me apetece beijar um sapo...
- Sabes o que se diz dos sapos?
- Que se os beijarmos se transformam em prncipes?
- Sim.
- Eu no quero nenhum prncipe. S te quero a ti. - Estacionou junto da falsia. J anoitecia. - No consigo andar com estes sapatos - disse ela, saltando da carrinha.
Alm disso, as meias tinham sido uma prenda de um soldado americano de quem se tornara amiga. Eram um luxo raro que no estava preparada para sacrificar ao mar.
George acendeu um cigarro e viu-a desapertar os atacadores dos sapatos apesar de a luz j ser fraca. A seguir ela voltou-se para a carrinha e, timidamente, levantou
o vestido para soltar as meias do cinto de ligas. Tinha conscincia de que ele a olhava e estava corada de embarao. Isso deixava-a to nervosa que os seus dedos
se atrapalharam com o que estava a fazer. Riu-se com nervosismo.
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- Malditas coisas estas! - exclamou. George ps o cigarro entre os lbios e aproximou-se para a ajudar. Ajoelhou-se e percorreu-lhe as pernas com as mos com um
ar apreciador. Ela riu-se de novo e tentou afast-lo. - Eu consigo, a srio - protestou.
Mas os dedos dele j estavam a desapertar a primeira meia. Depois atirou com o cigarro e beijou-a nesse stio. Ela recuou um pouco, surpreendida, e desceu o vestido
com modstia.
- J  um pouco tarde para isso, no achas? - arreliou-a ele, despindo-lhe a ltima meia. Em seguida ps-se de p. O rosto dela estava to corado que ele tomou-o
entre as mos e beijou-a nos lbios antes de se afastar para lhe dizer afectuosamente: - Vamos para a nossa gruta.
Desceram o caminho para a praia de mos dadas. O Sol estava baixo no cu, a ocidente, lanando reflexos acobreados sobre as ondas. Rita deixou de falar quando ambos
saltaram para a areia, consciente de que minutos mais tarde estaria de novo sozinha com ele no segredo da gruta. A areia pareceu-lhe fria e molhada sob os ps e
os gros speros introduziam-se entre os seus dedos quando caminhava. Quando chegaram s rochas, George tomou-a nos braos e atravessou assim as pequenas poas cheias
de caranguejos e ourios-do-mar, onde tinham brincado em crianas, e a estreita faixa de areia que naquele momento estava coberta por um palmo de gua. As suas botas
no eram impermeveis, mas ele atravessou-as sem se preocupar com isso e entrou com Rita na gruta. A areia ia subindo em direco ao fundo, onde a gua no chegava.
Quando a chegou pousou-a na areia e, antes que ela tivesse tempo de dizer uma palavra, beijou-a profunda e avidamente.
Ela cerrou os olhos e correspondeu ao beijo dele, enroscando-se ao seu corpo enquanto se beijavam. Como eram diferentes aqueles beijos dos que haviam trocado em
adolescentes... Em tempos tinham explorado o corpo um do outro como crianas, mas George tornara-se um homem. O seu rosto era spero e o seu toque firme e forte.
Sentiu a excitao dele a pression-la atravs das calas.
- Meu Deus, como te desejo... - soprou-lhe ele contra o pescoo. - Desejei-te durante tanto tempo!
Embora estivesse louca por satisfaz-lo, recordou as palavras da me. Conhecia muitas raparigas que se tinham entregado aos namorados antes de eles partirem para
a guerra, mas ela preferira guardar-se para a noite de npcias. George compreendera. Nunca a pressionara. Contudo, nesse dia sentiu que o desejo dele era mais forte
e isso assustou-a.
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A mo dele encontrou o caminho para o seu peito e ele sentiu o mamilo atravs do tecido com o polegar. A boca dele estava colada ao pescoo dela e a sensao de
aspereza transmitida pela barba, que comeava a notar-se, combinada com o calor hmido dos seus lbios e da sua lngua faziam o corpo dela tremer de alto a baixo.
Rita contornou o corpo dele com uma perna e puxou-o para si, mas ele afastou as ancas para ficar com espao para passar a mo pelo interior das pernas dela em direco
s coxas. Olhou-a nos olhos e ela viu que o seu olhar era febril, feroz, desconhecido para ela. George recordou as raparigas francesas com quem dormira depois da
libertao de Paris, mas nenhuma era to doce ou pura como Rita. Os seus lbios voltaram a encontrar os dela e ela perdeu-se por momentos, at que os dedos dele
encontraram o caminho para a sua roupa interior. A jovem recuou instintivamente e uniu as pernas com fora.
- Eu quero fazer amor contigo, Rita - conseguiu ele articular com voz alterada. Tinha a testa hmida e o seu hlito era quente contra a pele de Rita.
- Eu tambm te desejo - sussurrou ela. Mas continuava a hesitar.
- Um dia hs-de casar comigo - disse ele, percebendo as reticncias dela. Afastou-se e riu-se. - Minha querida Rita. Nunca pensei em ningum a no ser em ti. No
meu corao, j s a minha mulher.
- E tu o meu marido no meu. Guardei-me para ti - replicou ela, recordando os oficiais americanos que a tinham cortejado sem um momento de trguas.
- Quando nos casarmos vou beijar-te da cabea aos ps, sem esquecer um s recanto do teu corpo - disse-lhe ele, e beijou-a na testa, com um suspiro pesado e procurando
dominar o seu ardor.
Rita abraou-o e aconchegou o rosto contra o dele. Pertencia a George, tal como pertencia  sua pequena aldeia do Devonshire, e, com esse sentimento de segurana,
perdeu-se nos beijos dele, feliz por t-lo de volta.

CAPTULO 3
Quando Rita chegou a casa, os pais e as irms estavam na cozinha com a av, que trazia um vestido comprido roxo e cobrira as costas com um xaile azul-turquesa. Todos
se calaram quando Rita apareceu  porta. Apesar de ter voltado a calar as meias e os sapatos, tinha o cabelo em desalinho e a pele do rosto vermelha por causa da
barba de George.
- Pelos vistos, no preciso de perguntar se o jovem George chegou bem - observou Mrs. Megalith com uma fungadela. - A tua cara fala por si mesma! - Eddie fez uma
careta, depois de observar que um dos botes do vestido da irm estava desabotoado. Esse pormenor tambm no escapara ao poder de observao da av. - Valha-me Deus,
os homens so mesmo uns animais! Podia muito bem ter descarregado a luxria numa desavergonhada qualquer em vez de te ter magoado a ti.
Rita seguiu o olhar da av e a sua mo dirigiu-se sem hesitar ao boto culpado de tudo aquilo. Maddie deixou-se ficar em silncio, reconhecendo a expresso nos olhos
da irm porque a vira no seu prprio reflexo depois de se ter entregado a Hank Weston no banco de trs do seu jeep. Nem mesmo os olhos clarividentes de Mrs. Megalith
haviam sido capazes de desvendar o segredo.
- Como est ele? - perguntou Hannah, ignorando a me. - Ests gelada, minha filha. De onde vens? - Pegou nas mos enregeladas de Rita com as suas mos enormes e
quentes e conduziu-a a uma cadeira de baloio. - Senta-te e conta-nos tudo.
- Fomos dar um passeio pela praia - respondeu com ar sonhador, evitando o olhar de Eddie, que a observava fascinada. No havia dvida de que tinham feito amor.
- Ah... - resmungou Mrs. Megalith. - Isso explica o cabelo. Parece que pousou a uma gaivota.
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- Ele deu-te muitos beijos? - perguntou Eddie.
- Eddie, francamente! Isso no  coisa que se pergunte a uma jovem - repreendeu-a o pai. Estava sentado no stio do costume,  cabeceira da mesa, com um copo de
usque escocs na mo, a olhar divertido as mulheres da famlia.
- No  preciso ser vidente para responder a essa pergunta - disse Mrs. Megalith, mas o seu rosto suavizou-se e ela chegou a esboar um sorriso. - No h nada melhor
para a sade que uns beijos. So um verdadeiro tnico! - Estalou os lbios e aproximou-se da mesa a manquejar. - Segura, Edwina - disse, atirando a bengala  neta.
- Agora serve-me uma bebida, querida, pois tanta excitao est a dar cabo de mim.
- Desculpa no ter estado aqui para te arranjar o cabelo - desculpou-se Maddie.
- No te preocupes. Mesmo assim quase no tive tempo para mudar de roupa.
- Devias estar contente por no teres desperdiado o teu tempo, Madeleine - disse Mrs. Megalith, sentando-se majestosamente no seu cadeiro. - Devias apanh-lo como
eu, Rita. Assim j no tinhas de te preocupar com ele.
- E ento, Rita? - insistiu a me. - Conta-nos tudo desde o princpio. Esperaste por ele na paragem da camioneta?
- Sim, com o Trees, a Faye, a Alice e os midos.
- Imagino que no tenham ido todos contigo  praia... - observou Mrs. Megalith em tom irnico.
- Fomos todos a Lower Farm tomar ch e depois o George veio trazer-me a casa e nessa altura passmos pela praia.
- Ele est mudado? - perguntou Hannah.
- Est mais maduro. E est mais forte de corpo, sem dvida nenhuma.
- Sim, claro. Agora deve estar um homem.
- Um casamento no Vero vinha mesmo a calhar - disse Mrs. Megalith, tirando o copo de xerez a Eddie. - Podias faz-lo no meu jardim.
Rita mal conseguiu esconder a excitao. Mrs. Megalith ergueu as sobrancelhas e acrescentou com exuberncia: - Valha-me Deus, pediu-te em casamento! Tambm j estava
na altura!
- Pediu? - perguntou Humphrey.
- A srio, pediu? - exclamou Hannah.
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- No exactamente - respondeu Rita com cuidado. - Mas disse que casaramos brevemente.
- S palavras... - disse Mrs. Megalith, bebendo um copo de xerez de um s trago.
- Dem-lhe tempo, por amor de Deus. Ainda agora chegou - interrompeu Hannah.
- Acho que est na altura de celebrarmos - disse Humphrey com ar feliz. - Hannah, vamos abrir aquela garrafa de vinho que temos andado a guardar.
- Boa ideia, vamos abri-la - concordou ela, dirigindo-se ao mvel da sala. Maddie, vai buscar os copos. Onde est o saca-rolhas?
Hannah tinha feito uma enorme empada de borrego, que serviu acompanhada de cenouras e de nabos da sua horta. Rita depressa aqueceu, embora os seus ps continuassem
to frios como dois peixes congelados, recordando-lhe o caminho de regresso da praia, com os ps metidos na gua. Pouco participou na conversa, to perturbada se
encontrava pela recordao dos beijos que haviam trocado na gruta.
- Rita, vem tomar ch comigo amanh. Quero ler-te as cartas - disse Mrs. Megalith com voz sombria, enquanto observava a neta com um ar perplexo no rosto.
Humphrey revirou os olhos.
- Primrose, acha que isso  mesmo necessrio? - perguntou, abanando a cabea e franzindo o sobrolho com impacincia. No queria que ela assustasse a filha num momento
to feliz da sua vida.
- Sem qualquer dvida - respondeu-lhe ela com firmeza. Nunca ningum fazia frente a Mrs. Megalith.
- Eu quero que me leiam as cartas - sussurrou Eddie com voz mimada. - A mim nunca me l as cartas...
- Minha querida - respondeu-lhe a av -, tu s pequena de mais para te preocupares com o que quer que seja a no ser com os deveres da escola. Para descobrir isto
no  preciso ler as cartas do taro.
- Mas eu podia estar a morrer! No gostava de me salvar da morte? - Mrs. Megalith enterrou o queixo nas suas muitas papadas.
-        Claro que sim, Eddie, mas o taro no tem a carta da morte. Esse tipo de coisas aparece-me como pressentimento e posso dizer-te que j estudei o teu futuro
e no tenho dvida nenhuma de que vai ser longo.
Longo e interessante... - respondeu com uma careta sabedora.
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- Fico encantado por sab-lo - interrompeu-a Humphrey, secamente. - No queremos ter um casamento e um funeral. Isso ia estragar a boa disposio de toda a gente.
- Francamente, Humphrey, s vezes o teu sentido de humor  muito inconveniente - retorquiu Mrs. Megalith.
- Posso levar o George? - perguntou Rita.
- No, desta vez tens de vir sozinha. Quero falar contigo em particular.
- A av no pressentiu nenhuma coisa horrvel, pois no? - perguntou Rita, subitamente assaltada pelo pnico.
- Est a ver, Primrose, est a encher a cabea da pobre mida com preocupaes desnecessrias - disse Humphrey, desta vez com uma voz mais dura.
- No tem importncia, pap - disse Rita com diplomacia.
- A av quer explicar  Rita aquilo das cegonhas - disse Eddie com uma risadinha.
- Basta olhar para ela para perceber que j sabe mais que o suficiente sobre o assunto - disse Mrs. Megalith escorropichando o copo. Rita corou e olhou para a me
em busca de apoio. - Este vinho  realmente muito bom, Humphrey.
- , no ? - concordou ele erguendo o copo. - Ainda esta manh era gua.
Hannah abriu a boca de indignao e voltou-se para ele:
- Humphrey, francamente!
- Ainda  melhor a acompanhar um jantar de caracis e pernas de aranhas - continuou, entre risadas.
Mrs. Megalith olhou para o genro por cima dos culos e com um esgar.
- Se quiseres podes troar de mim, Humphrey Fairweather, mas acredita que vou ser eu a ltima a rir.
Em seguida voltou-se para Rita. - No cores, filha, no vale a pena. Todas as mulheres tm o direito de aceitar as atenes de um homem sem vergonha. Afinal  perfeitamente
natural, no  verdade?
Hannah resmungou e mudou de assunto. Conhecia as opinies da me e considerava-a um modelo pouco saudvel para as filhas, muito impressionveis. Estava longe de
ser representativa da sua gerao e Hannah procurava a todo o custo que mantivesse a sua duvidosa histria sexual para si mesma.
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Rita j estava bem aconchegada na cama quando Maddie bateu  porta.
- Posso entrar? - perguntou ela, metendo a cabea pela abertura. Quando Rita concordou entusiasticamente, Maddie entrou e sentou-se aos ps da cama. - Foi maravilhoso?
Rita sorriu cheia de felicidade.
- Oh, Maddie, estou to apaixonada... - disse, sentando-se na cama. - S a custo consegui parar.
- Porqu?
- Ora, sabes bem porqu... No somos casados. - Maddie riu-se.
- Por amor de Deus, Rita, tu no s a Virgem Maria!
- E se eu engravidasse?
- Se usasses as borrachinhas, como lhes chamava o Hank, isso no acontecia.
Rita pensou no assunto por instantes e depois fez uma careta por achar a ideia muito pouco romntica. Olhou sonhadoramente para a irm.
- Tenho tanta vontade...
Maddie pareceu subitamente culpada.
- Tenho de te confessar uma coisa - comeou, com voz arrastada. - No te ia contar porque pensei que ias achar mal.
- Eu nunca pensaria mal de ti, Maddie.
- Bem, eu fiz amor com o Hank.
- No acredito! - exclamou Rita, com a mo trmula sobre a boca.
- Fiz sim! E adorei - riu-se Maddie. Sentia-se feliz por poder falar do assunto com algum.
- Onde?
- No jeep dele, na estalagem perto de Muddyhole. Essa parte no custou nada.
- No tiveste medo de ser apanhada?
- Nenhum. Alm disso, valeu a pena.
Os olhos de Rita estavam brilhantes e muito abertos.
- Mas a av consegue ver tudo!
- Disparate! Claro que no consegue. As outras raparigas fazem todas o mesmo. Ns  que temos uma me muito antiquada. - No h nada to ertico com uma guerra.
- E sorriu de forma sugestiva. Achou melhor no confessar tambm sobre os outros rapazes. Rita teria ficado horrorizada.
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- O George estava to bonito de uniforme...  alto, forte e msculo. Mas eu vou esperar pela nossa noite de npcias. No fim de contas, estamos praticamente noivos.
No h-de faltar muito tempo.
- No sejas ingnua, Rita. Ele acaba por perder o interesse se no o deixares. O que no falta so raparigas que no pensariam duas vezes antes de se entregarem
a ele, e tu no deves estar interessada em que ele fuja com uma delas, pois no?
- Claro que no! - respondeu Rita, horrorizada. Passou a mo pelo cabelo e mudou de assunto. - Ests triste por o Hank ter voltado para a Amrica?
- Claro que no! Foi divertido e romntico, mas eu sou nova de mais para me prender a um homem. Agora esto todos a voltar da guerra e eu quero manter as minhas
possibilidades em aberto.
Maddie descobrira os prazeres da carne e estava decidida a desfrutar o mais possvel deles.
Na manh seguinte, George pegou na camioneta do pai e apareceu  hora do pequeno-almoo. Era sbado, de maneira que Humphrey estava a ler os jornais como de costume,
mas com calas prticas e um pulver verde sem mangas e no com o fato cinzento que usava nos outros dias. Hannah fazia tric sentada na cadeira de baloio. Tinha
trabalhado tanto para contribuir para o esforo de guerra que j no conseguia parar. Estava a fazer botinhas de l para um neto que esperava vir a ter algum dia.
Eddie ainda estava na cama e Maddie tomava um longo banho de imerso. Rita viu George da janela do quarto, por isso vestiu um vestido de Vero e um casaco azul,
porque, embora o tempo estivesse quente, havia sempre vento junto ao mar. Teve pena de no ter roupa nova para o receber. J l iam vrios anos que no tinha um
nico vestido novo.
- Bom dia, Hannah, Humphrey - disse-lhes com um sorriso porque sabia que os tinha apanhado de surpresa.
- Valha-nos Deus, se no  o nosso heri, George Bolton! - exclamou Hannah, pondo o tric de lado e dando um salto para o abraar. - Que surpresa to agradvel.
Ests com ptimo aspecto.
-  um prazer voltar a ver-te, George. Junta-te a ns. O ch ainda est quente. Queres po feito pela Hannah? - perguntou Humphrey com uma palmada firme nas costas
de George.
- Obrigado. O po tem um cheiro magnfico.
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- A Rita vem j - disse Hannah, prevendo a pergunta seguinte de George. Viu-o sentar-se  mesa, com as longas pernas estendidas  sua frente, fazendo a cadeira parecer
minscula. Era muito atraente, com o cabelo em desordem e os seus olhos claros. A guerra talvez o tivesse transformado num homem, mas continuava a ter a mesma expresso
agarotada, como se estivesse prestes a contar uma das suas histrias. Em tempos, contava muitas histrias divertidas, que faziam rir a todos.
- Hoje vamos fazer um piquenique na praia. Querem vir connosco? perguntou, - servindo-se de uma fatia de po.
Hannah desviou os olhos e voltou para a cadeira de baloio, onde pegou de novo no trabalho.
- Que ideia magnfica. As midas vo ficar encantadas - respondeu-lhe no momento em que o rosto radiante de Rita apareceu  porta da cozinha.
Humphrey viu a filha aproximar-se de George e plantar-lhe um beijo no rosto. Os olhos dela brilhavam como o copo de xerez de Mrs Megalith, recordando-lhe Hannah
quando tinha a mesma idade. Tinham casado muito jovens. George sorriu com timidez, como sempre, com apenas metade da boca, e quando ergueu os olhos para ela o seu
rosto tornou-se mais suave e assumiu uma expresso de ternura e orgulho. Deu-lhe umas palmadinhas amigveis nas costas e num olhar vido apreciou o seu longo cabelo
encaracolado e o seu vestido fino de Vero. Humphrey deixou-se ficar sentado, sem se aperceber de que o seu rosto se transformara por observar aquela cena delicada.
Quando Eddie conseguiu arrastar-se para fora da cama viu a carrinha de Trees estacionada em frente da casa e percebeu que George l estava. Excitada, desceu os degraus
de dois em dois e, sem parar, correu para a cozinha e para os braos de George, sentando-se no seu joelho. Ele riu-se, bem-disposto, enquanto ela encostava o seu
rosto quente ao dele e o beijava entusiasticamente.
- Estou to contente por teres voltado para casa! Senti tanto a tua falta! Mais que a Rita, tenho a certeza.
- Tambm senti a falta da tua cara de macaca - disse ele com uma risada.
- s um heri. Mataste muitos alemes?
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- Eddie, porque no deixas o pobre George comer a torrada? - disse Hannah. - Vamos passar o dia juntos na praia, por isso ters tempo para o aborrecer com todas
as tuas perguntas.
Com relutncia, Eddie saltou do joelho de George e puxou uma cadeira para se sentar. Rita pensava como seria bom passar o dia sozinha com ele e os dois trocaram
um olhar. Ele respondeu-lhe com um esgar que a fez estremecer, pois reconheceu nele o anseio fsico que ela prpria sentia, e a recordao da noite anterior regressou
para atear o seu rosto com o desejo.
Maddie emergiu do seu banho e ouviu no piso de baixo uma voz de homem que no pertencia ao pai. Era uma voz grave, um pouco rouca, sem dvida nenhuma a de George.
Vestiu-se  pressa e arranjou o cabelo ao espelho. A seguir aplicou um pouco de rouge no rosto. Satisfeita com o resultado e com a cara bonita de boneca que retribua
o seu sorriso do espelho, desceu as escadas at  cozinha.
Ficou surpreendida com a mudana em George. Havia nele um vigor animal que substitura a exuberncia do rapaz de outros tempos. Por momentos, sentiu inveja da irm
e no conseguiu impedir-se de imaginar como seria encontrar-se sob o seu corpo. Teve de desviar o olhar e de se concentrar noutra coisa, no fosse a lascvia que
decerto transparecia nos seus olhos trair o seu pensamento. Sempre gostara de George; era espirituoso, divertido, tinha uma personalidade vincada, mas nunca olhara
para ele como homem. Depois de ter conhecido o amor fsico quase no pensava noutra coisa. Fora to agradvel que queria mais. Instintivamente, sentiu a tenso sexual
entre George e a irm como um podengo que cheirasse o sangue de uma raposa e lamentou que o americano tivesse partido, pois assim no poderia satisfazer o desejo
na parte de trs do seu jeep.
Para Hannah foi um prazer preparar o piquenique: ovos cozidos de Elvestree House, salada de galinha, sanduches de peru, fiambre e queijo. Meteu algumas mantas na
mala do carro e levou um casaco extra para si mesma no fosse o tempo mudar, o que acontecia muitas vezes sem ningum estar  espera. Enquanto preparava a comida
olhou pela janela da cozinha e viu George e Rita a conversarem sentados no baloio, enquanto Eddie os observava deitada no cho, sem deixar escapar uma palavra do
que diziam. Sentada numa cadeira em frente da casa, Maddie folheava
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uma revista. Adorava ver as fotografias das estrelas de Hollywood, como Lauren Bacall, Jane Russell e Rita Hayworth, e passava muito tempo na casa de banho a tentar
cultivar um aspecto semelhante ao delas com a ajuda do batom e dos rolos de cabelo.
s onze George voltou para casa na carrinha com Rita sentada ao seu lado e Eddie e Maddie na parte de trs, a apanharem folhas das rvores que ficavam por cima da
estrada por onde seguiam.
- Meu Deus, sabe mesmo bem estar de regresso - disse ele, pondo a mo livre sobre a coxa de Rita. - E tambm tu me sabes bem... - murmurou.
- Cuidado, h espias l atrs - disse-lhe ela, ao mesmo tempo que espreitava pelo vidro que a separava das irms.
- S uma muito pequena e outra muito sabida - disse ele com um esgar. - No foi s a inocncia que Maddie perdeu durante a guerra.
- Como sabes?
- Um homem percebe estas coisas.
- Ser possvel que eu seja assim to ingnua?
- Sim, mas eu gosto de ti como s - respondeu ele, tocando-lhe mais uma vez na perna.
- Maddie entregou-se a um americano chamado Hank.
- Estava-se mesmo a ver...
- O qu?
- Que ele se chamava Hank. - Riram-se ambos.
- Ela no  boa prenda. Ainda s tem dezanove anos. As raparigas bem-comportadas no fazem essas coisas. A mam e o pap iam ficar horrorizados.
- O sexo e a guerra andam par a par, Rita. No se pode ter guerra sem sexo. As pessoas sabem que podem morrer de um momento para o outro e por isso entregam-se umas
s outras.
- Isso  muito romntico...
- Numa guerra, os homens tm de amar, nem que seja para se assegurarem de que esto bem vivos perante uma morte que pode chegar de repente. As raparigas como a Maddie
servem um propsito vital, mas tu no pertences ao mesmo departamento, meu amor. Tu s especial.
Ela sorriu-lhe, tranquila por verificar que o conselho de Maddie fora errado.
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- Andei sempre com a tua fotografia e imaginava que fazia amor contigo - continuou ele. - Foi por ti que aguentei, e no tinha muito mais que me sustivesse. Com
o Hank deve ter acontecido o mesmo. A Maddie deve t-lo feito sentir-se vivo.
- Eu s tinha olhos para ti - disse ela com tranquilidade, o rosto corado de orgulho. - Tive montes de ofertas. Havia americanos por toda a parte, mas eu rejeitei-os
a todos. S pensava em ti.
- Tu s uma rapariga muito especial, Rita, e eu adoro-te por seres assim - disse-lhe ele com ternura. Tirou o mao de cigarros do bolso da camisa. - Importas-te
de me acender um?
Rita gostava do cheiro do tabaco, que lhe recordava os fins de tarde nas falsias, nos tempos em que fumavam juntos depois da escola, e o seu pai, que tambm costumava
fumar no carro, no caminho para casa depois do trabalho. Acendeu o cigarro para George, puxou uma baforada e passou-o. Ele segurou-o entre o polegar e o indicador
e levou-o aos lbios. Rita tentou pr de novo o mao no bolso da camisa dele, mas no conseguiu porque havia l um pedao grosso de papel. Era a fotografia dela,
muito jovem, talvez com a idade de Maddie. Era a preto e branco e estava um pouco sumida de tanto ser manuseada.
- Parece-me que est a precisar de ser substituda - disse-lhe ela, pondo-a de novo no bolso.
- De maneira nenhuma. Hei-de andar com ela at ao dia da minha morte.
- Nessa altura j no vai haver fotografia - respondeu ela com uma risada. - Mesmo agora j est sumida.
Ele no lhe contou que se habituara a beij-la depois de cada voo. Um rito to sentimental parecia um tanto banal e sombrio.
Pararam em Lower Farm e apitaram. Os midos saram da casa a correr e penduraram-se no porto, encantados e aos gritos com a perspectiva do piquenique na praia.
Alice voltou com Faye, com baldes e mantas que meteu na carrinha, e Mildred saiu a correr de um celeiro seguida por Trees, com o cabelo branco e macio a danar ao
vento como um molho de penas de gansos. George e Rita juntaram-se s raparigas na parte de trs da carrinha e puxaram os midos para o p deles, enquanto Faye e
Alice entraram para a cabina, com Trees ao volante. Quando a carrinha chegou  estrada comearam todos a cantar. Mildred abanava a cauda em compasso, satisfeita
por ser includa.
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Estacionaram junto da falsia, perto do Lee Francis de Humphrey, e seguiram a p por um carreiro at  praia. O cu estava encrespado como o mar e agitado com nuvens
que pareciam penas e gaivotas que planassem ajudadas pelo vento fresco de oeste. George e Trees levaram as cestas do piquenique, enquanto Rita levou pela mo o pequeno
Johnnie para o ajudar a descer a encosta. O ar salgado era suavizado pelo cheiro frtil da erva nova e das flores silvestres. Rita voltou os olhos para a esquerda,
para o lugar por onde tinham caminhado na vspera, e, mais uma vez, o seu pensamento se afastou do presente.
Humphrey e Hannah tinham estendido as mantas perto de uma duna, onde se tinham protegido do vento. Enquanto ele fumava, de p, olhando o mar, ela ia dispondo com
cuidado os recipientes da comida e os termos com ch e chocolate quente. Quando viram o grupo que se aproximava acenaram com entusiasmo.
- Que bela ideia, Faye - disse Hannah, satisfeita. -  uma pena estar vento, mas pelo menos faz sol.
- Achmos que ia ser agradvel passarmos o dia juntos.
- Com o nosso querido George - acrescentou Hannah com um sorriso amvel. - No acham que se fez um belo homem?
- Acho sim, tenho muito orgulho nele - respondeu Faye, voltando-se para se assegurar de que ele no estava a ouvi-la.
- E pensar que um dia podemos vir a ter os mesmos netos - disse Hannah com um suspiro. Depois acrescentou rapidamente: - Se Deus quiser.
- Oh, no ia ser bom? Os netos so uma verdadeira bno. O Johnnie e a Jane so a nossa alegria. Adorava que o George assentasse e formasse famlia. Tem passado
tanto! - De sbito, o seu rosto pareceu tornar-se sombrio com a ansiedade. - Tenho a certeza que ele vai falar com o Trees. No fim de contas, este combateu na Primeira
Guerra Mundial. Ele percebe.
- Que corajoso! Os nossos pilotos de combate foram os heris da guerra. Deves estar to orgulhosa...
- Estou sim - disse ela. No conseguia explicar como se sentia grata por ele ter sobrevivido, no se atrevendo a falar dos seus receios a ningum, nem sequer a Trees.
- Agora deixa-me ajudar-te. Tenho coelho guisado que me sobrou. A quinta foi literalmente invadida por coelhos. O Trees leva o Johnnie para o bosque na carrinha
e passam tardes
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inteiras a caar coelhos. O Johnnie fica fascinado. Adora o av. Eu no sou grande cozinheira - disse ela, recordando o bolo de boas-vindas, - mas fao um bom coelho
guisado graas  receita da tua me. Convidaste a Primrose?
- Nem pensar! Todos queremos um pouco de sossego, no  verdade?
Riram-se ambas e olharam para Trees, sentado na manta a conversar com Humphrey. De todos, era o nico que apreciava verdadeiramente Mrs. Megalith, to apaixonada
por nogueiras como ele. Para um homem to taciturno, era quase tagarela quando falava com ela.
Depois de almoo, George organizou uma caa ao tesouro para os mais pequenos. Desenhou trilhos na areia com uma concha e enterrou um saco de rebuados no fim de
um desses trilhos. Deixou muitas pistas e acabou por demorar mais de meia hora a completar os preparativos porque as linhas contornavam rochas, entravam em grutas
e percorriam longas distncias na praia. Por fim, Johnnie e Jane comearam o jogo, com a ajuda de Eddie, de Maddie e de Alice. Os seus risos e gritinhos de alegria
enchiam a baa, levados pelo vento junto com os grasnidos das gaivotas e o fragor das ondas. Os adultos bebiam sidra, fumavam e conversavam, de maneira que George
e Rita conseguiram esgueirar-se por entre as rochas e atravessar a lngua de areia para se esconderem na sua gruta secreta sem ningum se aperceber disso.
L dentro o ambiente era quente e hmido, abrigado do vento. Ele levantou-a, girou com ela nos braos e beijou-a.
- Cuidado, podem descobrir-nos - disse ela, afastando-se.
- Aqui no, podes ter a certeza. Alm disso, vo demorar horas a encontrar o tesouro. - Cheirava a fumo e sabia a sidra. As mos dele percorreram a parte de baixo
do vestido dela, sobre as coxas e as ndegas, e ela sentiu-se percorrida por uma vaga de excitao. - Eles podem deixar-nos aqui e ns podemos voltar a p para casa
mais tarde - murmurou ele, enterrando o rosto no pescoo dela e saboreando o sal que lhe cobria a pele. Mas, para seu desnimo, Rita lembrou-se da av.
- Tenho de ir tomar ch com Primrose - respondeu-lhe com um suspiro de desalento.
- No podes ir amanh?
- Sabes como  a minha av.
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Ele afastou-se dela e resmungou com impacincia:
- No h como Mrs. Megalith para arrefecer o entusiasmo de toda a gente.
- Desculpa - disse ela, percorrendo-lhe o cabelo com os dedos.
- Nesse caso  melhor no perdermos tempo - disse ele, e inclinou-se para a beijar de novo.

CAPTULO 4
- Ah, Rita - disse Mrs. Megalith quando a neta apareceu pelo arco do muro do jardim. - Podias ajudar-me com estes cristais. - Pegou numa ametista grande e entregou-a
a Rita. - Cuidado,  pesada. Essa vai para a sala, para a mesa que fica em frente. O lugar dela v-se logo.  a minha preferida, no a deixes cair!
Rita p-la onde a velha senhora dissera e depois ajudou-a com as outras. Havia muitas, de todas as cores e formas, e Mrs. Megalith adorou ir falando das suas propriedades
enquanto as iam arrumando por toda a casa.
- Aproveita para sentir a energia delas, agora que esto carregadas de todos os elementos. No h nada como uma boa limpeza.
Estava de p  frente da casa, com uma sodalite apertada junto ao peito e de olhos fechados. Respirava profundamente, observada por Rita, que aguardava que o momento
de xtase espiritual terminasse. Um gato amarelado escapou-se por entre as pernas de Mrs. Megalith, esfregando o plo contra as suas meias grossas. Rita pegou-lhe
e segurou-o ao colo, at que por fim a av abriu os olhos.
-  mgico, pura e simplesmente mgico - disse com entusiasmo. - A natureza nunca deixa de nos encantar.
Rita seguiu-a at  cozinha, onde a av lhe deu um copo de licor e um biscoito. Nessa altura, o gato escapou-se dos seus braos. Dois gatos pretos fugiram de baixo
da mesa da cozinha e trs ou quatro saltaram do parapeito da janela e desapareceram no jardim, em busca de qualquer coisa que estava para l do alcance dos sentidos
dos seres humanos.
- Os gatos tambm nunca deixam de nos encantar - observou Mrs. Megalith, observando o ltimo, muito gordo, que saa tranquilamente nesse preciso momento. - Parece
que os atraio. Cada vez que os conto so mais que da vez anterior. Sabe Deus de onde vieram todos.
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- Os gatos so criaturas pouco afectuosas - disse Rita, lembrando-se de Mildred e de como gostava de ser acariciada.
- Nisso ests completamente enganada, minha querida. Eles devem  perceber que no gostas deles.
Mrs. Megalith no tinha razo, porque Rita gostava de todos os animais, mesmo de gatos pouco sociveis, mas era suficientemente esperta para no contrariar a av.
Mordendo a lngua, seguiu-a outra vez at ao jardim e sentou-se  mesa que estava em frente da casa. O jardim tinha um aspecto magnfico, cheio de cor e dos aromas
da Primavera.
- Sabes que esta noite uma malvada de uma raposa conseguiu chegar aos meus patos? O vento apagou a lmpada. O vento que fez esta noite! Encontrei penas por toda
a parte. Felizmente, os patos l escaparam s com o susto. S falta uma pata, que deve estar escondida a chocar. Mas, diz-me, Rita - acabou por dizer, olhando fixamente
a neta, - como tens andado?
- Tenho andado bem, av - replicou ela, evitando o olhar, sem a menor dvida de que Mrs. Megalith conseguia ler todos os seus pensamentos.
- Tens bom aspecto, mas pareces um pouco preocupada. Que se passa contigo?
- Nada. S estou contente por o George ter voltado.
- E como est ele? - perguntou Mrs. Megalith. Rita estava intrigada com o rumo da conversa.
- Est contente como eu. Tambm queria vir visitar-te comigo - disse ela, com receio de ser trada pela cor que lhe subiu ao rosto.
- Valha-nos Deus, h muito tempo para isso. Eu queria ver-te a ss. Pressinto uma grande agitao e incerteza.
Rita acenou que no. Os olhos da av escureceram. Os olhos de Mrs. Megalith mudavam constantemente de cor, o que enervava seriamente os que no a conheciam.
- De maneira nenhuma. Estou muito segura em relao ao meu afecto pelo George.
- No, filha, no me refiro a ti, mas sim a ele.
Rita franziu o sobrolho e baixou os olhos. Quem lhe dera no ter vindo!
- Eu e o George vamos casar-nos. Gostamos um do outro.
- Eu sei. Sempre gostaste dele, mas o George vai precisar que o ames mais do que nunca.
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- Que quer dizer com isso?
Rita sentiu-se muito confusa e um pouco assustada. Levantou os olhos e viu um grande gato preto, quase do tamanho de Mildred, que a olhava do telhado.
- Ele vai precisar que tu o ouas, Rita. Lembra-te de que viveu uma guerra terrvel, e vai precisar de falar dela. Ele sofreu muito, querida. Viu amigos morrerem
e ele prprio teve de enfrentar a morte. Tudo isto vai parecer-lhe um sonho horrvel, que no pode contar a ningum porque ningum o vai entender. Tu tens de tentar
faz-lo. Eu sei, porque o meu Denzil nunca voltou a ser o mesmo depois da Primeira Guerra Mundial, com todo aquele gs de mostarda e aquela lama, uma coisa terrvel.
As maiores baixas da guerra, minha querida, so os casamentos e os jovens como vocs, que so separados por ela. D-lhe tempo, mas depois fala com ele. No te esqueas
que nos ltimos anos a nica relao em que pde confiar foi a que existia entre ele e o Spitfire. Agora tem de aprender a confiar de novo nos seres humanos. No
permitas que se afaste de ti.
Rita ouviu a av com ateno. Podia ser uma bruxa velha, mas o que dizia fazia sentido.
- Eu quero perceb-lo, av, e quero faz-lo feliz.
- E vais fazer. - Mrs. Megalith sorriu e o cinzento de selenite dos seus olhos pareceu tornar-se mais delicado. - Onde terei eu metido as cartas?!
Enquanto a av manquejava at  sala, Rita olhou uma gaivota que parecia danar no ar quente da tarde. Tinha a luz por trs e via-se toda a sua silhueta, at s
pontas finas das asas. Era to leve e gil que parecia reflectir o sentimento de optimismo dela. Lembrou-se dos tempos em que observava as andorinhas na companhia
de George. "Um dia hei-de voar como uma gaivota", tinha ele dito, e Rita acreditara. Lembrava-se de as andorinhas regressarem todos os anos a Elvestree para fazerem
os seus ninhos e chocarem os seus ovos no lado mais alto do tecto da sala. Mrs. Megalith gostava tanto delas que no se importava com o que sujavam. Curiosamente,
pareciam ter-se habituado aos gatos e no se importavam com eles. Rita levantou os olhos e viu que o assustador gato preto se tinha esgueirado do telhado e desaparecera.
Havia qualquer coisa de sinistro nos gatos da av.
Mrs. Megalith emergiu da escurido da sala precisamente quando a andorinha entrou. Estava a baralhar as vinte e uma cartas dos arcanos
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maiores. S pediu  neta que tirasse trs, porque tinha uma pergunta especfica em mente. Sentou-se e ajustou os culos sobre o nariz. A seguir entregou o baralho
a Rita, olhando-a por cima dos culos.
- Baralha-as bem. Viste a andorinha? - Rita acenou afirmativamente. - So encantadoras, e parece-me um privilgio poder oferecer-lhes a minha casa ano aps ano.
- Rita ia baralhando as cartas. - Quando estiveres pronta, pensa em George e escolhe trs. Depois d-mas.
Rita fez o que a av lhe disse. Evocou o rosto de George e lembrou-se de como ele ficara zangado nessa tarde por ter sido interrompido. Depois, escolheu trs cartas
de diferentes partes do baralho. Mrs. Megalith pegou nelas com os dedos carregados de anis, p-las sobre a mesa e voltou-as uma a uma. As cartas tinham imagens
elaboradas em cores vivas. A av chamava-lhes sempre "ferramentas de comunicao espiritual". "No so mgicas por si mesmas", explicava s pessoas que a consultavam
pela primeira vez. "O esprito vai conduzir as suas mos e lev-lo a escolher as cartas que respondem s suas perguntas. O meu trabalho  simplesmente interpret-las
e nisso sigo a minha intuio, que nunca se engana."
Olhou para as cartas por um bocado e depois bateu na primeira com um dedo.
- A Temperana. Minha querida, esta carta  acerca de ti no momento presente.  uma carta de indeciso espiritual. Tens aqui uma mulher de vestido branco, virginal,
com uma capa vermelha, que representa a vibrao de base, e uma azul, que representa uma vibrao mais elevada, a passar a gua de um clice para outro. Isto  uma
imagem da batalha entre a sexualidade e a virtude. No preciso que as cartas o digam, est escrito no teu rosto. Minha querida Rita, no te preocupes e aproveita.
No h nada errado em fazer amor, desde que seja com amor.
Antes que Rita tivesse tempo de corar, o dedo da av apontou para outra carta.
- O Louco - verificou, e depois fungou com ar sabedor. A carta representava um homem numa encruzilhada, a olhar para trs com aspecto grave. - Esta  a carta que
revela as circunstncias em que te encontras. - Rita olhou para ela. Perguntou a si mesma se as falsias brancas e o mar teriam alguma coisa a ver com Devon, mas
Mrs. Megalith continuou com voz estridente. - Vais ter de fazer uma escolha, e no vai ser fcil. Na verdade, vai ser uma escolha que pode mudar a tua vida. No
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vais querer largar o passado porque o passado  a tua segurana. Mas deves seguir os teus instintos, porque eles no mentem. Tenho a impresso que este mar  literal;
h um caminho que conduz at ele e depois at ao horizonte, ao longe.  esse o caminho que acho que deves seguir. Ests a ver o co que acompanha este homem? - Rita
acenou que sim e pensou em Mildred. - No estars sozinha. George vai olhar por ti.
Rita achou que George no ia gostar de ser o co da imagem. Era um co pequeno, de plo curto, e no um canzarro peludo como Mildred.
- Ah, a Lua! - Mrs. Megalith pegou na ltima carta e acenou com ar conhecedor. - Um homem que olha para a Lua de costas para uma mulher, sentada a olhar tristemente
para ele. Minha querida, esta  a carta da iluso. O homem anda atrs da Lua, que nunca conseguir alcanar. No deixes o George partir e deixar-te para trs com
a taa do amor, como esta pobre rapariga.
- Obrigada, av - disse Rita, aliviada por a leitura ter terminado e no ter sido revelado nenhum desastre iminente. A nica parte de que se lembrava era da luta
entre a sexualidade e a virtude. A sua me ficaria horrorizada se soubesse que a sua prpria me a encorajara ao sexo antes do casamento, apesar de j ter ouvido
dizer que a av tivera um passado bastante colorido antes de Denzil ter feito dela uma mulher honesta. Rita olhou para o relgio, sem saber se seria delicado ir-se
embora. No fim de contas, tinha de se preparar para a festa.
Mrs. Megalith sabia que a neta no lhe tinha prestado grande ateno. Vira os seus olhos desinteressados quando tirara a segunda e a terceira cartas. Infelizmente,
a primeira desviara a ateno dela das duas seguintes, mais importantes. Tirou os culos e ps-se de p.
- Imagino que tenhas de vestir os trapinhos para a festa - observou com uma fungadela desdenhosa.
Rita concordou.
- Adorava ficar, mas est a fazer-se tarde.
- Sim, sim. Trolar, trolar. Bem, se tem mesmo de ser... Mas no esqueas as cartas, Rita. Seno ainda podes cometer um erro grave. - Mrs. Megalith no percebia
porque perdia o seu tempo com uma ouvinte to desinteressada. - Se ignorares os meus conselhos, s tu que sofres as consequncias.
- No hei-de esquec-los, av. Olhe, a andorinha outra vez.
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Conseguiu distrair a av e as duas conversaram sobre as andorinhas enquanto percorriam o caminho que levava ao stio onde Rita deixara a bicicleta.
- Vejo-a hoje  noite - disse ao despedir-se da av, pedalando o mais depressa que conseguiu para subir o caminho.
Trees entrou em casa ao mesmo tempo que a mulher chegava ao fundo das escadas com um bonito vestido azul estampado com centureas. Ele tinha as mos sujas de limpar
as folhas peganhentas das preciosas nogueiras. Uma das suas preferidas era a grande juglans negra, que fora plantada ao lado da casa cerca de trezentos anos antes
com a inteno de, no Vero, apanhar as moscas com as folhas antes de elas terem tempo de entrar em casa. Era uma rvore grande e majestosa, que dava nozes deliciosamente
doces no Outono. Tinha plantado quarenta e sete variedades nos ltimos trinta anos e, embora a maior parte levasse pelo menos vinte e cinco a dar fruto, sentia-se
excitado com a recente descoberta, em Frana, de uma variedade que comeava a dar fruto ao fim de apenas trs anos. Infelizmente, a guerra frustrara os seus planos
de investigar melhor o assunto.
- Os nossos convidados esto quase a chegar e tu ainda nem sequer mudaste de roupa - disse-lhe Faye. Olhou para o caos que ia na sala e sentiu-se satisfeita por
a festa ser no celeiro. A mesa estava coberta de papis, livros e roupa lavada que tencionava levar para o quarto antes de se ter distrado com Johnnie, que, de
p sobre uma cadeira, tirava as partituras e as fotografias que se encontravam em cima do piano. Trees acenou-lhe e esfregou as mos. - Est tudo pronto no celeiro?
- perguntou ela.
- Est. Agora vou mudar de roupa.
- O grelhador est pronto? - perguntou-lhe ainda quando ele passou por ela. O marido voltou a acenar afirmativamente. - Ainda bem. No  muita gente, umas vinte
ou trinta pessoas, no mximo. Convidei alguns conhecidos da aldeia e, quem sabe, talvez alguns dos velhos amigos do George apaream.  s um pequeno gesto para lhe
dar as boas-vindas a casa. Quero que ele sinta que gostam dele. E podemos todos brindar. H muita sidra.
A tarde estava ventosa. O Sol tinha-se escondido por trs de algumas nuvens escuras e tudo indicava que ia chover. Faye ergueu os olhos para
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o cu e esperou que pelo menos isso no acontecesse durante a festa. Seguiu um bando de estorninhos com os olhos e viu-os rasgar o cu como uma lufada de fumo negro,
que danava e mergulhava em estranhas convolues areas, e lembrou-se de George e do seu Spitfire. Caminhou em direco ao celeiro, que ficava num extremo da quinta,
aninhado entre um pomar de macieiras. Era usado para armazenar feno na altura das colheitas. Quando George e Alice eram pequenos costumavam trepar pelos fardos como
se se tratasse de montanhas e esconder-se a dos pais  hora de irem para a cama. Como era inocente a vida nesses tempos, reflectiu.
O lugar era quente e abrigado do vento. Cheirava a erva acabada de cortar e ao fumo do grelhador. Tinham improvisado duas mesas grandes com cavaletes e tbuas e
toalhas de mesa com lenis de cama e pedido talheres, pratos e copos emprestados a Mrs. Megalith, que tinha que chegasse para um banquete. A av de Rita tinha oferecido
o jardim para a festa, o que teria sido sem dvida mais bonito, mas Faye recusara. Era a festa de boas-vindas a George e por isso tinha de ser em casa. Acendeu uma
candeia e com esta comeou a acender todos os candeeiros que estavam em cima das mesas. Ainda lhe parecia impossvel que o filho estivesse em casa e a guerra tivesse
acabado. Tentou esquecer os perigos que ele tivera de enfrentar. Continuava a ser o seu menino e ainda lhe custava pensar em tudo o que ele sofrera. Depois de acender
os candeeiros rezou uma orao de graas pelo passado e outra pelo futuro. Tinha a impresso que George era capaz de precisar delas.
Quando o Sol comeou a descer no horizonte, as pessoas comearam a chegar, carregadas com comida e bebida para contribuir para a festa. O reverendo Elwyn Hammond
chegou com a mulher e os dois netos carregados com sacos de pezinhos; a velha June Hogmier, a dona da loja da aldeia, trouxe batatas para assar aproveitadas do
fundo das cestas por ser avarenta de mais para trazer das melhores; e Cyril e a sua encantadora mulher, Beryl, trouxeram hortalias e mas para a tarte. Os trabalhadores
da quinta apareceram com galinhas e um grupo ruidoso de velhos amigos de George, os poucos que haviam sobrevivido  guerra, trouxeram garrafas de cerveja. George
juntou-se aos demais, por baixo das enormes faixas de pano pintadas pelos midos com a ajuda de Alice e que diziam "Bem-vindo a casa, George". Sentiu-se comovido
com o esforo dos pais, embora um pouco embaraado. Pareceu-lhe que no merecia tantas atenes. No conseguia libertar-se do sentimento de culpa
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que o dominava desde que regressara a casa. Tinham sido muitos os homens que no tinham chegado a assistir  vitria.
Estava a falar com o reverendo Hammond quando Rita chegou com a famlia. Desculpou-se delicadamente e atravessou o grupo j reunido para a ir cumprimentar.
- Como estava a av? - perguntou-lhe, com a mo nas costas dela e atraindo-a a si para a beijar.
- No me disse nada que eu no soubesse j - respondeu-lhe ela.
- No me digas que est a perder qualidades?
- No, eu  que estou a melhorar as minhas. Ela tambm vem  festa.
- Vem de vassoura ou vai saltar de dentro de um bolo?
- Espero que nem uma coisa nem outra. No me parece que a tua me possa fazer um bolo assim to grande. - Riram-se ambos.
- Ol, Eddie. Como anda a minha menina preferida? - George fez-lhe uma careta e despenteou-a com a mo.
- No sejas mentiroso. Eu no sou a tua preferida. A tua preferida  a Rita.
- Ento a minha segunda preferida. - Eddie suspirou com dramatismo.
- Um dia hei-de ser a nmero um de algum! - E juntou-se ao grupo com Harvey, o morcego, agarrado  manga.
Quando Mrs. Megalith chegou, a multido pareceu dividir-se como o mar  passagem de um grande transatlntico. Ningum se atrevia a pr-se no caminho da bruxa de
Elvestree. A av de Rita pusera penas de pavo no cabelo e trazia o seu vestido vermelho preferido, sobre o qual usava o xaile verde que o falecido marido lhe trouxera
da ndia. Usava a pesada selenite ao pescoo, num fio preto, e os seus dedos estavam carregados de cristais.
- Ol, George, lembras-te de mim? - perguntou, com umas palmadas firmes no ombro do rapaz.
George voltou-se para lhe falar:
- Mistress Megalith, que simptico ter vindo. - Percorreu com os olhos a sua excntrica farpela. - Est com um aspecto glorioso!
- No devemos desapontar os outros. Todas estas pessoas esperam que eu me vista como uma bruxa - explicou com um piscar de olho.
- Mas as bruxas no se vestem de preto? - perguntou ele.
Rita levou a mo aos lbios para evitar uma gargalhada. A av era conhecida pela sua natureza imprevisvel. S Max podia arreli-la chamando-lhe
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bruxa. Para surpresa de Rita, Mrs. Megalith respondeu amavelmente com os olhos semicerrados.
- No esta bruxa - replicou com um sorriso, e George olhou-a desconcertado. Seria possvel que ela estivesse a tentar seduzi-lo?
- Mistress Megalith  uma estrela brilhante que ilumina o Reino Unido devastado pela guerra.
- Obrigada, George. No h dvida de que sabes dirigir-te a uma velha rapariga. Onde est o teu pai? Ouvi dizer que ele j soube mais qualquer coisa sobre aquela
variedade rara de nogueira francesa.
- Que h de especial nas nogueiras? - perguntou Rita, arrependendo-se logo de ter perguntado quando a av se lanou numa longa explicao.
- Minha querida, tens tempo para eu te explicar? Trata-se de rvores especiais com uma histria fascinante. Na verdade, estou surpreendida por o George ainda no
te ter explicado. As nogueiras so to preciosas que se julgava que pertenciam aos deuses, que as comiam! Os Persas referiam-se s nozes como "nozes reais", e tocar-lhes
era um crime. Os Gregos levaram a rvore para Roma por volta de cem anos antes de Cristo. No tempo de Cristo j elas eram rvores crescidas e os romanos trouxeram-nas
para Inglaterra. A sua madeira  magnfica, rara e bastante cara. As nogueiras adultas devem ser guardadas com a vida, como faz Trees, Deus o abenoe. Aquela que
est ao lado da casa, George,  espantosa! O teu pai est longe de ser doido. Na verdade,  um gnio, um gnio magnfico, muito incompreendido. Aposto que tem uma
das maiores coleces de nogueiras do pas. Ah, e os esquilos adoram-nas, e ns adoramos esquilos, no  verdade? - Rita concordou, recordando como em tempos lhes
dava de comer no jardim da av. - Especialmente grelhados e com um pouco de bacon - acrescentou Mrs. Megalith, lambendo os lbios.
- O pai est ali - disse George apontando para o pai, mais alto, pelo menos uma cabea, que qualquer das outras pessoas que ali estavam.
Quando a av avanou com o seu passo rgio, Rita disse, revirando os olhos:
- Para que fui eu dar-lhe corda? Estava s a fazer conversa...
- No  preciso dar conversa a uma bruxa. Elas do conversa a elas mesmas. Deve ser divertido viver como ela vive, com gatos, cartas e bolas de cristal.
- No sei, talvez se sinta sozinha - disse Rita. - Mesmo com todos aqueles gatos.
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- No creio, com o Max e a Ruth. Devem ser santos para viverem
com ela.
- No tm escolha, os pobres - disse Rita com um sorriso.
- Mas nunca  aborrecida. J h demasiadas pessoas enfadonhas no mundo. Ela pelo menos  uma centelha de cor num mundo cinzento.
Uma sombra atravessou por um momento o rosto de George, que pareceu triste. Rita tocou-lhe no brao e recordou o conselho da av.
- Apetece-me um copo de sidra - disse. - No quero que ningum brinde mais que eu ao teu regresso.
- Isso mesmo. Vem comigo - disse ele, de novo com um sorriso, e os dois aproximaram-se do canto do celeiro onde estavam as bebidas.
Max e Ruth tinham vindo com Mrs. Megalith, mas ficaram para trs e acabaram por se desviar para um canto do celeiro, onde se faziam os grelhados. Depois de uma breve
hesitao, Ruth deixou-se arrastar por Eddie e pelos seus amigos, deixando Max sozinho com um copo de sidra. Observou a irm e sentiu-se feliz por v-la to alegre.
Tinha conscincia de que, embora Mrs. Megalith fosse como uma me para eles, estavam sozinhos no mundo, e sentia-se desesperadamente protector em relao  irm.
Ela continuava a ser uma criana e ele j tinha dezassete anos. Passou a mo pelo cabelo e observou a sala. Os seus olhos pousaram em Rita, que estava aconchegada
a George, o que f-lo sentir um impulso de cime. Teve vergonha de ter desejado que George no regressasse da guerra. Estava chocado por ter sido capaz de um pensamento
semelhante. Observou o cabelo longo e revolto de Rita, as sardas espalhadas por todo o rosto, e pensou como seria bom que ela olhasse para si com a devoo que dedicava
a George. Afastou os olhos de uma imagem que apenas servia para lhe causar sofrimento e observou, divertido, o olhar rapace da bruxa de Elvestree.
Mrs. Megalith tinha a capacidade rara de se concentrar em muitas coisas de uma s vez. Ao mesmo tempo que ouvia Trees falar-lhe das nogueiras francesas que queria
importar para Devon, via Maddie no meio de um grupo de rapazes jovens no outro extremo do celeiro. Estava sentada de uma maneira muito pouco elegante no joelho de
um dos amigos de George. Tinha os braos  volta do pescoo dele e as pernas ligeiramente afastadas e ria-se ruidosamente, com a boca bem aberta. Hannah estava demasiado
ocupada a falar com a mulher do reverendo
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Hammond, Vera, para reparar, e Humphrey discutia a guerra no Japo com Mike Purdie, seu vizinho. Eddie descobrira Ruth e mais alguns jovens com quem brincar e corria
por todo o celeiro como o flautista de Hamelin, fazendo uma barulheira assustadora. Voltou a olhar para Maddie. De repente viu a imagem da neta nos braos de um
GI na parte de trs de um jeep. Afastou a ideia desagradvel, para no dizer perturbadora, mas que explicava a falta de motivao de Maddie.
"Descobriu os prazeres proibidos da carne, Deus a abenoe", pensou Mrs. Megalith consigo mesma, recordando a sua prpria iniciao, h muitas, muitas luas. Esperou
que a rapariga no fosse vencida pelo desejo.
Era um grupo alegre, uma verdadeira celebrao da vitria e do regresso a casa de George. A atmosfera era despreocupada e vibrante de entusiasmo. Os anos de conflito
tinham unido toda a gente no medo e na determinao, e a libertao voltava a faz-lo no momento de festejar. No entanto, no estavam esquecidos os que tinham dado
a vida no combate, tendo sido pedido um minuto de silncio em sua homenagem. Durante esse momento, Max recordou os pais e suprimiu a dor que sentia sempre que pensava
neles. O reverendo Hammond pegou na mo da mulher e rezou em silncio pelo filho, Rupert, morto em Dunquerque. Em seguida Trees brindou a George, comovido de mais
para dizer o que quer que fosse. Rita ergueu os olhos e reparou que Max a observava, com os olhos brilhantes e tristes. Sorriu-lhe, mas ele pareceu no a ver. Depois
comeou o baile; o rudo dos ps no cho do celeiro fez as pessoas estremecerem e o disco no gramofone de Faye falhar.
Faye viu o filho arrebatar Rita e esgueirar-se com ela do celeiro.
Tinha comeado a chover, uma chuva miudinha levada por um vento forte. O ar estava fresco e tinha um cheiro forte a folhas e a terra molhada. George deu-lhe a mo
e atravessaram a quinta a correr em direco a um barraco, baixo e atarracado, que ficava debaixo de um velho castanheiro. Levantou a tranca e abriu a porta. Esgueiraram-se
para o stio mais quente e seco, onde havia uma srie de vitelos nascidos pouco tempo antes. Quando George fechou a porta atrs dele, foram rodeados pelo barulho
suave das patas a arrastarem-se sobre o feno, enquanto os animais esforavam os sentidos para os observarem. Havia uma luz suave que fazia brilhar os olhos dos vitelos,
que espreitavam atravs das barras dos seus currais, e que Rita achou encantadores. Sem uma palavra, ajoelhou-se e acariciou os focinhos macios. O barulho tornou-se
mais forte.
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Os animais queriam mais carcias. George pegou-lhe na mo e ajudou-a a levantar-se. Seguiu-o e subiram ambos uma escada at  parte de cima, mais aconchegada e onde
cheirava bem.
Conseguiam ouvir o vento a soprar atravs do telhado do barraco, mas o feno onde estavam deitados era macio e quente. O barulho foi diminuindo. As vacas estavam
mais calmas e s de vez em quando um mugido perturbava a sua respirao regular.
George beijou-a. No foi um beijo febril como o da gruta, mas terno, lento, cheio de significado.
- No consigo suportar tanta gente. S me apetece estar contigo - disse ele, enterrando a cabea no pescoo dela e percorrendo a sua pele hmida com os lbios.
O vestido dela estava molhado da chuva e desenhava-lhe os contornos do corpo. Rita cheirava a violetas e a uma inocncia muito caracterstica dela e George pensou,
por contraste, nas mulheres cuja cama partilhara durante a guerra para voltar a sentir-se um ser humano e esquecer a carnificina dos combates. Mas aquilo pareceu-lhe
estranho. Familiar, reconfortante, mas estranho, como se tivesse regressado a casa  espera de se encaixar no seu velho molde e estivesse a descobrir que j no
cabia l. Rita parecia no se aperceber da diferena, o que tornava mais difcil dar sentido s coisas e o impedia de comunicar. Olhou para o rosto ainda infantil
dela e percebeu que, por muito que gostasse dela, no queria macular a sua pureza fazendo amor com ela. Tudo o que tinha a ver com a guerra fora srdido, mas Rita
continuava imaculada. E ele queria preservar isso o mais tempo possvel.
Ela olhou para ele intrigada, como se se apercebesse do turbilho que ia nos pensamentos dele.
- Esquece a guerra, meu amor - sussurrou-lhe, sorrindo-lhe timidamente. - J acabou. Agora ests em casa e eu estou aqui para te reconfortar.
- Ainda bem que te tenho, Rita - murmurou ele, mergulhando de novo a cabea no pescoo dela. - Graas a Deus que te tenho.

CAPTULO 5
No dia seguinte, Rita sentou-se na igreja ao lado da me e de Maddie. Hannah trazia um chapu bege simples, sob o qual o seu rosto assumira uma expresso intensa
de piedade. Olhava o seu livro de oraes com solenidade, incapaz de ler uma s palavra porque a sua vista no o permitia. Se soubesse que uma das suas filhas estava
ali sentada perante Deus, maculada e sem vergonha, e a outra a pensar em sexo, teria cado de joelhos de vergonha.
Mas Maddie teve o cuidado de manter a voz baixa.
- Ento como foi? - soprou ao ouvido da irm. Rita corou e baixou o chapu para se esconder da me.
- Maravilhoso - respondeu com um suspiro de satisfao.
- Para onde foram? S voltaram de madrugada.
- Eu sei! - Rita escondeu um bocejo de satisfao. - Fomos para um barraco cheio de vitelos recm-nascidos. Eram lindos.
- Fizeste amor num curral?! - exclamou Maddie, horrorizada.
- No, ns estivemos no sto, no no curral. E no fizemos amor.
- No?!
- No.
- E porqu, pode saber-se?!
- Porque no somos casados. - Maddie abanou a cabea, incrdula.
- Sua tola! exclamou. Depois no digas que no te avisei.
- Chiu! - fez a me. - No te esqueas que estamos na casa de Deus e tu, Rita, tens muito que Lhe agradecer.
Rita fez um sinal afirmativo e olhou para o outro lado da igreja, onde Faye e Trees estavam com Alice, os filhos desta e George. Trocou um
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olhar com George, que lhe fez um sinal discreto, com a intimidade da noite anterior ainda a brilhar nos seus olhos cinzentos.
Quando o reverendo Hammond caminhou em direco ao centro da nave, muito digno nas suas vestes negras e colarinho branco, apenas os seus longos cabelos grisalhos
se rebelavam contra a perfeio estudada da sua postura. Tal como Hannah, parecia outra pessoa quando se encontrava na igreja. Parecia mais alto, mais forte e mais
imponente no seu papel de vigrio do que quando era Elwyn Hammond, marido e av, que comprava hortalias na loja de aldeia de Miss Hogmier. Na casa de Deus era o
seu porta-voz. Era um homem de vocao, cujo dever era ser o pastor do rebanho do Senhor, conduzi-lo para casa, mostrar que o caminho para o Cu passava pelo sofrimento
e pelo arrependimento. O reverendo Hammond conhecia melhor o sofrimento que a maior parte das pessoas, porque perdera o seu filho nico, e tambm conhecia o amor
e a compaixo, porque a nora lhe trouxera os netos para viverem com ele em Frognal Point. Todos os dias via o filho no rosto daquelas duas crianas e todos os dias
chorava por ele, embora se sentisse reconfortado com a ideia de que Rupert estava com o Senhor. Encontrara o seu caminho para casa e estava em paz.
Quando a voz profunda de contrabaixo do reverendo Hammond ressoou na igreja, fez-se silncio na congregao. O vigrio falava baixo, articulando as palavras com
cuidado de maneira que mesmo os velhos j meio surdos pudessem ouvi-lo ao fundo da igreja. Rita olhou para Eddie, sentada do outro lado da me, a escrevinhar num
pequeno bloco de apontamentos. Tinha o cuidado de desenhar crucifixos, no fosse a me tirar os olhos do reverendo Hammond para ver o que ela estava a fazer. Humphrey
estava sentado ao lado dela, com os pequenos culos redondos empoleirados na ponta do nariz, a folhear o livro de oraes. No era um homem religioso e achava o
reverendo Hammond muito maador e pomposo. Mas gostava de vir com Hannah, que nunca faltava  missa, nem quando estava doente.
De repente a porta da igreja abriu-se e a voz do reverendo Hammond pareceu arrastar-se com a surpresa. No havia muitas pessoas capazes de calar o bom reverendo,
de maneira que todas as cabeas se voltaram para a porta para verem que tipo de diabo ali se encontrava. Rita esticou o pescoo e deu um abano a Maddie para que
ela tambm se voltasse. Mrs. Megalith parou por instantes  porta, enquanto o vento frio da costa
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levantava o seu longo vestido azul e o enfunava  volta dos tornozelos. A velha senhora fungou e foi observando a cena que se desenrolava  sua frente com os olhos
da cor de selenite. H muitos anos, literalmente, que no entrava na igreja, mas haviam passado apenas algumas semanas desde o seu ltimo recontro com o reverendo
Hammond a propsito da corrupo da palavra de Deus pela religio organizada. O reverendo no conseguiu continuar. Mrs. Megalith reduzira-o a um peixe de boca aberta
 deriva junto  margem de um rio.
A recm-chegada subiu a nave, lentamente e com andar rgio, seguida pelo eco sinistro da bengala. Ningum disse uma palavra. Apenas Eddie se atreveu a rir-se com
traquinice a coberto da mo, mas depressa foi silenciada por um encontro vigoroso da me. Hannah estava chocada. A sua me sempre fora conhecida por odiar a igreja
e o vigrio e por considerar a prpria instituio de religio dogmtica, para no dizer mercenria. Segundo dizia, sentia a presena de Deus no seu jardim e no
precisava de pagar pelo privilgio de se sentar na Sua casa e de ouvir o vigrio falar d'Ele como se o conhecesse com mais intimidade que todos os outros. " um
maldito trapaceiro", dizia ela. "Se as pessoas soubessem que podem falar com Deus no conforto das prprias cozinhas, no se davam ao trabalho de ir  igreja e de
ouvir aquelas prdicas maadoras acerca do sofrimento." Hannah sentiu-se embaraada quando a me os obrigou a apertarem-se uns contra os outros para ela se poder
sentar na ponta do banco. O reverendo Hammond viu os enormes cristais brilharem  volta do pescoo dela ao apanharem um raio de luz e, com nervosismo, levou a mo
ao crucifixo simples que trazia ao pescoo. Parecia ter encolhido; quando por fim conseguiu falar, a sua voz pouco mais pareceu que o coaxar de uma r.
- Todos somos bem-vindos na casa do Senhor - comeou, e tentou ignorar a expresso desdenhosa de Mrs. Megalith, expressa numa voz que se ouviu em toda a igreja,
bem como o desafio evidente nos seus olhos. Hannah no fazia ideia do que teria dado  me. Alm disso, por causa dela, estavam todos instalados sem conforto, apertados
como latas numa prateleira de despensa. - Vamos cantar o hino nmero vinte e trs, Para Ti, Meu Pas. Todos se puseram em p e cantaram o hino que to bem conheciam
e de que todos gostavam. Foi com alvio que o reverendo Hammond entregou a conduo do servio religioso a Miss Hogmier e  sua interpretao vacilante no rgo.
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 medida que o servio religioso ia progredindo, o reverendo ia-se acalmando. Evitou olhar para o rosto seguro de Mrs. Megalith e procurou recuperar a autoridade.
Na altura em que tudo comeava a voltar ao normal, um enorme gato preto, do tamanho de um co, apareceu vindo sabe Deus de onde e saltou para o altar. O reverendo
Hammond foi a nica pessoa que no o viu, por estar voltado para a sua congregao e de costas para o altar. Johnnie e Jane apontaram para o gato, muito excitados.
Um s gato talvez no tivesse causado grande perturbao, dois talvez tivessem podido subir e descer a nave em paz, mas cinco, seis, sete, oito gatos no podiam
ser ignorados. Um a um, foram aparecendo no altar, roaram-se contra a toalha branca com as costas arqueadas e os rabos no ar, at que comearam a passear-se por
cima, evitando com cuidado as pratas e os candelabros. O reverendo Hammond percebeu que a congregao no tinha os olhos postos nele como devia enquanto ele pregava
o que lhe pareceu ser um brilhante sermo. Quando cedeu e permitiu que o seu olhar sucumbisse  fora magntica da personalidade de Mrs. Megalith, descobriu que
ela estava to surpreendida como todos os outros. Sem conseguir conter mais a curiosidade, voltou-se para ver o que estava a desviar a ateno de todos.
Em cima do altar brincavam vrios gatos de todas as cores e tamanhos. No teve qualquer dvida de que a bruxa de Elvestree tinha alguma coisa a ver com aquilo, uma
vez que todos sabiam que tinha uma casa cheia de gatos. Com ar cansado, voltou-se para a congregao.
- Como ia dizendo, todos somos bem-vindos na casa do Senhor - tentou gracejar, com dificuldade. A seguir concentrou a sua ateno em Mrs. Megalith. - Segundo a lenda,
os gatos trazem boa sorte. Hoje, Deus parece ter abenoado esta casa. Oremos.
Mrs. Megalith inclinou-se para Maddie e soprou-lhe ruidosamente ao ouvido:
- A lenda tambm diz que nunca faltam amantes queles que tm um gato preto. Aposto que isso ele no sabe.
Maddie teve vontade de responder que, se assim fosse, a av teria mais amantes que gatos, mas teve a sensatez de guardar a ideia para si.
Quando o servio religioso terminou, toda a congregao esperou que Mrs. Megalith manquejasse ao longo da nave com Maddie e Rita seguida de Hannah, Eddie, Humphrey
e dos oito gatos. Viram-na passar, mais seguros do que nunca de que ela era de facto uma bruxa. J na rua, ao sol, Hannah voltou-se para a me.
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- Porque veio hoje  igreja? - perguntou-lhe. Mrs. Megalith sorriu satisfeita.
- O bom vigrio no disse que ramos todos bem-vindos na casa do Senhor?
- Mas a me no gosta da igreja - argumentou.
- De vez em quando, convm intimidar o reverendo, para ele no se tornar muito confiante... - E riu-se com vontade. - No, desta vez vim porque me pareceu apropriado,
com o regresso de George e tudo isso.
- A srio? - disse Hannah, surpreendida.
- Elwyn diz que o caminho para o Cu passa pelo sofrimento. Pois bem, depois da confuso de hoje devo estar um passo mais perto. - E sorriu triunfantemente. - Mas
atrapalhei-o, no atrapalhei? O tolo!
O reverendo Hammond s com dificuldade conseguia esconder o tremor das mos enquanto conversava educadamente com os membros da sua congregao.
- A lenda tambm diz, reverendo - lembrava Miss Hogmier, - que ao fim de sete anos os gatos se transformam em bruxas. Se for verdade, imagine a quantidade de bruxas
que ainda havemos de ter!
- Francamente, Miss Hogmier, espero que no acredite nesses disparates!
- Claro que acredito, reverendo Hammond. Pode ter a certeza que Mrs. Megalith  uma mulher demonaca!
Nessa tarde, George e Rita sentaram-se numa manta no alto da falsia a ver os pssaros, como faziam em pequenos. A tempestade j passara, deixando atrs um cu azul
perfeito sem uma s nuvem  vista. Ainda havia vento, especialmente naquele stio to alto, mas era um vento quente e agradvel. Rita tinha levado sanduches e cacau
quente para a merenda. A me dela tinha feito biscoitos para eles levarem e tambm mandara algumas fatias de fiambre para George.
- Toda a gente fala do teu regresso a casa - disse Rita, contente.
- Se falam  porque no tm muito mais de que falar - replicou ele, olhando sobre o mar na direco onde o horizonte estremecia de modo sedutor com promessas de
aventura.
- Dizem que s um heri.
- No me digas... - respondeu George com voz inexpressiva. - No, Rita, os heris so os que perderam a vida. Eu no sou nenhum heri.
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Depois de uma pausa, continuou: - Alm disso, no quero continuar a voar. - O seu comentrio foi inesperado. Rita no soube que responder, de maneira que no disse
nada. - No quero recordar a guerra. Quero esquecer que aconteceu e perder-me em ti.
Mas George no conseguia esquecer a guerra. Durante o dia, quando estava acordado, conseguia suprimir as recordaes, mas  noite, logo que a sua resistncia abrandava,
as imagens penetravam no seu esprito e invadiam os seus sonhos. Eram to reais que conseguia cheirar a gasolina e a cordite, sentir o suor a formar-se na testa
e sobre o nariz, a pingar-lhe dos olhos e a condensar-se sobre a mscara de oxignio. De novo no seu Spitfire, vivia a sensao de imediatismo, a intensidade, o
medo frio e esmagador.
O cu estava escuro com os bombardeiros alemes, principalmente Heinkels, que se deslocavam como um enxame de vespas negras, dirigindo-se a ele a grande velocidade.
De repente, v-se no meio deles. Avies que pareciam vindos do nada, cento e cinquenta pelo menos, para no falar dos ME 109 que os protegiam. Bloody Krauts! O rudo
das metralhadoras, semelhante ao que se produz ao rasgar algodo, o assobio das balas tracejantes e depois um lampejo seguido de uma exploso. E mais rajadas de
metralhadora. O cu parecia semeado de balas. Fumo negro, terei sido eu, o meu Spitty? Desta vez no. Foi por pouco. Outro desgraado qualquer. Um Heinkel descontrolado.
Um tipo ejecta-se, mas o pra-quedas  apanhado nas hlices e ele  arrastado na queda do avio. Que maneira horrvel de morrer. Depois, dominando-se com uma calma
fria, o seu treino sobrepe-se, o medo transforma-se em concentrao, so eles ou eu e eu tenho muito por que viver. Pressiona o boto do combustvel, abre o ar
e de olhos semicerrados lana-se a toda a velocidade. Controla-te, por amor de Deus. No o deixes ir, George, imbecil. Varre-me esses estupores do cu. Mais uma
vez, luta pela vida. Uma e outra vez. Quanto tempo aguentar ainda? Ah, quem lhe dera sentar-se naquelas falsias e observar os pssaros. Nesse momento, voa mais
alto que qualquer pssaro a caminho do rosto feio da morte. Ningum lhe tinha dito que ia ser assim.
Para afastar estas imagens, George ajudava o pai na quinta, escapando-se para beijar Rita sempre que podia. O amor era uma boa maneira de esquecer. Afastava a culpa
e a dor. Se no conseguisse manter-se ocupado, ia lembrar-se dos seus amigos mortos: Jamie Cordell, abatido no
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Norte de Frana; Rat Bridges, morto sobre Dunquerque; Lorrie Hampton, morto no fundo do mar, e muitos, muitos outros. Tinha de os afastar da sua mente ou acabaria
por ficar doido.
Rita era paciente. Acalmava-o, amava-o e nunca o pressionava para se casarem. Tinha a certeza que ele o faria quando se acalmasse. Percebeu instintivamente que passara
muito e precisava de se habituar a tudo. Faye discutia o futuro com ela enquanto modelava o barro. As duas mulheres davam como certo que acabariam por ser uma famlia
grande e feliz. Falavam de redecorar uma das casas da quinta e de como seria divertido para o Johnnie e a Jane terem primos pequenos com quem brincar. Faye lembrava-se
dos stios de que Alice e George gostavam em crianas, de os ver assustar os coelhos escondidos no meio dos cereais e alimentar o gado, e imaginava as crianas da
gerao seguinte nos mesmos stios a fazerem as mesmas coisas. No entanto, no fundo, procurava afastar algumas dvidas que insistiam em incomod-la. Observava o
filho, observava-o com ateno. Quando no estava ocupado, o seu rosto parecia muito mais velho, parecia o rosto de um velho desencantado.
O Vero passou. Foi eleito um novo governo, trabalhista. A guerra no Japo terminou. Enquanto o Reino Unido tentava pr-se de novo de p, o racionamento ia continuando.
George refugiava-se em Rita, na quinta, no White Hart com os amigos, mas no conseguia ignorar a sua alma inquieta para sempre.
Faye acordou com um n na boca do estmago. Voltou-se e ficou um pouco a olhar a escurido, a pensar em George e no seu futuro, preocupada com Rita e com a famlia
dela. Suspirou pesadamente e tentou voltar a adormecer, sem resultado. Alguma coisa a moa por dentro, dizendo-lhe que se levantasse e fosse  cozinha. No era a
primeira vez que acordava com aquela impresso. Quando os filhos eram pequenos, pressentia quando um tinha tido um pesadelo, se sentia maldisposto, infeliz ou simplesmente
no conseguia dormir. Estava habituada a percorrer os corredores s apalpadelas, a encontrar o caminho no escuro.
Desceu ao piso de baixo e acendeu a luz da cozinha. Abriu a geleira e serviu-se de um copo de leite frio e de uma fatia de po. Depois, alguma coisa l fora lhe
chamou a ateno. Saiu para a rua e viu George sentado sozinho, a fumar. Tinha um aspecto desolado no meio da noite e ela sentiu a infelicidade dele alcan-la e
envolv-la igualmente com os seus braos de chumbo.
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- Importas-te que me sente aqui contigo? - perguntou-lhe numa voz suave, encostada  ombreira da porta.
Ele levantou os olhos e no pareceu surpreendido de a ver.
- No, at gostava - respondeu-lhe, soprando o fumo para o ar fresco de Outono.
Ela embrulhou-se melhor no roupo e sentou-se ao lado dele no banco.
- Ests a sentir-te bem, querido?
- No conseguia dormir - respondeu ele, recordando o pesadelo com um calafrio.
- Nem eu. Se calhar foi o queijo. Dizem que o queijo provoca pesadelos.
Ele riu-se, com cinismo.
- No me parece. A minha cabea  que no me deixa em paz.
- No vale a pena ficares desapontado, filho.
George olhou-a bem de frente por momentos e os cantos da boca como que descaram com a sua tristeza.
- Mas fico - disse ele por fim, e a sua voz pareceu  me pouco mais que um queixume profundo.
Ela pousou-lhe a mo levemente no brao.
- Quando te foste embora ainda eras um rapaz, George. Agora no podes voltar a ser esse rapaz, nem a ter a vida dele. Tens de tentar adaptar-te s novas circunstncias.
- Mas  muito de repente. Volto para casa e tudo parece na mesma. A Rita  a mesma, tu e o pai tambm, e at o velho vigrio. No mudou nada. O mar  o mesmo, a
praia, os pssaros, o cu. S o racionamento, os cupes e as lojas vazias esto diferentes. E eu. - Com a cabea descada, olhou para os ladrilhos. Depois prosseguiu,
numa voz muito calma. - No imagina o que  perder tantos amigos. Os melhores, os mais brilhantes. Eram como irmos para mim. E sinto a falta deles. No imagina
o que  olhar os inimigos nos olhos, saber que esto s a fazer o que lhes mandam, como ns, que so apenas rapazes, com mes e namoradas em casa, e atirar sobre
eles e ver os avies deles despenharem-se  nossa frente, entre fumo negro, e saber que vo sofrer muito. E no podemos sentir pena porque so eles ou ns. Cada
vez que o telefone tocava a dar-nos ordem de levantar voo de novo, pensava que talvez fosse a ltima vez que o ouvia. Mas a verdade  que l fui sobrevivendo, e
l fui levantando voo mais uma vez, e outra, e outra. Quando fecho os olhos  noite
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 isso que vejo.  com isso que sonho sempre: lutar pela minha vida e ter medo. Aquele medo terrvel. E ter medo de ter medo. Na verdade, no passo de um cobarde.
- Tu no s um cobarde, querido. s um ser humano - disse Faye, a pestanejar, os olhos cheios de lgrimas, sem querer olhar o filho. Ele sacudiu a cabea e puxou
mais uma fumaa.
-  estranho que de certa maneira sinta falta de tudo aquilo. Tenho saudades da camaradagem, de ter um objectivo. Agora tenho a impresso de ser um papagaio de papel
 deriva. O meu fio foi cortado.
- Porque no te tornas instrutor de voo ou uma coisa assim? Devem ter um lugar para ti na fora area, no?
George riu-se cinicamente.
- Devem ter, sim, mas eu no posso... - disse, com voz arrastada. A me bateu-lhe ao de leve na mo. - Quero assentar, cultivar a terra como o pai, casar com a Rita
e ter filhos. Mas no posso. No sou capaz. Pelo menos, por enquanto. Tenho a impresso que o momento mais alto da minha vida j passou, apesar de eu s ter vinte
e trs anos. Tem de haver mais qualquer coisa  minha espera. - Conteve a vontade de lhe dizer a que ponto odiava o que a guerra lhe fizera, o nvel de perverso
a que descera. Como poderia sentir-se bem na sua pele se ela estava manchada com o sangue de tantos jovens alemes?
- E que pensas fazer? - perguntou-lhe Faye, ansiosa por afastar as sombras que via sobre o filho.
- No sei - respondeu ele num murmrio rouco.
- No ests com medo de nos desapontar, a mim e ao pai, pois no? Decidas o que decidires, vamos apoiar-te. Estamos muito orgulhosos de ti, mas no somos os teus
guardies.
George chupou o cigarro.
- Quero ir-me embora por algum tempo - disse, por fim.
- Para onde?
- No sei. Para a Amrica do Sul, a Argentina.
- Com a Rita?
George encolheu os ombros.
- Talvez, no sei. Este stio est a sufocar-me. So demasiadas recordaes, demasiada nostalgia. J no me sinto bem aqui.
- Porque no vais visitar a minha irm e o Jos Antnio  Argentina? Podias trabalhar na quinta deles em Crdova, ganhar alguma
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experincia e depois, quando te sentisses pronto, voltar para trabalhar com o pai. Ia fazer-te bem afastares-te por algum tempo. Que te parece?
A infelicidade dele pareceu desaparecer como a nvoa de Vero quando nasce o Sol.
- ptimo - respondeu, com o alvio a transparecer-lhe na voz. Apoiou a cabea no ombro da me, que o abraou, quele filho to grande e que a fazia parecer to pequena.
- s a nica pessoa que realmente me compreende.
- E a Rita? - perguntou Faye ao fim de uns instantes.
- Eu amo a Rita - disse ele, endireitando-se no banco. - Ela faz parte de tudo o que para mim representa voltar a casa. O que acontece  que ainda no estou pronto
para regressar. Vou pedir-lhe que espere por mim. Depois, quando voltar, casamo-nos. A Rita  a minha nica certeza.

CAPTULO 6
- Eddie, onde te meteste? - perguntou Maddie quando Eddie entrou em casa corada e s risadas. Eddie travou e fez uma careta comprometida. No podia dizer  irm
que tinha passado as frias de Vero a espreitar a irm e George aos beijos na gruta. Sentia-se fascinada com o amor, ou antes, com o seu lado fsico. Tinha confessado
 melhor amiga na escola, Amy, que vira Maddie fazer amor com o americano dela no jeep. Tinham feito tanto calor que as janelas tinham embaciado. Tambm no podia
dizer isso a Maddie.
- Em stio nenhum. Estive s a brincar com o Harvey - respondeu com ar inocente.
- E onde est ele agora?
- Agora est a caar. Um morcego tambm tem de comer... - Maddie semicerrou os olhos.
- Estiveste na praia!
- Estive nada!
- Estiveste, estou mesmo a ver.
- E se tivesse estado?
- Estiveste outra vez a espiar. Um dia destes apanham-te. - Eddie riu-se.
- Esto ocupados de mais para isso.
- A srio? - Maddie tentou no parecer demasiado interessada.
- Esto sempre no mesmo.
Maddie pensou em George a fazer amor com Rita. Tinha a certeza que ele era um bom amante. Apaixonado, hbil, mas sensvel. Teve inveja de Rita. A irm tinha tudo
aquilo que queria.
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Deitada entre os braos de George, Rita ouvia a respirao dele e o barulho das ondas ao longe. Dentro da gruta a temperatura era agradvel, mas o ar tinha mudado.
A inocncia desaparecera, bem como os seus jogos. H vrias semanas que George andava perturbado. Como se se afastasse dela, partindo  deriva. Talvez, afinal, Maddie
tivesse razo e ele estivesse aborrecido com ela por no querer fazer amor com ele. No lhe falara no assunto; preferira fingir que estava tudo bem. Embora a beijasse
e acariciasse com ternura, no conseguia deixar de sentir que ele o fazia para se esconder de qualquer coisa. Parecia olh-la nos olhos sem a ver. Falava com ela
mas no a ouvia. Riam-se menos, ou antes, o riso j no era como dantes. J no tinha dvida nenhuma de que a guerra modificara George, e no s no seu corpo.
- Rita, temos de falar - disse ele por fim. Rita ficou tensa.
- Est tudo bem connosco, George, no est? - perguntou, sentindo-se indescritivelmente apreensiva.
- Claro que sim, meu amor.
Sentaram-se ambos e ele ps-lhe um brao  volta dos ombros. Mesmo assim ela no se sentiu tranquila.
- Vou-me embora.
- Para onde? - perguntou ela, chocada com a ideia de que ele queria partir de Frognal Point.
- Vou para a Argentina e quero que venhas comigo. - Os lbios de Rita comearam a tremer.
George acendeu um cigarro e soprou o fumo em anis.
- No posso ficar aqui - continuou ele, olhando para a entrada da gruta. - A guerra modificou-me, Rita. Preciso de sacudir de mim os ltimos cinco anos e em Frognal
Point no consigo. Vou para a Argentina, trabalhar na quinta do meu tio durante um ano, mais ou menos, e depois volto.
- Queres mesmo que eu v contigo?
- Claro - respondeu ele, mas na sua voz no havia entusiasmo.
- Como tua mulher?
Na longa pausa que se seguiu, ele chupou o cigarro tentando perceber por que razo a pergunta o fazia sentir-se to pouco  vontade.
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- Podamos casar l - respondeu com pouco entusiasmo, inclinando a cabea por saber que estava longe de parecer entusiasmado. Sentiu o desapontamento dela como pedaos
de chumbo que circulassem no ar.
- Tenho de pensar no assunto - respondeu ela com voz fraca.
- O tempo que precisares.
- Quando queres ir-te embora?
- No sei. Em breve. Ainda no tinha pensado nisso.
Rita suspirou e depois olhou para ele com uns olhos onde brilhavam as lgrimas.
- Amas-me, George?
- Claro que sim - respondeu, e tentou beij-la. Ela resistiu-lhe.
- Ou amas apenas a tua ideia de mim?
- Que queres dizer?
- No tem importncia. Vamos embora, estou cheia de frio. - Percorreram a praia em silncio. Rita olhou, perto de si, o mar que tanto amava, as gaivotas que davam
voltas por cima deles, os seus gritos como ecos do seu desamparo, e pensou se teria coragem de partir. Caminhavam de mos dadas, mas ambos se sentiam a quilmetros
de distncia um do outro. Estranhos, tristes e, pela primeira vez nas suas vidas, incertos acerca um do outro.
George despediu-se dela com um beijo, subiu para a carrinha que tinha deixado no caminho de terra batida, deu meia-volta e seguiu pela estrada. Ela viu-o partir
e depois comeou a chorar. Antes que algum a visse, atravessou a aldeia e encaminhou-se para a falsia, onde se sentou at anoitecer. O Sol fundia-se no mar acobreado,
conforme o seu corao se ia despedaando.
Teria coragem de deixar Frognal Point se pudesse ter confiana em George. Amava-o o suficiente para o seguir at ao fim do mundo, para embarcar numa aventura selvagem
num pas estranho. Seria capaz de o fazer, apesar do seu medo do desconhecido, mas no sem o empenhamento total de George.
Quando voltou para casa j estava escuro. Conseguia ver a me e Eddie atravs da janela da cozinha; a Eddie  mesa a pintar enquanto Hannah, com o avental azul,
amassava o po. Precisava desesperadamente de falar, mas era evidente que a me estava ocupada. Sem hesitar um segundo, pegou na bicicleta e comeou a pedalar em
direco a Elvestree. A fraca luz da bicicleta no teria bastado, mas o luar era suficientemente claro para
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lhe mostrar a linha da estrada. Sufocada de desespero e cheia de frio, apenas com um vestido e uma camisola finos, chegou desalinhada e a tremer. Entrou em casa
de rompante e encontrou Max sentado no sof a ler poesia. Quando a viu ficou plido.
- Ests a sentir-te bem? - perguntou ele, ao mesmo tempo que dava um salto do sof e se encaminhava para ela.
- A av est em casa? - perguntou Rita, limpando os olhos com os dedos.
- Saiu, mas deve estar a voltar.
- Oh! - murmurou ela. O seu corpo parecia prestes a desabar de desapontamento.
- E se eu te fizesse um ch ou um Ovaltine? Tenho a impresso que ests a congelar.
- Sim, obrigada - conseguiu responder-lhe, seguindo-o em direco  cozinha. - Onde foi ela?
- Foi lanchar com a Ruth a casa da tua tia Antoinette. Eu no quis ir. No gosto muito da tua tia. - Abriu a geleira onde se encontrava uma vasilha grande de leite.
Com uma concha, encheu uma caarola, que ps sobre o fogo. - Vais ver que uma bebida quente com um bocadinho de brande te vai fazer bem.
- No  luxo de mais fazer Ovaltine com brande?
- Primrose no ia querer que tu no bebesses brande.
Rita espantou um gato da cadeira de braos e sentou-se ao lado do fogo, a tremer e com os ombros curvados.
- O George est bom? - Max no conseguiu impedir-se de perguntar. Os olhos dela voltaram a encher-se de lgrimas.
- Quer ir para a Argentina - respondeu-lhe ela.
As mos de Max puseram-se a tremer e ele voltou os olhos para o leite quente.
- Tu vais com ele? - perguntou Max, tentando parecer natural.
- Ele quer que eu v.
- E tu no queres sair de Frognal Point?
Ela acenou afirmativamente. Sentiu-se tola. Max sara da ustria para comear uma nova vida com desconhecidos noutro pas. Como poderia falar-lhe do seu medo?
Ele estendeu-lhe uma chvena de Ovaltine. O cheiro era reconfortante. Depois de ter tomado um gole, ela sentiu-se melhor.
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- Sentes que pertences a este lugar, Max?
Ele sentou-se num banco e sorriu-lhe. Rita reparou que ele crescera muito no ano anterior. Era alto e tornara-se forte, com olhos azuis ardentes que revelavam uma
profundidade e uma compaixo surpreendentes num rapaz da idade dele. At ento nunca reparara muito nele porque lhe parecia uma criana em comparao consigo. Uma
criana muito tmida e solitria. No entanto, para sua surpresa, sentiu-se melhor na companhia dele.
- Sim, tenho a impresso de pertencer a este lugar - respondeu-lhe. - Graas a Primrose. Tenho a impresso que o meu lugar  aqui com ela.
Com a testa franzida, Rita perguntou-lhe:
- Como s capaz de viver com ela? Ela  to estranha...
- Uma bruxa? - riu-se ele, e abanou a cabea.
- Uma bruxa muito simptica...
-  uma mulher delicada e generosa. Eu sei que  descarada e ofende facilmente as pessoas, mas a verdade  que tem um corao de ouro.
- Sim, pois tem - concordou Rita. Mesmo assim, acho que no conseguia viver com ela.
Tomou mais um gole de Ovaltine e sentiu o calor espalhar-se pelo corpo, desatando pouco a pouco os ns emocionais que se tinham formado durante a conversa com George.
Depois, Max contou-lhe uma coisa que nunca tinha contado a ningum, nem sequer  irm.
- Quando aqui cheguei era um rapazinho, tive medo dela, mas na primeira noite fiquei acordado. Ouvi-a entrar no nosso quarto, j muito tarde. Estava muito escuro.
Fechei os olhos porque no queria que ela percebesse que eu no estava a dormir. Ela ficou um bom bocado ao meu lado. No sei o que estava a fazer, mas tive um sentimento
muito forte de calor e de amor. Depois puxou o cobertor e aconchegou-me, inclinou-se e beijou-me na testa. Quando saiu, depois de ter feito o mesmo com a Ruth, pus-me
a chorar. No por ter medo, mas por me sentir agradecido. Nem a minha prpria me tinha sido to terna comigo.
Rita pestanejou, surpreendida. De repente percebeu como devia ter sido tremendo para ele perder a famlia. Sempre soubera que ele no tinha ningum, que a av o
adoptara, mas nunca pensara realmente na tragdia que fora o seu passado.
- Oh, Max, que histria to bonita. Alguma vez lhe contaste?
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- No, sabes como ela . Era capaz de se sentir pouco  vontade.
- Acho que ia ficar comovida de saber que isso teve tanto significado para ti.
- Tenho a certeza que ela sabe.
Fizeram uma pausa durante a qual Rita o observou com ateno. Como sentisse a intensidade da observao dela, Max bebeu um gole grande de Ovaltine, que lhe queimou
a garganta.
- Sentes muito a falta da tua famlia? - perguntou-lhe ela com suavidade, consciente de que aquele momento de intimidade era dos poucos que Max alguma vez tivera
com quem quer que fosse, excluindo Ruth e a av.
- Sim, s vezes. Penso como teria sido diferente a minha vida se tivesse ficado na ustria e eles tivessem sobrevivido.
- Que coisa horrvel, esta guerra! - desabafou ela, pensando em George. Destruiu tantas vidas, e no estou a falar s daqueles que morreram!
Max olhou para ela, intrigado.
- Eu e a Ruth tivemos sorte.
- E azar tambm. Eu continuo a ter a minha famlia. - Ela olhou-o com intensidade e depois desviou o olhar. - Mas estou a perder o George - acrescentou com voz fraca.
Era contrrio  natureza de Max mostrar as emoes, mas mesmo assim saltou do banco e ajoelhou-se ao lado da cadeira onde ela estava sentada. Pegou na mo dela e
olhou-a com ternura.
- Porque pensas isso? - perguntou-lhe, e o seu olhar compadecido f-la chorar de novo.
- A guerra modificou-o. Sente-se infeliz e inquieto e quer abandonar a sua velha vida e comear outra nova. E eu fao parte da vida antiga dele.
- Ele ama-te. Sempre te amou.
- No me parece que continue a amar-me - sussurrou ela, e deixou-se abraar por ele. Apoiou o rosto no ombro dele e fungou. - Estava to segura do meu futuro. Agora
j no sei...
Ficaram em silncio, cada um a ss com os seus pensamentos, at que o barulho da porta da cozinha a abrir-se os interrompeu. Com relutncia, Max afastou-se. Mrs.
Megalith entrou a manquejar com Ruth atrs.
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- Minha querida, fazes favor pe imediatamente a chaleira ao lume. Est aqui um frio que no se pode. - Quando viu a neta ao lado do fogo com o rosto marcado pelas
lgrimas receou o pior. - Malditos gatos mortos. Eu sabia! - resmungou, fechando a porta atrs dela.
- Rita, anda para a sala. A Ruth traz-me uma chvena de ch, no trazes, Ruth?
Rita trocou um olhar com Max e sorriu com cumplicidade. Ele correspondeu-lhe, cheio de energia e de felicidade, porque ela estivera perto dele e confiara nele. Rita
seguiu a av pelo corredor.
- Eu sabia que isto ia acontecer. Senti-o nos meus ossos. Podem ser velhos, mas so muito sensveis. Nunca me enganam. Entrou na sala e viu que havia gatos sentados
em todos os sofs e em todos os assentos junto das janelas. Acenou com a mo para os enxotar, mas foi como se no a tivessem visto. - Bem, vamos sentar-nos confortavelmente
para me contares tudo o que te aconteceu. Que diabo se est a passar?
Rita contou-lhe tudo. Tambm lhe falou do conselho que Maddie lhe dera to despreocupadamente.
- Tenho medo que ele se tenha fartado de mim por eu no ter querido ir para a cama com ele.
Mrs. Megalith parecia  prova de choque. Franziu as sobrancelhas, irritada, e acenou reprovadoramente a cabea.
- De maneira nenhuma. Que tola me saiu a tua irm. No h nada errado em fazer amor, desde que seja com amor. O problema da Madeleine  ir com todos os que a chamem.
Desconfio que est a tornar-se uma galdria. Mas agora no estamos a falar da Madeleine, estamos a falar de ti. O sexo no tem nada a ver com o assunto, Rita.
- Eu acho que ele j no quer casar comigo, av - disse Rita, menos chorosa desde que tinha desabafado com Max.
Mrs. Megalith fez um estalido com a lngua.
- Claro que quer. Est confuso, e  tudo. D-lhe um ano na Argentina e vais ver como volta a ser o que era. No te esqueas que ele passou um mau bocado. Esteve
preso  RAF todo o tempo que durou a guerra. Imagino o que lhe parecer a ideia de voltar a prender-se, aqui, em Frognal Point. Ele  novo, deixa-o partir.
- Est a dizer que devo ficar e esperar por ele?
- Qual  a outra escolha?
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Mrs. Megalith tinha razo. No podia partir sem casar com ele, e ele estava receoso de assumir o compromisso. J tinha esperado trs anos, que importncia tinha
mais um?
- Se isso quisesse dizer que o velho George que eu conheci voltava, podia partir por quanto tempo quisesse.
- Tens razo, filha.  esse o esprito. - Mrs. Megalith acenou aprovadoramente. - Mas quanto tempo ser preciso para ferver uma chaleira de gua? - perguntou, virando-se
para a porta.
Quando Rita voltou para casa de bicicleta sentia-se muito mais leve, embora continuasse apreensiva em relao ao que decidira. A av tinha razo. Se George se afastasse
da Europa durante uns tempos, talvez conseguisse assentar. Recordou os ltimos dez anos e a profundidade da amizade que os unia. Recordou as breves ausncias nos
primeiros tempos da guerra, na altura em que tinha sido colocado em Biggin Hill, antes de ter sido enviado para fora. Tinham passeado pela praia e recordado como
as coisas eram antes da guerra. Ele nunca quisera falar das batalhas. A sua segurana parecia encontrar-se no passado. Que tempos idlicos aqueles... Recordou como
tinham chorado amargamente na vspera de ele ter sido enviado para Malta. George dissera que era graas a ela que conseguia seguir em frente. Era a fotografia dela
que mantinha na carteira. No lhe tinha ele dito que a manteria ali at ao dia da sua morte? No era possvel que um lao to forte pudesse ser quebrado de um dia
para o outro.
- Pareces um bocadinho nervosa, Rita - observou a me quando ela chegou a casa. - Ests a sentir-te bem?
- Estou ptima - respondeu Rita. Eddie e Maddie olharam para ela, maliciosamente.
- Porque esto todos a olhar para mim? - queixou-se.
- Como est George? - perguntou Eddie, que quase no conseguia conter o riso.
Rita olhou para a irm de olhos semicerrados.
- Tens andado a espiar-me, Eddie?
- No - mentiu a irm.
De repente, Rita sentiu-se irritada.
-  o costume - desabafou. -  impossvel ter privacidade nesta casa. No admira que George queira ir para a Argentina. Hannah pousou a galinha que estava a preparar
e voltou-se. O esgar de riso desapareceu
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do rosto de Eddie, e Maddie levou a mo  boca, horrorizada. - Sim, vai trabalhar para a Argentina.
A sua afirmao foi ouvida num silncio chocado.
- E tu vais com ele? - perguntou Eddie por fim.
- Como  que eu posso ir com ele?
- Com certeza ele vai casar contigo, querida. - A voz de Rita deixou transparecer o sofrimento.
- Ele no quer.
- Oh, minha filha... - comeou a me, que se encaminhou para ela de braos abertos.
No entanto, Rita recomps-se.
- Eu estou bem, no se preocupem. Agora vou tomar banho - disse, e saiu a correr da cozinha.
Mal a irm saiu, Maddie comeou a discutir o assunto.
- O que acham que aconteceu? Esta tarde pareciam to felizes! Pergunte  Eddie!
Hannah olhou Eddie, esperanosamente.
- Estavam a beijar-se na gruta da praia - contou Eddie.
- Qual gruta?
- A me sabe, aquela que fica para a esquerda quando descemos o carreiro.
- J sei, a gruta das gaivotas. Quando eu era pequena havia sempre muitas que faziam ninho nessa gruta. Ano sim, ano no. Mas a que vem isso? - disse com um gesto
da mo, como se quisesse pr as questes insignificantes de lado. - Quem me dera que o Humphrey estivesse aqui. Ele havia de saber o que fazer. Espero que ela tenha
razo. Ser que devia subir e ir falar com ela?
- Acha que ele no quer mesmo casar com ela? - perguntou Maddie. - Que horror. Ela esperou por ele anos e anos. Que estupor!
- Maddie, no uses esse tipo de linguagem, se fazes favor - ralhou delicadamente Hannah. - Devem ter tido uma discusso ou coisa assim. Aposto que no teve importncia
nenhuma.
- Mas ento porque vai ele a correr para a Argentina, se ainda agora voltou? - disse Maddie, mordendo o lbio inferior.
- Eu no gostava que a Rita se fosse embora - disse Eddie numa voz fraquinha. - No sei o que faria sem ela.
- Minha querida, se a Rita fosse para a Argentina, todos amos ter saudades, mas vamos apoiar a deciso dela. Alm disso, eles no vo ficar
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aqui para sempre, tenho a certeza. - Voltou a pegar na galinha, sem o menor entusiasmo. - Quando ela descer acho melhor no falarmos no assunto. A no ser que ela
queira, claro.
Quando Humphrey voltou do escritrio, Hannah contou-lhe rapidamente o que se passava. O pai de Rita ficou com o rosto da cor das ameixas no jardim e bebeu um copo
de usque de um trago.
- Ele h-de casar com ela! - disse com uma voz tranquila. - Rita
no vai para a Argentina sem um anel no dedo.
Hannah comeou a sentir-se mais confiante depois de o marido regressar. Alm disso, quando Humphrey falava com aquela voz grave, o que dizia era para se fazer. Quando
as midas ainda eram pequenas, nunca lhes gritava quando faziam traquinices. Limitava-se a falar com elas com uma calma gelada, o que as fazia tremer da cabea aos
ps.
- Falaste com ela? - perguntou ele.
- No. Ainda no.
- Bem, nesse caso no vamos fazer uma tempestade num copo de gua. No fim de contas, o rapaz ainda agora voltou da guerra e precisa de tempo para se adaptar. - Antes
de sair da cozinha, voltou-se para a mulher e acrescentou: - Mas uma coisa digo-te j. Ele no h-de tratar a nossa filha como trata para depois no casar com ela.
Ao jantar, ningum falou de George Bolton. Rita sabia que Eddie e Maddie estavam mortinhas por falar do assunto, mas manteve as suas preocupaes para si mesma.
Nem sequer lhes disse que tinha ido visitar a av. Quando as coisas corriam mal, Rita gostava de se isolar para lamber as feridas.
Como no conseguia dormir, sentou-se  janela a olhar para a Lua. Seria possvel que George tambm estivesse a olhar a Lua e a pensar nela?
Max atravessou o jardim e desceu em direco ao esturio. O seu caminho era iluminado pela Lua, brilhante e fosforescente. Levava na mo um livro muito gasto de
poesia que em tempos pertencera  me. Recordou Rita e a conversa que tivera com ela na cozinha. Era em alturas daquelas que mais sentia a falta dos conselhos da
me. Estava certo de que a me teria aprovado a sua escolha, apesar de Rita no ser judia.
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A me de Max fora actriz, uma mulher de temperamento bomio, que usava vestidos vaporosos e peles macias. O pai fora banqueiro. Recebera um ttulo do imperador Carlos,
por ter feito o ltimo emprstimo  casa imperial. Max recordava-se de brincar no Teatro Imperial, que o pai construra especialmente para a me depois de a ter
visto actuar ainda muito jovem. Gostava de contar como se apaixonara, a primeira vez que a vira entrar no palco. A luz projectada sobre ela era de tal maneira forte
que penetrara at ao fundo da sua alma e o deslumbrara, a ponto de no ter conscincia de mais nada para alm da presena dela e da sua necessidade desesperada de
a ter. Fora por isso que mandara construir um pequeno teatro com cortinas de veludo carmesim e candelabros reluzentes, e com o tecto decorado com rosas e cisnes,
mandados fazer aos melhores artesos de Viena. Fora ali que, ajoelhado, lhe pedira a sua mo. Isso acontecera antes de ter perdido a fortuna, em 1918, quando o imprio
rura e as suas minas haviam ficado na Checoslovquia, um novo pas independente. Em rapaz, Max gostava de ouvir as histrias dos tempos de fama da me, que fora
a coqueluche de Viena. Todas as grandes figuras da corte tinham frequentado o teatro para a admirar, mas nada lhe dera tanto prazer como ver o prprio marido no
seu camarote particular, mobilado especialmente para ela. Nem sequer vira o prncipe de Gales entre a assistncia, num dia em que este insistira em ver com os prprios
olhos a jia secreta que toda a Viena admirava.
Max ajustou melhor o casaco e olhou a praia. A mar estava baixa e as poas de gua deixadas na areia brilhavam com uma tonalidade de prata. As aves marinhas estavam
em silncio. A brisa era forte e fresca e cheirava a maresia. Voltou os olhos para o cu, para a esfera brilhante suspensa entre estrelas refulgentes, e lembrou-se
das vezes que em criana olhara com igual encantamento aquele mesmo espectculo. O seu corao sofria por Rita. No podia falar do seu segredo a Ruth nem a Mrs.
Megalith; tudo o que podia fazer era ler a poesia da me e retirar algum conforto da companhia de outros que tambm tinham sofrido com amores no correspondidos.
Trees dormia profundamente, sem se aperceber da ansiedade que impedia a mulher de fazer o mesmo, a trabalhar em barro no seu pequeno estdio ao som tranquilizador
da Sinfonia Alpina, de Richard Strauss. As mos trabalhavam incessantemente o barro, moldando e alisando, mas
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a sua mente fervilhava, cheia de preocupao pelo filho, incapaz de aceitar que ele ia partir de novo. No conseguia deixar de sentir um certo ressentimento contra
o marido por ele ser capaz de se alhear assim dos problemas da famlia. A nica coisa que parecia anim-lo ultimamente eram as nogueiras. O seu pensamento acabou
por divagar na direco de Thadeus Walizhewski.
As pessoas da aldeia consideravam Thadeus um excntrico. Era um homem metido consigo, que andava na sua vida sem nunca falar de si. Mas este homem permitira que
Faye entrasse na sua vida, e ela descobrira nele um homem culto, elegante e cheio de dignidade. Tocava violino com a sensibilidade de algum que amara, perdera,
e sobrevivera a tempos terrveis. Lia Voltaire, as peas de Molire e a poesia de um seu compatriota, o poeta polaco Adam Mickieiewicz.
Thadeus refugiara-se em Inglaterra em 1939, quando os Russos tinham chegado ao seu pas natal, e fugira ao sabor do destino at quele recanto sonolento do Devon.
Sempre jurara que havia de regressar um dia para reclamar a sua casa, mas parecia ter mais que os seus sessenta e dois anos e j tinha sofrido o suficiente. Em Faye
encontrara a alma gmea, uma mulher que o compreendia, e lentamente o amor nascera entre os dois. Conquistara-a com os seus olhos plidos e lquidos e com a sua
paixo sem limites. Juntos tocavam os seus instrumentos, liam livros e conversavam. Ao contrrio de Trees, Thadeus ouvia. No se limitava a ouvir com os ouvidos;
ouvia com todo o corpo, tocava-a de vez em quando para lhe mostrar compaixo, compreenso, e ria-se, com um riso profundo e contagiante. Ao princpio, fora uma aventura
exclusivamente intelectual e ela nunca pensara dormir com ele. Mas uma noite Thadeus falara-lhe dos horrores sofridos pela famlia dele s mos dos Russos e ela
entregara-se-lhe para o reconfortar. Fizeram amor de maneira ao mesmo tempo terna e ardente, como a msica que tocavam em conjunto e a poesia que ele lhe lia. Com
isso ele conseguia fugir ao seu passado e ela  guerra e ao medo pelo filho. Desde que George regressara no voltara a visit-lo.
Os dedos de Faye trabalhavam como se fossem movidos por controlo remoto, enquanto ela ia pensando nos conselhos que Thadeus lhe daria. Mesmo que no tivesse nenhum
a dar-lhe, no deixaria de a abraar e de a ouvir, e isso fazia-a sempre sentir-se melhor. Incapaz de suportar a solido por mais um momento que fosse, olhou pela
janela a Lua grande
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e luminosa que a aconselhava a esquecer a prudncia e a ceder aos seus anseios.
George estava  janela do quarto. Sabia que tinha magoado Rita e detestava-se por isso. Sentia a presso para casar com ela, mas no estava pronto para o fazer.
E no poderia lev-la para a Argentina se no fossem casados. Nesse momento, tudo fora j posto em movimento. A me j enviara um telegrama  irm, que vivia em
Crdova, no Norte da Argentina. George sabia que se tratava de uma fuga da sua dor, da memria dos amigos do seu esquadro, dos ecos do passado e do rapaz que ali
vivera um dia.
Os seus olhos foram subitamente arrastados para uma sombra que se afastava da casa, vinda da porta das traseiras, por baixo da janela do quarto dele. Era a me,
que desapareceu por instantes e depois regressou com uma bicicleta. Intrigado, viu-a afastar-se a pedalar.

CAPTULO 7
Quando, no dia seguinte, Rita chegou a Lower Farm para trabalhar, os seus olhos estavam vermelhos e o rosto inchado de tanto chorar. Perguntou a si mesma quanto
tempo continuaria a ser necessria, uma vez que o exrcito estava a desmobilizar os homens, e estes estavam a regressar a casa. Gostava do trabalho ao ar livre e
adorava os animais, especialmente os vitelos e os borregos.
O sol estava forte, mas o ar continuava fresco. Era um ar de Outono. O rouxinol partira, bem como as andorinhas, levando com eles o seu canto alegre e vivo. Mas
os chapins j tinham chegado. Tinha-os visto brincar junto da rebentao, to satisfeitos de pernas para o ar como em qualquer outra posio. A me dava-lhes nozes
e pouco depois eles comeavam a vir comer  mo dela.
Quando Rita apareceu  porta da oficina, Cyril e os rapazes j estavam a falar com George e com Trees. Sorriu-lhes e juntou-se a eles, evitando olhar George, to
ansioso como ela. Sentiu a tenso no ar e quase no conseguiu ouvir uma palavra do que lhe dizia Cyril. Mildred tambm se apercebeu do que se passava, pois encontrava-se
aos ps de Trees a pestanejar pouco  vontade.
- Muito bem, Rita, tu vens comigo - disse Cyril quando acabou de explicar as tarefas do dia. George conseguiu dar-lhe uma palmadinha no ombro antes de ela sair.
- Preciso de falar contigo - soprou-lhe ele.
- Mais tarde - respondeu ela, apressando-se a seguir Cyril. A sua voz no tinha um tom muito amigvel.
- Aposto que um Spitfire  mais fcil de pilotar que uma mulher - brincou Trees, de olhos postos no filho.
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- E as rvores tambm - brincou, contudo, por dentro sentia-se morto.
Rita comeou o dia de trabalho varrendo as vacarias. Tentou concentrar-se no ritmo da vassoura no cimento, fixar os olhos na palha velha que arrastava, em qualquer
coisa que no George. Sentia que a ansiedade lhe contraa os msculos da garganta e do pescoo e os fazia doer. Estava to absorvida no trabalho que nem notou em
George, que abandonara o trabalho no tractor para ir ter com ela. Teve um sobressalto quando ele apareceu.
- George, no devias assustar as pessoas dessa maneira! - exclamou, e continuou a varrer, desta vez com mais vigor.
- Pra de trabalhar, por amor de Deus. Quero falar contigo.
- De qu? - perguntou ela, e endireitou-se.
- De ns. Desculpa ter-te magoado ontem  noite.
Rita comeou a sentir-se culpada por ter sido to desagradvel.
- No tem importncia. Eu sei que as coisas no esto a ser fceis para ti.
- Vem comigo. Vamos sentar-nos num stio qualquer para conversar - sugeriu ele, pegando-lhe pela mo.
Ela seguiu-o para o exterior e sentou-se ao lado dele na erva, ao sol. Algumas folhas voaram com o vento. No meio delas um tordo saltitava, brincalho.
- Espero que o Cyril no me apanhe a fugir ao trabalho - disse ela.
- Eu sou o filho do patro, por isso posso fazer o que me apetecer, e apetece-me falar com a minha futura mulher. - A boca dele teve um trejeito que lembrava um
sorriso e Rita sentiu no estmago um calor de felicidade. Ele pegou-lhe na mo e prendeu-a entre as dele. - Eu amo-te, Rita, e no quero ningum seno a ti. Crescemos
os dois juntos e nascemos um para ao outro. Acho que nem vale a pena estar a dizer-te isto. - Estudou o rosto dela por um momento, preocupado em no ofend-la. -
Mas no me sinto pronto para casar. S tenho vinte e trs anos e, at agora, tudo o que sei da vida foi visto da carlinga de um avio. No queria assentar j, sou
muito novo para isso. Mas tu compreendes-me, no compreendes? Em parte, tenho a impresso de j ter vivido o ponto alto da minha vida. Nunca vou ter de enfrentar
um desafio to grande como o que j enfrentei, nem vou voltar a empenhar-me tanto num objectivo, nunca mais. Mas, por outro lado, tenho a impresso que me
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roubaram qualquer coisa, a minha juventude, a minha inocncia, no sei.  como se algum me tivesse partido aos pedaos e tivesse voltado a montar tudo com as peas
trocadas.
A voz dele era calma, mas pressentia-se nela um tom de desespero que despertou a compaixo de Rita.
- Eu compreendo - disse ela, levando a mo dele  boca e beijando-a com suavidade. - Querido George, eu espero por ti o tempo que for preciso. Vai para a Argentina,
explora o mundo, abre as asas e deixa o vento levar-te.
Ele fixou os olhos no rosto dela com uma expresso to terna e afectuosa que ela ficou sem respirao e comeou a corar.
- Eu no te mereo, Rita - disse ele com a voz embargada. - Apoiaste-me com o teu amor e as tuas cartas ao longo de todos os anos que durou a guerra e agora ests
na disposio de suspender ainda durante mais tempo a tua vida. No h outra igual a ti. - As palavras dele fizeram-na sentir-se orgulhosa. - Assim que eu voltar
casamos e comeamos a ter filhos. Havemos de ter filhos lindos os dois.
Ela riu-se um pouco e deixou-o atra-la a si para lhe beijar o rosto, junto ao cabelo.
- A av sempre ameaou emprestar-me o vestido dela.
Ele riu-se, contente por poder corresponder  fantasia dela e falar do casamento dos dois.
- Vo caber dez iguais a ti dentro do vestido dela.
- Ela diz que em nova era magra e muito bem-parecida!
- Nem com muita imaginao consigo fazer ideia de uma coisa dessas...
- Tanto me faz usar uma coisa como outra no dia do nosso casamento. S queria ser tua mulher e fazer-te feliz. Tenho to pouca esperana! Eu sei que ests a sofrer,
mas no consigo ajudar-te.
- Consegues, sim. Basta-me estar contigo para me sentir melhor.
- Ainda bem que vieste ver-me ontem  noite, embora eu gostasse que tivesses ficado at de manh - disse Thadeus afagando o cabelo de Faye. Ela raramente o usava
solto, mas Thadeus insistia que o fizesse. Dizia que o cabelo apanhado lhe dava um ar muito severo.
- Tambm eu. Senti a tua falta - respondeu ela.
-  noite tudo parece muito pior. A luz do Sol afasta as preocupaes, enquanto o luar parece torn-las maiores.
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Ela aconchegou-se a ele. Parecia fazer calor no jardim. No era s Thadeus que a enchia de tranquilidade; era a prpria atmosfera do jardim. Com uma forma oval,
estava rodeado de rvores, arbustos de rododendros e teixos. Era um paraso verde e vibrante, onde Faye se sentia segura e livre dos seus prprios problemas. Como
ficava junto de um caminho solitrio, no havia perigo de a relao dos dois vir a ser descoberta por visitantes indesejados ou curiosos. Thadeus no tinha amigos
prximos. Era uma espcie de grande urso solitrio. Tinha cabelo grisalho e desalinhado e um rosto longo e muito vivido. Usava barba, uma barba macia, onde ainda
havia uma certa tonalidade amarelada - o nico sinal de que em tempos fora aloirada e culos redondos. Faye adorava encostar o rosto  barba macia dele e aninhar-se
contra ela. Antes de Thadeus, nunca beijara nenhum homem de barba.
- As preocupaes que os filhos nos do...  a maldio da maternidade - disse com um suspiro.
- S podes fazer o que est ao teu alcance. Os pais trazem os filhos ao mundo e depois deixam-nos por conta prpria. George tem de encontrar o seu prprio caminho.
O destino  um tio que no dominamos. Leva tudo  frente, salta as rochas, as cascatas e acaba por descansar um pouco nalguns lagos. No podes segui-lo, por isso
o melhor  renderes-te s foras que so maiores que as tuas e entregares-te nas mos de Deus.
- Mas serei capaz de viver sem ele? - Thadeus puxou-a mais para si.
- Da mesma maneira que viveste quando ele andava a pilotar aqueles avies.
-  possvel que nunca volte.
- Isso  um assunto com que vais ter de lidar na altura prpria. No percas tempo a ter medo de coisas que podem nunca vir a acontecer.
-  difcil no o fazer.
- Vive para o dia-a-dia, Faye. A felicidade  o resultado de tentarmos opor-nos s coisas. Deixa-te levar pela corrente, no ofereas resistncia. O que for soar.
A vida  muito tempo.
Ela tomou o rosto dele nas mos e beijou-o.
- Querido Thadeus, que faria eu sem ti? s to forte e sensato...
- Sabes porque sou sensato? - perguntou ele, olhando-a com olhos plidos e sensveis. - Porque procurei aprender com todas as experincias que a vida me fez viver.
No h experincias sem valor, por
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insignificantes e dolorosas que paream. Tudo o que nos acontece tem em vista um fim maior. Nunca te esqueas disto. Aprendemos atravs do sofrimento, e atravs
da felicidade celebramos a aprendizagem.
- Vou tentar deixar partir George com alegria no meu corao. Ele no me pertence, tenho de me lembrar disso. - Depois sorriu-lhe com timidez. - Mas no vai ser
fcil.
- Se as coisas forem fceis de mais, ests no caminho errado. No fim de contas, se no formos obrigados no aprendemos. Nessa altura ps-se de p. - Anda, vamos
tocar um pouco juntos. No h nada como a magia da msica para acalmar a alma. Ela entrou com ele em casa e viu-o pegar no violino, assent-lo sob o queixo e pr
o arco em posio sobre as cordas. - Vamos tocar Chopin. Recorda-me a minha infncia. Nem os Russos conseguiram roubar-me isso.
E tocou para Faye, que o ouviu com o queixo entre as mos, com os olhos hmidos de admirao.
Quando Faye voltou a casa para almoar, Trees estava a lavar as mos enquanto Mildred lhe cheirava as botas, que lhe recordavam passeios no campo e piqueniques na
praia.
- Como est o George? - perguntou ela junto da porta. O seu cabelo estava de novo apanhado. Nada no seu aspecto a denunciava, a no ser talvez a cor rosada do rosto
e o seu andar mais langoroso, mas ela sabia que o marido s pensava na quinta e nas suas nogueiras.
Ele voltou os olhos para ela e acenou pensativamente.
- Parece-me que o futuro dele ao lado da Rita est outra vez assegurado - respondeu-lhe.
Faye sentiu-se mais animada.
- Oh, ainda bem. Graas a Deus. Ele vai lev-la com ele para a Argentina? Disse-te alguma coisa sobre isso?
Trees abanou a cabea.
- No disse uma palavra.
- Vm almoar?
- Devem ser eles que esto a chegar - respondeu-lhe o marido fechando a torneira.
As vozes despreocupadas e alegres dos dois anunciaram a sua chegada pela porta das traseiras. Faye deixou o marido a secar as mos e foi ao encontro deles. Estava
encantada por ver que a cor voltara ao rosto de ambos e que brincavam um com o outro entre risadas.
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- O que  o almoo, me? - perguntou George enquanto descalava as botas.
- Carne fria.
- Depois de uma manh de trabalho duro no campo um homem precisa de uma boa refeio.
- E uma mulher tambm - disse Rita, apoiando-se no ombro de George enquanto tambm ela se descalava.
Enquanto Faye punha a mesa e servia o almoo, George falou-lhe dos seus planos.
- A ideia  casarmos assim que eu voltar. Vocs olham pela Rita durante o tempo que eu estiver fora, no olham?
Faye sorriu a Rita com admirao.
- Tu s uma boa rapariga - disse-lhe. - O George tem muita sorte por te ter.
- Eu espero por ele o tempo que for preciso - respondeu, apreciando a ateno que compensava o seu sacrifcio.
- Vocs tm o resto das vossas vidas para ser casados - disse Faye, recordando as palavras nostlgicas de Thadeus. - A vida  muito tempo.
S quando Faye procurou disfarar um bocejo durante o almoo  que George se lembrou de ver a me sair de casa a meio da noite. Talvez tivesse sido um encontro secreto,
com quem, no fazia ideia, e sentiu instintivamente que era melhor no perguntar. Viu o pai trinchar a carne, como sempre absorto em qualquer coisa distante. Depois
olhou para Faye. Os seus olhos estavam brilhantes e o rosto rosado, mas a expresso era inocente, to inocente como a de um anjo. Achou que fora uma ideia disparatada
e p-la imediatamente de lado, envergonhado por ela lhe ter ocorrido. Faye era uma boa esposa e me, alm de ser uma crist devota. Pegou na mo de Rita e no voltou
a pensar no assunto.
Ao fim da tarde, George foi levar Rita a casa e parou no caminho, no stio onde tantas vezes tinham visto o pr do Sol. Havia uma brisa ligeira e fresca, que anunciava
de forma definitiva o fim do Vero. Ambos olharam o mar ao longe e  luz dourada do dia que terminava sentiram o calor de uma poca encantada que estava a terminar.
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- A Rita e o George j se amam outra vez! - guinchou Eddie, correndo at casa para dar as boas notcias  me. - Esto sentados na falsia aos beijos.
Hannah continuou o tric. No queria encorajar a filha mais nova a meter o nariz nos assuntos dos outros, apesar de ela lhe trazer notcias animadoras.
- Que estiveste tu a fazer para esses lados?
- Estive a apanhar conchas com a Amy. No estive a espiar, juro. - Eddie atirou-se para uma cadeira de braos. - Isto quer dizer que a Rita se vai embora?
- No sei. Temos de esperar at ela voltar.
- Passa a vida na praia. Devia ter nascido gaivota!
- E se ela fosse gaivota o que  que tu eras? - Hannah riu-se e parou as agulhas para prestar ateno  sua filha mais divertida.
- Um morcego, como o Harvey.
- Os morcegos so uns bichos muito feios...
- O Harvey no, o Harvey  lindo. O pai est sempre a dizer que a beleza est nos olhos de quem v. E eu acho que ele  adorvel. - Soltou-o da manga da camisola
a que o morcego estava agarrado e p-lo na mo. - Olhe s para o narizinho dele e para os olhinhos to brilhantes. Ia jurar que ele estava a sorrir para mim.
- Eu pensava que os morcegos eram cegos.
- Mas ele sente-me. Somos muito amigos.
- Nesse caso, no h dvida que no s morcego, porque tu vs de mais para o teu prprio bem.
Rita voltou para casa com as boas notcias. Humphrey serviu-se de um usque e Hannah telefonou  me.
Mrs. Megalith pousou o auscultador e abanou a cabea, descontente.
- Era Hannah. O George vai para a Argentina e a Rita esperar por ele aqui - disse ela a Max e a Ruth. - No vai servir de nada. Parece que o sinto nos meus ossos.
- Quanto tempo  que ele vai ficar l? - perguntou Max, pondo o livro que lia de parte.
- No tem planos. Vai at l e depois  que v. Parece-me descontrado de mais, se querem saber. - Mrs. Megalith sentou-se  mesa de jogo e mergulhou a mo numa
taa de pequenos cristais. Inspirou
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profundamente, procurando absorver a energia e lev-la at aos ombros tensos atravs dos braos estendidos. Quando abriu os olhos, havia cinco gatos sentados aos
seus ps a lamberem-se. - A Rita devia ir com ele - disse ela, ignorando os gatos.
- No fica bem ir solteira - contrariou Max, que no gostaria de encorajar Rita a deixar Frognal Point.
- Maldita conversa! Ela devia deixar-se de coisas e ir com ele, ou ento acabar por perd-lo.
- O George pode apaixonar-se por outra pessoa - disse Ruth, que falava pouco mas ouvia tudo.
- Pois pode, Ruth - respondeu Mrs. Megalith. Max coou o queixo.
- Pobre Rita - murmurou.
- Ela  jovem, e os jovens recuperam muito depressa. Um corao despedaado  um corao  espera de ser consolado. E ela  muito mais resistente que Humpty Dumpty,
garanto-vos. - Enquanto dizia estas palavras acariciava pensativamente o seu pendente de selenite.
Max recordou a noite anterior, em que Rita chorara nos seus braos. Agora que se sentia feliz j no ia reparar nele. Passou pelo meio dos gatos e saiu para a noite
escura. Acendeu um cigarro da mesma maneira que George, segurando-o entre o polegar e o indicador. Como desejara que a idade lhe tivesse permitido lutar na guerra,
usar um elegante uniforme azul da RAF! George era um homem corajoso e cheio de encanto. Um heri. Quantas vezes teria ouvido dizer que fora graas a homens como
ele que os nazis no tinham conseguido ocupar o Reino Unido? Onde estaria agora ele prprio se Hitler tivesse vencido a guerra? Morto como os pais? Gostaria de ter
atirado alguns ao mar, mas no passava de um rapaz, e os rapazes no impressionavam raparigas como Rita. Andou um pouco pelo jardim, iluminado pelas luzes da casa.
 parte o arrulho de um pombo e o assobio de um faiso, tudo estava calmo. Se a guerra tivesse continuado, teria acabado por se oferecer como voluntrio. Assim,
nunca seria um heri. Mas uma coisa era certa: acabaria por fazer alguma coisa da sua vida, pelos pais, por Rita, e depois, quando tivesse feito fortuna, compraria
o Teatro Imperial, mandado construir pelo pai, que havia de restaurar at ficar como nos seus tempos de maior glria.
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O Outono passou e o Inverno instalou-se. O dia da partida de George chegou e recordou a Rita aquele em que ele partira para Malta. Sentiu o mesmo vazio interior,
o mesmo n no estmago, o mesmo receio de ficar s, sem nada a no serem cartas a lig-la ao homem que amava. No entanto, disse a si mesma que quanto mais depressa
ele partisse mais depressa regressaria e mais depressa casariam e comeariam a sua vida a dois.
Choveu toda a manh. George foi busc-la na carrinha e foram os dois at  praia uma ltima vez. Desceram o carreiro a correr e dirigiram-se  gruta. No mar havia
tempestade e o cu estava escuro. Havia poucos pssaros, a maior parte gaivotas de cabea preta. Os seus grasnidos eram levados pelo vento,  mistura com o sal e
os salpicos do mar. Ao olhar para a desoladora baa, Rita teve a impresso que a Primavera nunca ali voltaria.
A gruta estava hmida e fria. Sentaram-se aconchegados no stio mais distante da entrada, onde o mar ainda no tinha apagado os vestgios de amor que ali tinham
deixado. George percorreu o rosto de Rita com a mo e apagou as lgrimas dela com os dedos. Beijou-a, sentindo o sal nos seus lbios e a infelicidade na sua pele
e prometeu regressar em breve.
- Um dia havemos de nos sentar aqui enquanto os nossos filhos estiverem na escola e havemos de nos lembrar deste dia. - Rita enterrou o rosto no peito dele e chorou
em silncio. - Acho que  melhor comeares a tirar o vestido da tua av do armrio para o provares. Vai ser preciso muito trabalho e eu quero que esteja pronto quando
eu voltar. - Depois meteu a mo no bolso e tirou de l uma pequena caixa preta. - Quero que andes sempre com ele - disse-lhe, entregando-lha.
Rita sentou-se e limpou o rosto a uma manga.
- O que ? - perguntou, abrindo-o. Um solitrio brilhava no meio do veludo preto da caixa.
- Ia dar-to quando regressasse, mas quero que fiques com alguma coisa que te lembre o nosso compromisso. - Retirou ele prprio o anel e ps-lho no dedo mdio da
mo esquerda. - Aqui est, parece feito de encomenda para ti.
-  lindo - suspirou Rita. -  realmente maravilhoso.
- Sempre que olhares para ele quero que te lembres de como te amo - disse ele com solenidade.
Rita lanou os braos ao pescoo dele e beijou-o.
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- E eu quero que, sempre que olhares para a Lua, te lembres do meu amor por ti.
Ficaram na gruta at poderem, depois voltaram para a carrinha. Rita no conseguia tirar os olhos do anel e mexia a mo para ver o diamante brilhar de todos os ngulos.
Foram de mos dadas todo o caminho at Lower Farm, onde Trees, Faye, Alice e os midos os esperavam. Foi uma despedida sombria. Faye tentou conter as lgrimas, lembrando-se
do conselho sensato que Thadeus lhe dera, e Alice, entristecida pela deciso do irmo de partir de novo, pegou em Jane ao colo e observou Rita com simpatia. O marido
dela, Geoffrey, tivera a sorte de sobreviver  guerra como George. Achou que no ia conseguir suportar que Geoffrey anunciasse, ao voltar, que tencionava partir
de novo, para o outro lado do mundo. Alm disso, temia aquilo que ningum se atrevia a admitir que George no regressaria.
George beijou toda a famlia e depois abraou Rita pela ltima vez. Ao afastar-se sentiu o cheiro da pele dela e as lgrimas que lhe corriam pelo rosto. No conseguia
dizer o que lhe ia no corao, por isso limitou-se a olh-la com ternura antes de voltar a entrar na carrinha com o pai, que o ia levar  estao. Desceu o vidro
da janela e acenou-lhes em despedida. Todos lhe responderam com acenos, mas os seus olhos ficaram presos a Rita at ao ltimo momento em que a carrinha virou, ao
chegar  entrada da quinta. S ento desviou os olhos.
Ainda nesse dia, Faye sentou-se a trabalhar o barro, tentando manter a mente afastada da sua dor. Recordou as palavras de Thadeus, que lhe dissera que no era dona
de George; limitara-se a traz-lo ao mundo, e am-lo significava deix-lo livre de cometer os seus prprios erros e de aprender com a sua prpria experincia. Era
uma filosofia muito reconfortante.
Alice foi dar um passeio com os filhos e depois voltou para casa, triste com a despedida. Quando Geoffrey, por fim, regressasse a casa ia agarrar-se bem a ele.
No seu quarto, Rita via a chuva cair do outro lado das vidraas e deixava-se afundar na amargura. Brincava com o anel e recordava os seus momentos mais ntimos com
George. Ao fim de algum tempo reparou num pisco empoleirado no peitoril da janela, a debicar o vidro com o bico.
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Parecia querer falar com ela. Devagar, Rita ps-se de p e com muito cuidado para no o assustar abriu a janela. Para sua surpresa, a avezinha entrou no quarto e,
depois de dar algumas voltas, pousou na estante. Saltitou de livro em livro at se empoleirar num jarro de barro que Eddie tinha feito na escola, onde ficou a saltitar
at que voltou a sair, em busca de materiais para construir o ninho.

CAPTULO 8
George ia sentado no convs do Fortuna. O porto estava envolto numa nvoa hmida e cinzenta de onde as gruas dos cargueiros emergiam como dinossauros de outras eras.
Tambm havia muito rudo, vozes que ecoavam atravs do ar hmido, acompanhadas pelo estrpito dos motores e a sirene distante de um navio de cruzeiro prestes a partir.
Sentia-se entorpecido pela tristeza e mais s do que alguma vez sentira. Uma gaivota voava sobre o cais. O grasnido melanclico da ave recordou-lhe a sua luta interior
e a gruta, Rita e a juventude que perdera no cu. Sentia-se um homem velho, sobrecarregado pela culpa e os ressentimentos, cansado da vida. Queria apagar todos os
seus sentimentos, suprimi-los um a um e separar os que representavam as sombras e os que lhe lembravam a cor. Nesse momento estavam to misturados que s sentia
turbulncia.
Fumava rodeado pelo nevoeiro, sentindo-se reconfortado por algo que fora um apoio constante ao longo da guerra. Fumar ajudava-o a relaxar, fazia-o sentir-se melhor,
como acontecera no fim de qualquer ataque ou durante um servio de escolta pelo Norte de Frana. Com o esquadro  sua volta, conhecera esse sentimento de pertena,
de realizao e de determinao. Mais tarde, quando conseguiu reconciliar-se com o medo de morrer, sentiu uma espcie de paz, mas nunca foi capaz de se habituar
 morte dos amigos: Jamie Cordell, Rat Bridges, Lorrie Hampton nunca os esqueceria. Depois de conseguir vencer o medo da morte, tinha de combater para vencer o medo
de viver. No tinha objectivos, nem motivao, nem um sentimento de pertena em relao a nada. Sentia-se  deriva.
O barco estremeceu e comeou lentamente a afastar-se do cais. Olhou na direco do mar e da espuma que se via  superfcie e, por fim,
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dirigiu o olhar para a costa sombria. Adeus Inglaterra, adeus guerra. Quando voltar serei um homem diferente.
Durante as duas primeiras semanas, George no falou com ningum. Quase no reparou nas pessoas que viajavam com ele e no encorajou conversas com estranhos que no
tinha vontade de conhecer. Passava os dias sentado no convs, a fumar ao vento, perdido no passado. No pensava especialmente no futuro. Nunca estivera na Amrica
do Sul e por isso no sabia bem o que esperar. Havia muitos passageiros no barco que teriam gostado de partilhar com ele as suas experincias da Argentina, mas ele
afastou-os deliberadamente. Passavam o tempo a jogar xadrez e brdege, montavam peas com as crianas, danavam toda a noite e faziam amigos no bar. Estavam ocupados
de mais para reparar nele, ou talvez tivessem visto como franzia o sobrolho e tivessem dito aos filhos que no se aproximassem dele.
O barco fez escalas em Lisboa, na Madeira, no Rio de Janeiro e em Santos. Aproveitou essas ocasies para desentorpecer as pernas e passear por essas cidades. Agradava-lhe
pr os ps em terra firme durante algumas horas e sentir os aromas da terra e da natureza. Ao longo do Fortuna apareciam pequenas embarcaes com comerciantes que
montavam as suas bancas de produtos a bordo. No Brasil, George lembrou-se de Rita, quando viu as braceletes de prata e de ouro barato. Teve vontade de lhe comprar
uma coisa que lhe mostrasse que sentia a falta dela. Qualquer coisa especial. Procurou no meio da joalharia, alguma de boa qualidade e outra to malfeita que dificilmente
conseguiria aguentar o transporte, ficando desfeita quando chegasse a Inglaterra. A certa altura, os seus olhos ficaram presos a um pingente. Era uma ave feita de
prata com asas totalmente abertas e olhos de turquesa. Assim que a viu percebeu que teria de a comprar. O vendedor, um homem magro com cabelo preto e um rosto escuro
sorriu de satisfao quando George lhe disse que queria comprar aquela pea. Pensou num preo, duplicou-o e ficou encantado quando George pagou sem hesitar. O homem
embrulhou-o em papel pardo e entregou-lho.
- Bird, good luck - disse num ingls retorcido a apontar para o pacote - Good luck.
- Ele quer dizer - interferiu um passageiro que tambm observava as peas de joalharia - que as aves simbolizam a boa sorte. Na verdade, em tempos antigos eram consideradas
mgicas por poderem voar. Cada
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uma tem um sentido diferente. Que pssaro  o seu? - George desembrulhou a jia e mostrou a compra ao velho acadmico. Este estudou-a com ateno, para grande surpresa
do vendedor, que imaginou que a observavam em busca de defeitos. - Parece uma pomba. As pombas simbolizam o amor, a felicidade e o xito matrimonial. Aparecem nas
histrias dos Babilnios, dos Hebreus e dos Gregos como smbolo de paz e de reconciliao. A pomba que leva o ramo de oliveira no bico a No, na sua arca, tornou-se
um smbolo internacional.
George agradeceu-lhe. Fora sem dvida o destino que determinara que escolhesse uma prenda to apropriada para a sua apaixonada.
S no princpio da terceira semana,  vista da costa do Brasil, sentiu curiosidade por outra pessoa que viajava no navio. Foi ao princpio da tarde. Estava sentado
sozinho, a ver o Sol pr-se e a recordar como ele e Rita se sentavam nas falsias em crianas a ver o Sol mergulhar no mar. Era um mar muito diferente daquele oceano
tropical. Os seus olhos foram atrados por uma mulher que se apoiava na amurada para observar o Sol, que mergulhava na linha do horizonte. Estava perfeitamente imvel.
S a parte de baixo do vestido claro danava ao vento, revelando com cada lufada umas pernas elegantes com tornozelos finos. Tinha cabelo muito louro, quase branco,
apanhado ao alto, e um pescoo longo e elegante. Naquela posio, os ngulos do seu perfil no poderiam ser mais valorizados. Tinha um nariz aquilino, mas do rosto
altas e queixo e maxilar bem definidos. Parecia altiva, confiante, um pouco desdenhosa. George perguntou a si mesmo com quem estaria, se seria casada e, se fosse,
com que tipo de homem. Possua uma grande beleza e elegncia. No devia ser fcil de manobrar, concluiu com um sorriso. A mulher no parecia sentir os olhos dele,
pois continuou a olhar o horizonte sem qualquer sobressalto. George acabou por perceber que havia qualquer coisa de triste e nostlgico na sua postura, talvez porque
no se mexia. Uma pessoa feliz no deixaria decerto de se mover de vez em quando, de olhar  sua volta, de sorrir. No entanto, ela limitava-se a olhar em frente,
como se afinal no estivesse concentrada no pr do Sol, mas sim em imagens da sua prpria mente.
Deixou-se ficar ali durante muito tempo. George acabou o cigarro. O Sol baixou profundamente sobre a Terra, deixando uma aura cor-de-rosa no stio onde o cu se
misturava com o mar. Por fim, a mulher deixou cair os braos e afastou-se da amurada. Quando se voltou, ele ficou
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surpreendido por ver que no lado esquerdo do rosto tinha uma cicatriz longa e feia. Ficou horrorizado e compadecido por uma mulher to bela poder ter sido to cruelmente
desfigurada. Os olhos dela cruzaram-se com os dele, mas no se detiveram mais de um breve momento. Ainda ele no tinha conseguido pr-se de p e j ela desaparecera.
A sua curiosidade fora realmente espicaada. Quem seria aquela mulher? Que lhe teria acontecido?
George percorreu os corredores e as salas comuns em busca da mulher. Como teria ela lidado com um golpe to cruel? Num homem, uma ferida daquele tipo aumentaria
a sua masculinidade e o seu poder de atraco, mas numa mulher era uma maldio que a beleza fosse assim desfigurada. Esquecido de si prprio devido  compaixo,
tomou conscincia do que o rodeava e sentiu um renovado desejo de fazer parte daquele universo.
Depois de jantar, exasperado por a mulher misteriosa no ter aparecido na sala de refeies, George encaminhou-se para o bar. Sentou-se ao balco e pediu um usque.
Mal tomou o primeiro gole, um homem idoso, sentado dois bancos mais adiante, inclinou-se na sua direco e perguntou-lhe:
- Tambm vem fugido da guerra?
- A guerra j acabou - replicou George.
- Brigadeiro Bullingdon. - O homem estendeu-lhe a mo e George apertou-a, notando que as sobrancelhas do brigadeiro eram to grandes e peludas que pareciam prontas
a partir do seu rosto a qualquer momento. - Pode ter acabado, caro jovem, mas a sua nuvem ainda paira sobre o pas. Eu participei na Primeira Guerra Mundial, fui
ferido na frente oeste, e foi a que fiquei com esta perna marota, diabos a levem. Tambm gostava de ter combatido nesta. Malditos hunos! Abanou a cabea e bebeu
o que restava do usque de um s trago, puro e morno, como gostava. - O meu caro fez a sua parte, consigo adivinh-lo. V-se pelos seus olhos. Ns podemos mudar,
mas isso nunca nos abandona - explicou, erguendo as sobrancelhas para George.
- Tenente-aviador George Bolton - respondeu de forma automtica.
O brigadeiro acenou com aprovao.
- Um valente - respondeu, e na sua voz transparecia a admirao. - E que o traz a esta parte do mundo?
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- S a promessa de aventura.
- Ento vai ter muitas oportunidades - riu-se o seu interlocutor. - Onde?
- Argentina, Crdova.
O brigadeiro assentiu e molhou os lbios com a lngua, pensativamente. Era uma lngua carnuda, de um jovem.
- Estive l com a minha mulher antes da guerra. Tudo muito verde. Montanhoso, encantador. Vem sozinho?
- Sim - respondeu, recordando Rita e perguntando a si mesmo se ela conseguiria sobreviver noutro continente. O brigadeiro inclinou-se para ele com pouco equilbrio.
- Entre ns, quem me dera estar sozinho. As mulheres argentinas so bem boas, mas com a minha mulher no me posso arriscar nem a olhar! Anda sempre de olho em mim.
- Tossiu e deu uma risada para dentro do copo. - No h nada muito interessante neste navio.
George lembrou-se da mulher misteriosa e tentou adivinhar se o velho brigadeiro saberia alguma coisa acerca dela, mas antes de ter tido sequer oportunidade de abrir
a boca, uma mulher muito engelhada apareceu junto do velho militar e bateu-lhe no ombro.
- Tenho a impresso que j bebeste o suficiente disso, querido.
- Ah, a encantadora Mistress Bullingdon. Esther, deixa-me apresentar-te ao meu novo amigo. O tenente-aviador George Bolton, ao teu servio.
Mrs. Bullingdon estendeu-lhe a mo. Era seca, pouco firme e com muitas manchas.
- Ah, um dos solitrios do navio - disse ela, com uma voz aguda e incerta. - Vi agora mesmo a outra no convs.  uma rapariga estranha, to desfigurada... Que pena.
No admira que no se aproxime dos outros passageiros. Pobre jovem.
- Sabe quem ela ? - ouviu-se George a perguntar.
-  americana, Susan Robertson. Tomei a liberdade de me apresentar no princpio da viagem. Mostrou-se muito distante. Como  evidente, no me importei. Com uma cicatriz
daquelas no rosto... No  casada - acrescentou, mostrando um anel de safira no seu prprio dedo. - Uma mulher repara nessas coisas.
- Que desperdcio. Uma mulher to bem-parecida... - observou o brigadeiro.
- Agora ningum a vai querer. Todas as mulheres merecem um marido e filhos. No fim de contas, que mais reserva a vida s mulheres?
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George no gostou do tom de Mrs. Bullingdon. No teve qualquer dvida de que se sentia encantada com o infortnio da jovem.
- Gostei muito de vos conhecer, mas se me desculpam... - disse, levantando-se do seu banco.
- Vou ser arrastado para a cama por uma matrona - disse o brigadeiro com uma risada desdenhosa e um piscar de olho. - Ser casado com a Esther  como estar outra
vez na escola.
- Quando acordares com uma ressaca a culpa vai ser s tua - disse ela. Depois voltou-se para George. - Fico satisfeita por ver que no  antiptico. Talvez queira
jantar connosco amanh  noite?
George concordou com relutncia, esperando que no dia seguinte se tivessem esquecido, e depois saiu em direco ao convs.
A noite estava lmpida. Acima do navio, a abbada celeste brilhava, vasta e eterna, iluminada pelas estrelas e por uma enorme Lua fosforescente. Tudo estava tranquilo,
 excepo dos motores, com o seu rudo montono, que se ouvia a par da quilha a cortar a gua. O ar tinha uma temperatura amena e uma brisa morna soprava sobre
o navio, trazendo com ela o cheiro fresco do mar. George saiu para o convs pela porta que j antes usara. A mulher estava no mesmo stio, de olhos fixos na escurido.
Hesitou um momento, sem saber como iniciar uma conversa. No queria que ela pensasse que as atenes dele haviam sido motivadas pela compaixo. Tirou o mao de cigarros
do bolso da camisa e bateu-o na palma da mo. Enquanto procurava ganhar tempo, a mulher ignorou-o completamente. Rodeou o cigarro com a mo para o acender e soprou
o fumo ao vento. Por instantes, pensou que ela tinha reparado nele porque a viu mexer a mo para apanhar uma mecha de cabelo que se tinha soltado, o que a fez voltar-se
na sua direco. Mas no o viu. O cabelo continuava a danar desobediente sobre a sua cara, relutante em deixar-se prender.
George aproximou-se devagar e inclinou-se sobre a amurada, como ela fazia.
- Importa-se que me junte a si? - perguntou-lhe, voltando-se para olh-la. Ela endireitou-se e voltou para ele um olhar imperioso.
- Ah,  o senhor - respondeu ela com um sotaque americano. Depois, em resposta  sua expresso surpreendida, acrescentou: - Vi-o olhar para mim esta tarde.
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- Desculpe se a perturbei. - Ela encolheu os ombros.
- Isso teria sido impossvel. Estava concentrada nos meus pensamentos.
- Pareceu-me triste - atreveu-se com ousadia.
A americana pareceu claramente irritada pela compaixo dele.
- Que percebe o senhor do assunto? - respondeu-lhe com um olhar desdenhoso. - No passa de um rapaz.
George ficou ofendido. Ela no podia ser muito mais velha que ele.
- Um rapaz que viveu mais que a maior parte dos homens - respondeu, devolvendo o olhar dela com a mesma arrogncia.
- A srio? - Parecia surpreendida. - Agora est a despertar a minha curiosidade, como eu despertei a sua. Foi por isso que veio falar comigo, no foi? - George no
soube que responder. - No se preocupe, no  o primeiro - disse-lhe, rindo-se amargamente. - Tenho um efeito curioso sobre os homens. Ao princpio, olham para o
meu rosto com admirao.  realmente belo quando s  visto deste lado e tocou o lado perfeito do rosto. Mas depois essa admirao transforma-se em horror, quando
me volto.  um jogo a que me dedico muitas vezes. Acho-o divertido.
- Acha?
- Oh, por favor, poupe-me a sua compaixo. Sou uma mulher adulta - retorquiu.
Noutra situao, George no teria mantido uma conversa com uma pessoa to desagradvel, mas o seu instinto dizia-lhe que a fria dela no lhe era dirigida, a ele
em particular, mas sim  vida, ou ao que quer que lhe tivesse feito aquilo. No entanto, pareceu-lhe que essa era a nica pergunta que no lhe podia fazer.
- Viaja sozinha? - perguntou-lhe antes.
- Devia conhecer a resposta a essa, no lhe parece? Afinal tem-me observado, no tem?
- S esta tarde. Ainda no tinha reparado em si.
- Que engraado. Eu reparei em si no primeiro dia. Num mundo s seu. Se algum parecia triste, no era eu.
- Para dizer a verdade, sinto-me um pouco perdido. Vou comear uma nova vida na Argentina.
- A guerra foi de mais para si?
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- Sim, mais ou menos - respondeu com um aceno.
- Sei como se sente. Suponho que o meu caso seja semelhante - suspirou. Quando voltou a olhar para ele, a sua expresso parecia mais suave. - Tambm estou a fugir.
- A fugir de qu? - perguntou ele, satisfeito por ter conseguido vencer um pouco a sua frieza.
- Oh, da vida. Da minha antiga vida, quero eu dizer. S  pena no poder fugir disto - e os seus dedos percorreram a cicatriz. - Est aqui como testemunho de uma
coisa que preferia esquecer.
- Quer falar disso? Afinal sou um estranho. Durante a guerra falei com muitas pessoas que sabia que no voltaria a encontrar. Contei-lhes os meus maiores segredos.
Muitas, a maior parte, acabaram por morrer.
- Nesse caso os seus segredos esto bem guardados - respondeu com um sorriso, e George viu que era caloroso e bonito.
- Alguns deles.
- No parece suficientemente velho para ter muitos segredos.
- Nem a senhora.
- Ah, ficaria surpreendido se soubesse. Seja como for, se lhe contasse os meus segredos acabaria por ter de se atirar borda fora. Mas, como me parece um bom nadador,
acho que vou mant-los para mim.
- Que esteve a fazer em Inglaterra?
- No posso contar-lhe. Faz parte do meu segredo. No quer morrer, pois no? - respondeu-lhe com uma expresso maliciosa, sem qualquer vestgio da dureza anterior.
- E para onde vai? Isso pelo menos deve poder contar-me.
- Falemos antes um pouco de si. Uma rapariga deve poder manter o seu mistrio.
- Que quer saber?
- Tem namorada?
- No - respondeu ele sem hesitar. De resto, que mal faria mentir a uma mulher que tinha a certeza que no voltaria a ver? Atirou o resto do cigarro ao mar.
- Ento porque est to triste?
- Perdi muitos amigos na guerra. Bons amigos. Pessoas com quem tinha criado laos fortes. Eles morreram e eu sobrevivi. Porqu eu? respondeu com um encolher de ombros.
- Estou a ver - respondeu ela com delicadeza. - Onde fez a guerra?
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- No ar.
- Oh, um piloto. Isso  muito glamoroso, sabia?
- No, quando estamos no meio de uma batalha sangrenta, asseguro-lhe.
- No, suponho que no. Deve ser um piloto muito bom, para ter sobrevivido.
- Talvez tenha apenas tido sorte.
- E ento est a deixar para trs todas essas recordaes. O mais engraado  que a memria  como a minha cicatriz, no podemos fugir dela.
- Mas podemos tentar.
- Talvez ambos estejamos a tentar, at que um dia vamos acordar e chegar  concluso de que apenas seremos felizes se confrontarmos os nossos demnios. O problema
 que ainda no estou pronta para isso.
- Nem eu.
- Quem diria que afinal temos tanto em comum?
- Nem sequer sei o seu nome - mentiu George. No queria que ela soubesse que tinha falado dela com a desagradvel Mrs. Bullingdon.
- Susan Robertson.
- George Bolton.
- Importa-se que me sirva de um dos seus cigarros?
- De maneira nenhuma. Faa favor.
George tirou o mao de cigarros do bolso da camisa.
- Oh, Lucky Strike, um velho amigo - disse ela, servindo-se de um.
Tinha dedos compridos e finos, com longas unhas pintadas de vermelho. Levou o cigarro aos lbios e olhou George com os olhos claros e brilhantes, provavelmente azuis,
embora ele no conseguisse v-los bem no meio da escurido. Tentou acender-lho com o isqueiro, mas o vento apagou-o imediatamente. Ela ps por sua vez as mos em
concha  volta do cigarro, tocando ao de leve os dedos dele, e ele tentou de novo. Dessa vez conseguiu acend-lo, e ela inspirou profundamente o fumo.
- Em que parte dos Estados Unidos nasceu? - perguntou George, com vontade de obter o maior nmero possvel de informaes.
- No desiste, pois no? - Ele riu-se.
-  s curiosidade.
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- Como uma criana a quem recusam um brinquedo.
- Ou como um homem na presena de uma mulher muito bela. No acha natural que ele queira saber o mais possvel acerca dela?
- Est a namoriscar-me, George Bolton?
- No teria esse atrevimento - respondeu ele, com o seu sorriso um pouco retorcido.
- Pois bem, sou de toda a parte. O meu pai era diplomata e eu cresci em Washington. Depois, vivemos algum tempo em Buenos Aires. So desse tempo as minhas melhores
recordaes. Em seguida, partimos para a Europa. Paris, Londres, Roma. Considero-me uma mulher do mundo. No sou realmente de parte nenhuma em particular.
- Mas considera-se americana?
- Claro. Isso  diferente. Est-me no sangue. A sua curiosidade foi satisfeita?
- Um pouco.
-  melhor que nada.
- Mas temos mais trs dias at chegarmos a Buenos Aires.
- E acha que consegue extorquir-me toda a verdade em apenas trs dias? No sou facilmente influencivel; alm disso, no me apetece ser cortejada. J teve a sua
oportunidade, George. - Sorriu-lhe com indulgncia e acrescentou com voz suave: - Mas foi uma boa companhia, e j no me sinto triste.
- Nem eu.
- Boa noite, George - disse-lhe ela com uma palmadinha na mo antes de se ir embora.
George ficou mais algum tempo no convs. Sentia-se irritado por ela o considerar pouco mais que um rapazito. A aproximao dele parecia-lhe absurda, como ser cortejada
por uma criana. E ele queria que ela o olhasse como a um homem. No fim de contas, ela no podia ter mais de vinte e oito ou vinte e nove anos. No estava em situao
de se mostrar to condescendente.
Voltou para o seu beliche e decidiu escrever a Rita. Recordou as cartas que lhe escrevera durante a guerra. Nunca lhe tinha falado da sua experincia no ar. Parecera-lhe
demasiado forte para a sensibilidade de Rita. Alm disso, no queria que ela soubesse os perigos a que ele se expusera, de maneira que lhe falara sobretudo do passado.
Das falsias e da praia, da gruta e da quinta. Escrevera longos pargrafos nostlgicos recordando
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as suas brincadeiras e a sua inocncia, sem nunca se ter realmente apercebido de que, quando voltasse, tudo aquilo teria desaparecido para sempre. Dessa vez disse-lhe
apenas que sentia falta dela.
Antes de adormecer pensou em Susan. Tentou pensar em Rita e sentiu-se culpado quando o rosto de Susan se sobreps ao dela. Reviu a conversa de ambos do princpio
ao fim. A dureza da sua expresso e a maneira como se suavizara. Era agressiva e perspicaz, tinha presena de esprito e era seca. Era uma mulher com autodomnio,
mas afastava os outros para se proteger. Era desconfiada e cnica, mas George pressentia que tambm era capaz de uma grande ternura. Voltariam a encontrar-se na
Argentina? Ele acabaria por se perder no comboio Rayo dei Sol, a caminho de Crdova, a milhares de quilmetros da cidade, e ela perder-se-ia entre os milhes de
rostos annimos de Buenos Aires.

CAPTULO 9
Na manh seguinte, George acordou bem-disposto, ao contrrio do que acontecera nos dias anteriores, em que tivera de se vencer a si mesmo s para conseguir levantar-se
da cama. Tambm percebeu que fora a primeira noite em que no revivera a guerra nos seus sonhos. Deixou-se ficar algum tempo no beliche, a olhar para o tecto, encantado
com a sua nova alegria. Agora acordava para a promessa de um recomeo num novo pas e sentiu-se excitado.
Lavou a cara e os dentes, com o pensamento afastado de Frognal Point e a carta para Rita esquecida na mesa-de-cabeceira. Fora motivada pela culpa e pelo sentido
do dever. Demorou algum tempo a escolher a camisa e depois penteou-se. No fez a barba. Pareceu-lhe que com a barba crescida sobre o queixo tinha um ar mais masculino
e adulto. Satisfeito com o seu aspecto, saiu para o corredor.
Para seu desapontamento, Susan no estava na sala dos pequenos-almoos, mas o brigadeiro e a mulher estavam. Quando o viu, Mrs. Bullingdon acenou-lhe furiosamente
antes de se inclinar para a mesa para sussurrar qualquer coisa s amigas. George aproximou-se e cumprimentou-a delicadamente.
- George, querido, deixe-me apresent-lo a Mister e Mistress Linton-Harleigh e  filha deles, Miranda - Mrs. Bullingdon exclamou na sua voz pronta. - Tenente-aviador
George Bolton, um dos nossos jovens heris. Junte-se a ns, George.
George percorreu os rostos vermelhos que lhe acenavam entusiasticamente com os olhos. Apertou-lhes as mos com delicadeza, embora com relutncia, aceitou o convite
de Mrs. Bullingdon e reparou imediatamente na voracidade sexual nos olhos da filha daqueles. Era como um predador que no comesse h vrias semanas.
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- A Miranda veio deitar fogo a Buenos Aires - chilreou Mrs. Linton-Harleigh, brincando com a colher com nervosismo. - Vamos ficar em Hurlingham em casa de uns primos.
Tem de ir visitar-nos. H tantas festas... Assim que chegarmos temos de ir s compras. Em Londres no se encontram vestidos bonitos, com este racionamento horrvel.
Os anglo-argentinos so pessoas muito simpticas.
- Vir visitar-nos, Mister Bolton? - perguntou Miranda, e George estremeceu com o tinido metlico da sua voz.
- Infelizmente vou para o interior.
- No me diga, que coisa horrvel - disse Miranda sem esconder o desprezo. - Buenos Aires  o centro de tudo. Se no estiver l, no est em lado nenhum.
- Nesse caso, dar-me-ei por satisfeito em no estar em lado nenhum.
Miranda olhou-o incrdula, sem saber que pensar dele.
- O embaixador d uma festa na prxima semana que vem.  um homem encantador, o embaixador. Conhece-o? - perguntou Mrs. Linton-Harleigh erguendo as sobrancelhas
cuidadas.
-  a primeira vez que venho  Argentina - explicou George, perguntando a si mesmo porque diabo estava ali a perder tempo com aquela gente horrvel.
Os ombros de Miranda pareceram descontrair-se, uma vez que j estava em condies de lhe perdoar a ignorncia.
- Se eu fosse a si, passava algum tempo na cidade.  um stio encantador. Pessoas como deve ser - disse, sublinhando o "como deve ser".
- As pessoas que combateram numa guerra no pensam muito nas ambies sociais de pessoas como a Miranda - disse o brigadeiro  jovem, num tom condescendente. - Quem
quer saber de prncipes e embaixadores? Todos somos de carne e osso, no  verdade?
- Talvez - respondeu Mr. Linton-Harleigh. - Mas se quisermos progredir no mundo temos de conhecer as pessoas certas. Tudo bem se quisermos fingir que estamos acima
dessas coisas, mas a questo no est no que conhecemos, e sim em quem conhecemos.
 muito injusto, mas  a vida - acrescentou a mulher. - Nesse aspecto a guerra no modificou nada.
George viu-a pegar numa torrada e pensou que no havia pior tipo de gente para representar o seu pas no estrangeiro. Estremeceu ao pensar
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na opinio que os Argentinos deviam ter dos Ingleses se estes se resumissem aos Bullingdon e aos Linton-Harleigh.
- Olha, mam, ali est aquela pobre americana outra vez.
Miranda olhou para Susan por cima do ombro de George. A americana estava a sentar-se sozinha a uma pequena mesa. O rosto de Mrs. Linton-Harleigh pareceu distorcido
por uma expresso de falsa simpatia.
- Pobrezinha, que pena - sorriu. - Em tempos deve ter sido uma beldade.
- Chama-se Susan Robertson - disse Mrs. Bullingdon com autoridade. - Falei com ela no princpio da viagem.
- Como  ela? - perguntou Miranda, lambendo os lbios. George sentiu-se enojado.
- Com um rosto daqueles no pode dar-se ao luxo de ser arrogante - disse com desprezo Mrs. Bullingdon. - Foi muito desagradvel, e tem uma lngua capaz de cortar
mrmore.
- Cus. Que vida deve ter tido, pobre mulher. O destino foi muito duro com ela.
As palavras de Miranda estavam longe de ser sinceras. O brilho frio dos seus olhos mostrava que sentia enorme prazer com o rosto desfigurado de Susan.
- A importncia da beleza, como a da classe social, nunca diminuir
- afirmou num tom pesado Mr. Linton-Harleigh. - Quem disser que isto no  verdade no sabe do que est a falar.
A mulher concordou entusiasticamente.
- No  uma sorte a nossa Miranda ser to bonita e encantadora? -
aproveitou para dizer, com um sorriso meloso.
George sentiu uma presso no tornozelo e pensou que devia haver um co debaixo da mesa, mas, quando a presso persistiu, percebeu com horror que era o p de Miranda
encostado ao dele. Olhou para ela e viu que discutia Susan com Mrs. Bullingdon, encantada com todos os pormenores que a velha senhora expunha com evidente satisfao.
Durante momentos, pensou que devia estar enganado, que ela estava demasiado concentrada na conversa. No entanto, no podia ser o p de Mrs. Linton-Harleigh, que
estava sentada ao lado dele, e no seria de maneira nenhuma o da mulher do brigadeiro. O p subiu-lhe pela perna e acariciou-lha. Fingindo deixar cair o guardanapo,
inclinou-se e espreitou por baixo da mesa. Para seu alvio, o p pertencia  rapariga. Sentiu-se vagamente
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divertido com a ideia de que os pais dela consideravam sem dvida a filha como um modelo de virtudes. Rapidamente, atou o guardanapo ao tornozelo dela e atou-o 
perna da mesa. Depois afastou a cadeira e ps-se de p.
- Com certeza no est a pensar deixar-nos, George - exclamou Mrs. Bullingdon, incrdula. - Ainda mal comeu.
- Na verdade, j acabei.
- Uma senhora amiga? - perguntou o brigadeiro, com uma das sobrancelhas quase a tocar o cabelo.
George sorriu com cumplicidade.
- Tem toda a razo, brigadeiro. Muito bonita e cheia de classe.
Mr. Linton-Harleigh observou:
- Ora aqui est um jovem que sabe o que lhe convm. - Miranda fez beicinho.
- Quer traz-la consigo para jantar? - sugeriu Mrs. Bullingdon. Depois voltou-se para os amigos: - Antes de eu o ter encontrado era um tanto solitrio.
George afastou-se e aproximou-se da mesa de Susan. Ela levantou os olhos e sorriu.
- Precisa de ser salvo? - perguntou-lhe.
Ele acenou afirmativamente cheio de desespero.
- Importa-se que me sente?
- Por favor. - George puxou uma cadeira e sentou-se de costas para a mesa de Mrs. Bullingdon. - Tenho a impresso que causou um grande efeito quando deixou a mesa
deles para vir tomar o pequeno-almoo comigo.
- Ainda bem. Devem ser as pessoas mais desagradveis que alguma vez conheci.
- Porque no se deixou ficar sozinho?
- Tentei faz-lo, mas fui atacado por eles no bar.
- Conheo o espcime. Sanguessugas. Se nos apanham s ficam descansados quando nos chupam o sangue at  ltima gota.
- Pois eu fugi antes de ficar exangue. Como se sente esta manh? - Ela bebeu um gole de caf. Estava muito bem vestida, com saia e blusa cor de marfim e um colar
simples de prolas  volta do pescoo. As suas unhas estavam perfeitamente cuidadas e maquilhara o rosto com cuidado. O cabelo tinha um brilho de sade e vitalidade.
Apenas os seus olhos traam um certo cansao.
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- Gostei da noite passada - disse ela, para surpresa de George. - Por favor, feche a boca antes que entre alguma mosca. Gostei de ter algum com quem falar.
- Tambm eu. Foi pena no nos termos conhecido mais cedo. - Susan baixou os olhos. Por breves instantes, pareceu-lhe uma criana
e George sentiu subitamente um impulso protector. Serviu-se de caf e pediu mais torradas ao empregado.
- Dois pequenos-almoos! No  de mais mesmo para um rapaz em crescimento? - provocou-o ela.
- Fizeram-me perder o apetite - respondeu ele pondo manteiga numa torrada. - Mas agora voltou.
- Desconfio que aborreceu aquela criana com ar amuado - disse ela, referindo-se a Miranda. - Ainda no tirou os olhos de si.
- Eu diria que est bastante mais curiosa em relao a si.
- Parece-lhe?
-  um palpite.
- Deve estar a tentar perceber como pode um jovem bem-parecido preferir a companhia de uma solteirona desfigurada  dela.
- A beleza no est  superfcie.
- Pelo menos  o que se diz.
- E  verdade; alm disso, a Susan no  uma solteirona.
- O George  muito amvel. - Estava visivelmente encantada com os cumprimentos porque corou. Esforou-se por se recompor. - Que pensa fazer hoje? - perguntou-lhe,
dobrando o guardanapo.
- Passar o dia consigo. Certamente no imagina que a vou deixar entregue a si mesma, pois no?
-  evidente que no me considera capaz de me defender sozinha...
- Pelo contrrio. No entanto, sou incapaz de me defender de gente como Mistress Bullingdon e Mistress Linton-Harleigh. Se me deixar sozinho,  muito natural que
volte a ser atacado.
- Nesse caso, no tenho remdio seno conceder-lhe a minha proteco. Mas devo avis-lo de que trouxe uma pilha de clssicos para ler. No vou ser boa companhia.
- Adoro os clssicos. A minha me fez-me ler Dickens, Austen e Thackeray ainda muito pequeno.
Susan levantou os olhos, impressionada.
- Eu fui educada com o Winnie-The-Pooh e O Vento nos Salgueiros. E sabe que mais?  um prazer ainda maior l-los em adulta.
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- Como a Alice no Pas das Maravilhas e O Feiticeiro de Oz.
- Precisamente. Foi muito inteligente escreverem em dois nveis daquela maneira.
De repente, ouviu-se um guincho na mesa do brigadeiro, quando Miranda tentou levantar-se mas ficou presa pelo guardanapo com que George a atara  mesa. Os pais olharam-na
surpreendidos, enquanto Mrs. Bullingdon corou de embarao por ver que os gritos agudos da rapariga atraam a ateno de toda a gente para o seu pequeno grupo.
- Valha-me Deus, filha, que se passa?! - exclamou Mrs. Linton-Harleigh com irritao.
Miranda apertou os lbios e mergulhou debaixo da mesa. Libertou o p e levantou-se corada e com ar furioso.
- Nada - retorquiu. - No olhes assim para mim, mam. No sou nenhuma criana! - Quando passou pela mesa de George espetou o nariz no ar com ar amuado.
- Que foi aquilo? - perguntou Susan quando eles saram da sala.
- Um p atrevido que se meteu onde no devia - respondeu ele com uma careta. - Felizmente, estamos num barco grande. O melhor  manter-me afastado dela, seno ainda
sou atirado borda fora.
George passou o dia com Susan. Passearam ao sol no convs, sentaram-se nos cadeires de lona a beber limonada e a lerem tranquilamente os seus livros, comentando
de vez em quando algum passo que lhes agradava. Almoaram juntos e coscuvilharam acerca do brigadeiro e da mulher e tambm dos seus horrveis amigos, que agora o
consideravam traidor.  noite nadaram na piscina e beberam cocktails no convs, vendo o Sol descer sobre o mar para ir iluminar um continente do outro lado do mundo.
Alguns dias mais tarde, quando o navio ancorou no Uruguai, foram at ao porto num pequeno barco para passear entre as lojas e na praia. A areia era fina e macia,
muito diferente da areia em Devon.
- Que stio encantador. L se vai o tempo cinzento e a chuva miudinha de Inglaterra - disse George, gozando o cu azul-safira e o sol brilhante.
- Do que mais gosto  do cheiro - disse Susan. -  espesso e doce, como o mel.
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- Eu cresci junto ao mar e sempre o adorei.
- O mar chama-nos, no ? Mesmo aqui. - Ps a mo sobre o peito. - Faz-me sentir a minha prpria imortalidade e interrogar o que haver para l dela. Imagino que
a morte seja como o mar. O horizonte  apenas o limite da nossa viso. Temos de ter f. Gosto de pensar que ali est o cu, para alm do que os nossos sentidos alcanam.
- Vou voltar a v-la? - perguntou George, de sbito.
Ela riu-se, com um riso semelhante ao de uma me que quisesse fazer uma vontade ao filho.
- Oh, George... - disse com um suspiro.
- Amanh chegamos a Buenos Aires.
- Vamos viver at l, est bem?
- Oh, havemos de viver at l, asseguro-lhe - afianou-lhe ele.
- Eu sei, o George sobreviveu  guerra - respondeu-lhe, e tomou a mo dele entre as suas. George manteve-a entre as dela com relutncia.
- No me trate com essa condescendncia, Susan.
A voz dele era furiosa, mas ela continuava a sorrir, o que o deixava ainda mais furioso.
- No estou a trat-lo com condescendncia, George. Est a fazer-me uma pergunta e eu no sei que responder.  mais fcil no pensar nestas coisas. Evit-las.
-  casada?
- No.
- Veio ter com um amante?
- No.
- No quer voltar a ver-me?
George interrompeu-se e retirou a mo. Meteu-a no bolso, defensivamente. Ela olhou-o com a cabea inclinada e uma expresso grave.
- No sei. Talvez estejamos apenas destinados a conhecer-nos neste navio e a separar-nos de vez.
Os seus dedos percorriam distraidamente a cicatriz, para cima e para baixo. George engoliu a custo.
-  por pensar que sou apenas um rapaz?
-  sem dvida muito mais jovem que eu.
- Isso incomoda-a?
- A idade  como a beleza, George. Irrelevante.
- Nesse caso qual  o problema?
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- No estou pronta para si - disse ela, e os seus olhos pareceram apagar-se de novo com tristeza. Abanou a cabea. - Tenho muita pena.
Em vez de amuar, aquilo que um rapaz teria feito, George fez um esforo consciente para se comportar como um homem. Procurou no pensar mais na rejeio de Susan.
Sabia que, se quisesse, teria o resto da vida para ruminar no assunto e tentou comportar-se como antes. Ao jantar discutiram a histria do Uruguai e da Argentina,
que Susan conhecia bem. Depois da refeio, deixaram-se ficar no stio onde se tinham conhecido, inclinados sobre a amurada e a perscrutar o horizonte escuro. George
sentia-se sufocar, como se o ar fosse demasiado espesso para ele poder respirar. Teve medo de ficar sem ela.
- Em que est a pensar, George? - perguntou ela.
- Estou a olhar o vazio - respondeu, com o familiar sentimento de perda a envolv-lo. - No consigo aceitar que no vou v-la mais.
- Quem sabe o que o destino nos reserva?
Vencido pelo desejo e pelo desespero, voltou-se para ela e beijou-a. Sentiu o corpo dela ficar rgido enquanto o afastava, aterrada.
- No posso - disse-lhe, com o rosto afogueado. Depois, com um estremecimento, acrescentou: - O George no percebe.
Contudo, os olhos dela traam o desejo. Ele apertou-a de novo contra si, consciente de que no dia seguinte de manh ela estaria perdida para ele, e beijou-a profundamente.
Cheirava a mar, a lrios-do-vale e a qualquer coisa de doce, que era apenas dela e que ele nunca haveria de esquecer.
Por fim, ela prpria afastou-se e olhou-o como se tambm lamentasse a perda.
- Este beijo no foi o de um rapaz - gracejou. - Tenho de ir.
- Passa a noite comigo? - perguntou ele com voz grave e incerta, o mundo a parecer-lhe perdido.
- No, George. Vou dormir na minha prpria cama.
- Ento ficamos por aqui?
- No fique triste. Ainda  muito jovem, tem a vida toda pela frente. Isto  apenas o princpio.
- No diga isso, Susan. Para mim  o fim.
- Boa noite. - Despediu-se com os lbios sobre os dele num beijo terno. E depois foi-se embora.
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George teve vontade de correr atrs dela, mas sabia que era intil implorar, alm de pouco digno, e ela ficaria a pensar menos bem dele por causa disso. Acendeu
um cigarro e inalou o fumo atravs da garganta apertada. Tinha vontade de chorar. Que se passaria com ele? Ainda h trs semanas evitara as lgrimas a custo quando
se despedira de Rita. Apoiou a cabea nas mos e ouviu a prpria respirao, mas tambm os seus pensamentos entrecruzados.
Quando, por fim, conseguiu adormecer, os pesadelos voltaram a atorment-lo.
A escurido dissipou-se como se se tratasse de neblina e l estava ele, a voar a grande altitude num cu azul, lmpido. A vibrao do Spitfire faz estremecer os
seus ossos. O estrpito do avio  um grito urgente de batalha. A mscara de oxignio est quente e ele tem dificuldade em respirar, mas os olhos esto bem focados
nos Messerschmitt 109 alemes que se dirigem para ele. No est sozinho. Lorrie vai  sua direita, e Tony? Volta-se. Sim, Tony vai  sua esquerda. Basta saber que
esto os dois ali para recuperar a confiana. J vos mostramos, filhos-da-me. Os Messerschmitt aproximam-se, ameaadores, e, de repente, v-se no meio de tudo aquilo.
So tantos avies que nem sabe por onde comear. Sente-se dominado pelo medo.  um medo frio, que mais uma vez prejudica a sua concentrao e aumenta a agitao
que lhe vai na mente. s vezes, o medo  uma coisa boa. Esta batalha vai ser sangrenta. Concentra-te, George, mantm o sangue-frio. A voz no transmissor pronuncia,
premente: 109 s 4 horas,
3 mil ps acima, oito s 6 horas. Cuidado. Esto a picar. Por amor de Deus, trava! Dedo no boto para disparar, concentrado. Muito concentrado. Calmo como nunca.
Procura um alvo. H Dorniers abaixo. Um desses serve. Lana um olhar  sua volta e tudo o que v  caos. Mergulha sobre o Dornier, sem nunca tirar os olhos dele.
Ouve o som de uma bala tracejante e depois o rudo de uma metralhadora por trs, mas nada se interpe entre ele e o alvo. Hei-de apanhar-te, filho-da-me. Vais lamentar
ter nascido. Pressiona o boto da arma e dispara. Apanhei-te. O Dornier mergulha. Da sua cauda sai fumo negro. Montes de fumo negro. Est ocupado de mais para o
ver cair. Ocupado de mais para se lembrar de quem o lamentar em sua casa. Depressa v um Heinkel. Dispara em rajadas breves, mas o inimigo faz meia-volta e parte
em direco ao mar. George segue-o de perto. Tem conscincia de que se afastam da batalha. So s os dois, e um deles
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vai certamente morrer. O suor escorre-lhe pela testa e sobre as plpebras. Tem calor e sente um certo desconforto. O mar brilha com a primeira luz da manh. Tem
um aspecto hipntico, fascinante, at. Ali repousam muitos homens corajosos. O Heinkel est por baixo dele, por isso encontra-se em vantagem. Aproveitando-a, mergulha.
Depressa ganha terreno. Pequenas deflagraes. Fumo negro. Foi atingido. Caramba, sou mesmo bom nisto, pensa, triunfante. Demasiado lento para evitar o contra-ataque.
Rudo de balas a baterem no metal. Maldio, apanhou-me! Alvio quando percebe que foi apenas na asa. Mas foi por pouco. Volta a estibordo e dispara, desta vez em
longas rajadas. Determinao e fria controlada. Nunca tira os olhos do alvo. Tem a certeza de ver o medo no rosto do inimigo. O alemo afasta-se.  uma verdadeira
enguia, escorregadio. George nunca entender como conseguiu escapar quelas balas. De repente, apercebe-se de que est fora do alcance da vista. Olha  sua volta
e um estranho pressentimento deixa-lhe os nervos tensos. Um maldito 109 mesmo atrs de mim. Como  que ele ali foi parar? George foge para salvar a vida. Foge por
todo o cu. Por aqui e por ali, tudo menos a direito. Sabe que  um alvo difcil. Depois, uma faixa vermelha passa pela carlinga. Mais rajadas, uma exploso, o cheiro
da cordite e o seu prprio terror. Depois percebe, finalmente. Foi atingido. Pestaneja para conseguir ver atravs do suor que lhe cobre os olhos. Esto doridos e
tambm lhe di a cabea. V se te acalmas, George, por amor de Deus. Ainda no ests pronto para ir ao encontro do Criador. O 109 afasta-se, sem dvida por t-lo
dado como morto. Mas, para sua surpresa, George continua a voar. Deve ser o tanque do combustvel. Volta-se e percebe que est sobre o inimigo. O perseguido tornou-se
perseguidor. Maldito estupor arrogante! Ganhando velocidade  medida que vai descendo sobre ele, fixa o alvo e dispara. Com rajadas longas. At  ltima bala. No
me importo de ir contigo, mas garanto-te que hoje vais ser abatido, grita, a disparar como um homem enlouquecido. V que sai fumo negro da fuselagem. A hlice parece
mais lenta e o nariz do avio mergulha. Mais fumo negro e, como um pssaro de asas abertas, o 109 cai, deixando atrs um rasto de leo e desespero. George v o avio
despenhar-se no mar e ser imediatamente engolido por uma espuma branca espessa. Nessa altura tudo fica imvel e em silncio. Est inteiramente sozinho. Com as batidas
do corao a abrandarem, abre a carlinga e tira a mscara. Com a cabea ao vento, comea a acalmar-se. Est ferido, mas vai conseguir regressar. Foi por pouco. Ia
sendo
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apanhado. Depois  dominado por um sbito sentimento de solido. Onde se meteu toda a gente? Comea a ver a costa e percorre o cu com o olhar em busca de avies.
Mas no h nenhum  vista. Onde se meteram o Lorrie e o Tony? Percebe que no se safaram. Tem a certeza. Est sozinho. Completamente sozinho.

CAPTULO 10
George acordou alagado em suor. As batidas do corao eram desenfreadas e o corpo tremia de medo. Precisou de algum tempo para se libertar do sonho e para recordar
que estava a bordo do Fortuna, a caminho da Argentina. Depois pensou em Susan e sentiu-se atirado de novo para o seu sonho, mais s do que nunca.
Enquanto se vestia sentiu as vibraes do navio ao acostar em Buenos Aires. Percorreu a correr os corredores at ao convs, esperando que um pequeno milagre lhe
permitisse vislumbr-la uma ltima vez ao desembarcar. Nada feito. Deixou-se ficar encostado  amurada a ver os passageiros descerem a rampa at ao cais, com os
olhos sempre atentos  familiar cabeleira loura elegantemente apanhada na nuca. O porto estava cheio de oficiais de uniforme, mas, ao contrrio do que acontecia
em Inglaterra, onde pareciam transpirar eficincia, ali a atmosfera era lnguida. Embora ainda fosse muito cedo, o calor do Sol era intenso. O fluxo de passageiros
ia diminuindo e ele resignou-se  ideia de que ela h muito partira. Seria um rosto mais entre os milhes de rostos desconhecidos de Buenos Aires.
Voltou para a cabina e atirou com as suas coisas para uma mala. Hesitou quando encontrou a carta que escrevera a Rita com o pingente da pomba. Pegou-lhe com ar pensativo
at que o arrumou por cima das outras coisas e depois fechou a mala. A seguir, deixou o barco e as suas doces recordaes. No tinha nada que lhe recordasse Susan:
nem fotografias, nem cartas, nem qualquer pequena lembrana ligada ao seu encontro e separao. Depois de deixar o navio seria como se nunca se tivessem encontrado.
Buenos Aires era uma cidade romntica e cheia de fragrncias sugestivas. Imaginou Susan em pequenos cafs e debaixo de jacarands violetas
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, que tinham dado flor ao mesmo tempo que o seu pobre e frgil corao. Pensou nela a descer as avenidas largas e cheias de rvores, talvez a viver num daqueles
bonitos edifcios com ar parisiense, com os seus telhados altos e as suas fachadas muito ornamentadas. Antes da partida do seu comboio para Crdova, ainda tinha
algum tempo, que gastou a deambular por uma praa com um fontanrio, cheia de flores e de rvores, o ar denso pelo aroma forte das gardnias e pela chilreada feliz
dos pssaros. Era um lugar tranquilo.
O rudo delicado da gua acalmou o seu esprito; conseguiu assim apreciar a mudana de cenrio e a promessa de algo de novo que aquele pas tinha a oferecer-lhe.
Almoou sozinho em La Recoleta, a uma mesa que ficava sob as rvores da borracha, junto do muro do cemitrio.  porta do restaurante havia uma banca de venda de
flores e o cheiro a Primavera misturava-se com o da carne e o da gasolina. Comeu um bife de carne da Argentina, que saa dos limites do prato, mais suculento que
qualquer outro que alguma vez tivesse comido. Bebeu vinho, e deixou que ele acalmasse o sentimento de rejeio que continuava a atorment-lo, observando as cenas
que se desenrolavam  sua volta com olhos preguiosos.
Estava num pas que no fora tocado pela guerra. Havia pessoas sentadas ao sol, a beber cocktails, a conversar com animao e a comer coisas que em Inglaterra eram
verdadeiros luxos. Soube-lhe bem sentir-se parte daquele mundo despreocupado. Parecia-lhe mais fcil esquecer. Afastou o Inverno e deixou entrar a Primavera. Mas,
por mais que tentasse pensar em Rita, o rosto de Susan invadia a sua mente e no havia maneira de a abandonar. Por causa do vinho, estava demasiado sonolento para
o combater. Olhava-o por isso com nostalgia, os olhos fixos no vazio ou num ponto vago  sua frente. Percebeu com um estremecimento que, se realmente amasse Rita,
teria casado com ela imediatamente e teria deixado que ela o acompanhasse. Mas ela estava ligada a Frognal Point e ao seu passado, aos fantasmas de que queria fugir.
E tambm dela queria fugir.
A ideia perturbou-o. Era ou no verdade que amava Rita desde que se lembrava de ser gente? Alm disso, Susan partira. No voltaria a v-la. Pagou a conta e apanhou
um txi para a estao do Retiro. O taxista era um homem bem-disposto, com uma grande barriga e um patriotismo
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apurado, com bandeiras argentinas, azuis e brancas, em todos os stios imaginveis do seu carro. Desapontado por George no falar espanhol, nem assim deixava de
falar pelos cotovelos, seguro de que ao fim de algum tempo o estrangeiro acabaria por compreender. George deixou-o tagarelar, acenando e dizendo si ou no, dependendo
do tom do homem. Quando desceu na estao sentiu-se divertido por ver que se tratava de uma rplica da estao de Waterloo, construda na poca vitoriana no mesmo
ferro forjado que a original. Mesmo os pormenores das bilheteiras eram iguais. Sentiu uma nostalgia sbita ao recordar os comboios que tantas vezes apanhara nos
primeiros tempos da guerra quando ia a casa de licena.
Quando arranjou lugar no comboio Rayo dei Sol para Crdova pareceu-lhe estranho olhar pela janela livre de tecido do black-out, sentar-se confortavelmente numa carruagem
com lugares vagos, de frente para uma mestia que viajava com um papagaio empoleirado, todo contente, no seu ombro. Observou a cidade, os edifcios que iam ficando
mais pobres e abandonados quanto mais se afastavam da cidade, at no passarem de barraces com telhados de zinco. Adormeceu; ao acordar, os campos tinham substitudo
o cimento da cidade.
Quando atravessou a pampa viu as longas plancies verdes estenderem-se a perder de vista, interrompidas por pequenos macios de rvores nos stios onde havia casas.
Aqui e ali, uma rvore ombu parecia instalada com pose de proprietria, inegavelmente a rainha da pampa. Aqui e ali, manadas de pneis, da cor do mel, pastavam ao
sol ou reuniam-se sob rvores altas e planas. Sacudiam preguiosamente as crinas, com demasiado calor para trotarem. Atravessou terrenos onde se viam pequenas cidades,
extensos campos plantados com milho, trigo e girassis. O cu era vasto e nele passavam lentamente nuvens fofas, que vagueavam como carros levados por anjos. Pararam
em bonitas estaes com ar antiquado que mais uma vez lhe recordaram Inglaterra. A senhora que viajava no banco em frente adormeceu, sem se aperceber de que o seu
papagaio, que to bem se comportava quando ela estava acordada, aproveitava agora a oportunidade para se passear por toda a carruagem. Usou as garras para trepar
pelo banco, at ao suporte das bagagens e para descer do outro lado. George observou o seu passeio com interesse, com pena de no ter nada que pudesse dar-lhe a
comer.
Jantou sozinho. Recordou a ltima refeio com Susan a bordo do fortuna, a maneira como ela sorria, a medonha cicatriz no seu rosto, a qual
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lhe parecia a ele to enternecedora, e os seus olhos duros, que se tinham mostrado doces consigo. No se lembrava bem dessa conversa. A histria do Uruguai e da
Argentina... mas que importncia tinha isso para si? Mas conseguia v-la como se estivesse em frente dele nesse momento. Conseguia mesmo evocar o seu cheiro. O aroma
doce dos lrios-do-vale e o seu prprio perfume, nico. No desejava a companhia de mais ningum. Bastava-lhe ficar a ss com os seus pensamentos. Depois de jantar
retirou-se para a sua couchette para dormir. Embora tivesse um compartimento s para ele, o homem do compartimento do lado ressonava to alto que a divisria estremecia.
De manh, depois de uma noite de sono irregular, descobriu com horror que o ocupante do camarote do lado era a senhora do papagaio.
Por fim, a paisagem mudou. Comearam a aparecer colinas na plancie, como vagas gigantes que rebentassem numa praia, e recordou que Susan lhe dissera que naquelas
montanhas havia condores, cobras muito venenosas e pumas. Eram ricas em vegetao e cursos de gua, bem como em herana histrica. Ali sobreviviam ainda muitos mosteiros
e igrejas, como testemunhos da cultura jesuta em tempos dominante. Finalmente, o comboio chegou  estao de Crdova. Soube-lhe bem sair, desentorpecer as pernas
e refrescar-se  sombra dos toldos.
- George, s tu? - voltou-se e viu uma mulher forte e de aspecto determinado que caminhava para ele. - Claro que sim! - Como ests crescido! - O rosto da tia Agatha
estava bronzeado e curtido pelo tempo como uma velha sola de cabedal. Vinha de braos estendidos e ele teve de se inclinar para ela o poder beijar. Sentiu-se imediatamente
envolvido numa nuvem de perfume. - Carlos, traiga el equipaje, por favor - disse a tia, acenando ao jovem franzino parado ao lado dela com ar desajeitado. Mesmo
com o seu fraco conhecimento da lngua percebeu que ela falava mal espanhol. - George, que maravilha ver-te ao fim de todos estes anos.  verdade, eras ainda um
rapazinho pequeno quando eu casei com o Jos Antnio. O mais certo  no te lembrares de mim, mas eu lembro-me de ti. Podes ter crescido muito, mas essas bochechas
no mudaram nada! - Deu-lhe o brao e arrastou-o para o sol. - No est calor? Que maravilha. Aposto que nunca na vida viste um sol assim. E a Faye que no percebe
porque no pus um p em Inglaterra em quinze anos! Bom, agora j podes explicar-lhe, no  verdade? E como est a Faye?
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George no se lembrava da tia Agatha e no prestava em geral ateno quando a me falava dela. Por instantes pensou se no teria sido melhor ficar em Buenos Aires
 procura de Susan.
- A me est bem. Trabalha o barro, toma conta do pai - respondeu-lhe, sentindo-se subitamente muito cansado.
- Ainda bem. O Trees deve alimentar o pas, claro. E a Alice? Deve estar  espera que o Geoffrey regresse, sem dvida. J no deve faltar muito. Graas a Deus que
a guerra acabou. Que coisa horrvel. A Faye escreveu-me cartas magnficas. Imagino que tu sejas uma espcie de heri. Estou muito orgulhosa de ti. Contei a todos
os meus amigos. Muito elegante, pilotar todos aqueles avies. Deve ter sido muito divertido!
George no sentiu foras para discordar dela.
Agatha sentou-se no banco da frente do seu Ford com tejadilho de lona, deixando o rapaz a carregar as malas no porta-bagagens antes de saltar para a parte de trs.
-  s uma hora at Jesus Maria, no estamos longe - disse ela, dando-lhe uma palmada entusistica na perna. - Mas diz-me, como est Rita e quando vem ter connosco?
- Ela no vem, tia Agatha. No ficava bem. No fim de contas, no somos casados.
- Oh, que importncia tem isso?!
- Ainda sou muito novo para assentar.
- O Jos Antnio era da tua idade quando nos casmos. Eu sou um pouco mais velha. Ele sempre gostou de mulheres mais velhas.
George comeou a interessar-se.
- Quantos anos tem a mais que ele?
- Uns cinco. Ele ainda parece um jovem, mas eu estou feita um trapo velho.  o que o sol da Argentina faz  pele das mulheres. No  nada bom. No que eu me rale.
A Faye foi sempre a mais bonita. Eu sou mais forte em personalidade.
George olhou para o seu perfil forte e, em silncio, concordou com ela. Podia ser baixa, mas tinha a constituio de um Panzer, com pulsos e tornozelos grossos e
uma cintura generosa.
- Sendo assim, deixaste essa pobre rapariga em Inglaterra a suspirar por ti. Seu selvagem! - e riu-se, com um riso profundo.
- Perguntei-lhe se queria vir, mas ela no quis. Adora Frognal Point. No consigo imagin-la a sair de l. Daqui a um ano, mais ou menos, volto e caso com ela.
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Agatha riu-se alegremente.
- No digas disparates, George. Nunca vais casar com a Rita.  tudo uma questo de oportunidade. Se fosses um pouco mais velho, talvez, mas s muito jovem. Vais
acabar por te apaixonar aqui. As raparigas argentinas so famosas pela sua beleza e feminilidade. Nunca percebi por que razo o Jos Antnio me escolheu a mim quando
podia ter casado com qualquer uma delas. No penses que vivemos no fim do mundo - continuou. - Eu vou de vez em quando a Buenos Aires e os nossos amigos vm visitar-nos
aqui. Alguns chegam a ficar vrios meses. Jesus Maria  muito socivel.  uma gente simptica. No sei se sabes, mas vais ter de aprender espanhol. Vou arranjar
algum da cidade que venha dar-te lies. No vais sobreviver pura e simplesmente se no aprenderes. O Jos Antnio vai mostrar-te a quinta hoje  tarde, para veres
como funcionam as coisas. Sabes montar, no sabes? - George acenou afirmativamente. - Ainda bem, porque ns vamos de cavalo a toda a parte. Os caminhos no so suficientemente
bons para os carros.  por causa da chuva. Aqui chove muito no Vero,  por isso que tudo  to verde. Dizem que o clima  como o de Espanha, mas eu nunca fui a
Espanha, no fao ideia. Os midos vo adorar-te, vais ser um heri para eles. Imagina, pilotar avies na guerra. J lhes contei tudo.
George ouviu-a sem grande ateno. A tia falou-lhe dos filhos, da educao em Jesus Maria, de como estavam a pensar mandar os midos para a escola em Buenos Aires.
O seu pensamento acabou por ir parar a Rita, sem culpa. Sentia-se na obrigao de pensar nela. Ia enviar-lhe a carta e a prenda assim que fosse possvel, e sentiu
uma pontada de dor quando se lembrou dela a sonhar com o seu regresso nas velhas falsias, com o vento a despentear-lhe os caracis.
Por fim, o carro saiu da estrada principal e seguiu uma estrada de terra batida ao longo de quilmetros e quilmetros segundo lhe pareceu. O caminho estava cheio
de buracos e de poeira e o sol queimava atravs das janelas, fazendo-o transpirar. Ao contrrio da pampa, Crdova estava cheia de rvores e outra vegetao que se
espalhava pelos montes. Sentiu o estmago protestar pela falta de pequeno-almoo. Finalmente, voltaram para um caminho ladeado de rvores.
- Lar, doce lar - disse Agatha. - Bem-vindo a Las Dos Vizcachas, As Duas Lebres.
George comeou a prestar ateno. Agatha conduzia devagar para o sobrinho poder apreciar a sua bela casa. Tinha um orgulho enorme em
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Las Dos Vizcachas e administrava-a com eficincia militar. Como  evidente, George nunca apreciaria o trabalho que a tia ali fizera, pois no a vira quando ela havia
chegado.
Ao fim do caminho l estava a casa, to quadrada e corpulenta como a dona. Construda em volta de um ptio, estava pintada de branco com um telhado de telhas verdes.
Tinha duas torres de cada lado. As janelas espreitavam por trs de grades verdes com a finalidade de deter os intrusos e as portadas estavam fechadas para impedir
o calor de aquecer a casa. Nas traseiras, um longo alpendre coberto dava sombra a uma varanda, voltada para um lago ornamental; para alm desse lago ficava uma plancie
a perder de vista. Nos limites dos terrenos havia flores e grandes arbustos de gardnias e buganvlias que pareciam cegar quem as olhava, tal era o seu brilho quando
iluminadas pelo sol. As folhas dos eucaliptos sussurravam ao vento e enchiam o ar de um cheiro a cnfora, o que fez George recordar-se de Malta. Carlos levou a mala
dele para dentro e pelo caminho uma mulher com voz estridente pareceu ralhar-lhe. As palavras dela pareciam disparadas como balas, enquanto ele erguia as mos e
gesticulava como louco.
-  a Dolores - disse Agatha. - Como vs,  incapaz de dominar o mau feitio. J c estava quando eu cheguei e nunca consegui ver-me livre dela. Temos de a aguentar
como se fosse um parente velho.
- O que  que ela faz? - perguntou ele, entrando em casa atrs da tia.
-  a criada. Cozinha, mas acha-se muito superior para fazer limpezas. Quem trata disso  a Agustina, que  mais nova, mais gil e, graas a Deus, dcil como um
cordeirinho.
A casa, embora num estilo francamente colonial, traa a educao britnica de Agatha, com os seus quadros nas paredes e, em especial, com os dois canzarres que
dormiam nas lajes frescas,  entrada. Estes mal levantaram os olhos quando George entrou, o que o levou a concluir que no estavam ali para guardar.
- Deviam ser dogues alemes, mas no chegaram bem l. Chamam-se Bertie e Wooster - disse Agatha.
Quando ouviram os seus nomes, os dois agitaram alegremente as caudas. George seguiu a tia ao longo de um corredor, at chegar a um quarto no fim daquele.
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- Pareceu-me que ias gostar deste quarto. Tem vista para o parque - disse ela. - Alm disso, fica do lado da casa oposto ao nosso, por isso tambm vais ter mais
privacidade.
George ficou encantado com o quarto. Era grande e fresco, com soalho escuro de madeira, paredes brancas e uma enorme cama de ferro trazida de Inglaterra. A luz entrava
por uma janela alta, aberta, com as portadas escancaradas e as cortinas de linho corridas. George deixou-se ficar um pouco a admirar a vista, a sentir-se rejuvenescido
pelo ar fresco e aromtico e o canto pacfico dos pssaros.
- Quando estiveres pronto eu estou l fora no alpendre. Deves estar a precisar de uma bebida, imagino.
Antes de a tia sair do quarto, George abriu a mala.
- Tenho uma carta para meter no correio - disse ele, retirando da mala o pequeno embrulho e a carta. -  para a Rita.
Agatha olhou-o com ar conhecedor.
- Vou j tratar disso - respondeu-lhe com ar eficiente. Nada era de mais para Agatha. - Se tiveres roupa suja, mete-a no cesto. A Agustina pe-ta a de manh j
lavada.
George arrumou as coisas, tomou banho, fez a barba e vestiu umas calas leves e uma camisa de mangas curtas. Ps gua-de-colnia no rosto e no pescoo e depois percorreu
o longo corredor at ao alpendre. Agatha estava a conversar com um dos jardineiros. Tinha as mos na cintura e as pernas afastadas, como nos velhos retratos de Henrique
VIII. George tinha a certeza que, se ela quisesse, conseguia ser pelo menos igualmente aterradora. O jardineiro ouvia com deferncia o que ela lhe dizia, de chapu
na mo e cabea inclinada. Quando viu George, a tia mandou-o ir embora sem sequer um agradecimento e voltou-lhe as costas. O homem afastou-se, a limpar o suor da
testa com um leno pouco limpo.
-  o Gonzalo. Forte como um touro e igualmente estpido - disse-lhe a tia, puxando uma cadeira e sentando-se  mesa redonda. - Limonada? - Serviu-lhe um copo, que
ele bebeu agradecido, e continuou com espavento, articulando as palavras  velha maneira aristocrtica, quase sem abrir a boca. George pensou que a tia teria dado
um belo coronel na tropa. - Quando cheguei aqui quase no sabia uma palavra de espanhol e a casa estava praticamente em runas. O Jos Antnio cresceu aqui. A casa
foi construda pelo av dele; a certa altura, ele viveu aqui
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com os pais, os avs e duas irms. Os avs morreram, depois morreu o pai e as irms deram  sola. Uma casou com um mexicano e a outra foi viver para o Sul.
- Que aconteceu  me dele? - perguntou George, embora no estivesse muito interessado na histria da famlia de Jos Antnio.
- Est a viver em Buenos Aires, mas  doida varrida. Nunca c vem, a viagem parece-lhe demasiado dura. No posso dizer que tenha pena. Sempre foi uma pessoa difcil.
- A tia transformou este stio num paraso - disse George, vendo que a tia ficou satisfeita.
- No foi fcil. Vir para aqui sem falar a lngua... Tambm no foi o dinheiro do Jos Antnio. Perderam-no todo, os tolos. Eu tinha algum, o suficiente para pr
este stio a funcionar. No sabia grande coisa de agricultura, tive de aprender tudo  medida que ia fazendo. Vivemos bem e o trabalho  barato. Vivemos do que d
a terra. Vais ver. H muita carne e vegetais. Somos auto-suficientes. Anda, vou mostrar-te a quinta. Podes trazer o copo.
Caminharam em direco ao lago, onde as aves faziam ninhos nos canaviais e os patos-selvagens nadavam na gua. Atrs, do outro lado de um parque cheio de rvores
cuidadosamente plantadas, ficava o puesto. Era ali que os gachos tratavam dos cavalos. Alguns pneis descansavam  sombra de um ombu. Um jovem mestio estava sentado,
de tronco nu, a escovar a sela e os arreios de um cavalo, e outro, um homem muito mais velho, estava inclinado contra uma vedao a bebericar mate, a infuso tradicional,
por uma palhinha de prata muito ornamentada, directamente de uma cabaa. Vrios ces escanzelados cheiravam o cho ao lado do stio onde na noite anterior tinha
sido feito um grelhado. Pareciam esfomeados, mas ningum lhes prestava ateno. Quando os gachos viram a patroa aproximar-se, perfilaram-se e inclinaram a cabea.
George perguntava a si mesmo como seria o tio e se em casa seria a tia Agatha que usava calas. No havia dvida de que atribua a si mesma tudo o que se fazia em
Las Dos Vizcachas.
- Esta tarde vais sair com o Jos Antnio. Ele vai querer mostrar-te a quinta. Parece-me que era melhor instalares-te e descansares durante alguns dias e comeares
a trabalhar depois do fim-de-semana. Jos Antnio vai ficar contente por saber que pode contar com mais um par de braos.
Na companhia da tia Agatha, George mal teve um momento para pensar em Susan, ou em Rita, de resto. A tia falava pelos cotovelos e
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acabava muitas das suas frases com um "no achas?", ou "no te parece?", de maneira que no era possvel deixar a mente divagar. Talvez de momento fosse melhor esquecer
as duas e concentrar-se na sua instalao no novo pas.
Sentaram-se de novo  mesa no alpendre, agora posta para o almoo. Da cozinha vinha um cheiro agradvel a carne. O estmago de George no parava de protestar e ele
no conseguia deixar de pensar nos apetecveis pezinhos que se encontravam num cesto, no centro da mesa. Por fim, quando George comeava a sentir-se indisposto
com fome, a voz grave de Jos Antnio ecoou no trio:
- Gorda! Cheira-me a comida. Vamos almoar!

CAPTULO 11
Jos Antnio era um verdadeiro gigante: media mais de um metro e oitenta, de ombros largos, com uma barriga saliente e cabelo escuro espesso. Quando viu George,
o seu rosto abriu-se num sorriso radioso.
- George, bem-vindo a Las Dos Vizcachas! - Falava bem ingls, embora com um forte sotaque argentino. Em vez de lhe estender a mo, deu uma palmada firme nas costas
de George, acompanhada de uma gargalhada sonora. - Tenho a certeza que a Agatha j te mostrou a estancia. Ela tem muito orgulho na casa dela.
- Sim,  um lugar magnfico - respondeu George, dominado pelo magnetismo do homem.
- Ainda bem que gostaste. Vai ser a tua casa durante uns tempos, espero bem. - Depois voltou os olhos castanhos para a mulher. - Vamos comer.
Agatha fez soar uma pequena campainha de prata que estava ao lado dela na mesa e Agustina veio a correr com uma travessa grande de carne, batatas e salada. Na cozinha
ouviu-se um grito agudo. Jos Antnio riu-se e serviu-se de um copo grande de vinho.
- Estou a ver que a Dolores est outra vez em guerra - disse, erguendo o copo a George. - E tu que pensavas que a guerra tinha acabado.
- Ela hoje est especialmente maldisposta. Apesar disso, tenho de dizer que em todos os anos que aqui tenho vivido s a vi sorrir uma vez - disse Agatha, servindo-se.
George serviu-se do mais que pde sem que isso parecesse mal e levou uma garfada generosa  boca. Tinha um sabor to bom como parecia.
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- H quem diga que as pessoas se transformam nos seus nomes. Dolores quer dizer dores - observou Jos Antnio.
- Ela no est a sofrer! - exclamou Agatha.
- Pois no, Gorda, ela faz mas  sofrer toda a gente! - disse o marido rindo a bom rir.
- Se o que ests a dizer acerca dos nomes for verdade, ento eu tornei-me sem dvida o meu - replicou ela com um sorriso. Depois, voltando-se para George, acrescentou:
- O Jos Antnio chama-me sempre Gorda.
George achou que devia tranquiliz-la assegurando-lhe que no era gorda, mas pareceu-lhe que isso no era possvel sem fazer figura de tolo, de maneira que observou:
- A tia  uma bela figura de mulher.
- Tenho de ser, para tomar conta desta casa. O teu tio vive como um rei.
E era verdade. Jos Antnio era servido pela tia e at por Dolores, que o conhecia desde criana. George ficou surpreendido por ver que, com o marido, a tia Agatha
parecia suprimir a sua personalidade. Falava menos e ria-se de todas as piadas dele, mesmo das mais tolas. Era evidente que era mais inteligente que o marido e to
expedita que ele no fazia ideia do trabalho que dava tomar conta da casa. Tudo estava precisamente como ele gostava. As refeies eram servidas a horas, a comida
era sempre fresca e deliciosa, os cavalos estavam sempre prontos, o puesto era organizado e eficiente, e os inmeros empregados trabalhavam em silncio para que
Jos Antnio apenas se apercebesse da perfeio do espectculo, e no do que ia nos bastidores. Os hspedes iam e vinham e os quartos estavam sempre arranjados,
com as camas feitas de lavado, flores e sabonetes novos. Jos Antnio recebia-os calorosamente, mas nunca se lembrava de agradecer  mulher o seu duro trabalho.
S Dolores refilava e protestava, escapando completamente ao domnio de quem quer que fosse. Contudo, todos a toleravam porque fazia parte do lugar. Como sempre
a conhecera assim, aos gritos e a refilar, o tio habituara-se a ela.
Depois de almoo Jos Antnio dormiu a sesta. Por vezes, ia  cidade visitar a amante, Molina. Dava umas cambalhotas com ela e depois acabava por adormecer sobre
os seus peitos generosos. Ao contrrio de Agatha, era jovem e elegante, com uma pele da cor do acar queimado. Do que mais gostava nela era do traseiro, macio e
redondo como um
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pssego. Nesse dia, no entanto, estava cansado. Para se exibir  frente do novo hspede tivera de beber um pouco mais, e o vinho deixara-o um pouco atordoado, de
maneira que acabou por adormecer na prpria cama, onde levou duas horas a sonhar com as ndegas firmes de Molina. George passou pelo sono numa rede que pertencia
aos midos. Felizmente, o quarto de Jos Antnio ficava numa das torres do outro lado da casa, de maneira que George pde dormir descansado, sem ser perturbado pelo
ressonar do tio e pelos rudos provocados pela sua digesto.
 tarde, George acompanhou o tio num passeio a cavalo pela quinta. O sol ainda brilhava, mas j no era to intenso. Apesar da natureza um tanto rude de Jos Antnio,
George gostou da companhia dele. Cavalgaram pelas plancies, onde o trigo e o milho cresciam em campos dourados e onde os girassis voltavam os rostos para a luz.
Havia vacas castanhas a ruminar entre as ervas e as flores, em grandes manadas, com o plo lustroso e a brilhar de saudvel. Jos Antnio tinha um verdadeiro exrcito
de trabalhadores que pareciam fazer a maior parte do trabalho a cavalo. Vestiam-se  maneira tradicional dos gachos: calas largas por dentro das botas de cabedal
e faixas de pano  volta da cintura, sobre as quais usavam cintos elaborados decorados com moedas de prata. Tinham um aspecto magnfico com os chapus de abas largas,
perneiras de cabedal, esporas brilhantes e a importantssima faca, sempre presa aos cintos. Mas Jos Antnio estava muito mais interessado em falar acerca de George.
- La Gorda disse-me que tens uma mulher em Inglaterra - comeou ele, mas antes que George tivesse oportunidade de responder acrescentou: - Mas de que te serve uma
mulher com quem no podes fazer amor? e riu-se com espalhafato. - Se quiseres uma puta, eu conheo um stio bom, asseado, na cidade. Um homem tem de foder, da mesma
maneira que tem de comer e de cagar, no  verdade? - George estava boquiaberto, mas no se podia dizer que Jos Antnio tivesse notado. - A mulher legtima  para
fazer filhos - continuou. - Organiza a nossa vida e toma conta de ns. Uma puta  para o prazer. Se a minha inteno fosse passar o resto da minha vida a fazer amor
com a minha mulher, tinha casado com a Molina, mas a Molina no serve para mais nada. Todos os homens precisam de uma mulher para o amor e de outra para a cama,
no te parece? - George tivera a sua quota-parte de conversas de caserna durante a guerra, mas no lhe parecia apropriado discutir aqueles
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assuntos com o marido da tia. Jos Antnio olhou para ele com os olhos castanhos, cor de mogno, e disse com uma careta: - Estou a ver que ests apaixonado.
- Vou casar com a Rita - disse George, sentindo-se desajeitado. Tirou um cigarro e acendeu-o.
- Nesse caso do que precisas  de uma mulher que te mantenha ocupado - sugeriu Jos Antnio, evidentemente uma autoridade no assunto. - Um ano  muito tempo e tu
s jovem. Quando tinha a tua idade, fazia amor sempre que tinha oportunidade, porque quando envelhecemos j no temos energia nem tempo para o fazer tantas vezes.
Vais ver que tenho razo. - Como George no respondeu, o tio acrescentou pensativamente: - A Rita deve ser uma mulher muito bonita.
-  sim - replicou George, pensando no rosto dela e no que ela pensaria de Jos Antnio. Estava cheio de vontade de lhe falar dele na carta seguinte.
- Sempre gostei de mulheres. As raparigas novas no tm experincia. So como frutos verdes nas rvores. Depois de terem sido expostas algum tempo aos elementos
ficam melhores. Precisam de amadurecer.
George pensou em Susan e sentiu um vago arrependimento. Devia ter-lhe pedido pelo menos o endereo. Saber que dificilmente voltaria a v-la tornava-a ainda mais
enigmtica e misteriosa.
- H qualquer coisa de muito atraente numa mulher que j viu alguma coisa do mundo - concordou George.
- E que provou o fruto proibido. As raparigas novas so ingnuas, confiantes e adoram-nos. Falta-lhes personalidade. Senti-me atrado por La Gorda porque sabia o
que queria.  uma mulher forte e capaz. Pouco importa que fale espanhol como uma turista.
- Devo dizer, Jos Antnio, que o seu ingls  admirvel - disse George honestamente, perguntando a si mesmo como iria ele prprio aprender espanhol.
- Tive uma ama inglesa, que se foi embora quando eu tinha vinte anos. No, no - apressou-se a acrescentar  gargalhada, - nessa altura j sabia usar o bacio, asseguro-te.
Quando voltaram ao puesto estavam duas crianas morenas empoleiradas na vedao  espera deles. Quando os viram, desceram do poleiro e montaram rapidamente nos pneis.
Pia tinha oito anos e Jos Antnio, a quem chamavam Tonito para evitar confuses, tinha dez. O pai saltou
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para o cho e pegou-lhes a ambos ao colo ao mesmo tempo. Os dois riram-se, muito excitados, e Pia ps as mos sobre o seu rosto rude e deu-lhe um beijo.
- Venham conhecer o vosso primo George.
Cumprimentaram-no com timidez, observando George com os mesmos olhos escuros do pai. Nenhum era parecido com a me. Pia ia sem dvida ser uma beldade quando crescesse
e Tonito um gigante. Pertenciam  Argentina como o ombu  pampa. George ficou surpreendido por descobrir que nenhum dos dois falava bem ingls, j que os pais falavam
ambos com eles em espanhol, mais por preguia que por qualquer outra razo.
- Vamos a casa a tomar el t - disse Tonito. Depois voltou-se para George e traduziu num mau ingls: Teatime.
O ch foi servido na varanda, com as pratas e a porcelana chinesa muito elegantemente dispostas sobre uma toalha imaculadamente branca. Os midos beberam leite e
contaram aos pais o que tinham feito na escola. Jos Antnio era indulgente e Agatha preocupava-se com as boas maneiras de ambos.
- Meninos, agora que temos um convidado ingls temos de falar ingls - disse Jos Antnio, passando a sua enorme mo pelo cabelo do filho. - Mostra-nos o que aprendeste
na escola.
- Monday, Tuesday, Wednesday, Thursday - disse Tonito com uma gargalhada.
- Espero que saibam mais do que isso! - exclamou Agatha, pouco impressionada.
- Eu no quero - queixou-se Pia, olhando para o pai sob as espessas pestanas negras. J dominava a arte da seduo.
- O George pilota avies - disse a me, procurando atra-los  conversa. - E combateu na guerra.
- Como um pssaro - disse Pia, apontando para o cu.
- Sim, como um pssaro - concordou George com um sorriso. - Mas uma vez ca. Vim parar ao cho. No foi como um pssaro!
Os dois midos riram-se, sem dvida percebendo mais do que davam a entender.
- No me digas, George! Caste? - perguntou-lhe a tia, de olhos muito abertos.
- Por pouco no me matava! - respondeu o sobrinho. - Fui salvo pela graa de Deus.
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De repente o som de loua a partir-se, de cadeiras a arrastarem-se e um dos guinchos inconfundveis de Dolores alertou-os para qualquer coisa que se passava na cozinha.
Todos ficaram imveis, de orelhas arrebitadas a olhar uns para os outros, surpreendidos. Pia riu-se com nervosismo, tapando a boca com a mo. Jos Antnio ps-se
de p, ainda a mastigar um pedao de queijo e membrillo, e deu alguns passos lentos em direco  cozinha. Quando l entrou encontrou a Dolores com uma faca apontada
a um agressor invisvel. Parecia um corvo furioso, com a habitual bata negra, sapatos prticos rasos e o cabelo apanhado num carrapito severo.
- Fora, fora - gritava, rgida de fria. Quando viu o patro voltou-se para ele. - Senhor, se veio buscar-me, peo j a Deus que me perdoe os meus pecados.
- Dolores, porque havia eu de te levar? Ningum faz empanadas to boas como as tuas! - A sua voz era calma mas firme.
- Tenho um melo a crescer-me na barriga e  por isso que me vm buscar.
Jos Antnio olhou para ela intrigado. Era muito mais alto, por isso no teria sido difcil tirar-lhe a faca, mas os olhos da mulher brilhavam mais de terror que
de raiva.
- Quem  que veio buscar-te? - perguntou pacientemente. - No estou a ver aqui ningum.
Falando desafiadoramente, Dolores apontou para a parede.
- Os espritos. Vm buscar-nos quando o nosso tempo chegou ao fim, para nos levar para o outro mundo. Mas eu disse-lhes que ainda no estava pronta. Vyanse, vyanse!
O rosto de Jos Antnio tornou-se sombrio e ele franziu o sobrolho. Aquilo no era a conversa de uma velha louca. Ele percebia de espritos, pois ele prprio j
os vira.
- Quem est ali, Dolores? - perguntou. A sua voz pouco passava de um sussurro.
- A mam e o Ernesto.
- Pousa a faca. No podemos atingir os espritos com facas. - Deu alguns passos na direco da mulher. Esta levantou os olhos, vermelhos e hmidos, mordeu os lbios
finos e entregou-lhe a faca.
- Diz-lhes que se vo embora, mas com delicadeza - pediu Jos Antnio, voltando a pr a faca em cima da mesa.
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Foi o que ela fez. Ele viu-a acenar com a mo como se estivesse a enxotar um co aborrecido. Depois voltou-se para o patro, ajeitou o cabelo grisalho e acenou-lhe
com gravidade.
- O meu tempo est a chegar, senhor - grasnou.
De mos na cintura, Jos Antnio suspirou ruidosamente.
- Uma faca e alguns palavres no podem atrasar o teu encontro com Deus, Dolores. No, os espritos vieram trazer-te um aviso. Vou chamar a senhora.
Quando voltou para a mesa encontrou Agatha ocupada a contar a George as famosas histrias de Dolores: uma vez em que por pouco no tinha morto um porco, a discusso
com uma prostituta em Jesus Maria e a descoberta de que o marido, Ernesto, tinha uma vida dupla com outra famlia em La Cumbre.
- Como se est mesmo a ver, morreu pouco depois - dizia Agatha. - Ela fez-lhe a vida impossvel, como deves imaginar.
Quando viu o marido aproximar-se, a sua voz baixou de tom e olhou para ele com curiosidade.
- Que diabo se passa com ela agora?
- Vai falar com ela, Gorda. Diz que tem um melo a crescer-lhe na barriga. No me parece que seja um melo verdadeiro. Depois voltou-se para George. - Isto so coisas
de mulheres.
- Ela vai morrer? - perguntou Pia quando viu a me dobrar cuidadosamente o guardanapo e p-lo sobre a mesa.
Jos Antnio deu-lhe uma palmadinha no ombro.
- Claro que no, mi amor - respondeu-lhe.
- Qu pena! - disse a criana, para surpresa de George. Sabia pouco de espanhol mas estava certo de ter percebido correctamente o que a garota dissera.
- Pia, mais respeito, por favor! - ralhou Agatha, irritada. Detestava envolver-se na vida pessoal dos empregados, especialmente nas suas funes corporais. A ideia
de um melo na barriga de outra mulher deixava-lhe a cabea a andar  volta. No tinha o menor desejo de saber mais acerca do assunto. Mesmo assim, fez o que o marido
lhe pediu.
Encontrou Dolores prostrada numa cadeira a beber mate. Parecia uma velhota simptica, e no o demnio que governara a cozinha nos ltimos quarenta e tal anos.
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- Sente-se bem? - perguntou-lhe Agatha em espanhol. Procurou dominar-se, mas teve conscincia de que a sua voz no revelava o menor interesse.
- Que importncia tem isso? - resmungou Dolores. - Estou prestes a ir-me embora.
- No diga disparates - respondeu-lhe Agatha, com vontade de acrescentar que tentara em vo que isso acontecesse nas duas ltimas dcadas. - O senhor Jos Antnio
disse-me que a Dolores tem uma coisa a crescer-lhe na barriga - disse, j que o melo lhe pareceu demasiado disparatado para falar dele.
- Ele devia meter-se na vida dele - retorquiu Dolores. Agatha encolheu os ombros.
- Bueno, nesse caso, vamos todos meter-nos nas nossas vidas - respondeu com uma rispidez igual  da empregada, e saiu da cozinha, aliviada por no ter sido preciso
levar o assunto mais alm.
George percebeu que ia ser feliz na sua nova casa.  tarde, foi dar um mergulho e depois sentou-se nas lajes quentes a observar as moscas e os mosquitos a danarem
sobre a superfcie da gua e deixando que o cheiro dos eucaliptos e das gardnias invadisse os seus sentidos. Sentiu-se feliz por estar longe de Inglaterra. Tanto
fsica como mentalmente estava a milhares de quilmetros de distncia e, pela primeira vez desde a guerra, sentia-se em paz. Os mugidos doces das vacas acompanhavam
os trinados dos grilos e os chilreios dos pssaros, e o Sol-poente banhava as plancies de um tom mbar.
Nessa noite, jantaram no ptio ao lado de uma rvore de ramos estendidos, cujas flores vermelhas iam rebentando no ar com um plop bem audvel. Dolores parecia ter
recuperado da sua assombrao e gritava com Carlos e Agustina. Os midos bebiam vinho e conversavam com os adultos. George, cansado da viagem, foi para a cama antes
deles. Dormiu um sono sem sonhos, embalado pelo ar doce da noite e o resfolegar delicado dos pneis.
Alguns dias mais tarde, comeou a trabalhar. Sentia-se bem a cavalgar pelos campos, e havia muito que aprender. Mais um dia lmpido para alegrar o seu esprito e
aguar o seu sentido da liberdade. Com o vento no cabelo e o sol no rosto, montava ao lado dos gachos, recolhendo as manadas e vigiando os campos frteis semeados
com trigo e milho. Gostava
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de pertencer ao grupo e observava-os com ateno, copiando a sua maneira descontrada de montar, a maneira como cavalgavam com abandono, rdeas apenas numa das mos
e os chapus sobre um dos olhos. S falavam espanhol, e George tinha pena de no ser capaz de comunicar a no ser por gestos. Mas sorriam-lhe divertidos, pressentindo
que ele era um bom tipo. Riam-se do seu entusiasmo, da maneira imprudente como montava e do nmero de cigarros que fumava. Quando lhe ofereciam um gole de mate,
engasgava-se e quase sufocava com o sabor forte, apesar do mel que lhe adicionavam para o tornar mais doce. Era por isso que enchia um frasco com brande alaranjado,
e era essa a sua bebida. Jos Antnio disse-lhes que ele fora um bravo piloto durante a guerra, de maneira que comearam a chamar-lhe El Gringo Volante o Estrangeiro
Voador e por uma vez George sentiu-se grato por no falar a lngua, porque isso o dispensava de ter de lhes contar histrias da guerra.
Agatha mandou-o estudar espanhol em Jesus Maria com uma jovem lnguida chamada Josefa. Tinha cabelo negro, pele morena e era rolia e bem cheirosa, to indolente
como uma preguia ao sol. Tinha dois livros que evidentemente conservara dos tempos de escola e um gosto perverso por conjugar verbos. Felizmente fora abenoada
com uma natureza fcil e uma pacincia sem fim. Corrigia os erros de George vezes infinitas sem se irritar e ia ouvindo as suas primeiras tentativas de formar frases.
No havia dvida de que gostava dele. Encharcava-se de gua-de-colnia, frisava o cabelo, usava maquilhagem e alindava o corpo sensual com loes e jias. O calor
permitia-lhe usar o menos roupa possvel dentro da decncia, expondo superfcies cada vez maiores em cada nova aula. Mas George estava ocupado de mais a aprender
para reparar. O seu corao estava fechado aos avanos dela, apesar dos seus seios provocantes. Pressentiu o espectro de outra mulher e resignou-se  impossibilidade
de satisfazer os seus desejos.
Novembro passou rapidamente, assombrado pela instabilidade cada vez maior de Dolores e pela cada vez menor pacincia de Agatha. George j conseguia comunicar em
espanhol e montava como os gachos, embora a sua tcnica com o lao ainda deixasse muito a desejar.  noite, sentava-se com eles  volta da fogueira e chegou mesmo
a aprender as letras e a msica de algumas canes, acompanhadas por um rapaz franzino a quem chamavam El Flaco, que tocava guitarra como um anjo.
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Insistia que nunca viria a gostar de mate, mas matar e esfolar um animal parecia perfeitamente ao seu alcance. Pedro, um gacho de cabelo comprido que fazia segredo
da idade, bem como do nome das prostitutas que visitava em Jesus Maria, ofereceu uma faca de prata a George, dizendo-lhe que era para usar quando castrasse o seu
primeiro animal.
Sempre que olhava a Lua, George lembrava-se de Rita. Pensava na sua famlia, em Mrs. Megalith, nos seus amigos. Mas sabia que em Frognal Point a vida nunca mudaria.
Estava cansado do mar e das falsias e as plancies frteis e as montanhas frescas de Crdova pareciam-lhe refrescantes. Tambm se lembrava de Susan, quando a sua
mente divagava sem limitaes e os pensamentos vagueavam  solta com a liberdade que temos nos sonhos. Recordava sempre a mesma imagem dela, curvada sobre a amurada,
a ajeitar um caracol atrs da orelha, com o seu sorriso relutante e os seus olhos tristes que escondiam segredos que ele nunca viria a conhecer.
Mas nessa altura os ventos da fortuna, tantas vezes adversos, comearam a soprar a seu favor. Tudo comeou com o melo. Agatha pusera o problema de lado como mais
um episdio tortuoso do drama inesgotvel que era a vida com Dolores. A velhota ia gritando e ralhando ao pobre Carlos pela mais pequena distraco. Agustina andava
exasperada, muitas vezes  beira das lgrimas. George habituou-se  gritaria e, tal como Jos Antnio, comeou a ignor-la. A comida que ela cozinhava era sempre
boa. Depois, um dia, no princpio de Dezembro, Pia entrou no alpendre a correr e a gritar pelo pai: - Pai, pai, Dolores est muerta! - Nessa altura, George j compreendia
o suficiente de espanhol para perceber o que a criana tinha dito. Agatha afastou a cadeira com tanta fora que seria compreensvel que algum pensasse tratar-se
de impacincia para se assegurar de que o demnio morrera finalmente. Jos Antnio atravessou a casa a correr com a mesma pressa. At George os seguiu, apesar de
raramente entrar na cozinha.
Dolores estava inerte no cho, mas, para desapontamento de Agatha, continuava a ter pulso e a respirar, embora fracamente. Chamaram o mdico e Jos Antnio levou
a mulher para a sala como se no passasse de um pequeno molho de lenha mida. Deitou-a no sof e George reparou imediatamente no seu estmago dilatado. Lembrou-se
do melo e sentiu o seu prprio estmago a latejar. Dolores no era uma viso agradvel. Estava velha e engelhada como as nozes do seu pai. Lembrou-se de Trees e
sorriu consigo mesmo.
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O mdico disse que Dolores tinha realmente uma coisa grande e pouco confortvel no estmago. No se tratava de um melo, explicou rapidamente quando um dos midos
falou no assunto, mas de um tumor. Teria de ser removido o mais cedo possvel. Agatha no tinha remdio seno lev-la de carro a Buenos Aires para ser operada. A
ideia de passar horas a fio no carro com o demnio, incluindo tumor e tudo o mais, deixava-a indisposta, mas sabia que era essa a sua obrigao. Jos Antnio pareceu
no reconhecer o grau de auto-sacrifcio que aquela viagem envolvia, mas ela tinha de desabafar com algum e agradou-lhe ter George a jeito.
- Valha-me Deus - ia-se queixando ao mesmo tempo que metia a roupa  pressa numa mala. - Maldito pesadelo. Passei todos os anos da minha vida de casada a tentar
manter a maior distncia possvel entre mim e aquela criatura horrorosa que alguns acham tratar-se de uma mulher. Por mim  um monstro, ou um esprito maligno, um
ser humano  que no h nada que indique que seja. E agora a criatura vai e desenvolve um tumor. Porque no havia Deus de a levar quando teve oportunidade  uma
coisa que nunca hei-de perceber.
- Quanto tempo vai ter de ficar na cidade? - perguntou George. Agatha bufou furiosa:
- Muito mais do que gostaria, disso tenho a certeza. No sei, dez dias, duas semanas.  uma maada...
- Onde vai ficar?
- O problema no  esse. Temos amigos que cheguem em Buenos Aires para povoar uma cidade inteira.  o Jos Antnio no ter sequer uma palavra de gratido. Nunca
foi muito rpido com os agradecimentos. No que eu tenha de que me queixar.  um bom homem, s no  muito sensvel. Considera o lado domstico da vida minha responsabilidade
exclusiva! Mas isso ainda compreendo. O que no percebo  como pode um demnio como a Dolores caber nessa categoria!
- E se fosse eu a lev-la? - ouviu-se George a si mesmo a sugerir, com uma voz um tanto crispada. - Ou, pelo menos, deixe-me ir consigo.
- No, no. No  preciso. Muito obrigada, querido George, por te ofereceres. s um jovem muito generoso.
Como  evidente, no havia nada de generoso nesta oferta. George no podia simplesmente deixar de sonhar que talvez, se estivesse na mesma cidade que Susan, os seus
caminhos, por algum milagre, acabassem por se cruzar.
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George viu as duas mulheres partirem para a cidade e sentiu-se subitamente vazio. Consolou-se com a ideia de que dificilmente tropearia em Susan numa cidade com
milhes de habitantes. Era ingnuo s de imagin-lo.
Passaram-se doze dias. George sonhava com o regresso de Agatha e Dolores porque, enquanto estivessem em Buenos Aires, no conseguia deixar de imaginar que Susan
estava perto delas, sem conhecimento da sua tia. Talvez tomassem ch no mesmo caf, sem que a tia se apercebesse disso, ou fizessem compras ao lado uma da outra
num stio qualquer. Se ele, ao menos, tivesse ido com elas poderia ter uma oportunidade de a ver. Mesmo que Agatha estivesse algum dia ao lado da mulher com o rosto
terrivelmente desfigurado, nunca saberia como o corao do sobrinho ansiava por ela.
Por fim, Agatha regressou com Dolores. George tinha sado com os gachos, mas Jos Antnio apressou-se a levar-lhe as boas notcias.
- A Dolores est curada - contou, radiante, gesticulando muito com as grandes mos. George ficou curioso em relao ao que a tia pensaria do caso. - Ainda por cima,
havia no melo um veneno que estava a contaminar todo o corpo dela, a natureza dela, mas agora est muito mudada. At sorri!
- E a tia Agatha? - perguntou George.
- La Gorda parece incapaz de ir  cidade sem voltar com um trofeu humano da visita.
- Talvez merea uma recompensa por fazer todo aquele caminho com Dolores - retorquiu George com diplomacia.
- Uma mulher curada e outra desfigurada. Se no chove, troveja - exclamou alegremente. - A tia convidou uma mulher para lhe fazer companhia, gringo. Mas  claro
- troou com uma palmada na perna, - tu s tens olhos para Rita.
- O qu?
- Agora criou um santurio para mulheres em recuperao. Se calhar tambm vou para l com a Molina. Mas no penses mais no assunto, gringo. Ela no  para ti. Deus
amaldioou a beleza dela com uma facada no rosto - explicou, mostrando com um gesto o que queria dizer. - Anda, temos muito trabalho!

CAPTULO 12
Vestida com pouco mais que um roupo e chinelos, Rita saiu de casa ao encontro do carteiro, como todas as manhs, com um passo gil e uma prece silenciosa nos lbios.
Nesse dia haveria decerto uma carta para ela. Era uma manh gelada de Novembro. Mais um Natal sem George, pensou sombriamente. Mr. Toppit, o carteiro, sorriu-lhe
e acenou-lhe com um envelope grosso de papel pardo. Reconhecera a letra de George Bolton por todas as cartas que ele escrevera a Rita durante a guerra. No sabia
por que razo o jovem partira de novo, mas parecia-lhe uma tolice deixar uma rapariga bonita como Rita Fairweather sozinha.
- Uma carta para si do estrangeiro! - exclamou, vendo a sua respirao subir em espiral no ar como fumo. Rita aceitou-a da mo dele e levou-a aos lbios. Todo o
seu corpo parecia elevar-se, como se tivesse dificuldade em manter-se no cho. Mr. Toppit sentiu-se orgulhoso, como se fosse ele a causa da felicidade da rapariga.
- Oh, muito obrigada, Mister Toppit. J me deixou feliz! - respondeu-lhe com uma risada, apalpando o envelope, tentando adivinhar o que continha. O carteiro viu
os olhos da jovem brilharem no escuro e pensou em como a felicidade podia tornar uma rapariga mais bonita. Se no fosse casado, se voltasse a ser jovem, se a artrite
no tivesse j comeado a corroer as suas articulaes, se tivesse a confiana em si mesmo de George Bolton, era capaz de perder o corao por Rita Fairweather.
George era um homem de sorte, magicou. Havia em Rita qualquer coisa que a punha fora de alcance, como se pertencesse ao mar, como as sereias. George no era apenas
um felizardo, tinha sido abenoado.
- Importa-se de entregar estas  sua me? - perguntou, acordando do seu sonho.
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- Claro - respondeu ela, pegando nas cartas e voltando para casa.
- Vou abri-la sozinha no alto da falsia.  o nosso stio especial, l em
cima no alto da falsia.
- Cuidado para no cair - arreliou-a ele.
- No hei-de cair. A vida  boa de mais! - E com isto escapuliu-se para dentro de casa.
Quando entrou na cozinha, a famlia percebeu pelo seu sorriso que, por fim, recebera carta de George.
- J no era sem tempo! - exclamou Humphrey, que desaprovava veementemente a deciso de George de deixar Rita por mais um ano. Se no fosse pelo anel de noivado,
teria chamado o rapaz  parte para lhe dizer das boas. Fosse como fosse, tinha dvidas que George regressasse. O jovem era um poo de contradies. Um velho soldado
no corpo de um rapaz. Emocionalmente imaturo, ainda que sensato e aptico, ou at cnico, talvez desiludido, ansioso por novidade e aventura, mas acima de tudo por
liberdade. Porque haveria ele de querer assentar em Frognal Point? Era evidente que a guerra o modificara. Era inevitvel. Mas no modificara Rita.
- O que foi? - perguntou Hannah, enquanto Eddie saltava da cadeira, a fazer perguntas com a boca cheia de torrada.
- Abre-a, v! - dizia-lhe Maddie, bebericando o ch. Maquilhada com batom vermelho e mscara, o cabelo penteado  Lauren Bacall, parecia ela prpria uma estrela
de cinema.
Hannah tentara dissuadi-la de se exibir daquela maneira, mas Maddie tinha quase vinte anos e uma personalidade de ao. E no tinha trabalho. No queria ouvir falar
do assunto. Alm disso, passava tempo de mais no White Hart, um pub. Hannah fazia vista grossa. Tinha de aceitar que a filha j era adulta.
S Eddie continuava na escola e ainda podia ser manobrada. Hannah percorria muitas vezes a casa, pegando em relquias da infncia das filhas, comovendo-se com as
recordaes que elas desencadeavam. O tempo parecia correr e os filhos cresciam e partiam. Felizmente, os pssaros dela ficavam. Alguns migravam, mas regressavam
sempre e pareciam contentes por voltar a v-la.
- Vou abri-la na falsia. Preciso de estar sozinha - anunciou Rita, para desapontamento de todos.
Antes que algum pudesse protestar, fugiu e s ficou o barulho dos seus ps a subirem as escadas...
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- O que acha que ? - perguntou Eddie  me.
- Ele j lhe deu um anel de diamante - disse Maddie, com ar despeitado.
- Tenho a certeza que  uma recordao de Buenos Aires - disse Hannah. - No me parece que tenha grande importncia. O que interessa  que ele tenha pensado nela.
- Trocou um olhar triunfante com o marido. Sabia perfeitamente das dvidas dele, mas aquela carta provava que Rita tomara a deciso certa. - A ausncia faz-nos dar
valor quilo que deixmos para trs - acrescentou, ao que Humphrey respondeu com um grunhido. - No te esqueas que vamos almoar a casa da av - gritou Hannah na
direco das escadas. - A tia Antoinette tambm vem, com a Emily e o William.
Era sbado, e aos sbados Rita passava muitas vezes o dia sozinha na praia. Hannah no tinha a menor ideia do que ela l fazia. Provavelmente sonhava acordada. Pelo
menos, tinha agora um emprego na biblioteca da cidade, seno era capaz de desaparecer no meio das suas fantasias. Trabalhar numa quinta no era vida para uma rapariga.
Olhou para Maddie, vestida como se fosse para uma festa, e desejou saber que pensaria ela fazer com o seu dia. No que se atrevesse a perguntar. Maddie limitar-se-ia
a arreli-la. Parecia-se cada vez mais com a tia Antoinette, o que estava longe de ser um elogio.
Rita atravessou a aldeia em direco ao mar, com o envelope encostado ao peito. No conseguia deixar de sorrir nem de caminhar quase aos saltos de alegria. Viu o
reverendo Hammond na loja da aldeia a conversar com Miss Hogmier e apressou o passo para evitar que sassem para lhe falar. No gostava muito de Miss Hogmier, uma
velhota azeda quase sem lbios e com muitos plos a sarem do nariz, e sempre que podia evitava fazer as compras  me. Quando chegou ao alto da falsia sentou-se
com as pernas a danarem sobre o precipcio, no local exacto onde sempre se sentara com George, e abriu o pacote de papel pardo.
O tempo estava frio e ventoso. Rita usava um casaco de pele de ovelha do pai e estava quase completamente invisvel sob um barrete de l bem enfiado na cabea. Teve
de tirar as luvas para abrir o envelope, mas o desconforto valeu a pena, j que, para sua alegria, descobriu o pequeno pingente com a pomba que George lhe comprara
a bordo do fortuna. Manteve-o na mo enquanto abria a carta. No era longa. George nunca
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escrevia cartas longas, ao contrrio dela, que escrevia sempre vrias pginas. Contudo, estava certa de que continha palavras que ela precisava de ler. Indiferente
ao vento cada vez mais forte e ao mar tempestuoso que batia nas rochas, devorou as palavras.
Querida Rita, escrevo-te a bordo do Fortuna, ao largo do Brasil.  noite, e mais uma vez a minha mente vai ao teu encontro. Espero que gostes do pingente. Comprei-o
a um velho muito encarquilhado que veio vender as coisas dele a bordo. Tenho a certeza que mo vendeu pelo triplo do que valia, mas eu tinha-o comprado por dez vezes
o que me pediu porque  isso que tu vales. A pomba simboliza o amor, a felicidade e os casamentos venturosos. Envio-to para que o uses como amuleto e espero que
te traga todas estas coisas e ainda mais. Sinto a tua falta, minha querida, e s vezes pergunto a mim mesmo porque estarei a fazer isto, se ser sensato. Mas ambos
ficaremos mais ricos com o meu afastamento, porque eu hei-de regressar a casa para me instalar, depois de ter encontrado paz interior. E por causa desta experincia,
hei-de ser melhor pai e marido. Foste uma rapariga maravilhosa por me teres deixado partir, seguro de que o teu corao continua a ser meu. O meu tambm te pertence,
para sempre. Com todo o meu amor, minha doce Rita
George
Rita leu e releu a carta vrias vezes. Ao contrrio do que acontecera com cartas anteriores, aquela no se detinha no passado. No falava do Vero, da gruta ou dos
piqueniques na falsia. Alm disso, era muito curta. Mas enfim, no podia queixar-se. Ele adorava-a e sentia a falta dela, e s isso importava. Abriu a mo e observou
o pingente. Era muito bonito. Us-lo-ia todos os dias. Ansiosa por p-lo, tentou abrir o fecho sem soltar a carta, mas os seus dedos mexiam-se com dificuldade por
causa do frio e, de sbito, a pgina de papel, muito leve, foi apanhada por uma rajada de vento e soltou-se dos dedos dela. Abriu a boca horrorizada enquanto a carta
ia sendo levada como uma folha de Outono, ora nesta direco ora naquela. Ps-se de p e, impotente, viu-a voar em direco ao mar. Desceu a correr o caminho de
areia que levava  praia e comeou a olhar para o cu, certa de que cairia num stio onde ela poderia apanh-la. No se via no ar um nico pssaro que tivesse desafiado
a tempestade. S a carta de George girava e mergulhava, como satisfeita de ter sido lanada em liberdade. Durante instantes pareceu realmente que ia cair em
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terra firme, mas uma rajada inesperada varreu a praia e arrastou-a em direco ao mar, onde por fim caiu. Perdida para sempre na gua.
Rita ficou desesperada. Corriam-lhe pelo rosto lgrimas de fria e de frustrao. Esperara um ms por aquela carta e acabava de ficar sem ela. Triste, tocou o pingente
com gratido e consolou-se com a ideia de que o vento pelo menos no tinha levado a lembrana de George. Subiu o caminho de areia desconsoladamente, de cabea baixa
para proteger o rosto do vento gelado. Fungou, triste, e tentou recordar as palavras exactas de George. Decidiu escrev-las assim que chegasse a casa para no se
esquecer.
Quando caminhava para casa pelo meio da aldeia deu de caras com o polaco louco, Thadeus Walizhewski. Tambm ele ia distrado a olhar para o cho. Raramente trocava
um olhar com quem quer que fosse, porque no sentia necessidade nem desejo de fazer amigos.
- Desculpe - murmurou Rita.
Thadeus viu imediatamente os olhos cheios de lgrimas da rapariga e encheu-se de compaixo.
- Est a sentir-se bem? - perguntou-lhe, com uma voz to doce e profunda que ela se sentiu surpreendida. Parecia-lhe que tinha um n na garganta, que ia crescendo
a cada minuto que passava.
- Sim - respondeu com pouca convico.
- Parece cheia de frio. Venha comigo. - Pegou-lhe pelo cotovelo e conduziu-a por um pequeno carreiro meio escondido atrs de um arbusto denso. - Deixe-me fazer-lhe
uma chvena de qualquer coisa quente. No est em condies de andar por a sozinha num dia destes.
Por instantes, quando ela o olhou com os seus olhos grandes e tristes, ele lembrou-se da filha. Sentiu uma facada de dor no peito, mas depressa afastou a recordao.
No era saudvel remoer velhas dores nesses momentos de medo e angstia. J tinham passado e s se tornavam presentes na mente se o permitssemos.
A casa de Thadeus era quente e vibrava com uma estranha tranquilidade que fez Rita sentir que j ali estivera. Pareceu-lhe familiar. Mesmo o amontoado de livros
e manuscritos lhe lembrava outros stios. Depois fez a ligao. Em Lower Farm havia um caos confortvel semelhante, o mesmo cheiro a madeira a arder, a mesma bondade
e hospitalidade. Teve a impresso de que podia descalar as botas e anichar-se no sof, que Thadeus no se ia importar. Na verdade, at esse dia, nunca tinha falado
com ele. Se no se sentisse to infeliz, provavelmente tambm no lhe
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teria falado agora, mas ele parecera-lhe to compreensivo e estava to frio na rua... Despiu o casaco e sentou-se num cadeiro junto da lareira. O ar quente e com
fumo pareceu-lhe reconfortante. Thadeus voltou com um bule de ch numa bandeja. No havia duas peas do mesmo servio, alm disso, o bule estava rachado. Sem dizer
uma palavra, o polaco encaminhou-se para o gramofone e ps um disco com a Sinfonia Alpina, de Strauss. As notas encheram a sala, infundindo em Rita a alegria que
perdera no cimo da falsia.
- "Se a msica for o alimento do amor, toca" - disse ele, sentando-se numa cadeira do outro lado da lareira.
- Shakespeare, Noite de Reis - respondeu ela com um sorriso.
- Est a ver, j se est a sentir melhor... - disse-lhe ele num tom grave. - S o amor pode fazer uma mulher chorar dessa maneira.
Rita serviu-se de ch.
- A sua casa  muito bonita - disse ela, juntando o leite.
- Sou muito feliz aqui - respondeu ele. - Imagino que seja Rita Fairweather.
- Sou, sim - confirmou a jovem com uma risada, porque lhe pareceu absurdo estar ali sentada em casa dele sem nunca terem sido apresentados.
Thadeus olhou-a por um momento com ar pensativo e depois os seus olhos detiveram-se no pingente que ela trazia ao pescoo.
- Tem um colar muito bonito - disse, num tom apreciador. - Foi o George que lho deu?
- Sim, recebi-o hoje. Estava l em cima na falsia e o vento levou a carta dele.
- Ainda no a tinha lido?
- Tinha. Vrias vezes.
- Mas a Rita  uma mulher sentimental e gosta de manter as cartas dele para as ler muitas vezes, no  verdade? - disse Thadeus com uma risada. - Era o que me parecia.
E no conseguiu encontr-la, no foi?
- Est no fundo do mar - respondeu ela, tristssima.
- Imagine como teria sido pior se ainda no a tivesse lido. Alm disso, estou certo de que haver mais.
- Sinto-me to pateta - suspirou Rita, bebendo o ch.
- Mas a pomba  muito mais valiosa. As palavras perdem a fora, mas o pingente  feito de prata e vai ficar sempre consigo. Sabe, a pomba
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fala a sua prpria lngua, se falar com ela. - Rita riu-se da ideia, que lhe pareceu pateta, mas Thadeus estava a falar a srio. - Talvez me ache um pouco excntrico,
mas  verdade. A pomba fala de paz, amor e reconciliao. Fala de perdo, serenidade e alegria. Na verdade, George enviou-lhe uma mensagem num smbolo, muito mais
original que uma carta, no lhe parece? Quando voltar  falsia, num dia menos ventoso, olhe bem a pomba e escute.
- Vou fazer como me diz - disse ela para lhe fazer a vontade. Ele passou a mo pela barba grisalha e olhou-a com os seus olhos claros e lquidos. - Toca violino?
- perguntou Rita, reparando no instrumento que estava sobre o piano.
- Sim, para acalmar a minha alma. A msica  um curandeiro magnfico.
- E piano tambm?
-  velho e no est bem afinado, mas sim, tambm toco.
- Eu trabalho o barro - disse ela. - Mal. A Faye, sabe quem  a Faye? A Faye Bolton est a ensinar-me. Ela  uma pessoa cheia de talento.
O rosto de Thadeus pareceu tornar-se mais doce, como se a luz ambiente branca se tivesse tornado mbar.
- Com a prtica tenho a certeza que a Rita ainda vai ser to boa como ela - disse numa voz tranquila.
- Oh, no, nem pensar nisso. Mas tambm no quero ser assim to boa. Como o Thadeus disse, que a msica acalma a alma, trabalhar o barro tambm acalma.  uma coisa
em que consigo perder-me.
- Sei muito bem o que quer dizer.
-  como o mar. Tambm me perco no mar.
- Como as cartas de George - disse ele com um piscar de olhos.
- Sim, claro, que tolice...
Ao fim de uma hora, mais ou menos, ela agradeceu-lhe o ch e a companhia. Sentia-se muito melhor depois de lhe ter falado e prometeu que quando voltasse  falsia
escutaria o pingente. Antes de sair, pediu-lhe para ir  casa de banho e correu escadas acima, porque j estava atrasada para o almoo em casa da av. Quando abriu
a porta voltou-se para dar uma vista de olhos rpida pelo quarto dele. A primeira coisa a chamar-lhe a ateno foi um enorme urso de barro sobre a lareira, a nica
pea que a decorava. Era estranho, porque sobre todas as outras superfcies
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havia uma grande variedade de objectos e curiosidades. No havia dvida que era de Faye. O estilo dela era inconfundvel. Ficou intrigada com o que lhe teria passado
pela cabea para se separar de uma obra-prima como aquela, mas percebeu que era melhor no perguntar.
Thadeus ajudou-a a vestir o casaco e viu-a pr o barrete. O cabelo caa-lhe pelas costas como um monte de algas deixado na praia.
- Espero que um dia volte para tomar ch comigo - disse ele.
- Gostaria muito de o fazer. Talvez nesse dia possa tocar violino para mim.
- Seria um prazer.
Thadeus viu-a desaparecer pelo porto do jardim. Faye falara-lhe dela com muito respeito e tinha razo. Era uma rapariga muito doce, e se ele no tivesse literalmente
tropeado nela, nunca a teria conhecido. Por vezes, no era bom andar de cabea baixa, evitando o olhar dos outros, escondido do mundo. Fechou a porta e pegou no
violino.
Quando Rita chegou a casa esgueirou-se pelo jardim e subiu as escadas em bicos de ps, at ao seu quarto, para escrever aquilo de que ainda se lembrava da carta
de George. O pisco tinha feito um bonito ninho num pequeno vaso que Eddie lhe fizera na escola. Rita gostava do seu novo amigo, da maneira como ele a olhava da estante
sem receio, dos seus pequenos olhos que nunca pestanejavam. Entrava e saa de casa  vontade dele. Rita deixava-lhe a janela sempre aberta. Hannah ia muitas vezes
ao quarto da filha para o ver e para lhe dar comida  mo, mas o pisco no aceitava nada de ningum a no ser de Rita. Hannah tinha dificuldade em aceitar isso,
pois sempre tivera uma relao especial com as pequenas criaturas de penas que faziam as suas casas no jardim.
Rita decidiu no contar a ningum o episdio da carta perdida. Tinha vergonha de ter sido to desastrada. Em vez de falar do assunto, mostraria o pingente. Um smbolo
de amor, de felicidade e de ventura matrimonial.
Ao meio-dia subiram todos para o carro de Humphrey para irem almoar a Elvestree. Eddie estava fascinada com a pomba de prata, mas Maddie parecia um tanto desdenhosa.
-  querido - observou, sem grande interesse. - Se o olho fosse uma pedra valiosa, como um diamante, por exemplo, teria ficado mais impressionada. Que dizia a carta?
perguntou.
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- A carta  s para mim. Alm disso, a pomba fala, se vocs souberem ouvir - respondeu Rita.
Maddie torceu o nariz.
- O amor est a fazer o teu crebro em papa, Rita. Se essa pomba fala, eu sou a rainha de Inglaterra.
- Graas a Deus que no s, Maddie. Serias horrivelmente mandona - disse Eddie. - Eu quero ouvir a pomba falar.
- Fala de amor, de felicidade e de ventura matrimonial - disse Rita. - George mandou-mo como smbolo, muito mais original que uma carta.
- Minha querida, o pingente  encantador - disse Hannah. - Foi muito simptico por se ter lembrado.
Humphrey resmungou qualquer coisa e abanou a cabea, reprovadoramente, mas s Hannah sabia do seu cepticismo.
Quando chegaram a Elvestree a chuva mida tinha-se transformado em granizo. As pequenas bolas de gelo eram empurradas pelo vento. As rvores, to verdes e luxuriantes
no Vero, estavam despidas, com os troncos retorcidos  vista. Correram para o trio, onde havia uma grande fogueira e muitos gatos. Havia gatos sobre todas as superfcies.
Cinco estavam aconchegados no sof, trs sobre a velha arca de carvalho onde as raquetes de tnis de Denzil apodreciam no escuro, e outros seis ou sete sob a mesa,
aquecidos pela velha carpete persa. Havia-os de plo avermelhado, negros e fugidios e brancos e petulantes. Hannah estava habituada a ver a casa da me cheia daquelas
criaturas, mas sempre que l voltava ficava com a impresso de que j havia mais.
Mrs. Megalith limitava-se a encolher os ombros quando lhe perguntavam de onde vinham eles.
- Aposto que h famlias que j deram pela falta dos delas. No sei porqu, mas parece haver alguma coisa que os atrai em Elvestree. No me cabe a mim escorra-los.
O corao de Max teve um sobressalto quando viu Rita entrar com os pais. Tinha o cabelo desalinhado e o rosto vermelho do vento da costa e do sal do mar. Embora
o seu vestido estivesse bem passado e o casaco limpo, tinha um ar descuidado. Max sorriu consigo mesmo. Rita tinha sempre ar de se ter vestido  pressa e de ter
deixado alguma coisa para trs. Com o copo s voltas na mo com os cubos de gelo, Max observava-a tranquilamente do sof.
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Antoinette estava sentada sobre a grade da lareira com a filha, Emily, que tinha a mesma idade de Eddie e de Ruth. Era uma mulher muito bonita, elegante e pintada
como uma boneca de porcelana chinesa, com cabelo ruivo suavemente ondulado. Fumava por uma boquilha de bano, que balanava entre os dedos longos e elegantes, com
unhas postias brilhantes, de um vermelho vibrante, sempre muito arranjadas. Tinha uma pele luminosa e hmida de gua-de-colnia e de gua de rosas e os seus olhos
eram uma verso mais dura dos olhos cinzentos da me. Detestava gatos, porque os plos deles se agarravam  roupa e cheiravam mal; alm disso, tambm no tinha vagar
para os amigos de penas da irm. "Antes queria sentar-me no meio de um campo a olhar para as vacas do que perder tempo a observar aves", dissera um dia. " verdade
que voam, mas tambm o George voa e nem por isso quero que ele venha despenhar-se no meu jardim." Como  evidente, isto no fazia grande sentido, mas Antoinette
no ligava muito nem  lgica nem  verdade. Era uma mentirosa nata e uma presunosa. O seu pequeno nariz era um mistrio para a irm, que tinha a certeza que a
cada mentira ele crescia como o do Pinquio, mas a sua pele de aparncia jovem era motivo de inveja de muitos. Consciente da sua beleza e da fora da sua personalidade,
educara a filha  sua maneira, apesar de todas as tentativas da pobre Emily de se rebelar. A filha no fora abenoada nem com beleza nem com uma personalidade forte,
mas era inteligente como o pai e bondosa. A nica pessoa capaz de fazer Emily calar-se era, como se est mesmo a ver, Antoinette.
Maddie adorava a tia e o seu sonho era ser precisamente como ela.
- Tia Antoinette - gritou assim que a viu. Correu para ela, ignorando a av e o primo William, um rapaz arrogante de vinte anos de quem no gostava muito.
- Querida sobrinha, ests cada dia mais bonita - disse entusiasticamente a tia, que viu a sua beleza reflectida na sobrinha. - Comprei-te verniz para as unhas e
umas pestanas postias que encontrei numa loja encantadora em Portobello Road. Parecem feitas de propsito para uma rapariga como tu.
Rita sentiu o estmago contrair-se de receio, pois a tia tinha tendncia para a tratar com uma certa condescendncia desdenhosa. A verdade  que representava tudo
o que a tia desprezava: o amor da natureza e dos animais, a averso  maquilhagem e uma natureza dcil e submissa que
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a tia interpretava como falta de carcter. Se havia coisa que a tia Antoinette desprezava era a fraqueza.
- Ol, Rita - disse ela, rigidamente, encostando o rosto ao da sobrinha mas no se dando sequer ao trabalho de fazer o barulho de um beijo. - Ouvi dizer que o George
te deixou outra vez - acrescentou, ao que Rita respondeu com qualquer coisa inaudvel e um aceno de cabea de concordncia. O seu medo bvio pareceu irresistvel
a Antoinette, que acrescentou numa voz mais baixa: - Espero que no andes a correr atrs dele como um cozinho de regao. Os homens no tm respeito por capachos.
Rita sentiu que a humilhao se tornava visvel no seu rosto e, quando se ia sentar ao lado de Max, ouviu a tia voltar-se para Emily e acrescentar, no seu tom de
voz intolerante, que se ele a amasse certamente no lhe teria voltado costas segunda vez. Antoinette agradeceu  irm e a Eddie, recuando como um vampiro perante
uma cruz quando viu Harvey. Gritou de forma pouco elegante, mais um gargarejo que um verdadeiro grito, e vociferou:
- Leva esse rato com asas horroroso l para fora e afoga-o antes que eu vos expulse aos dois e vos afogue no lago!
Eddie, que herdara a franqueza da av, retaliou no mesmo tom:
-  uma pena ser to grande, tia Antoinette, porque eu e o Harvey  que gostvamos de a atirar a si ao lago. Isso ia afugentar as raposas da av, de certeza, e provavelmente
envenenar a gua.
Horrorizada, Antoinette baixou os olhos para a criana, to precoce, puxou uma boa baforada do cigarro e respondeu numa estranha voz estrangulada:
- Eddie, a tua me no te ensinou como deves falar com os mais velhos e que merecem mais respeito?
- Sim, mas a tia no merece respeito, s  mais velha - disse dando meia-volta com Emily pela mo, levando-a, e a Ruth, para o trio para brincarem com os gatos.
- Ouvi dizer que recebeste carta de George - disse Max quando Rita chegou ao p dele. Rita sorriu-lhe, embora os seus olhos revelassem a dor que acabava de lhe ser
infligida pela tia.
- Mandou-me este pingente - respondeu tranquilamente, pegando-lhe para o mostrar.
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O corao dele caiu-lhe aos ps.
-  lindo - disse, mas sentiu-se doente de cimes.
Hannah, vendo a filha a mostrar a lembrana de George, voltou-se para a me.
- Veja, me. George mandou um pingente  Rita.  uma pomba de prata encantadora. Um smbolo de amor, de felicidade e de casamento venturoso. No  bonito?
- Encantador - concordou Mrs. Megalith, manquejando para o ir ver melhor. Antoinette seguiu-a.
- Muito bonito - disse. Depois inclinou a cabea e os seus lbios escarlates alargaram-se num sorriso perverso. Com um sussurro audvel para toda a sala, acrescentou:
- Sem dvida, o gesto de um homem infiel.

CAPTULO 13
Rita saiu da sala lavada em lgrimas, com Max atrs dela, deixando Hannah sem palavras tal era o seu choque e Humphrey da cor de um tomate maduro.
- Era preciso seres to cruel, Antoinette? - disse ele numa voz calma e segura. Tinha vontade de lhe tirar o ar satisfeito da cara com uma boa bofetada.
- V l, Humphrey, onde est o teu sentido de humor? - retorquiu a cunhada com um bocejo melodramtico.
Lentamente, Mrs. Megalith tirou os culos e olhou para a filha mais nova com uma expresso sombria e sria. Antoinette sentiu os cabelos da nuca arrepiarem-se de
constrangimento.
- No h nada de divertido em ferir uma pessoa mais fraca que ns. Se queres uma batalha, escolhe algum to forte como tu. Agora vais pedir-lhe desculpa antes que
eu te feche na despensa com todos os gatos e morcegos da casa.
Antoinette sentiu-se profundamente humilhada. Com o orgulho ferido, saiu da sala para ir  procura de Rita, mas a sobrinha tinha desaparecido na companhia de Max,
afastando-se da tia o mais que podia.
- C estamos ns outra vez - disse Rita, sentada ao lado de Max na cama dele. - Porque ser que passo a vida a chorar no teu pobre ombro? Realmente merecias melhor.
Max sorriu, encantado com aquela nova ocasio de intimidade.
- Antoinette  uma fanfarrona, e os fanfarres so cobardes, sempre  procura de outros mais fracos que eles.
- No, a cobarde sou eu. Devia ter retaliado, como a Eddie.
- Tu no s a Eddie. s encantadora como s.
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Max baixou os olhos com timidez. Rita ps-lhe a mo sobre o joelho.
-  muito simptico dizeres-me isso - respondeu-lhe numa voz doce. Hesitou por instantes e depois engoliu em seco. - Diz-me uma coisa, Max, tu que s homem. - Max
endireitou-se, satisfeito por ela o ter considerado um homem, e no um rapaz. - Achas que cometi um erro deixando o George partir sem mim?
Max amava-a de mais para pr em perigo a sua amizade recente dizendo-lhe a verdade. Que sim, que tomara uma pssima deciso. Que estava convencido e esperava que
George nunca regressasse.
- Foste muito corajosa. Um cobarde nunca seria to ousado. - Depois pegou-lhe na mo. - Confia nele. Amar algum tem tudo a ver com confiana.
- Eu confio nele - respondeu ela muito depressa, como se se envergonhasse de ter dado voz s suas dvidas. - S que sinto a falta dele,  tudo.
Max estava louco por beij-la. Tinha imaginado mil vezes como seria e, nesse momento, em que estava sentado to perto dela, percebeu como seria fcil inclinar-se
e pousar os lbios sobre os dela. Rita tinha lbios bonitos, de um rosa-plido, e perfeitamente desenhados. Dominado pelo desejo e encorajado pela expresso doce
dos olhos dela, inclinou-se para a beijar no rosto. A pele dela ainda estava hmida das lgrimas e cheirava a violetas. Sentiu que ela ficara rgida e recuou. Ansioso
com a ideia de que podia ter arruinado o equilbrio tnue da sua amizade, disse apressadamente:
- Tu s como uma irm para mim. Talvez eu possa ser o irmo que
nunca tiveste.
O rosto de Rita descontraiu-se num sorriso, mordendo timidamente o lbio.
- Claro - respondeu ela. - Sempre quis um irmo.
Houve uma longa pausa, durante a qual Max sentiu a humilhao a marcar-lhe o rosto de vergonha por quase se ter declarado. Rita olhou  sua volta at que os seus
olhos pousaram sobre um livro verde, pousado numa mesa ao lado da cama dele. Era mais pequeno que uma mo e estava meio desfeito, com as folhas a quererem soltar-se
da capa.
- Que livro to bonito - disse ela, aliviada por mudar de assunto. Ele inclinou-se e pegou-lhe.
-  um livro de poesia. Era da minha me.
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- Posso ver?
-  em alemo. Uma colectnea dos poetas preferidos dela. - Entregou-lhe o livro, querendo acrescentar que eram poemas de amor que aprendera quase de cor. Ela abriu
o livro com cuidado e percorreu com os dedos as folhas amareladas, espessas e speras como pergaminho. Rita perguntou a si mesma se ele conseguiria sentir a me
toc-lo atravs daquelas pginas e ouvir a voz dela, talvez a sussurrar-lhe a uma distncia de muitos anos para o reconfortar quando ele sentisse falta dela. Era
uma ideia terrivelmente romntica. Levantou os olhos e descansou-os no rosto sensvel de Max.
- A av diz que a tua me foi uma actriz famosa. Era muito bonita?
- Eu achava que sim.
- Deves ser parecido com ela - disse ela, entregando-lhe o livro. Max franziu o sobrolho e encolheu os ombros.
- No sei - respondeu, no querendo evocar o rosto da me morta. Era melhor no concentrar o pensamento muito intensamente no passado. - Ests pronta para enfrentar
a tua tia? - perguntou-lhe, em vez disso.
- Dentro do possvel - riu-se ela. - Vamos, devem estar todos a pensar o que nos ter acontecido!
Eddie implicou com a tia todo o almoo. A av tinha-lhe dito que levasse Harvey para o carro, mas ela decidiu desobedecer-lhe e, em vez disso, enfiou-o pela manga
acima, de onde ele podia sair de vez em quando para guinchar  tia Antoinette. Esta tinha pedido desculpa  sobrinha, rindo-se da sua observao e insistindo que
se tratara apenas de uma piada. "Como havia eu de saber se ele foi infiel ou no?" Rita sabia que ela no estava a ser sincera e assegurou-se de que ficava sentada
do lado oposto da mesa, junto de Max, de William e do pai. Humphrey nunca tinha gostado da cunhada e admirava David, o marido dela, por conseguir aguent-la. David
era to esquivo como Scarlet Pimpernel e igualmente engenhoso, mas esse era o nico remdio de qualquer pessoa que fosse casada com Antoinette. Raramente era visto,
mesmo pela mulher. Pagava as contas, permitia-lhe viver muito bem, e mantinha uma amante num apartamento em West London. O trabalho dele para o MI5 era ultra-secreto
e dava-lhe a desculpa perfeita para excluir Antoinette da sua vida.
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A av presidia  sesso no outro extremo da mesa, olhando Antoinette com uma expresso cansada nos olhos cinzentos. Viu Harvey mas no disse nada e teve pena de
Rita, que parecia triste e desapontada apesar da bonita pomba de George que pendia do seu fio. Tinha um estranho pressentimento, que lhe subia pela espinha, enrolado
como uma enguia, e a deixava crispada e incomodada. Havia qualquer coisa que no estava inteiramente bem com a pomba. Ia comendo o borrego assado e ia pensando no
assunto. Era um smbolo de amor e tudo isso, mas, como  evidente, havia mais qualquer coisa. No era a pomba tambm um smbolo de perdo e de paz? Ora que teria
Rita a perdoar?
Depois de almoo, afastou-se um pouco na companhia de Rita.
- Que dizia o George na carta? - perguntou, pondo os culos sobre o nariz, na expectativa de que a neta lhe daria a carta a ler.
- Deixei-a em casa - mentiu Rita. A av franziu o sobrolho. No valia a pena mentir-lhe. - Estava a ler no alto da falsia - sussurrou ela, com medo que algum a
ouvisse - e foi levada da minha mo por uma rajada de vento. Ainda fui a correr para a praia atrs dela, mas foi levada para o mar, e  l que est agora. Perdida
para sempre.
Mrs. Megalith acenou com gravidade.
- Estou a ver. Isso explica o pingente e o significado da pomba. Interessante - meditou sombriamente.
- Que quer dizer?
- Disparates, tenho a certeza - disse com uma gargalhada. - No te preocupes por teres perdido a carta, querida. Afinal h-de haver mais, no  verdade? E a Antoinette
s vezes  muito bruta. Todos temos um lado feio nas nossas naturezas. - O problema da Antoinette  que no caso dela o equilbrio est errado. Eu vou comear a desmascar-la
e ela vai mudar.  vaidosa de mais para no o fazer e eu hei-de ser a primeira a dizer-lhe.
- Agora ando a ler um livro muito interessante - dizia Antoinette para quem quisesse ouvir. - Acerca dos czares da Rssia. Que histria to pitoresca! - Passou a
mo pelas lombadas dos livros da me, atirados de maneira catica para algumas velhas estantes de mogno. Antoinette considerava-se uma espcie de intelectual. -
Humphrey, que andas a ler? Devemos andar sempre a ler qualquer coisa, no achas? No meu caso, vrios livros. Depende da minha disposio. Adoro ler e reler os
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clssicos. Adorei a Anna Karenina. H muitas mulheres que acham Guerra e Paz um livro difcil de ler, mas para dizer a verdade foi daquele que mais gostei. Mas,
por outro lado, sempre gostei de desafios. Se uma coisa for fcil de mais, aborreo-me.
Humphrey estava a fumar um charuto e no se deu ao trabalho de responder. Antoinette no tinha o menor interesse no que lia, apenas lhe interessava exibir-se.
- Adoro ler! - exclamou Maddie, que nunca lera a no ser na escola e porque fora obrigada. Decidiu imediatamente que leria Anna Karenina, fosse ela quem fosse, porque
queria ser como a tia.
- Bonita menina, Maddie - disse Antoinette com admirao. - No h nada pior que uma mulher estpida. Com o nosso aspecto conquistamos os homens, mas  com a mente
que os conservamos. Enriquece a tua mente, como a minha, e acabars por casar bem - aconselhou.
Humphrey revirou os olhos e olhou para o relgio.
- Hannah, devamos ir andando - disse  mulher, que estava sentada com Eddie a ver velhos lbuns de fotografias de famlia.
- Tem mesmo de ser? - protestou ela, que estava a gostar de ver as fotografias dos seus tempos de criana.
- Realmente acho que era melhor - repetiu ele. - Rita, Maddie, vamos andando para casa.
Hannah reconheceu a impacincia na voz do marido e fechou o lbum. Ps-se de p e seguiu-o at ao trio, onde a av estava de joelhos com Emily e Ruth a brincar
com os gatos.
Quando Humphrey, a mulher e as filhas se preparavam para sair, ouviram um grito agudo na sala de estar.
- Valha-me Deus, que foi aquilo? - exclamou ele, voltando a entrar. Hannah, Rita e Maddie foram atrs dele porque o grito parecera de uma mulher em perigo de vida.
No entanto, ver Antoinette sitiada por, pelo menos, vinte gatos pareceu divertido a Humphrey e a Rita, que no poderiam ter pensado em vingana mais apropriada.
- Tirem-me os monstros daqui! - gritava ela com histeria. Os gatos passavam as garras pelas suas meias de nailon, trepavam-lhe pelo vestido e um estava escarranchado
na sua cabea, despenteando-a completamente. - Me - suplicou ela, mas Mrs. Megalith nada podia fazer para pr fim quilo. S Eddie sabia porque andavam os gatos
de volta da tia e no pensava contar.
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- Eddie - perguntou o pai, tentando com dificuldade conter as gargalhadas. - Que fizeste tu queles gatos?
- Como sabe que fui eu? - perguntou com ar inocente, tirando o casaco e pendurando-o no cabide, satisfeita por estar em casa. Dirigiu-se ao armrio da cozinha e
abriu a lata dos biscoitos.
- Por causa do teu ar traquinas - respondeu ele.
- Que foi que fizeste? - perguntou Rita, com pena de no ter sido ela a ter a ideia.
- No fiz nada - protestou Eddie. - Como podia eu ter controlado aqueles gatos todos?
- Claro, que ideia mais disparatada, Humphrey - disse Hannah, tirando a lata dos biscoitos  filha. - Ainda no est na hora do ch.
- S um. Estou cheia de fome. O borrego estava horrvel.
- Pronto, est bem - disse a me. - Mas s um!
Eddie enfiou a mo na lata e tirou trs com um sorriso aberto.
- Bom, fosse o que fosse, a Antoinette mereceu-o inteiramente - disse Humphrey, levando os jornais para a sala de estar.
- Eu acho que vocs so todos horrorosos para a tia Antoinette - disse Maddie com ar amuado, o lbio inferior estendido. - Eu gosto dela.
- Ns gostamos todos dela, querida, mas ela foi muito desagradvel com a Eddie e com a Rita.
- Ningum gosta do Harvey! - defendeu Maddie, para fria de Eddie.
- Isso no  verdade, pois no, mam? A mam gosta do Harvey?
- Claro que sim, ao longe.
- A Rita  sensvel de mais - continuou Maddie. Rita revirou os olhos e seguiu o pai at  sala de estar. Maddie correu escadas acima para retocar o batom e ficou
a ver revistas. Hannah voltou-se para Eddie:
- Que fizeste tu queles gatos? - perguntou com voz tranquila. Eddie semicerrou os olhos e certificou-se de que estavam sozinhas.
- Est bem, eu conto-lhe. Desde que no v logo contar tudo  av!
- Prometo que no vou.
- Pedi-lhes que o fizessem. - Hannah torceu o nariz.
- Pediste-lhes que o fizessem? - repetiu, incrdula.
- Sim. Falei com toda a clareza com o maior gato preto. Tenho a impresso que  ele o rei, sabe?
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Hannah concordou lentamente.
- Estou a ver.
- Ele percebeu e foi logo falar com os outros. A av disse sempre que, se tentarmos falar telepaticamente com os animais, eles percebem. Eu estava to zangada com
a tia Antoinette que tentei.
- Bom, e resultou - disse Hannah, sem saber se devia acreditar na filha. Crescera com uma bruxa como me, mas a ideia de que podia ter uma como filha no lhe entrava
na cabea.
- No admito que ningum ameace o Harvey e no sofra as consequncias - acrescentou Eddie, ameaadoramente. Hannah mal queria acreditar, mas quando a filha falou
naquele tom, a cor dos seus olhos mudou, como acontecia com os da sua me.
- Valha-me Deus! - exclamou. - Tenho uma filha bruxa! - No rosto de Eddie apareceu um grande sorriso.
- Adorava ser uma bruxa porque depois podia voar. Tens uma vassoura?
- Nenhuma que voe - respondeu a me, passando a mo delicadamente pela cabea da filha.
- Mas posso tentar?
- Se quiseres. Est no armrio. Porque no experimentas varrer a cozinha ao mesmo tempo?
Eddie abanou a cabea e riu-se.
- Boa tentativa, mas  voar ou nada - respondeu, escapulindo-se para ir buscar a vassoura.
Maddie estava irritada com Rita. A irm andava por ali com um ar abatido, a caminho da maldita praia ventosa e sem querer a companhia de ningum. A tia Antoinette
tinha razo. Se o George gostasse realmente dela, no a teria deixado outra vez, e muito menos durante um ano inteiro. Tinha dvidas de que ele voltasse. O mais
certo era apaixonar-se por outra pessoa na Argentina. As latinas eram famosas pela sua beleza. A Rita era fraca. Devia ter dito ao George que ou casava ou o deixava.
O que mais faltava eram homens! Maddie podia garantir que assim era.
Na altura, Maddie andava a dormir com dois homens diferentes. Um era o filho do construtor da terra, Steve Eastwood. Era um homem forte e musculado, com cabelo louro
forte e olhos castanhos suaves como a seda. Tinha mos rudes e calejadas, mas sabia acariciar uma mulher sem a magoar. Tinha uma pronncia forte do campo e um sorriso
aberto,
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seguro e deliciosamente infantil. Maddie gostava de fazer amor com ele. Nos braos dele sentia-se feminina e vulnervel. O outro, Bertie Babbindon, era alto e rico
mas muito aborrecido. Usava brilhantina no cabelo preto e porque tinha um Jensen desportivo, achava-se uma espcie de playboy, oferecia-lhe flores, dava-lhe prendas
caras e beijava-a como uma tarde hmida na praia.
Maddie nunca tinha estado apaixonada. No percebia a fixao da irm em George. S percebia o desejo. At que Harry Weaver chegou a Frognal Point.
- Quem  o Harry Weaver? - perguntou Maddie  me, franzindo o narizinho delicado. - Temos de ficar para o almoo? Eu ia passar o dia com o Bertie.
Hannah sentiu-se descontente. No gostava muito de Bertie Babbindon. Era arrogante, egosta e ostentador, numa altura em que a ostentao era considerada de mau
gosto. No fizera nada para ajudar no esforo de guerra. Limitara-se a refugiar-se no castelo da famlia na Sua, at a guerra ter terminado. Provavelmente, aprendera
alemo s para o caso de os Aliados perderem a guerra. Olhou pela janela da cozinha, para a leve camada de neve que brilhava  primeira luz da manh. Dois faises
de penas brilhantes atravessavam o relvado, esgaravatando o cho com as garras. O mais certo era terem-se escapado de Elvestree, onde a me lhes deitava milho todo
o Inverno.
- Eu gostava muito que vocs estivessem aqui todos. Ele  um homem encantador e no conhece c ningum. Comprou aquela casa branca bonita em Bray Cove.
- Em que  que ele trabalha? - perguntou Maddie. Viu Rita a olhar para ela e ps m cara.
-  escritor.
- O que  que ele publicou?
- Oh, no sei. Mas observa aves. Foi assim que o conheci.
- Que maador! - suspirou Maddie. - Como diria a tia Antoinette, que interesse tm os pssaros?
-  casado? - perguntou Rita.
- Divorciado. S achei que seria simptico adopt-lo. Pobrezinho, est sozinho no mundo.
Maddie encostou-se no cadeiro e amuou. Os domingos para ela eram como qualquer outro dia; j Rita gostava de ter o dia para ela. J h
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uns quinze dias que perdera a carta de George, a tia Antoinette a tinha magoado e Max a beijara no rosto. Tinha escrito uma carta de quatro pginas a George, contando-lhe
da tia e dos gatos, do interesse pouco natural de Eddie por bruxaria, do seu novo emprego na biblioteca da cidade e da campanha do pai para impedir que um campo
selvagem, no muito longe de Frognal Point, fosse destrudo por construtores. Na sua caligrafia cheia de floreados, recordou-lhe o Vero, as noites quentes no alto
da falsia a observar as gaivotas e os encontros romnticos na gruta. Confessou-lhe que sentia mais a falta dele do que era capaz de expressar por palavras. Adorava
o pingente e o anel de diamante, olhava para eles todos os dias e lembrava-se de que ele a amava. No dia do casamento usaria os dois. A propsito, pedira o vestido
emprestado  av e a me dela ia tratar das emendas. No que ele precisasse de grandes alteraes, afinal a av tinha dito a verdade, alm de que o vestido era muito
mais bonito do que ela recordava, com bordados, prolas e rendas. Selou a carta com as suas lgrimas e enviou-a com amor. Esperava que a carta tivesse o poder de
o manter fiel.
O Jensen de Bertie chegou s dez, assustando dois ou trs pombos que disputavam uma cdea de po na gravilha em frente da casa. Maddie concordou dar um passeio de
carro desde que ele a trouxesse a tempo do almoo.
- A me quer que eu conhea um velho observador de aves - explicou-lhe ela, revirando os olhos azuis frios e atirando o cabelo por cima do ombro. - Diz que ele no
conhece ningum. No admira, os observadores de aves so pessoas solitrias. Parece que este  escritor, mas nunca publicou nada, por isso no pode ser bom.
Bertie ficou desapontado. Contava lev-la a almoar a Exeter.
Quando Harry Weaver chegou, num calhambeque a cair de velho, Maddie estava a ser beijada e apalpada por Bertie no banco de trs do Jensen, num desvio a uns oito
quilmetros de Frognal Point. Hannah ficou furiosa. Pelo menos, a Rita e a Eddie no a tinham desapontado. Humphrey cumprimentou Harry com um aperto de mo firme,
como se se tratasse de um velho conhecido. Harry tinha aquele efeito sobre as pessoas. Era amvel, simptico, um pouco desastrado, e tinha um encanto fcil e natural.
Quando sorria, o rosto ficava cheio de vincos. A sua pele sugeria uma vida ao ar livre. O cabelo comeava a ficar grisalho junto das tmporas e j se notavam as
entradas, mas no alto da cabea
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rebelava-se em ondas vigorosas. Tinha olhos de um cinzento suave, escondidos atrs de pestanas castanhas e grossas; era a inveja de muitas mulheres com quem a natureza
no fora to generosa.
Hannah pendurou o casaco dele e reparou imediatamente que estava comido pelas traas e coado nos cotovelos, e mandou-o entrar para a sala de estar, onde Eddie brincava
com Harvey e Rita estava sentada  lareira a ler os jornais.
- Aqui esto duas das minhas filhas - disse, numa voz em que transparecia o orgulho. - A Eddie e o morcego dela, o Harvey. Lamento, mas so inseparveis. E a Rita.
O noivo dela est na Argentina. Fez a guerra na RAF.
Harry cumprimentou-a, com um sorriso tmido. Rita gostou imediatamente dele. Tinha qualquer coisa muito frequente em homens que tiveram vidas difceis que leva as
mulheres a terem vontade de os proteger.
- Ah, um microquirptero! - disse ele, estendendo a mo para acariciar com o indicador a cabea negra e peluda do animal. - No devia estar a hibernar?
Os olhos de Eddie brilharam. Nunca ningum se interessara assim pelo Harvey.
- Ele no hiberna.
- Bem, a maior parte dos morcegos hiberna durante os meses de Inverno. Mas a tua manga deve ser to agradvel e aconchegada que ele quer ficar acordado para poder
apreci-la. Que lhe ds de comer?
- No Vero ele voa por a e apanha insectos, mas agora no h insectos por isso dou-lhe bagas e po.
- Experimenta dar-lhe um pouco de peixe - sugeriu Harry. - Eles adoram peixe.
- Oh, hei-de experimentar - garantiu ela, com um largo sorriso no rosto.
Harry sentou-se no sof e riu-se quando Eddie se sentou ao lado dele, to encostada que quase ficavam apertados, apesar de metade do sof estar vazio.
- No sufoques o nosso pobre convidado - disse Humphrey, divertido. - Desconfio que fez uma nova amiga - acrescentou, falando para Harry. - Ou devo dizer dois novos
amigos?
- Os morcegos so criaturas fascinantes. So os nicos mamferos que voam e esto mais prximos dos homens que os ratos. Olhe para as
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mos deles. Tm quatro dedos e um polegar, brao, antebrao e cotovelo. - Depois acrescentou para Eddie: - O nome cientfico deles  na verdade Chtroptera, o que
quer dizer "mo-asa".  graas aos morcegos que as flores nocturnas so polinizadas, alm de serem a melhor arma da natureza para controlar as pragas de insectos.
Sempre gostei de morcegos.
Eddie olhava-o com os olhos cheios de amor.
- A minha tia Antoinette odeia o Harvey. Ele ficou muito magoado quando ela disse que o atirava ao lago - disse ela, pestanejando para ele.
Harry passou-lhe o brao sobre os ombros e deu-lhe uma palmadinha.
- Tens de a desculpar. Estava s assustada. No o conhece to bem
como tu.
Nessa altura, um carro apitou na rua. Hannah olhou para o relgio. J no era sem tempo, pensou. Todos olharam para a porta.
- Deve ser a nossa outra filha, a Maddie - disse ela a Harry. - Esteve fora toda a manh com um amigo.
Humphrey levantou os olhos para a mulher, porque tambm no gostava de Bertie, embora o rapaz e Maddie tivessem muito em comum.
Maddie entrou na sala de estar. Preferia mil vezes ter ido almoar a Exeter. J irritada, entrou com os braos cruzados  sua frente, defensivamente.
- Desculpem o meu atraso - disse.
- No tem importncia, filha. Apresento-te Harry Weaver. O Harry  especialista em morcegos.
- No sou nenhum especialista. S curioso - respondeu ele, pondo-se de p para cumprimentar Maddie.
Era alto e magro como Trees, mas tinha as costas um pouco curvadas, como se no se sentisse  vontade com a sua estatura. Maddie olhou para ele, espantada. Para
seu embarao, sentiu o rosto a arder e o corao a bater mais depressa. Apertou-lhe a mo, que era quente e macia como massa de po, e sentiu que se formara no seu
rosto um estranho sorriso que no conseguiu impedir. Os olhos delicados dele pousaram no rosto irrepreensivelmente maquilhado dela e no seu cabelo da cor do Sol-poente,
e ele sentiu, como ela, uma fora de atraco invisvel vibrar entre os dois como as cordas palpitantes de um violino. Retribuiu o sorriso dela e inclinou lentamente
a cabea, deslumbrado com o aspecto inesperado
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da jovem. Maddie procurou esconder a perturbao e procurou uma cadeira, onde, para seu alvio, conseguiu disfarar o tremor das pernas. Todos sentiram a mudana
de atmosfera, ouvindo inconscientemente a msica do amor que ecoava na sala, mas ningum se sentiu mais surpreendido que Maddie. Levantou os olhos para ele e verificou,
para seu embarao, que continuava a observ-la, como se ela fosse uma ave rara e encantadora.

CAPTULO 14
George cavalgou pela plancie, semicerrando os olhos por causa da luz e procurando ver o caminho atravs da poeira levantada pelo cavalo de Jos Antnio, que galopava
furiosamente  frente dele. Mas no conseguia pensar seno em Susan. Que estranha coincidncia seria aquela? Seria possvel que alguma reviravolta fortuita do destino
tivesse feito os seus caminhos cruzarem-se de novo? O seu rosto veio-lhe de novo
 mente e dessa vez no o afastou, permitiu que a viso se detivesse, esperando de todo o corao ter percebido bem o seu tio e que a pessoa que a tia trouxera de
Buenos Aires tivesse sido Susan.
A tarde pareceu-lhe interminvel. Estava demasiado desconcentrado para servir do que quer que fosse na quinta. Os gachos provocavam-no, certos de que a mulher 
que lhe dera a volta  cabea. Gesticulavam, sugerindo todo o tipo de actos sexuais e depois riam-se ruidosamente, dando encontres uns aos outros, divertidos. George
era um homem atraente, e parecia-lhes impensvel que no aproveitasse as prostitutas em Jesus Maria. Por fim, Jos Antnio mandou-o embora.
- Vai fazer companhia s mulheres - disse ele, com um sorriso malicioso para o sobrinho. - O sol deve ter-te penetrado no crnio.
George protestou. No queria que os gachos pensassem que ele era um fraco.
- Estou s um pouco cansado - disse ele. - Mas nada que no aguente.
Se eles fizessem ideia do que George aguentara nos cus de Inglaterra! O tio deu-lhe uma palmada nas costas e piscou-lhe o olho, afectuosamente.
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- Hoje acabou-se, no te dou mais trabalho para fazer, gringo. La Gorda vai gostar de te ver. Toma ch, d um mergulho, descansa. Tira a tarde, que a mereces.
George sabia que no a merecia, mas fez o que lhe disseram. Sabia que no valia a pena discutir com Jos Antnio.
Voltou o cavalo e galopou em direco ao puesto.  pressa, tirou a sela ao cavalo, escovou-o e por fim atou-o a uma rvore  sombra e foi buscar-lhe um balde de
gua. Sentia as pernas fraquejarem, como se as tivesse pedido emprestadas a outra pessoa e estivesse com dificuldade em habituar-se a elas. Enquanto ia caminhando
com passo incerto pelo meio das rvores em direco a casa ia rezando para que fosse Susan e no outra mulher com o rosto desfigurado que tivesse vindo passar uns
dias a Las Dos Vizcachas.
Quando a casa se comeou a ver, conseguiu distinguir duas mulheres que tomavam ch no alpendre. Semicerrou os olhos para as ver melhor. A mulher sentada de frente
para ele era sem dvida a tia. Tinha uma chvena nas mos, os braos sobre a mesa, e o busto desenvolvido bem assente sobre a toalha. A outra estava de lado para
ela e as duas conversavam. O cabelo dela, apanhado atrs da cabea de forma elegante, era de um louro-plido, quase branco, brilhante de sade. Com os seus dedos
graciosos, ajeitava um caracol atrs da orelha e depois acariciava distraidamente o pescoo. Sentiu o corao bater mais forte. Era Susan. No podia ser mais ningum.
Quando se aproximou, viu que ela trazia um vestido branco estampado com flores azuis e teve a impresso de sentir o cheiro a lrios-do-vale, que se distinguia entre
os aromas do campo, levado pela brisa quente. Pensou se seria melhor mudar de roupa primeiro imaginou que tinha mau aspecto com a poeira, o cheiro do suor e dos
cavalos, mas, antes de ter oportunidade de decidir, a tia viu-o e comeou a acenar-lhe vigorosamente. No teve outra hiptese seno dirigir-se ao alpendre.
Susan voltou-se e sorriu-lhe. Estendeu a mo e cumprimentou-o com formalidade.
- Ol - disse com voz educada. - Prazer em conhec-lo. A sua tia falou-me muito de si. - George percebeu que ela decidira fingir que no se conheciam. Tomou-lhe
a mo e manteve-a apertada um pouco mais que o indispensvel. Olhou-a directamente nos olhos cinzentos com ar interrogador, mas ela afastou o olhar e disse, dirigindo-se
a Agatha:
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- No h dvida de que se instalou. Qualquer um poderia confundi-lo com um gacho.
- O meu marido est encantado com ele. Aprende depressa e tem sentido de humor. Jos Antnio  difcil de contentar.
George sentiu-se irritado por estarem a falar dele como se no estivesse ali. Sentiu-se pouco  vontade de p  frente das duas enquanto elas o avaliavam. A sua
excitao desapareceu, deixando no seu lugar um desapontamento doloroso.
- Como correu a sua viagem, tia Agatha? - perguntou, tentando o mais possvel comportar-se com naturalidade, como se Susan nada significasse para ele.
- Nem imaginas como Dolores est diferente. Transformou-se num ser humano pacato. At sorri. Durante todo o tempo que aqui vivi nunca a tinha visto sorrir.
- Deve estar a tentar compensar o tempo perdido - disse Susan.
- Nesse caso teria muito que compensar! - riu-se Agatha. - Encontrei a Susan a aborrecer-se no meio de todo o calor de Buenos Aires e achei que ela era capaz de
gostar de passar o Natal connosco. Quanto mais alegre melhor, e tudo isso.
- Realmente, a cidade  sufocante no ms de Dezembro - concordou Susan. - E este stio  encantador.
George notou que Susan no olhou directamente para ele. Os seus olhos podiam pousar nele de vez em quando, mas falava como se no estivesse a v-lo.
- O George aprendeu espanhol - disse Agatha. - Aprendeu muito mais depressa do que eu imaginei.
- O entusiasmo  o melhor incentivo - disse Susan. - E tambm j monta como um gacho?
- Acho que at j castra como um gacho! - respondeu Agatha com uma risada.
George sentiu a irritao subir-lhe no peito e cerrou os punhos. Derrotado, voltou a pr o chapu.
- Por favor, desculpem-me. Gostava de mudar de roupa - disse ele, olhando Susan mais uma vez. Esta sorriu-lhe, mas o sorriso era distante, como se tivesse esquecido
a intimidade dos dois no Fortuna.
- Vai dar um mergulho, George - sugeriu Agatha. - E depois vem tomar ch connosco.
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George fechou a porta do quarto e encostou-se  parede, a respirar pelo nariz como um touro furioso. Mais uma vez, fora tratado como um rapaz. Ficara enlouquecido
e frustrado pela atitude dela. Se a tia no estivesse presente, t-la-ia confrontado. Que estaria ela a fazer em Las Dos Vizcachas? Se no tinha vindo procur-lo,
que teria vindo fazer? No lhe passava sequer pela cabea que se tratasse de uma coincidncia... Sabia que ele estava ali e no ficara surpreendida, porque a sua
reaco fora irrepreensvel, to fria e imperscrutvel como a primeira vez que se haviam cruzado no barco.
Despiu rapidamente as calas e a camisa e deixou-as no meio de um monte de poeira para Agustina as levar. Embrulhou uma toalha  volta da cintura, agarrou no mao
de cigarros e avanou pelo corredor at  piscina, atravs da porta das traseiras. Estava to furioso que nem notou o barulho leve dos pssaros, o sol que danava
na erva a seus ps ou no aroma inebriante das gardnias. Estendeu a toalha junto de um dos extremos da piscina e ficou por instantes a contemplar a gua lmpida.
O sol da tarde caa-lhe sobre a pele, morena como a dos gachos, iluminando os novos msculos que comeavam a ser visveis no seu corpo. Havia de mostrar-lhe que
era um homem.
Mergulhou nu na gua, deliciosamente fresca em contacto com a pele quente. Parecia levar com ela toda a sua fria. Deu algumas braadas enrgicas em ambos os sentidos
da piscina, a bater com os ps e a espalhar salpicos em todas as direces. Ao fim de algum tempo embrulhou-se na toalha e ficou a observar o parque. No tinha vontade
de regressar ao alpendre. Se a tia estivesse l, no poderia falar com Susan. A ideia de fingir que no se conheciam comeava a parecer-lhe aborrecida. Decidiu passar
a tarde na piscina. Se o fizesse, conseguiria evitar o ch. Talvez tivesse oportunidade de falar a ss com ela antes de jantar.
Atirou-se de novo  gua e comeou a nadar no sentido do comprimento. Nadou de costas e de frente, crawl e bruos, e fez duas piscinas completamente debaixo de gua.
Era um excelente nadador e por momentos recordou as tardes de Vero passadas na praia em Frognal Point. Por fim, exausto, parou num dos extremos e levantou os olhos.
Para sua surpresa, Susan estava pacientemente sentada  sua espera. Sorriu-lhe quando ele a olhou. Dessa vez o seu sorriso foi caloroso e cheio de afecto. George
nadou devagar em direco a Susan e apoiou os braos nos ladrilhos  frente dela.
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- H quanto tempo est aqui? - perguntou ele.
- Algum - respondeu ela, divertida. - Eu tinha a certeza que o George era um bom nadador. Fiz bem em no lhe contar os meus segredos.
- Que fez  tia Agatha?
- A Dolores chamou-a e eu decidi dar um passeio. O seu chapinhar ouve-se do outro lado do parque.
- Ainda bem. - Olhou-a com um meio sorriso, que reaparecia constantemente nos sonhos dela desde que o deixara no Fortuna. - Importa-se de me atirar a minha toalha?
Ela levantou-se e entregou-lha, incapaz de tirar os olhos dele enquanto ele subia as escadas da piscina nu. O corpo dele tinha uma cor castanho-dourada e era perfeitamente
proporcionado e bem delineado, como ela imaginara. George pegou na toalha e enrolou-a  volta da cintura. Com a mo, afastou os caracis da testa.
Sentaram-se juntos num banco e George acendeu um cigarro. Ofereceu-lhe um, mas ela no aceitou.
- Parece-me que tenho algumas coisas a explicar - disse Susan.
- Sim, tambm me parece replicou ele. Ela inclinou a cabea e franziu o sobrolho.
- Desculpe ter sido to fria. Estava nervosa. - George imaginara-a incapaz de sentir nervosismo. Parecia sempre to cheia de autodomnio... - Conheci a sua tia num
jantar e ela falou de si. Depois fui eu que preparei tudo isto. - Voltou para ele os mesmos olhos tristes com que olhava o horizonte sobre o mar e disse numa voz
tranquila: - No deixei de pensar em si desde que nos separmos.
George sentiu o nimo regressar. Sentiu o corpo tremer, dessa vez de alegria.
- Tambm eu no parei de pensar em si - respondeu ele. - Nunca pensei que voltaramos a ver-nos.
Ela riu-se e tocou-lhe o brao com dedos nervosos.
- Nem eu. Mas o destino interferiu. - George pousou a mo sobre a dela e apertou-a.
- Estou to contente por a Susan estar aqui.
Foi visvel que ela se sentiu mais descontrada depois de ter confirmado que ele ainda a queria.
- Acho que a sua tia se compadeceu de mim quando viu a minha cara. Tambm tem as suas vantagens, sabe?
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- Eu gosto da sua cicatriz porque ela faz parte de si - disse-lhe ele, e viu-a percorr-la com a outra mo. - Para mim  ainda mais bela por causa dela.
Ela voltou o rosto e pestanejou desconfortavelmente.
- Quando temos sorte, as nossas cicatrizes esto por dentro - disse ela com um suspiro. - Seja como for, esta trouxe-me aqui e por isso sinto-me grata.
- Sendo assim, perante o Jos Antnio e a Agatha temos de fingir que no nos conhecemos?
Ela corou.
- Eu sei que  absurdo, mas no sabia que fazer. Na altura em que a sua tia me convidou para aqui eu tinha comeado a fingir que no o conhecia e, nessa altura,
era tarde de mais para dizer a verdade. Alm disso, talvez ela tivesse imaginado que eu tinha outros motivos e no me convidasse.
- A Susan  melhor actriz que eu - disse ele com um sorriso.
- S quando o meu futuro depende disso.
George olhou-a firmemente durante um longo momento. Ela voltou-se e olhou-o de frente. George teve o impulso de percorrer a cicatriz dela com os dedos, mas a voz
tonitruante de Agatha soou no parque, levando os dois a endireitarem-se com um sobressalto.
- George, Susan! O vosso ch est a arrefecer!
Puseram-se de p os dois. George apagou o cigarro na relva e atirou-o para um arbusto.
- Acto um, cena um - disse ele com um sorriso feliz e pegando na mo dela. Encaminharam-se para casa, mas George, dominado pela impacincia, puxou-a de repente para
trs de uma rvore e beijou-a ardentemente nos lbios. Ela riu-se como uma rapariguinha, lanando os braos  volta do pescoo dele, mantendo o corpo colado ao dele.
Retribuiu o beijo, sem inibies. - Isto vai chegar-me para uma hora, mas no para mais - disse ele, tocando o rosto macio dela com um dedo.
Ela ps-lhe a mo sobre o peito e olhou-o com olhos que j no pareciam tristes.
George tomou um banho rpido e vestiu roupas lavadas, passadas a ferro por Agustina. Quando chegou ao alpendre Susan j l estava, a falar com Jos Antnio, Agatha
e os dois midos, que tinham acabado de voltar da escola.
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- Gringo, j conheceste a Susan? - perguntou Jos Antnio, com um gesto na direco da jovem. Ela sentou-se ao lado dele, como uma ave frgil  sombra de um urso.
- Sim, j nos conhecemos - respondeu ela olhando para George. - Encontrmo-nos na piscina.
- Espero que trouxesses alguma coisa vestida, George - disse Agatha. - O George  como o Jos Antnio e acha naturalssimo nadar nu na piscina. At eu j corei uma
ou duas vezes.
- No se preocupe, Agatha, ele estava muito apresentvel - disse Susan, pegando na chvena e bebendo um gole.
- Que  que a trouxe  Argentina? - perguntou Jos Antnio, servindo-se de uma fatia grande de queijo, que comeu com doce de abbora sobre biscoito seco. - No h
guerra nos Estados Unidos.
- Na verdade, vim de Inglaterra - respondeu ela, friamente. - Vivi l em criana. O meu pai era diplomata.
- Vai ficar muito tempo?
- No sei, ainda no decidi.
Jos Antnio franziu o sobrolho. Havia nela qualquer coisa de muito misterioso. Respondia com frases curtas, num tom que sugeria que no estava  vontade a falar
de si prpria. Estava curioso de saber como tinha feito aquela cicatriz no rosto, mas sabia que seria indelicado perguntar. Mais tarde pediria a Agatha que lhe perguntasse.
- Susan sentia-se a sufocar na cidade e eu achei que um pouco de ar do campo lhe faria bem - disse Agatha. - No h nada como a vida numa quinta. Podias montar com
ela, George, ou ir a Jesus Maria. Se estiver interessada em igrejas coloniais, nesta regio houve uma forte influncia jesuta.
- Oh, eu sei - respondeu Susan entusiasticamente, feliz por poder mudar de assunto. - O meu pai interessava-se muito por histria e trouxe-nos aqui vrias vezes
em criana. Visitmos Santa Catalina, Las Teresas, Alta Gracia, Colnia Caroya, Estancia La Candelria... Mas adorava visit-las outra vez. Era muito pequena e no
me lembro de muita coisa.
Voltou-se para Jos Antnio e perguntou-lhe: - No me pode dispensar o George por algum tempo?
Jos Antnio atirou a cabea para trs e riu-se alegremente.
- Acho que os gachos se vo governar sem ele! - Depois ergueu a chvena de ch na direco de George: - Que te parece, gringo?
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- Eu prprio gostava de visitar esses stios. Desde que cheguei ainda no tive oportunidade de passear como turista.
- Temos-te feito trabalhar de mais, hem?
- Tens de ir s sierras - sugeriu Agatha.
- Hay pumas en las sierras - disse Tonito, com as mos em jeito de garras e a rosnar.
- Se aparecerem pumas, o George vai estar l para me salvar - respondeu Susan num espanhol perfeito. George ficou impressionado.
- Gringo,  melhor comeares a praticar o teu espanhol a srio. A Susan fala como se fosse argentina - disse Jos Antnio.
- Eu estou em vantagem - respondeu ela cheia de tacto. - Ns vivemos por todo o mundo.
- Nesse caso tambm fala italiano e francs? - perguntou Agatha cheia de entusiasmo. Susan acenou afirmativamente. - Que sorte.
- Tenho de ir ver como est a Dolores - disse Agatha, levantando-se. - Jos Antnio, porque no vens comigo?
- Se ela me gritar, mando-a j outra vez para Buenos Aires - respondeu ele com uma voz ameaadora, seguindo a mulher em direco a casa. Quando j tinham entrado,
pegou no brao da mulher e, olhando para trs para se certificar de que estavam ss, perguntou-lhe em voz baixa e em espanhol: - Que aconteceu  cara dela?
Agatha abanou a cabea.
- No me quis dizer.
- Mas perguntaste? - perguntou ele, com as mos afastadas em gesto interrogativo.
- Claro que sim. Porque no haveria de o fazer? Sou to curiosa como tu. Tive pena dela. Parecia to triste! Acho que estava sozinha em Buenos Aires. Alm disso
gostei dela. Viemos sempre a falar no carro, mas por mais que eu tentasse no me contou nada.
- Alguma vez foi casada?
- Porque perguntas?
- Tem aquele ar magoado nos olhos.
- Tanto quanto sei no foi. No usa aliana.
- Isso no quer dizer nada. Porque achas que veio at aqui sozinha? No te parece estranho?
- No, pelo menos se tiver sido criada aqui. Alm disso,  uma mulher independente e cheia de carcter. Muito - americana. E tem dinheiro. No me parece que precise
de proteco.
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Jos Antnio semicerrou os olhos.
- No te deixes enganar pelo que vs  superfcie. s vezes as coisas acontecem a um nvel mais profundo.
- Talvez, mas ela no quer falar do assunto.
- Pois aposto que foi um homem. Ou foi um homem ou um leo, e eu aposto no homem.
- O mais certo  nunca virmos a descobrir - disse Agatha com uma risada. Depois suspirou e acrescentou: - Que pena. Seria uma mulher muito bela. Alm disso  jovem.
Devia ser casada e ter filhos.
- Se anda  procura de marido, veio parar ao stio errado. Nenhum latino casaria com uma mulher com o rosto desfigurado.
- - No digas uma coisa dessas, Jos Antnio! - exclamou, horrorizada, mas percebeu que ele tinha razo. Todos os homens que conhecia ansiavam demasiado pela perfeio
fsica. - Mas talvez ela no queira casar-se.
- Nem penses nisso, Gorda. Todas as mulheres querem casar. - Agatha encolheu os ombros, atravessou o ptio em passo de marcha e subiu as escadas em direco ao quarto
onde Dolores estava sentada na cama com uma camisa de dormir cor-de-rosa, servida por Carlos e Agustina. Quando viu Jos Antnio sorriu timidamente, com o sorriso
de uma rapariga tmida.
- Que as bnos de Deus o cubram de alegria - disse numa voz de veludo.
- Fico satisfeito por ver que ests outra vez de sade - respondeu Jos Antnio delicadamente. Reparou que o cabelo grisalho lhe caa sobre os ombros e achou o seu
aspecto grotesco, com a camisa cor-de-rosa e a pele velha e enrugada que pouco condiziam. Ela sorriu-lhe, com um sorriso desdentado cheio de gratido e afecto.
- Ainda me lembro de quando era um rapazinho - comeou ela. Agatha olhou o marido, surpreendida. - Era um rapazinho amoroso. Muito diferente do homem grande em que
se transformou. O seu pai deve ter-se sentido muito orgulhoso de si. Jos Antnio no teve vontade de lhe recordar que o seu pai fugira com uma rapariga com metade
da idade dele e se instalara no Sul da Patagnia. Ele teria feito o mesmo. Deus tambm foi generoso com as bnos que lhe concedeu.
- Esto a tomar bem conta de ti? - perguntou ele, saindo do quarto s arrecuas.
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- A seora  uma mulher muito generosa. Percebi isso no dia em que ela chegou a Las Dos Vizcachas para conhecer a sua famlia - disse Dolores com um suspiro nostlgico.
- Que Deus a abenoe tambm a ela! - disse, e sorriu de novo, dessa vez com os olhos cheios de lgrimas.
- A mama e o Ernesto esto a tomar conta de mim, seor. Tenho a certeza, porque sem o aviso deles eu teria morrido. Que seria dos senhores sem mim? Deus seja louvado.
- Deus seja louvado - disse secamente Jos Antnio, saindo do quarto e descendo as escadas o mais depressa que as longas pernas lho permitiram.
Jantaram no ptio, ao lado da rvore vermelha que fazia plop. A comida no era to boa como a de Dolores, uma pena, uma vez que Jos Antnio comeava a pensar em
despedi-la.
- Est maluca - disse ele encolhendo os ombros. - Era mais fcil lidar com ela antes.
- Pelo menos no anda por a a assombrar a casa com aquelas horrveis fatiotas pretas - disse Agatha.
- O cor-de-rosa numa mulher da idade dela  monstruoso! - exclamou Jos Antnio, aborrecido. - Temos de ver as coisas como so, Gorda. No passa de uma bruxa que
s agora descobriu a sua sexualidade j ressequida, mas  tarde de mais para isso!
Riu-se ruidosamente da prpria piada. A ideia da sexualidade de Dolores tirou o apetite a George.
S muito mais tarde, depois de tanto os midos como os pais terem ido para a cama, Susan e George voltaram a ficar sozinhos.
Sentaram-se na cadeira de baloio do alpendre, de mos dadas no escuro, a verem a luzinha no candeeiro a petrleo atrair borboletas e mosquitos. O canto dos grilos
ouvia-se em todo o parque e uma Lua grande e luminosa parecia cobrir os campos de uma cor esverdeada, plida. Tinham ficado com os copos de vinho e George fumava
um cigarro. Ambos sentiam que a noite era encantada e de que tinham sorte por estar naquele stio. Com as recordaes temporariamente de parte, s tinham olhos um
para o outro.
- Tenho trinta anos - disse ela olhando em frente. - Para mim s um rapaz.
George soprou o fumo para o ar hmido.
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- Pareces mais nova - disse ele com sinceridade.
- Antes de te conhecer tinha a impresso de ter quarenta.
- Que importncia tem a idade? Agora tenho vinte e trs. Nem dei conta do meu aniversrio.
-  o que acontece quando viajamos. Os que ficaram para trs esquecem-se de ns.
George lembrou-se de Rita e desejou que ela fosse capaz de o esquecer. Por alguma razo, duvidava que isso viesse a acontecer, mas afastou o pensamento. No queria
estragar aquele momento na companhia de Susan.
- Quando  que fazes anos? - perguntou. Ela riu-se suavemente.
- A vinte de Maro. Sou Carneiro.
- Que significa isso?
- No fao ideia. Nunca liguei a essas coisas, mas posso dizer-te quem sou sem ter de consultar as estrelas.
- Sendo assim, quem s tu?
- Sou uma mulher apaixonada por ti, George. Muito apaixonada por ti.
George voltou a ficar surpreendido com a maneira directa como ela lhe falou. Depois de ter sido to discreta no barco, a sua candura pareceu-lhe desarmante. Ps-lhe
o brao sobre os ombros e atraiu-a a ele.
- Tenho sonhado ouvir essas palavras dos teus lbios, mas nunca pensei que isso viesse a acontecer. Que foi que mudou?
Ela deixou-se ficar um pouco em silncio, a pensar na melhor maneira de responder  pergunta dele. George estava louco por perguntar-lhe como fizera aquela cicatriz.
Sabia que no se tratara de um simples gesto de violncia e que ela acabaria por satisfazer a sua curiosidade, mas quando se sentisse preparada para isso.
- Sentia-me confusa, George - respondeu cautelosamente. - No estava  espera de me apaixonar. Foi propositadamente que me isolei. Tinha necessidade de solido.
Ele beijou-lhe o cabelo e aspirou o aroma que se desprendia dela.
- Eu tambm no estava a contar apaixonar-me - disse ele, sentindo intensamente o prazer de a ter to prxima, quase incapaz de acreditar que ela estava ali, nos
braos dele. - Tambm eu tinha necessidade de solido, e foi por isso que vim para aqui.
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- Cus, complicmos realmente a vida um ao outro, no complicmos?
- No. Tornmos as coisas ainda melhores. Agora j no pareces triste.
- S quando j era tarde de mais  que percebi que tinha conhecido um homem especial. Depois pensei que te tinha perdido. Tinha tido uma segunda oportunidade e tinha-a
desperdiado.
- Mas isso no  verdade, Susan. No vou deixar-te desperdi-la.
Beijou-a com ternura, pressentindo que algum a magoara profundamente e no querendo assust-la.
Depois afastou-se um pouco e tomou-lhe o rosto entre as mos. Olhou-a directamente nos olhos procurando a a sua verdade profunda. Os olhos dela brilharam no escuro
 luz da candeia. Pareciam esferas de vidro impenetrveis. Olhou-a, quase surpreendido, e depois passou a mo direita sobre a cicatriz. Ao princpio ela retraiu-se.
Nunca ningum passara a mo ali, pelo menos depois de os mdicos a terem cosido. Os seus olhos pareceram amedrontados e ela recuou, como um cisne assustado. Contudo,
George abanou a cabea e sorriu-lhe encorajadoramente, com compaixo, e ela ficou imvel e permitiu que os dedos dele percorressem com delicadeza a superfcie irregular
de uma ferida que s por fora estava sarada.
A pele dela era suave e macia, mas estava marcada com a cicatriz como um campo por uma linha de caminho-de-ferro. Ele aproximou o rosto dela do seu e beijou-a, sentindo
o gosto salgado das lgrimas nas quais ela deixava escapar emoes que haviam ficado por exprimir durante quase dois anos.
- Quem  que te fez isto? - perguntou ele, aninhando-a contra o peito. - Quem foi o estupor que te fez isto?
Mas Susan no conseguiu responder. Por enquanto, no.

CAPTULO 15
Susan estava deitada na cama, a olhar para a escurido l fora. A noite estava tranquila, exceptuando o rudo dos grilos e os ces que ladravam algures, ao longe.
O quarto cheirava fortemente a gardnias e a relva cortada h pouco, cheiros que desde criana associava  Argentina. Os lenis eram macios, a cama confortvel
e a escurido fresca e suave, uma amiga familiar. No ano que se seguira ao da ferida refugiara-se na escurido sempre que possvel. Estava fortemente consciente
de que George se encontrava deitado no quarto ao lado e estava atenta a qualquer rudo que pudesse confirmar-lhe a sua presena. Uma porta a fechar, uma torneira
a correr. Mas as paredes eram grossas e no conseguiu ouvir nada. Tinha vontade de ir ter com George  cama dele e de se refugiar na fora e na confiana dele. Sabia
que a nica maneira de escapar ao passado era criar novas recordaes, tecidas de amor. E amava George. Amava-o desde que sara do Fortuna, sabendo que deixara uma
pessoa muito especial escapar-se-lhe entre os dedos. Mas no confiara nele. Como podia ela acreditar que algum pudesse am-la agora?
Qualquer coisa leve pareceu flutuar no seu estmago quando recordou o momento em que ele lhe tocara na cicatriz. Levou a mo ao rosto e sentiu a ferida. Tentou convencer-se
de que no era to grotesca, to branca, de que George realmente a beijara. Fora um momento inimaginvel, como sair para a luz depois de muitos meses na escurido.
Tivera razo em vir. Tivera razo em confiar nele.
Para fugir ao passado recente invocou a infncia. Quando se concentrava conseguia ainda recordar o cheiro da me. Doce como campainhas na Primavera. Ainda recordava
o que era ser abraada to completamente, apertada contra o seu corpo, rodeada pelo seu amor. Estava habituada
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a ser adorada. Fora linda, sem uma falha, abenoada. Deslumbrara onde quer que se encontrasse, quer em festas em Washington, quer nas corridas em Paris. Em qualquer
stio a sua beleza fora celebrada. Talvez tivesse sido arrogante; talvez a cicatriz tivesse sido um castigo pelo seu narcisismo. Agora estava acostumada aos olhares
curiosos, aos comentrios sussurrados e s crianas que apontavam e se riam dela.
No fazia ideia da razo por que George conseguira ver para l da cicatriz. Por que motivo, quando tantos homens recuavam de horror ao olh-la, George fora capaz
de a percorrer com os dedos e de a beijar? Com este pensamento, mergulhou num sono tranquilo. O primeiro em muitos meses. E quando acordou o cu estava azul, lmpido
e cheio de luz.
George j estava no alpendre a tomar o pequeno-almoo na companhia de Agatha e dos midos. Jos Antnio tinha-se levantado cedo para sair com os gachos. Para ele,
a quinta no era trabalho, mas sim um modo de vida. Gostava de usar as mos, de sentir o cavalo, de galopar pela plancie rodeando as manadas. O sol gretava-lhe
a pele, e as palmas das mos estavam duras e calejadas, mas ele sentia-se parte da terra e era  terra que pertencia. Se no fosse o dono da terra, teria sido igualmente
feliz como gacho. At conseguia tocar guitarra como eles, embora Agatha detestasse ouvi-lo cantar. Dizia que parecia um touro a ser estrangulado.
Quando George viu Susan, o seu rosto pareceu iluminar-se. Ela usava umas calas beges, largas, e uma blusa branca de mangas curtas desabotoada na gola. Parecia fresca
e feliz.
- Dormiu bem, Susan? - perguntou Agatha, que tinha muito orgulho na sua hospitalidade. Susan sorriu e sentou-se ao lado de George.
- Muito bem, obrigada. O quarto  encantador - respondeu, voltando-se para George.
Este olhou-a com um dos seus sorrisos devastadores, pestanejando com prazer no segredo que partilhavam. Os midos pareceram ter apanhado qualquer coisa na vibrao
invisvel entre os dois porque se riram ambos com a boca tapada pelas duas mos.
- Est um dia perfeito para uma excurso a Santa Catalina - disse Agatha, referindo-se  velha igreja colonial jesuta que ficava a meia dzia de quilmetros de
Jesus Maria. Leva a carrinha, George, e comida para um piquenique e passa l o dia. Aproveitem o mais possvel.
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Pegou na pequena sineta de prata e tocou-a vigorosamente. Momentos mais tarde, Agustina chegou quase a correr.
- Si, seora? - perguntou, juntando as mos num gesto servil. Agatha deu-lhe instrues de que preparasse um piquenique para dois e depois mandou-a ir com um gesto.
Quando ela recuou para dentro de casa, Carlos saiu das sombras com uma carta na mo. Sussurrou qualquer coisa a Agustina e depois entregou-lha.
- Senhora - disse ela numa voz submissa, novamente no alpendre. - Est aqui uma carta para o senhor George.
- Ah, George - exclamou alegremente Agatha. - Notcias de casa, mas no de Faye - acrescentou estudando a letra do envelope, enquanto George sentia a vergonha queimar-lhe
o rosto. - Uma mulher jovem, sem dvida. Deve ser da Rita. - Susan empalideceu e voltou-se para George. - George tem uma noiva em Inglaterra - continuou Agatha,
ignorando o mal-estar que causava. -  claro que eu no dou nada por este casamento. Quando o ano tiver terminado ele j ter entregado o corao a outra qualquer,
acredite.
Susan disfarou o incmodo com um sorriso e Agatha entregou a carta a George.
- Eu leio-a mais tarde - disse ele metendo-a no bolso da camisa. Cruzou o olhar com Susan e tentou tranquiliz-la encolhendo os ombros. Para sua surpresa, ela no
lhe pareceu to magoada como ele esperava.
- Mas no te esqueas de me dar as notcias - disse Agatha. - Estou ansiosa por saber como se encontram eles. - Depois voltou-se para Pia e Tonito e disse em espanhol:
- A prxima vez que no quiserem almoar lembrem-se daquelas pobres crianas em Inglaterra. Tenho a certeza que no se importavam que lhes dessem uns bifes.
Pia e Tonito torceram os narizes. Estavam cansados de ser lembrados das pobres crianas inglesas esfomeadas. No ter o suficiente para comer era uma coisa que estava
para alm da sua capacidade de compreenso.
A carta foi rapidamente posta de parte e a conversa sobre os jesutas e Santa Catalina foi retomada. A cor voltou ao rosto de Susan, e George voltou a respirar mais
tranquilamente. No tinha querido falar-lhe de Rita. Decidira tratar do assunto no momento prprio e da maneira mais delicada possvel. No fim de contas, no havia
nenhuma necessidade de Susan saber. Pelo que lhe dizia respeito, Rita estava do outro lado do mundo, numa outra vida sem qualquer relao com a presente. Na vida
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que decidira deixar para trs. Susan era o seu futuro. Teve pena de Rita, mas ela era jovem e acabaria por encontrar outra pessoa.
Carlos ps o lanche do piquenique na caixa da carrinha. Susan apareceu  porta com um chapu de sol na cabea e um livro volumoso na mo. George saltou para o volante
e ligou o motor. Seguiram em silncio pelo caminho que conduzia  entrada da quinta,  sombra da alameda de grandes rvores, at  estrada de terra batida que conduzia
a Jesus Maria.
- Tenho algumas explicaes a dar - comeou ele. Susan ps-lhe a mo sobre o joelho e sorriu-lhe compreensivamente.
- No  este o momento, George. Vamos para Santa Catalina. Depois estendemos a manta  sombra de uma rvore grande e ento podes explicar-me quem  a Rita.
No  o que pensas - comeou ele.
- Nunca  - respondeu ela secamente com um gesto lento. Ele riu-se, sentindo-se tolo.
- Tens sempre resposta para tudo - disse ele. - No dia em que te deixar sem resposta vou perceber que consegui surpreender-te.
- Sou uma mulher americana. Ensinam-nos a responder e a ripostar.
- Ensinaram-te demasiado bem. Que pensas da tia Agatha? - perguntou ele, mudando de assunto.
Chegara a vez dela de se rir.
- So um casal extraordinrio. Ela  baixa, forte e um tanto agressiva, de uma maneira muito britnica. Imagino que teria dado uma directora formidvel num daqueles
vossos colgios internos. Ele  rude e barulhento, mas no deixa de ter o seu encanto. Tem um olhar malicioso e sentido de humor, embora no me agradasse encontrar-me
no caminho dele. Na realidade, de nenhum deles.
- So uma combinao inverosmil, no so?
- Como casal, sim. Mas o mais certo  ele ter uma amante muito bela escondida num stio qualquer. No fundo  um latino.
- No  como ns, Ingleses. - Ela olhou-o de lado.
- Espero bem que no.
A estrada para Santa Catalina era de terra batida e ia subindo e descendo acompanhando a ondulao natural do terreno atravs das plancies e dos bosques. As sierras,
cobertas de neve nos picos mais altos, emergiam da nvoa no horizonte e tocavam o cu com os seus contornos
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irregulares. George imaginava os condores alcandorados nos pontos mais altos a planarem em busca de presas. J estava calor, por isso conduziam com as janelas abertas,
observando a paisagem, felizes por se encontrarem naquele lugar recndito onde s as recordaes mais persistentes poderiam encontr-los. A Igreja de Santa Catalina
erguia-se orgulhosa e magnificente, com as duas torres sineiras e a abbada, mais altas que as rvores que em tempos a cobriam com a sua sombra. Parecia no haver
l mais ningum. Era um lugar tranquilo, quase assustador. Podiam ter recuado no tempo, at ao sculo XVIII, ao tempo em que os jesutas a haviam construdo no exuberante
estilo barroco alemo. O edifcio no fora modificado, nem o ambiente em que se encontrava.
George estacionou  sombra e contornou o carro para abrir a porta a Susan. Ela deixou o livro no carro e saiu para a sombra. George pegou-lhe na mo e ajudou-a a
descer. Depois tirou a manta e o cesto do piquenique da carrinha. Encontraram um lugar fresco debaixo de um grupo de rvores no muito longe da igreja e estenderam
a manta no cho. Algumas pombas aproximaram-se, ansiosas por saber o que havia na cesta e determinadas a ficar com as primeiras migalhas que cassem no cho.
Susan encostou-se ao tronco da rvore e suspirou levemente enquanto observava o lugar.
- Que stio to bonito - disse, com um sorriso. - E que tranquilidade. As igrejas transmitem sempre uma serenidade quase sobrenatural, no te parece?
- Nunca mudam, como ns e as cidades que construmos  volta delas. So intemporais, e isso j basta para lhes dar uma certa dignidade.
George estendeu-se a seu lado, com a cabea apoiada num brao, quase sem acreditar que a mulher que imaginara ter perdido para sempre estava ali sentada ao seu lado,
to naturalmente como se se conhecessem h muitos anos.
- Vais ler a tua carta agora? - perguntou-lhe ela friamente. George olhou-a e franziu o sobrolho.
- Quem me dera que ela no me tivesse escrito - disse com um suspiro. - Quem me dera que no estivesse cheia de esperanas e dos seus sonhos e que estes no assentassem
todos em mim.
- Conta-me tudo. Era por causa dela que precisavas de passar algum tempo sozinho, no era?
- Desculpa no te ter dito mais cedo - comeou ele, mas Susan limitou-se a silenci-lo com um riso abafado.
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- No me deves nada, George. Alm disso, se tivesses inteno de voltar a Inglaterra para casar com ela, no te tinhas declarado a mim, nem tinhas ficado to perturbado
no barco. Na verdade, se estivesses apaixonado no terias partido sem ela, para comear.
- Tens razo em tudo, Susan. Sou um miservel. - Suspirou e o seu rosto pareceu mergulhado em tristeza. Susan aproximou-se dele e deitou-se ao seu lado com a cabea
apoiada no brao. Tocou o brao dele com ternura.
- Conta-me tudo sobre ela e depois deixa-me decidir se s ou no um miservel.
E George contou-lhe tudo.
- Sou um miservel porque tinha sido mais delicado acabar logo tudo. Isto  muito pior. Ela est em Inglaterra a suspirar por um homem que no a quer.
- Mas preocupas-te com ela, George. No me parece que um miservel se preocupe como tu.
George olhou-a nos olhos e sentiu-se grato pela compaixo e pela compreenso dela.
- Eu gosto da Rita. No  possvel amar uma pessoa toda a vida e depois passar a ignor-la como quem fecha uma torneira. Gosto dela como de uma irm, mas no quero
casar com ela.
- Ento que tencionas fazer?
- Tenho de lhe escrever e de lhe contar.
- Importas-te que te d um conselho?
- Pelo contrrio, agradeo-te que o faas.
- No lhe fales em mim, George. Isso vai mago-la mais. Diz-lhe s o que me disseste a mim. No  possvel fazer uma omeleta sem partir ovos, George. Mas isto vai
causar-lhe sofrimento, ponhas tu as coisas como puseres. Mesmo assim, o golpe vai ser menos duro se lhe disseres que continuas a am-la, embora no o suficiente
para casares com ela.
George riu-se amargamente.
- Tenho andado todo este tempo a adiar. Quando te conheci no Fortuna estava disposto a escrever-lhe e a acabar tudo, mas quando pensei que no ia voltar a ver-te
decidi evitar o assunto.
- Evitar as coisas no as faz desaparecer. A Rita vai de certeza sentir-se esmagada pela tua rejeio, mas as pessoas superam o sofrimento mesmo contra a sua vontade.
Ela  jovem. Com alguma sorte, h-de encontrar algum e ser feliz. Se j no a amas, deixa-a partir.
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- Nunca magoei ningum desta maneira na minha vida. Sempre fui um bom rapaz. No gosto deste sentimento.
- s vezes temos de ser cruis para ser bons. Neste caso, ests a ser bom para ti. No te parece que mereces ser feliz?
Fixou-a com os seus olhos mosqueados e o seu olhar foi to intenso que ela se sentiu obrigada a desviar a vista.
- Tu fazes-me feliz - disse, com simplicidade.
Quando Susan levantou de novo os olhos, ele continuava a olh-la.
- Tu quase no me conheces - balbuciou ela num tom srio.
- H muitas coisas que no sei acerca de ti, mas tenho a certeza que te amo e estou confiante de que, quando te sentires pronta, me contars tudo.
Ela bateu-lhe levemente no brao, mas os seus olhos pareceram recuar, cheios de apreenso.
- Vamos dar um passeio  volta da igreja antes de almoarmos - sugeriu ela. - Podemos deixar aqui o lanche. Acho que estamos sozinhos.
- Se no contarmos com este casal de pombos - disse George com uma risada, pondo-se de p e esticando as pernas e os braos.
- Duvido muito que consigam abrir a cesta - respondeu ela, pondo os culos de sol e afastando-se da sombra.
De mos dadas, entraram na igreja. O interior era fresco e tinha um cheiro acumulado de vrios sculos  mistura com incenso mais recente. O barulho dos seus ps
no cho de pedra ecoou nas paredes. Falaram em sussurros, apesar de no haver uma nica pessoa  vista. Era apenas a presena silenciosa de Deus nas pinturas, no
altar de talha dourada e no ar que vibrava com o eco de sculos de oraes.
- Nunca percebi a necessidade dos catlicos de se confessarem - disse Susan numa voz tranquila quando passaram pelo confessionrio.
- Os confessionrios fazem-me pensar em padres perversos - respondeu George, afastando a cortina prpura para espreitar.
- No me agrada a ideia de que s  possvel comunicar com Deus atravs de um padre.  uma forma de a Igreja dominar as pessoas.
- Agora recordas-me Mistress Megalith - disse George com uma risada. -  a av de Rita. Chamam-lhe a bruxa de Elvestree, porque diz que tem poderes medinicos. Diz
que Deus est em toda a parte, na cozinha de toda a gente, e que se as pessoas o soubessem no iam  igreja.
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- Parece uma personalidade curiosa - respondeu Susan com ar pensativo, percorrendo com a mo o corrimo de madeira que terminava no plpito.
- Apesar de a igreja ter um efeito revigorante em muitas pessoas, s vezes  bom partilhar as coisas. Por mim, no gosto de multides. Gosto de me deixar ficar para
trs, de observar ao longe, de ter o meu prprio espao. Mas muita gente ia sentir-se solitria a falar com Deus sozinha na cozinha.
George aproximou-se dela pelas costas e abraou-a pela cintura, com o rosto aconchegado ao pescoo dela.
- Tu falas com Deus?
- s vezes. Nos momentos piores. No sei quem Ele , ou sequer se . Mas sabe bem dirigirmo-nos a algum.
- Oh, eu tenho a certeza que Ele existe. Sentia-O comigo nos cus. Sentia-O muito perto. Cheguei a sentir-Lhe a respirao no meu pescoo.
Susan voltou-se para o olhar de frente.
- Deves ter tido muito medo - sussurrou-lhe, e percorreu-lhe o rosto com os dedos. Ele pegou-lhe na mo e manteve-a entre as dele.
- Tive sonhos terrveis. Tinha medo de adormecer - confessou George, abanando a cabea e franzindo a testa enquanto os rostos de Jamie Cordell, Rat Bridges e Lorrie
Hampton surgiam na sua mente. - Mas desde que te conheo que eles desapareceram.
Ela sorriu-lhe e retirou a mo.
- Ainda bem que consegui espantar esses demnios - disse-lhe.
- Quem me dera conseguir espantar os teus - arriscou ele. Ela abanou a cabea.
- Isso s eu posso fazer - replicou. - Mas com a tua ajuda hei-de conseguir.
Dirigiram-se  porta e  luz e encontraram um bando de midos mestios a brincar nos degraus da igreja. Saltavam para cima e para baixo, a rir e aos gritos. As vozes
deles ecoavam nos campos silenciosos. Quando viram os dois estrangeiros pararam o que estavam a fazer e ficaram a olhar para eles. George pegou na mo de Susan e
comearam a descer os degraus. Uma a uma, as crianas olharam para Susan. Ficaram de boca aberta e uma ou duas apontaram. Depois, como um bando de animais, correram
para ela e estenderam os braos, pedindo-lhe que os deixasse tocar a cicatriz. George sentiu-se dominado pela fria. Numa tentativa de
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a proteger, empurrou-os e gritou-lhes em espanhol, como teria feito com ces vadios:
- Vo-se embora! Vo-se embora!
Contudo, para sua surpresa, Susan limitou-se a sorrir, segurou-lhe a mo e baixou-se. Quando o fez, as crianas recuaram e olharam-na em silncio, como se tivessem
ficado subitamente assustadas.
-  um anjo - disse o mais pequeno.
-  verdadeiro? perguntou outro.
- Eu no sou nenhum anjo - respondeu Susan a rir. - V, podem tocar.
George viu as crianas estenderem as mos sujas uma a uma para lhe tocarem o cabelo. Susan olhou para cima, para George, e disse-lhe com um trejeito: -
- As crianas obedecem a uma lei  parte - explicou.
- Desculpa - disse ele, sentindo-se tolo.
- No precisas de pedir desculpa. Para estas crianas, o meu rosto no  de maneira nenhuma to excitante como o meu cabelo.
Era evidente que Susan adorava crianas. Falava com elas, acariciava-lhes o cabelo, os rostos empoeirados, apertou os botes da camisa a uma, sacudiu os cales
a outra, reparou num joelho arranhado e numa testa ferida. Depois de ter beijado o joelho e a testa todos comearam a inventar doenas para ela as beijar. Susan
ria-se enquanto tentava content-las a todas, com um riso to natural e feliz que George se sentiu fascinado com a alegria dela. Percebeu que parte da tristeza dela
vinha do desejo insatisfeito de ter filhos.
Demoraram muito tempo a libertar-se das crianas, que se penduravam nela como macacos, a rirem-se dos esforos para a impedirem de ir, determinadas a fazer as coisas
como lhes convinha. Por fim, ela recuou para o lugar  sombra onde tinham deixado a cesta do piquenique  guarda das pombas e os midos regressaram s suas brincadeiras,
embora os seus olhos se virassem constantemente na direco dos dois, na esperana de que ela voltasse.
George abriu a garrafa de vinho e serviu-lhe um copo. Agustina tinha-lhes mandado sanduches de carne de vaca e uma salada de batata.
- Tens um toque mgico a lidar com as crianas - disse ele antes de dar uma dentada na sanduche.
De repente ela pareceu ter ficado triste.
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- Gosto tanto de crianas... - respondeu ela, bebendo um gole de vinho. Olhou na direco dos degraus onde os midos brincavam e sorriu porque percebeu que falavam
alto de mais e exageravam nas brincadeiras para que reparasse neles.
- Vais ser uma excelente me - afirmou ele, arrependendo-se logo a seguir por ver como ela corava e suspirava.
- Vamos beber a isso - respondeu ela, erguendo o copo num brinde. George tinha cada vez mais conscincia dos segredos do passado dela que ele desconhecia e teve
de morder a lngua para conter a impacincia. Deixaram-se ficar debaixo das rvores at o Sol se pr por trs da igreja, deixando-os cobertos pela sombra. O ar tinha
um aroma doce e perfumado e os grilos tinham substitudo a tagarelice das crianas. Os olhos de Susan estavam sonolentos devido ao vinho e do seu riso transparecia
o prazer. No entanto, quando as sombras da noite comearam a cair sobre a erva, os seus pensamentos voltaram-se para a sombra da guerra, o peso na alma de George.
- Ests sempre a pensar neles, no ests? - perguntou ela, observando-o com ateno. Ele percebeu-a imediatamente.
- Sim - respondeu. - Sempre.
- Sentes-te culpado por teres sobrevivido e eles terem morrido.
Ele devolveu-lhe o olhar com os olhos escuros e perturbados. Encolheu lentamente os ombros e suspirou.
- O meu crebro diz-me que alguns jogadores ganham e outros perdem.  lgico e inevitvel. Mas no consigo deixar de sentir que no mereo ser um vencedor. No era
eu o piloto mais corajoso nem o melhor.
- No tinha chegado a tua hora.
-  o que estou sempre a dizer a mim mesmo.
- S que isso no te faz sentir melhor, no ?
- No. A culpa parece colada  minha pele.
- Eram jovens como tu. No parece fazer sentido.
- O Lorrie tinha uma namorada com quem ia casar e o Rat era filho nico.
- Rat?
- - Diminutivo de Humphrey.
- Claro,  evidente! - riu-se ela.
- Tornmo-nos como irmos, mas no fim s fiquei eu e o Brian do esquadro original. Todos os outros morreram. Os seus lbios uniram-se
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numa linha fina. Mortos no fundo do mar ou feitos em pedaos. O Jamie, o Rat e o Lorrie. Os nomes deles ficaram gravados na minha conscincia e no meu corao.
- Precisas de tempo, George. O tempo acaba por apagar essas coisas.
Ele olhou intensamente para ela e a sua expresso tornou-se mais leve, como se o Sol tivesse desafiado as leis da natureza e subido acima das torres da igreja.
- Tu percebes realmente, no percebes, Susan? - Ela aproximou-se e ps a mo sobre a dele.
- Um pouco, e o pouco que no percebo tento perceber. - Arrastou-se sobre a manta de maneira a poder abra-la e beij-la.
Com Susan conseguia abafar o grito constante da guerra, as acusaes da sua conscincia e uma voz queixosa dentro do seu corao que pertencia a Rita.

CAPTULO 16
Max no conseguia concentrar-se. Acendeu a sua pequena vela e depois comeou a acender devagar as oito velas do menorah, o smbolo da Hanukkah. Desde que ele e a
irm, Ruth, tinham chegado a Elvestree, Mrs. Megalith decidira celebrar as festas judaicas como eles costumavam fazer na ustria, antes de Hitler ter iniciado a
campanha para exterminar o seu povo at  prpria alma. O rosto de Ruth era solene. Nunca falava da famlia que tinham perdido, mas naquelas alturas era impossvel
no recordar todos os que tinham partido. H recordaes que nunca desaparecem. Mrs. Megalith tinha os culos encavalitados sobre o nariz e o queixo mergulhado nas
pregas do pescoo. Tambm tinha um ar srio, apesar dos gatos que andavam  sua volta e se roavam contra as suas pernas. Os pensamentos de Max estavam longe de
Viena e da pequena sala de jantar onde a me lhe acenara com a cabea para lhe recordar os momentos em que devia acender as velas e dizer as preces correspondentes.
Os seus pensamentos estavam com Rita. Desde o dia em que a beijara no quarto tinham passado muitas tardes juntos a jogar xadrez, a recitar poesia ou a escrever coisas
que depois liam um ao outro na sala de estar da av dela. Por fim, reparara nele.
Ruth viu a mo do irmo tremer quando acendeu as velas. Perguntou a si mesma se ele recordaria, como ela recordava, a sala de jantar mal iluminada de Viena em que
o pai de ambos presidia s reunies de famlia, em que tios, tias e primos celebravam a Hanukkah. Quase conseguia cheirar o fumo dos charutos e saborear o vinho
cujo aroma enchia o ar. Afastou o sentimento nostlgico com um encolher de ombros e concentrou-se no brilho da vela que o irmo tinha na mo. Mrs. Megalith sentia
as vibraes contraditrias na sala, a tristeza profunda de Ruth e a leve
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excitao de Max, e com um pontap firme expulsou um gato de baixo da mesa.
- Isto h-de ensinar-te! - exclamou quando Max acendeu a ltima vela. Depois ergueu o seu copo. - Aos amigos ausentes, para que nunca os esqueamos.
Max pensou em Rita, Ruth pensou na me e Mrs. Megalith recordou Denzil por momentos. Ele nunca teria tolerado tantos gatos e se Denzil ainda fosse vivo eles no
se teriam atrevido a interferir na cerimnia. Sentiu um nariz frio encostado ao joelho e deu um pontap a um gato gordo que foi juntar-se ao primeiro. Ruth sentiu
as lgrimas prestes a carem e voltou os olhos para a sopa quente, procurando afastar as recordaes que ameaavam submergi-la. Mrs. Megalith comeou a contar a
histria de uma desastrosa caada ao tigre do marido na ndia e Max comeou a comer a sopa com prazer. Nenhum deles pareceu notar a angstia de Ruth.
Depois, precisamente quando as lgrimas da irm pareciam prestes a romper, a colher de Max deteve-se no ar. Mrs. Megalith estava a rir-se ruidosamente  ideia de
Denzil a ser perseguido por um tigre depois de lhe terem dito muito firmemente que ficasse imvel. Max j no a ouvia. Olhou para baixo e viu um pequeno gato branco
muito sossegado aos seus ps, que o olhava fixamente, com uns olhos da cor dos peridotos nos brincos de Mrs. Megalith. Max desviou os olhos para a irm e sentiu
o corao, momentos antes leve como um sufl, encher-se de compaixo. Sem pensar mais, pegou no gato ao colo, levantou-se e caminhou para o outro lado da mesa, onde
Ruth estava inclinada sobre a sopa quase fria. O riso de Mrs. Megalith morreu-lhe nos lbios quando viu Max pousar o gato nos joelhos da irm, onde comeou imediatamente
a acarici-la afectuosamente com o focinho. A velha senhora percebeu o gesto do rapaz e olhou-o com admirao. Quando se voltou para Ruth, o gato comia a sopa do
prato dela com a sua pequena lngua rosada e Ruth ria-se, as lgrimas retidas pelas pestanas e a sua infelicidade j esquecida.
Maddie no conseguia pensar em nada a no ser em Harry Weaver. Fora atingida pelo amor, esbofeteada no rosto, atingida na boca do estmago, e, para sua surpresa,
doa-lhe profundamente. Percebia agora o que Rita passava.
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- Admiro-te tanto! - lamentava-se  irm. - No h nada mais doloroso que o amor. Tenho a impresso de que o meu corao est a ser dilacerado. Todo o meu corpo
anseia por ele.
- E o Bertie? - perguntou Rita, incapaz de levar os protestos dramticos da irm muito a srio.
- O Bertie?! - Maddie pronunciou o nome como se mesmo o seu som fosse detestvel para ela. - Nunca gostei do Bertie. Ele s servia para passar o tempo. Agora conheci
o homem com quem quero passar o resto da minha vida e, se a av tiver razo, as muitas vidas que tenho para viver depois desta.
- Sempre pensei que viesses a casar com uma estrela de cinema, com o Cary Grant, no mnimo. - Rita tinha dificuldade em conter a vontade de rir.
- O amor ataca-nos quando menos esperamos. No me importo que ele seja velho. Tem quarenta anos, pelo menos, no te parece? - Dito isto torceu o nariz. Quarenta
era sem a menor dvida o princpio da velhice.
- A me e o pai morriam se soubessem. Ele  divorciado.
- No vale a pena lembrares-me. No s  divorciado e velho, mas tambm  um escritor pobre e sem sucesso. Que hei-de fazer?
Rita sentou-se na cama da irm e acariciou-lhe o cabelo.
- Mas esse no  o teu nico problema. Alm disso, tens concorrentes fortes.
Maddie abriu a boca de horror perante um novo obstculo que parecia levantar cabea.
- Quem?
- A Eddie tambm perdeu a cabea por ele. Alm da me e da av, ele foi o nico ser humano at hoje que se interessou pelo Harvey.
- Felizmente  a Eddie! - desabafou com alvio. - Assustaste-me a srio, Rita.
- Pelo menos, podes encontrar-te com ele sempre que te apetecer. A me passa a vida em Bray Cove a observar pssaros. Por mim, parece-me boa ideia comeares a interessar-te
seriamente por aves e por livros.
Maddie sentou-se na cama e olhou a irm com os olhos a brilhar.
- Tens razo. Vou com ela e vai acabar por nascer um romance entre ns. Vou acabar por conquist-lo, vais ver.
De repente, a vida de Maddie pareceu ter um objectivo. Comeou a levantar-se cedo para ir para o jardim com o casaco mais grosso do pai,
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um bloco de desenho e um lpis de Eddie, desenhar os pssaros que se alimentavam da comida que a me lhes deixava em vrios stios. Enfrentava a neve e o frio, sem
se importar por o seu bafo parecer congelar no ar e os seus dedos quase no se mexerem, to empenhada estava em convencer a me de que o seu interesse era genuno.
Fez-lhe perguntas acerca dos seus hbitos, das aves migratrias e das outras, das aves marinhas e das montanhas. Hannah andava encantada por ter com quem falar dos
seus amigos de penas, surpreendida e deliciada por a sua filha mais difcil comear, por fim, a dar sinais de amadurecimento. Hannah tinha conhecimentos vastos e
Maddie acabou por descobrir, para sua alegria, um mundo novo e colorido que estava ao seu lado, mas do qual nem suspeitava que existia. Por altura do Natal, no
s tinha convencido a me, como tambm tinha arranjado um verdadeiro passatempo.
- Convidei o Harry para passar o Natal connosco em Elvestree - disse Hannah ao jantar um dia, em meados de Dezembro. - Ele est sozinho e no h nada mais triste
do que uma pessoa passar o Natal sozinha.
O rosto de Maddie deixava transparecer claramente o entusiasmo, mas a surpresa foi to grande que perdeu temporariamente a voz.
- Foi muito simptico da tua parte, querida - disse Humphrey, ansioso por arranjar maneiras de a presena de Antoinette e de Mrs. Megalith no se notar tanto.
- A me ficou contente. Quanto mais alegre melhor,  o lema dela. Ele adora animais, por isso no se vai importar com aqueles gatos horrveis. Gostava de o receber
na nossa famlia.  to boa pessoa - continuou ela. - Conseguiu fazer uma casa muito acolhedora em Bray Cove, e os pssaros ali so fabulosos. H aves de tantos
tipos diferentes...  um verdadeiro paraso, mesmo no Inverno. - Olhando para Maddie, sorriu e acrescentou: - Um dia tens de vir comigo, Maddie, e trazer o teu bloco
de desenho.
Maddie concordou e por pouco no se engasgou com o guisado.
- Eu tambm vou! - ouviu-se Eddie dizer. - O Harry disse que tinha morcegos no sto e o Harvey est a precisar de amigos.
- Tenho a certeza que o Harry no se importa que vamos todos. Provavelmente vai gostar da nossa companhia - disse Hannah.
- Duvido que alguma vez tenha despertado tanto entusiasmo - reflectiu Humphrey com um sorriso. - Tambm vais, Rita?
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- No - respondeu esta.
- No continuas ansiosa  espera de uma carta de George? - comentou, sem grande tacto. - Parece que foi ontem que recebeste o pingente.
Rita baixou os olhos para o cho para esconder a tristeza.
- Eu sei, no devia estar a queixar-me. Alm disso, tenho a certeza que me escreveu. O que se passa  que os correios estrangeiros no so de fiar.
-  verdade. Os nossos correios so os melhores, mas o mesmo no se pode dizer dos da Argentina.
- Eu escrevo-lhe todas as semanas - disse ela com uma vozinha sumida. - Pelo menos assim fica a saber que continuo a pensar nele.
- Claro que fica - exclamou a me, encorajadoramente. - Alm disso, tens aquele pingente encantador. - Rita mexeu-lhe com prazer. - Tenho a certeza que hs-de receber
uma carta em breve. Vale sempre a pena esperar pelas coisas boas da vida. - Rita escondeu a apreenso por trs de um sorriso.
Maddie parecia uma criana  espera do Natal. Decidiu fazer uma pintura de um fuselo para dar de prenda a Harry. O fuselo  uma limcola superior devido s suas
grandes dimenses e ao seu longo bico, ligeiramente curvo, e s suas pernas longas e elegantes. No Vero a sua plumagem  de um castanho-avermelhado, semelhante
ao do cabelo de Maddie. Na cidade havia um carpinteiro que podia fazer-lhe a moldura, e talvez o Harry o pusesse por cima da secretria em que ela imaginava que
ele escrevia, de maneira que pensasse nela sempre que olhasse para l. Eddie comeou a fazer-lhe uma pequena casa de madeira para os morcegos do sto com a ajuda
de Nestor, o velho jardineiro da av.
Rita sentava-se no quarto a ler, a observar o pisco que tinha feito ninho na sua estante, a rever as antigas cartas de George, dos primeiros tempos da guerra, ou
a passear pelas falsias olhando ansiosamente o mar. Continuava as lies de cermica com Faye. Ia todos os dias a casa dela de bicicleta, depois do trabalho, fizesse
chuva ou sol. Sentia-se mais prxima de George quando estava com a famlia dele, e a afeio que recebia dos seus pais ajudava-a a esquecer as suas dvidas. O seu
trabalho em barro estava a melhorar. No havia nada como o sofrimento para estimular a criatividade. Faye estava impressionada. Compreendia
o amor e a nostalgia e a maneira como estes sentimentos moldavam a
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alma. Desde que conhecera Thadeus que o seu trabalho parecia ter-se elevado a um novo nvel, tendo adquirido uma dimenso quase espiritual. As suas aves pareciam
voar, os animais respirar, e o busto de Thadeus, que ela mantinha fechado num armrio, olhava para ela com tal ternura que o seu corao batia mais depressa sempre
que o olhava.
Na manh de Natal caiu um grande nevo. Maddie e Hannah correram para o jardim para quebrar o gelo no bebedouro dos pssaros e espalhar migalhas nos stios onde
era costume deixarem-lhes po. Rita continuava a dormir, pois no dia de Natal no havia nada especial a fazer nem sequer havia distribuio de correio. Eddie, que
justificava uma ida propositada do Pai Natal l a casa, acordou ansiosa por saber o que ele lhe deixara ao fundo da cama. Contudo, a sua alegria depressa se transformou
em tristeza quando encontrou o corpo sem vida de Harvey, como um pequeno brinquedo, no meio do cho. Protegendo o seu pequeno corpo com as mos, correu para o pai,
que ocupava o lugar do costume,  cabeceira da mesa da cozinha.
- Est morto! - lamentou-se.
Quando viu o rosto devastado da filha, Humphrey comeou por pensar que ela queria dizer que Harry Weaver morrera, mas os seus olhos acabaram por cair sobre o pequeno
fardo escuro que ela trazia nas mos trmulas.
- Oh, minha querida Eddie! - exclamou ele pondo-se de p. Apertou a chorosa criana nos seus braos e sentou-se na cadeira de baloio com ela ao colo. Estava inconsolvel.
- Que hei-de fazer? - perguntava ela entre soluos.
Quanto a Humphrey, tudo o que podia fazer era apert-la nos braos e acariciar-lhe o cabelo. No era muito bom neste tipo de coisas. Quando Hannah chegou com Maddie,
de camisa de dormir e galochas, ficou horrorizada.
- O Harvey foi para o grande sto que h no cu - disse o pai com gravidade. Os ombros de Hannah descaram.
- Oh, Eddie, tenho tanta pena - disse, trocando imediatamente de posio com o marido e sentando uma Eddie lavada em lgrimas nos seus joelhos. Eddie acariciou o
morcego morto, ainda mais repugnante do que quando era vivo.
- Que vou fazer sem ele, me? Como posso continuar a viver?
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- Vais ver que podes, filha. Porque a vida continua. Vais ter de ser muito forte. Por causa do Harvey. Ele no ia querer que ficasses neste estado por sua causa,
no te parece? Isso ia deix-lo muito triste e o cu deve ser um lugar feliz.
Quando ouviu todo aquele barulho no piso de baixo, Rita apareceu com o cabelo em desalinho, o rosto plido e com olheiras.
- Que aconteceu? - perguntou ansiosamente.
- O Harvey morreu - disse Maddie. Depois acrescentou num sussurro. - Quem a ouvisse pensava que tinha sido o pai!
- Temos de lhe fazer um funeral digno - disse Hannah, beijando a testa de Eddie. - Onde queres que o enterremos?
- No jardim - disse ela entre fungadelas ruidosas. - Numa caixa.
- Eu fao uma pedra tumular para ele, se quiseres - disse Rita. - E tu podes escolher o que queres escrever l.
- Agora vamos procurar uma caixa bonita para o metermos, depois vamos todos tomar o pequeno-almoo. No podemos chegar atrasados  igreja - disse Hannah, dando umas
pancadinhas nas costas de Eddie e pondo-se de p. Eddie seguiu-a at  despensa, de onde a me voltou passados momentos com uma pequena caixa. Com grande cerimnia
ps Harvey l dentro.
- Quero enterr-lo com a minha camisola azul - disse ela com solenidade.
Hannah ps as mos nas ancas, sem saber se devia ceder a um pedido to extravagante apenas por um morcego.
- Eddie, isso j me parece um exagero - comeou, insegura. Eddie pressentiu a fraqueza na voz da me e aproveitou imediatamente.
- Oh, tem mesmo de ser, me. Seno ele no vai descansar em paz. Na verdade,  capaz de nem sequer descansar.
- Mas tu tens poucas camisolas e a azul ainda te vai servir por muitos anos.
- No me importo de a sacrificar por ele. No fim de contas, no passa de uma pea de vesturio. E o Harvey era uma vida! - Os seus olhos quase saram das rbitas
quando pronunciou a palavra "vida".
Hannah ficou sem palavras perante a lgica da filha e murmurou:
- Veremos. - Depois voltou-se e foi preparar as papas de aveia. Maddie preparou-se com tanto cuidado para ir  igreja que parecia sada de um estdio de Hollywood.
O cabelo tinha um aspecto magnfico
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e caa-lhe sobre os ombros como uma cascata cheia de brilho, as pestanas estavam espessas com rmel, e tinha pintado as unhas de um vermelho-vivo. A sua pele tinha
um brilho radioso e estava to branca como as ptalas de uma orqudea. Os seus lbios estavam brilhantes de batom escarlate e mostravam um sorriso permanente, pois
nesse dia ia ver Harry Weaver de novo. Demorou-se  frente do espelho da entrada, a arranjar o chapu e a ajeitar o fato verde-azeitona. Quando Hannah a viu no
conseguiu deixar de abrir a boca de espanto e admirao pela criatura to bela que nascera de si.
Humphrey conduziu at  igreja. Se o tempo estivesse melhor, todos teriam gostado de dar um passeio a p. A estrada estava cheia de neve suja e meio derretida, mas
havia sol, que fazia o possvel por acabar de a derreter. As rvores e os arbustos brilhavam como se estivessem decorados com diamantes e dos telhados pendiam pedaos
de gelo onde a luz se reflectia, fazendo-os brilhar como prata. Estava muito frio e as raparigas apertaram-se umas contra as outras no banco de trs para se aquecerem.
S Maddie estava quente, com o corao a arder no peito  ideia de que ia ver Harry.
Humphrey estacionou no relvado e foi recebido por Trees e por Faye Bolton, que subiam o caminho com Alice, o seu marido, Geoffrey, regressado h pouco da guerra,
e os filhos, imaculadamente vestidos com casacos azul-marinhos e chapus da mesma cor. Maddie olhou pela janela, a observar ansiosamente todos os que passavam em
busca de Harry. Contudo, para seu desapontamento, ele no estava entre os que j se encontravam na igreja.
Sentaram-se num dos bancos corridos, onde sorriam amavelmente aos amigos que iam passando. A tia Antoinette estava sentada muito aborrecida ao lado do marido, David,
que fizera uma rara apario em Frognal Point. Emily piscou o olho a Eddie, mas William estava sentado de nariz no ar como se fosse importante de mais para uma terra
to provinciana. Quando Harry Weaver entrou, com um fato de tweed comido pela traa, todos pareceram voltar-se ao mesmo tempo para observar aquele estranho to desengonado.
Maddie fez-lhe imediatamente sinal com a mo enluvada de que se sentasse ao p deles. Harry sentiu-se agradecido. Aproximou-se em passo rpido, com os ombros descados
e a cabea inclinada, embaraado por se ver no centro de tantas atenes. Acenou com ar formal para cumprimentar Hannah e Rita e depois sorriu a Eddie.
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- O Harvey morreu! - soprou-lhe ela com ar melodramtico. Harry sentou-se e respondeu-lhe baixinho:
- Tenho muita pena.
Depois sorriu mais abertamente a Maddie.
- Sente-se perdida sem o Harvey - sussurrou Maddie ao ouvido
dele.
- Imagino, pobre criana - sussurrou ele em resposta, fazendo-a estremecer com a proximidade dos lbios dele.
A igreja estava cheia de luminosas bagas vermelhas. As crianas da aldeia tinham decorado um abeto com bolas douradas e pequenas figuras do Pai Natal. Iluminada
por candelabros e pela luz brilhante do sol que atravessava as janelas, parecia festiva e convenientemente sagrada.
- Feliz Natal a todos! - ressoou a voz do reverendo Hammond, silenciando as conversas em surdina. Todos se mexeram nos lugares  procura da posio mais cmoda.
Sabiam que o servio desse dia seria demorado.
O reverendo observou a congregao, aliviado por a bruxa de Elvestree no ter decidido agraci-los com a sua presena, para no falar dos gatos, e estremeceu ao
recordar aquele domingo de Primavera, para sempre gravado na sua memria. Quando se lanou numas boas-vindas prolongadas, Maddie aconchegou-se a Harry, com o fogo
que lhe ardia no peito mais quente do que nunca. Harry estava consciente do seu prprio fogo e percebeu, embaraado, que o livro de hinos lhe tremia na mo. No
viu Maddie guardar o dela na mala, de maneira que quando o rgo comeou a tocar teve de lhe pedir que partilhasse o dele. Rita estava  beira das lgrimas. Observou
o perfil sensvel de Faye e percebeu que tambm ela sentia a falta de George. Trees cantava em voz forte e desafinada. Se sentia a falta do filho, isso no se notava.
Mas Trees raramente mostrava as suas emoes. A ltima vez que o vira perturbado fora quando algum entrara s escondidas na quinta e roubara uma nogueira rara.
O reverendo Hammond pronunciou um longo sermo acerca do significado do Natal. Hannah estava certa de que era igual ao que pronunciara no Natal anterior, mas um
pouco mais longo. Entre a congregao comearam a ouvir-se tosses e pessoas que se remexiam no lugar. Apenas Maddie e Harry estavam imveis como as figuras da rvore
de Natal, mais conscientes do que nunca das partes do seu corpo que estavam em contacto.
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No fim do servio religioso, depois de cumprimentarem os amigos, Humphrey e Hannah reuniram a famlia para irem at Elvestree para o almoo de Natal. A mala do carro
ia cheia de prendas, todas embrulhadas em papel de cores vivas.
- Maddie, porque no vais com o Harry? - sugeriu Humphrey quando subia para o carro. - Assim ele no se perde.
Maddie correu para o carro de Harry, pouco equilibrada nos sapatos de saltos altos, a respirao a subir no ar como vapor.
- Espere por mim! - gritou quando ele estava a ligar o carro. - Eu vou consigo. -  pressa, Harry atirou as pginas de um manuscrito e um monte de jornais velhos
para o banco de trs do carro para lhe dar o lugar ao seu lado. - - O meu pai acha que o Harry pode perder-se - explicou quase sem flego. Harry pareceu atrapalhado
mas encantado.
- ptimo. - Olhou para ela e um sorriso tmido formou-se nos seus lbios. Depois voltou a sua ateno para a estrada.
-  o seu ltimo livro? - perguntou ela, apontando para o manuscrito espalhado pelo cho do carro.
- No - disse ele. - Na verdade, no tive tempo para arrumar o carro. Acaba sempre como lixeira para coisas que no me atrevo a deitar fora.
- Que tipo de coisas escreve?
- Romances.
- So bons?
Harry achou a pergunta directa de Maddie um pouco desconcertante. No estava habituado a tanta franqueza.
- Os meus editores acham que sim - respondeu ele.
- O Harry  famoso?
- No.
- E gostava de ser?
- No.
- Porqu? - Olhou para ele de lado, incapaz de perceber porque no havia de querer ser famoso.
Ele sorriu condescendentemente. Como poderia uma pessoa to jovem avaliar as armadilhas da fama?
- Porque as pessoas famosas perdem o anonimato e a maior parte das vezes tambm a dignidade, para no falar na sade mental.  por isso que no quero que as pessoas
saibam quem eu sou.
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- A srio? - perguntou ela.
- A Maddie gostava de ser famosa?
- Dantes queria ser uma estrela de cinema, como a Lauren Bacall, mas agora j no quero - disse ela, precipitadamente. No podia dizer-lhe que desde que o conhecera
tudo o que queria era observar aves em Bray Cove.
- Isso  muito sensato.
- Quero pintar pssaros - disse orgulhosamente.
- E  boa nisso? - perguntou ele, imitando o estilo directo dela.
- Sou. E pode-se sempre melhorar, como diria o meu pai. Mas eu adoro pssaros. O Harry tambm gosta de pssaros, no gosta?
- Adoro animais em geral. Bray Cove  um stio encantador para observar aves. Estou muito satisfeito por ter vindo viver para aqui.
- Onde est a sua mulher?
Harry ficou um pouco em silncio, surpreendido por ela saber que ele era divorciado.
- Na Esccia - respondeu ao fim de um bocadinho.
- Porqu na Esccia?
- Porque se casou com um homem chamado McInty - disse ele com um sorriso divertido. - Tem um castelo e ela gosta de casas grandes.
- Sendo assim no ia gostar de Bray Cove, pois no?
- De maneira nenhuma.
- Tem filhos?
Harry abanou a cabea e Maddie suspirou de alvio. No lhe agradava nada a ideia de ter enteados. Harry olhou a jovem de relance enquanto esta olhava pela janela,
mas ela voltou-se e ainda o apanhou, antes de ele ter tempo de desviar os olhos. Harry percebeu que estava a corar e tentou mudar de assunto.
- Diga-me o que se passa com o noivo da sua irm.
- Est na Argentina. Prometeu casar com ela quando voltar, mas no me parece que v regressar.
- Cus!
- Como diz a minha tia Antoinette, se ele gostasse dela nem sequer tinha ido.
- Bom, isso tem uma certa lgica - concordou Harry.
- S que a Rita est desesperadamente apaixonada. Eu percebo o problema dela. Sei o que  o amor e como pode magoar. Olhou de
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lado para ele e suspirou de forma melodramtica. - Que idade tem, Harry?
Harry abanou a cabea e riu-se.
- A Maddie faz umas perguntas muito estranhas... - disse, surpreendido.
- Acha mal que eu pergunte? - disse ela, com ar magoado.
- Claro que no - respondeu delicadamente. - S que no estava
a contar.
- Se quiser pode perguntar-me que idade tenho que eu no me ofendo. Tenho dezanove anos - informou com um sorriso rasgado, como se esperasse um elogio por ter alcanado
uma idade to avanada.
- Eu tenho trinta e seis anos - disse ele. Maddie olhou-o de boca aberta.
- S trinta e seis! No  assim to velho - exclamou alegremente, batendo as palmas.
- Espero bem que no - respondeu-lhe Harry, surpreendido.
- No  nada velho. S tem... - disse Maddie, e comeou a contar pelos dedos - dezassete anos a mais que eu. - E recostou-se no banco, satisfeita por pelo menos
um dos obstculos  sua futura felicidade ter sido ultrapassado.
Percorreram a longa estrada com rvores ao longo da berma, despidas e marcadas pelo gelo, at que estacionaram  frente de Elvestree. Apesar da aridez do Inverno,
a casa tinha um ar acolhedor e convidativo. As janelas brilhavam com luz e com vida. O sol tinha derretido o gelo dos vidros e no telhado j s havia neve nos stios
que no estavam ao sol. Das chamins saa fumo a cheirar a madeira, que recordou o Outono a Harry, a altura em que o pai aproveitava os sbados para queimar grandes
montes de folhas no jardim. Um pisco brincava com uma cdea de po nas escadas que conduziam ao alpendre e afastou-se devagar quando os viu aproximarem-se. Harry
entrou atrs de Maddie pela porta principal, decorada com uma coroa de azevinho presa com uma fita de veludo vermelho.
O som de vozes animadas chegou-lhes vindo da sala de estar,  mistura com o cheiro da canela e das laranjas, que se confundia com o perfume da tia Antoinette. Eddie
estava a contar a todos presentes o que tinha acontecido ao Harvey e a convid-los para o funeral, que teria lugar s seis no jardim de casa dela, debaixo da macieira
que ele tanto apreciara
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por causa dos insectos que atraa. Antoinette era esperta de mais para se pr a dizer mal dos mortos, especialmente de um Harvey morto, e dominou-se quando por pouco
no perguntou a Rita como ia George. "Estas questes diplomticas em famlia", pensou aborrecida, "so uma maada." O marido, o misterioso David, estava sentado
junto da janela na companhia de Humphrey, a discutir indignado a questo do terreno bravio ameaado pelos construtores.
- Pergunto eu, que ser do campo em Inglaterra? - exclamava, exaltado, Humphrey.
- De facto, constri-se demasiado sem se pensar muito antes - concordou David. - Mas suponho que os infelizes tenham de ser alojados nalgum stio. Contudo, que pensaro
as pessoas sobre o assunto daqui a cinquenta anos?
Maddie entrou com Harry, que se curvava para no ser to notado pela altura.
- Madeleine, vem ajudar-me a servir as bebidas. Nesta casa no se passa sede - disse Mrs. Megalith com uma voz tonitruante, acenando  neta com os dedos cobertos
de pedras translcidas. - Ah, o senhor deve ser Harry Weaver.  um prazer conhec-lo. Endireite-me essas costas, caro jovem, seno ainda fica marreco! - acrescentou,
entregando-lhe um copo de champanhe. - Tive esta garrafa guardada na cave anos e anos. O meu Denzil tinha uma ptima garrafeira, mas no era para ele beber. Tanto
melhor para ns, no lhe parece?
Harry aceitou o copo e endireitou-se. Destacava-se, pelo menos a altura de uma cabea, incluindo os ombros, acima de todos os outros. Mrs. Megalith passou por ele
a manquejar. Com um vestido prpura que lhe caa do peito at aos ps, parecia sem tirar nem pr a bruxa de aldeia que todos diziam que era. A brilhante selenite
oscilava hipnoticamente enquanto ela ia atravessando a sala. Trazia o cabelo preso com enormes ametistas.
De repente deteve-se, pestanejou surpreendida com a imagem que aparentemente se tinha materializado perante os seus olhos e, muito devagar, voltou-se. O seu rosto
tinha uma cor ao mesmo tempo rosa e plida.
- Valha-me Deus! - exclamou ela quase com falta de ar, os seus olhos a saltarem de Harry para Maddie. - Diabos me levem!
- Est a sentir-se bem, av? - perguntou Rita, afastada por momentos das suas meditaes.
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- Melhor do que nunca. Pensei que s os gatos tinham uma sorte assim.
Mrs. Megalith fez um estalido com os lbios, satisfeita. Rita parecia confundida. A av encolheu os ombros, como se quisesse retirar importncia ao sucedido.
- Isto  s uma velha a resmungar porque o seu dom ainda tem o poder de a surpreender. No me liguem - disse, antes de olhar para Rita com ar preocupado.
- No recebeste mais cartas do George, Rita? - Rita acenou negativamente com ar triste.
- Ainda no, mas tenho a certeza que j me escreveu. No desconfio dele, av.
- Claro que no - disse Mrs. Megalith com simpatia, dando-lhe uma palmadinha no brao. - No conheo ningum que merea tanto ter sorte como tu. - Depois voltou-se
e semicerrou os olhos na direco de Maddie. Encolheu os ombros com ar desaprovador e disse: - s vezes, os que menos merecem so os que acabam por ter mais sorte.

CAPTULO 17
George escreveu a Rita pouco antes do Natal. Pareceu-lhe que seria menos duro receber a carta depois das festas. Sentou-se na cama uma manh, ainda cedo, num dia
em que o sono resistia s ordens do seu corpo cansado depois de um dia a cavalgar com os gachos. Pressentiu a presena de Susan no quarto ao lado e ficou imvel,
atento,  espera de algum som, o que ela tambm fez ao mesmo tempo. A ltima coisa que ouvira fora a porta a fechar-se. A sua imaginao detivera-se na ideia de
que ela se estava a despir e a deitar na cama, talvez a ler e a apagar a luz. Desejava-a com todos os msculos do seu corpo. Queria beij-la, abra-la, dar-lhe
prazer. Mas mais que tudo isso queria apenas deitar-se ao seu lado e mant-la nos braos toda a noite. Perguntava muitas vezes a si mesmo quanto tempo devia esperar.
Susan no era inocente como Rita, mas era evidente que fora magoada. Inspirava respeito, mas acima de tudo precisava de confiar. S o tempo e a pacincia poderiam
expulsar o demnio do seu passado, que ainda a assombrava.
Resistindo  tentao de bater  porta dela, sentou-se  secretria e comeou a escrever:
Querida Rita, esta  provavelmente a carta mais difcil que terei de escrever em toda a minha vida. No h maneira delicada de pr as coisas. S lamento no poder
falar contigo pessoalmente em vez de te escrever. Depois, podia abraar-te e podamos separar-nos como amigos, compreendendo-nos um ao outro. Penso que no fui inteiramente
honesto contigo. Tinha medo de te magoar, o que no deixa de ser irnico, porque agora vou acabar por te magoar muito mais. No posso casar contigo. Continuo a amar-te,
e penso que te amei desde que me lembro. Mas amo-te mais como um irmo ama uma irm. J no sou o George
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que conheceste. Esse morreu nos cus sobre Inglaterra. Agora decidi ficar a viver na Argentina. Frognal Point estava a sufocar-me, e eu tenho de refazer a minha
vida num novo lugar qualquer. Aqui sinto-me feliz. No consigo sequer explicar-te a que ponto me sinto grato por teres esperado por mim durante todos aqueles anos,
em que o teu apoio significou mais para mim do que alguma vez poders imaginar. Foi isso que me manteve vivo. Desculpa ter de te desiludir. Basta-me imaginar o teu
rosto triste para sentir uma dor terrvel. Por favor, perdoa-me, Rita. Desejo-te todas as felicidades. Tu s nova e bonita e no tenho dvida de que acabars por
encontrar algum que me substituir no teu corao. Agradecer-te-ei para sempre teres-me dado o teu melhor, minha querida. Estiveste presente nos melhores momentos
da minha vida.
George
Com as costas da mo limpou a testa, onde se tinham acumulado grossas gotas de suor. Releu a carta vrias vezes, ansioso com uma ou duas frases. Tentou l-la do
ponto de vista dela, esperando no ter sido muito brusco, procurando assegurar-se sem a menor sombra de dvida de que ela no poderia deixar de ler aquilo que quisera
comunicar-lhe. Conhecia Rita perfeitamente e sabia que aquela carta ia deix-la destroada.
Na manh seguinte, deu a carta  tia para que ela a metesse no correio, juntamente com uma outra para a sua me, em que explicava a sua deciso. Ao pequeno-almoo,
Susan notou que havia rugas em torno dos olhos dele e a sua pele parecia cinzenta por baixo do bronzeado. Percebeu imediatamente o que se passara, mas Agatha imaginou
que eram saudades.
- A melhor cura para isso, rapaz,  uma boa cavalgada. Procurar no pensar nela. Se fores assim to sentimental, no te vais aguentar muito tempo. Do que tu precisas
 de uma boa rapariga argentina. No vale a pena andares a suspirar por uma mulher que est to longe. Esses amores  distncia nunca fizeram bem a ningum.
George fingiu concordar, mas ao fim do dia, quando voltou a ficar sozinho com Susan, pde finalmente falar com algum que o compreendia.
- Sinto-me to cruel, Susan - disse ele, sentado ao lado dela na cadeira de baloio do alpendre. Ela tomou-lhe a mo e segurou-a com firmeza. - Fiz como disseste
e no lhe falei de ti.
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- Fizeste bem - respondeu ela. - No gostava nada de saber que era por minha causa que ela ia sofrer. - Depois acrescentou com voz tranquila. - Eu sei o que  um
desgosto de amor.
George voltou-se e olhou-a bem fundo nos olhos perturbados.
- E sabes o que  seres consolada? - perguntou-lhe docemente.
- Sim, acho que sei - disse ela, sustentando o olhar. - E pensar que achei que no passavas de um rapaz...
- Ainda bem que te provei que no tinhas razo.
- Oh, eu sou sempre a primeira a admitir quando no tenho razo... - De repente, dominado pelo desejo, segurou-lhe os braos com as duas mos e obrigou-a a olh-lo
com a fora apenas do seu prprio olhar.
- Eu no quero que voltes para Buenos Aires depois do Natal, Susan. Quero que fiques aqui e cases comigo.
Quase esperava que ela se risse. Se lhe tivesse dito uma coisa daquelas no barco, ela teria sem dvida rido dele, com o riso condescendente que tanto o irritara.
Mas no se riu.
- No sabes nada acerca de mim - protestou ela sem convico.
- Ento conta-me. Asseguro-te que  impossvel que haja o que quer que seja no teu passado suficientemente terrvel para me impedir de te amar. Meu Deus, Susan,
tu enfeitiaste-me. Adoro tudo o que te diz respeito. Adoro mesmo as coisas que te dizem respeito e que eu no conheo.
Ela olhou noutra direco e o seu rosto endureceu.
- Eu conto-te se prometeres no te compadecer de mim.
- Prometo.
- Odeio sentimentalismos - avisou ela. - H pessoas a quem aconteceram coisas muito piores.
- Prometo - repetiu ele.
Susan suspirou e reclinou-se na cadeira.
- Estive para casar - comeou - com um ingls, chamado John Haddon. Estava muito apaixonada por ele. Conhecamo-nos h vrios anos e a cada ano que passava eu sentia-me
mais apaixonada. Nunca passou pela cabea de ningum que no acabaramos por casar-nos. O meu futuro com ele estava decidido. A nica coisa que ainda faltava era
legalizar as coisas. - Susan hesitou um pouco, olhando a escurido como se a, entre os arbustos, se escondessem os seus demnios. - Depois
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engravidei - contou num tom indiferente, apesar de a sua voz se ter tornado densa e firme. George no podia deixar de se compadecer dela em silncio. No admirava
que se tivesse sentido to triste em Santa Catalina, no meio de todas aquelas crianas. - O John ficou encantado e marcmos o dia do casamento. - Ps a mo sobre
a barriga e afagou-a delicadamente. - Sentia-me muito doente. O mal-estar fsico deixava-me prostrada. Mas isso pouco importava, porque dentro de mim crescia uma
criana. Uma me est disposta a suportar tudo por um filho. Depois, um dia, quando jogava golfe, o John distraiu-se, j no me lembro bem do que aconteceu... mas
sei que ele tomou balano com o taco e acabou por me atingir com ele no rosto.
George ficou horrorizado. Rodeou-lhe os ombros com o brao, mas lembrou-se do que tinha prometido e a sua mo acabou por pousar ao lado dela em vez de sobre os seus
ombros.
- Depois s me lembro de ter acordado no hospital com metade do meu rosto a latejar de dor. A dor  uma coisa bizarra. Chega a ser estranho que algum possa sobreviver
a tanto sofrimento. Mas eu sobrevivi. Coseram-me o rosto e fizeram-me um penso. Estava completamente drogada, mas mesmo assim doa-me. O John estava muito perturbado,
como deves imaginar. Sentia-se mal e no parava de se desculpar. Eu estava mais preocupada com o beb. Para meu alvio, ele estava bem. Como  evidente, o casamento
teve de ser cancelado, ou antes, adiado. Lembro-me que me fartei de jogar solitrio na cama do hospital - disse ela com um riso amargo. - Depois tiraram os pensos
e tive de enfrentar o horror de estar desfigurada e de saber que isso ficaria comigo para o resto da minha vida. A verdade, George,  que eu tinha sido uma mulher
muito vaidosa. Sempre tomara a beleza como um dado adquirido. Gostava que as pessoas me admirassem. E de repente comecei a ter o aspecto de um monstro. A beleza
 muito frgil. E eu ia ter de aprender a viver de novo. Parece tolice, mas foi como se tivesse perdido o uso das pernas, de um membro ou de um rgo vital. No
imaginas a que ponto uma mulher bonita depende do seu aspecto. Depois, o John rompeu o noivado. No suportava a ideia de casar com uma mulher feia.
George ficou furioso, quase nauseado.
- Filho-da-me! - exclamou.
- Sim, afinal no era o homem que eu imaginava que fosse. Foi uma poca muito difcil.
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- Que aconteceu ao beb? - perguntou ele, delicadamente.
A voz de Susan mantivera-se firme at esse momento, mas acabou por estremecer quando lhe tocaram na corda mais sensvel.
- Sofri um aborto - sussurrou. Pareceu-lhe muito pior quando dito em voz alta.
- Do choque do acidente?
- No - disse ela com um suspiro, e depois concluiu friamente: - Do desgosto, estou convencida.
- Meu Deus, tenho tanta pena!
Murmurou George. No seu rosto transparecia a compaixo.
- Prometeste que no ias ter pena de mim! - protestou ela, furiosamente quando ele a apertou nos seus braos e lhe pousou os lbios sobre o rosto. - No quero a
tua compaixo - disse, e tentou afast-lo, mas George valeu-se da sua fora e ela acabou por deixar que a abraasse.
- Eu no sinto pena de ti, Susan. Apenas percebi que te amo ainda mais do que imaginava. Vou casar contigo e tomar conta de ti o resto da tua vida.
Nessa noite, havia muita humidade e acabou por chover. Susan vestiu tranquilamente o roupo. A sua pele estava quase molhada e sentia o sangue a latejar nas tmporas.
Com a mo trmula, abriu a porta do quarto e saiu para o corredor. As luzes no alpendre oscilavam com o vento e a chuva batia contra as vidraas no trio, produzindo
longas sombras mveis nas paredes brancas, como num ecr de cinema. Tocou a pele do pescoo, quente e hmida, endireitou-se e voltou-se para a porta dele. Hesitou
um momento. O som forte da tempestade no telhado deu-lhe coragem para continuar. Ps a mo no puxador e a porta abriu-se facilmente, sem rudo, como se quisesse
facilitar-lhe a tarefa. Viu-o deitado de costas, coberto por um lenol at  cintura e com o tronco  vista. O cheiro dele misturava-se com os aromas naturais da
quinta: erva molhada, eucalipto, jasmim, couro e cavalos. Conteve a respirao e aproximou-se da cama com passos leves. Ele abriu os olhos e viu-a de p ao seu lado,
o roupo brilhante com a luz do luar, como um fantasma. No disse uma nica palavra. Limitou-se a abrir os lenis e a fazer espao para ela.
Ficou por momentos ao lado da cama, encorajada pelo sorriso dele. Lentamente, despiu o roupo e depois desatou os laos da camisa de
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noite, que caiu aos seus ps formando tambm uma poa branca e luminosa. O seu corpo nu era iluminado pelas lmpadas do alpendre e George percorreu com os olhos
o peito e as ancas dela. Susan sentia-se confiante de que voltara a ser bela, quela luz to pouco agressiva. Subiu para a cama dele e deixou-o envolv-la nos seus
braos. Ele tirou-lhe o gancho que lhe segurava o cabelo e com os dedos soltou-o de maneira que lhe casse em desordem pelos ombros. O beijo dele foi lento, explorador,
terno, e ela rendeu-se ao desejo que quase a sufocava. George surpreendeu-a. O seu toque no era apressado. Queria saborear o seu corpo e sabia faz-lo. Fora por
um homem que se apaixonara a bordo do Fortuna, e no pelo rapaz de quem troara. Apenas o seu entusiasmo era juvenil, e isso fazia-a sentir-se grata. Beijou-o com
fervor, inebriada pelo seu cheiro quente e pelo contacto da pele dos dois; ele sorriu-lhe, encantado por ela no se envergonhar da sua experincia nem do prazer
que sabia dar a um homem.
Esgotados, deixaram-se ficar a conversar at a tempestade partir e os campos serem iluminados pela cor rosada do amanhecer. Susan sentia-se feliz por ter permitido
que outro homem a amasse. Vencera um obstculo que em tempos lhe parecera insupervel. Mas George reduzira todos os obstculos a uma dimenso que lhe permitira simplesmente
voltar-lhes costas. Os seus fantasmas pareciam agora ter a consistncia de teias de aranha.
Rita viu a neve derreter-se e com ela as suas esperanas de futuro. Na primeira semana a seguir ao Natal no chegou nenhuma carta de George, nem na segunda. Maddie
raramente estava em casa. Passava a semana em Bray Cove, a pintar ou a organizar o escritrio de Harry. Tinha conseguido introduzir-se na vida dele. O amor transformara-a
numa secretria eficiente, o que a surpreendera tanto a si mesma como  me. No pediu nenhum pagamento pelo seu trabalho; estar perto de Harry parecia-lhe mais
que suficiente. Contudo, por mais que procurasse seduzi-lo, ele nem sequer lhe tocava.
Depois, numa manh chuvosa, John Toppit levou uma carta de George a Rita. Ela aceitou-a no meio de lgrimas, dominada pelo alvio e pela gratido, e a sentir-se
tola por alguma vez ter duvidado dele. Enfiou as galochas e a gabardina, pegou num chapu-de-chuva grande e saiu em direco  falsia com a carta dobrada no bolso.
Com o corao aos
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saltos, foi saltitando  chuva, contente por ouvir o barulho das gotas de chuva no chapu. No seu estado alterado, via beleza at nas rvores nuas e no cu pesado
e cinzento. Ouvia ao longe o mar a bater nas rochas e sentia o cheiro salgado do ozono e da areia molhada. Precisamente como ela gostava. Sentou-se debaixo do chapu-de-chuva,
protegida por um tufo grande de erva. Dessa vez, agarrou a carta com muito cuidado para no deixar outra folha preciosa ser levada pelo vento. Saboreou a letra dele
no envelope e, a estremecer, abriu-a e retirou l de dentro a fina folha de papel, to difana como as asas de uma borboleta. Lentamente, leu o que ele tinha escrito.
Comeou a sentir um aperto na garganta, como se uma mo invisvel lhe apertasse o pescoo com dedos gelados, sufocando-a at  morte. Comeou a respirar com dificuldade,
lutando por ar fresco e por perceber o que lia. O papel estremecia nas suas mos, molhado pelas lgrimas dela, que deixou de conseguir perceber o que a carta dizia.
Tudo o que via era um futuro sombrio, que se estendia diante dela como o mar e o cu cinzentos. Inspito, frio e estranho. No tinha experincia de viver sem George
e tinha medo de no ser capaz de o fazer.
Quando j tinha lido a carta vezes suficientes para a conhecer de cor, palavra por palavra, voltou a met-la no bolso e encolheu-se, com os joelhos encostados ao
queixo, a chorar desconsolada. George era tudo para si. Amava-o mais do que amava a vida. Sem ele no tinha razo para continuar. No tinha razo para viver. Depois
de chorar foi dominada por um sentimento vazio de resignao. Por uma estranha serenidade. Uma calma inquietante. George levara o seu amor, e com ele o oxignio
de que ela precisava para respirar. No teria um lar, nem filhos, nem almoos de famlia ao domingo numa cozinha a cheirar a po acabado de cozer e a guisado. S
silncio e esterilidade, como um vasto deserto seco onde nada pudesse crescer.
Devagar, ps-se de p. Sentiu as pernas fracas e a tremerem, mas mesmo assim conseguiram lev-la at  beira da falsia. Segurou o chapu-de-chuva com as duas mos,
mas o vento acabou por arrast-lo. No o viu desaparecer entre as rochas e mergulhar entre as ondas. Deixou-o ir, com indiferena, limitando-se a olhar em frente,
numa espcie de transe. Viu uma gaivota solitria voar sobre uma onda e lentamente estendeu os braos. Desejou conseguir voar como as gaivotas. Que tremenda liberdade
a dos pssaros. Planar e mergulhar  nossa vontade. Montar os ventos muito acima da terra. Se estivesse sobre as nuvens, a terra no poderia
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mago-la. Estaria longe de mais para se preocupar. Distante e indiferente aos pormenores da vida de todos os dias. Veria os campos verdes e o mar azul, a beleza
das florestas e dos rios, mas no a fealdade da rejeio e a falta de esperana na vida dos homens. De que servia o amor? Que tola fora em acreditar!
Aproximou-se um pouco mais da beira da falsia. No olhou para baixo. Olhou em frente, para a gaivota solitria que continuava a planar sobre o mar. Um raio de sol
pareceu atravessar a nuvem espessa e tocar os extremos das suas asas, acendendo-as como velas. O cu abriu-se para Rita, prometendo-lhe um voo eterno e o alvio
do sofrimento devastador. Deixou que a tempestade lhe erguesse os braos. Para cima e para baixo, como os de uma ave. Parecia-lhe que no tinham peso, como duas
asas, como se tivessem deixado de lhe obedecer. Fechou os olhos e sentiu a doura da chuva sobre o seu rosto, o conforto e a proteco da escurido. O vento atirava
o seu cabelo ora para um, ora para outro lado do seu rosto e empurrava-lhe a cabea para trs. Sentiu-se pronta a deixar que a arrastasse para o cu. Para a paz,
o silncio e o esquecimento.
Nesse momento, dois braos agarraram-na pela cintura e puxaram-na para trs. Subitamente arrancada  tranquilidade da morte iminente, gritou e deixou-se cair no
cho com um rudo seco. Cega pelo choque e pela fria, comeou a agredir o estranho que a impedira de fazer a nica coisa ao seu alcance. Os dois rolaram pela erva,
a respirar com dificuldade. Ela deitou as unhas ao rosto dele, ao cabelo,  roupa, a tudo o que pudesse ajudar a libert-la das suas mos para se escapar, por fim,
rumo  liberdade. Num uivo gritou o seu sofrimento no ar gelado. Um uivo estranho, mais animal que humano. As nuvens fecharam-se sobre o raio de luz e a gaivota
desapareceu na neblina. Por fim, o seu atacante, maior e mais forte que ela, acabou por imobiliz-la. Ela abriu e fechou os olhos at que voltou a ver e reconheceu
as feies de Harry Weaver, o seu rosto arranhado e afogueado sobre ela. Tinha falta de ar e escorria em suor, sujo de lama e de sangue.
- Valha-me Deus, Rita! - disse por fim, horrorizado. - Que ia fazer?
O som da voz dele penetrou nos seus sentidos inertes e ela percebeu como estivera perto de pr fim  vida. Comeou a tremer de forma descontrolada.
- George... - lamentou-se numa voz exageradamente aguda, que no lhe pareceu a sua. - George... - disse outra vez, mas no
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conseguiu concluir. Tentou inspirar, mas a sua garganta e o seu peito pareciam de tal maneira tolhidos pelo pnico que quase no conseguia respirar. Harry ajudou-a
a sentar-se e a repousar a cabea sobre os joelhos.
- V l, assim  que . Calma. Agora j est tudo bem - encorajou-a Harry com delicadeza, e pouco a pouco ela voltou a respirar.
- O George j no me ama - explodiu ela assim que foi capaz de falar.
Harry abraou-a e ela chorou agarrada ao seu casaco ensopado.
- Tenho muita pena, Rita. Mas vai ver que tudo vai passar. Garanto-lhe.
Mas Rita sabia que nunca voltaria a ficar bem. Acabava de atravessar a porta que conduzia ao inferno e George era o nico capaz de a trazer de volta.
Bray Cove era ali perto. Harry ajudou Rita a caminhar, apoiando-a com um brao  volta da cintura. Com a outra segurava no chapu-de-chuva que por pouco no o arrastara
enquanto observava as gaivotas na praia. Pressentira que alguma coisa estava errada e subira a falsia a correr o mais que podia. Pouco faltara para Rita se atirar.
Com os braos estendidos, a cabea para trs e o pescoo to branco como a morte, a sua viso parecera-lhe assustadora. Que estaria a pensar? No h homem nenhum
por quem valha a pena morrer.
J em casa, tinha posto a gua a correr para um banho enquanto ela se aquecia no quarto dele. Estava ensopada at aos ossos. Deu-lhe o seu roupo para ela vestir
enquanto a me no chegava com roupas secas. Ps a chaleira ao lume e depois telefonou a Hannah. Hannah telefonou ao marido, que estava a trabalhar, e disse-lhe
que fosse imediatamente para casa. Rita tentara suicidar-se. A Eddie estava na escola, mas Maddie estava no andar de cima a arranjar-se para estar bonita para Harry
Weaver.
- Maddie! - gritou-lhe a me. - Vamos imediatamente para Bray Cove!
Maddie percebeu pela voz da me que alguma coisa grave se passava e apareceu na cozinha quase sem lhe dar tempo de terminar a frase.
- Que aconteceu? - perguntou, aterrada com a ideia de que tivesse acontecido alguma coisa a Harry.
- A Rita tentou atirar-se da falsia. - Maddie ficou branca como a cal. - Parece que o George rompeu o noivado. J no gosta dela. E o Harry salvou-lhe a vida.
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- Oh, o Harry  um heri! - exclamou Maddie, num tom de voz em que transparecia a admirao.
- Devemos-lhe tudo - disse a me, saindo para a chuva a correr. "Finalmente", pensou Maddie, feliz. "Vo ficar to agradecidos que me vo entregar a ele como uma
recompensa."
Quando chegou, Hannah encontrou Rita acocorada  frente da lareira, vestida com o roupo de Harry. Pareceu-lhe muito magra e frgil.
- Minha querida filha - sussurrou-lhe a me, quase demasiado comovida para conseguir falar. Aproximou-se da filha que se desfez em lgrimas nos braos dela.
- Estamos-lhe to gratos, Harry - disse Maddie, seguindo-o at  cozinha. - Que aconteceu?
Harry ficou encantado por poder falar com Maddie. Tinha a impresso que Hannah e Rita precisavam de ficar sozinhas.
- Que te disse o George? - perguntou Hannah, com o corao a bater em desordem ao ver a filha destroada.
Rita tirou a carta do bolso do roupo de Harry e entregou-lha. Com um suspiro, Hannah leu o que ele tinha escrito. Depois dobrou-a e entregou-lha.
- No estou a perceber - disse ela, abanando a cabea. - Como  que teve a coragem de te deixar assim, ao fim de tantos anos  espera dele? - Desviou-lhe o cabelo
molhado da testa e acariciou-lhe o rosto com ternura. - Que aconteceu na falsia?
Os olhos da filha encheram-se de lgrimas.
- S pensei em morrer - disse ela, com a voz alquebrada.
- Oh, minha querida filha! No h ningum que merea uma coisa dessas. Vais ver que acabas por vencer tudo isto.
- Acho que no vou conseguir.
- Claro que no, agora. Mas mais tarde, quando passar o primeiro choque, vais comear a sentir-te melhor. Ns ajudamos-te. Eu e o teu pai, a Maddie e a Eddie. Todos
te adoramos e vamos tomar conta de ti.
Rita continuava a olhar fixamente o lume.
- George era tudo o que eu queria - disse ela. - Nunca quis mais nada na vida. Seria capaz de esperar dcadas por ele. Quando ter deixado de me amar?
- No fao ideia. Parecia to apaixonado quando partiu para a Argentina - disse Hannah, furiosa. Tinha vontade de o matar por ter magoado a sua menina.
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- Eu devia ter percebido. Devia ter adivinhado quando ele me disse que queria ir-se embora outra vez. Foi como disse a tia Antoinette. Se me amasse, no me tinha
deixado. Acho que deixou de me amar durante o Vero. Senti que ele se afastava, mas no quis ver as coisas de frente. A vida afastada dele era inimaginvel. No
conseguia suportar a ideia. Fiz de conta que no estava a acontecer. Acha que ele foi para a Argentina para se afastar de mim?
- Claro que no. De maneira nenhuma. No - disse Hannah com firmeza. - S queria afastar-se de Frognal Point. No de ti. Eu devia ter percebido que ele na verdade
no sabe o que quer. A responsabilidade de te pedir que esperasses por ele provavelmente foi de mais para a conscincia dele. Deve ter reflectido e achou que era
melhor para ti que ficasses livre.
- No acha que conheceu outra mulher? - perguntou Rita, os olhos sombrios de ansiedade.
- No, ele s se foi embora h uns meses. No me parece que isto tenha nada a ver com outra mulher.
Rita sentiu que se descontraa um pouco.
- Talvez volte ao fim de um ano, como tinha planeado... - arriscou ela.
- Isso mesmo. Quem sabe? No desistas, minha querida. Mas ele  um pateta. Uma rapariga to bonita como tu! No tarda nada s levada por outro!
- Mas eu no quero mais ningum...
- Claro que no - disse-lhe a me com uma palmadinha no brao enquanto voltava os olhos para a janela.
O rudo de um carro a estacionar l fora alertou-as para a chegada de Humphrey, que entrou em casa, apertou a mo a Harry com ar agradecido e lhe pediu para ver
Rita.
- Valha-me Deus, Rita, onde estavas tu com a cabea? - perguntou, parado no meio do quarto com as mos na cintura. O seu rosto estava da cor da cinza e os tufos
de cabelo branco  volta das orelhas brilhavam com as gotas de chuva.
- Est tudo bem, Humphrey - interrompeu-o Hannah com calma. - J estivemos a falar do assunto. Foi tudo um erro.
- Um erro? E se o Harry no estivesse l? - insistiu, furioso. - Depois da morte  um pouco tarde para lamentaes!
212
- O Harry estava l - disse ela, forando-se a falar com pacincia, e ordenando ao marido com o olhar que se dominasse. - E a Rita est bem. No vamos dar importncia
de mais a isto.
No entanto, sabia to bem como ele como tinham estado a ponto de perder a filha.
- Sua tolinha! - exclamou ele, ajoelhado ao lado da cadeira dela. - Por pouco matavas-nos de susto!
- Desculpe, pai.
- Mas onde estavas tu com a cabea? - repetiu ele. - O George no vale tudo isso. J percebemos todos que ele no era quem ns pensvamos. Tu s boa de mais para
ele!
- Tambm acho - disse Maddie, parada junto da porta ao lado de Harry. - Ele no te merece. Felizmente, o Harry estava l! Estamos em dvida consigo por ter salvo
a Rita. Nunca conseguiremos pagar-lhe.
Humphrey ps-se de p.
- A Maddie tem razo, Harry. Nem quero pensar no que teria acontecido se no fosse o Harry.
Harry sorriu com timidez e desviou os olhos.
- No foi nada, por amor de Deus - l conseguiu dizer. - Qualquer pessoa teria feito o mesmo.
- Olhem para as arranhadelas na cara dele - disse Maddie, estendendo os dedos para lhes tocar. O sangue j tinha secado com a lama, mas o cabelo dele continuava
molhado e sujo de erva. Tinha uma chvena de ch entre as mos, consciente de que elas continuavam a tremer. Ainda tinha  frente dos olhos a imagem de Rita a balanar
os braos no alto da falsia. - Ela deve ter lutado como um gato selvagem - continuou Maddie, percorrendo o rosto dele com os dedos.
Contudo, Harry sentia-se pouco  vontade com todas aquelas atenes.
- Era s uma criana assustada - murmurou, com um encolher de ombros.
Depois Rita ps-se de p.
- Agora vou mudar de roupa - disse. - Quero ir para casa. - Quando passou por Harry, disse-lhe: - Desculpe se o magoei.
- No magoou nada - respondeu ele, vendo-a sair do quarto com os ps a arrastar.
Rita no sabia se devia sentir-se agradecida por ter sido salva. A morte parecera-lhe to convidativa...

CAPTULO 18
Faye leu a carta de George com um pressentimento doloroso. Desde a noite em que lhe sugerira que partisse por algum tempo para trabalhar em Las Dos Vizcachas para
mudar de ares, que receava que aquilo acontecesse. Esperara que o filho levasse Rita com ele, mas George j nessa altura lutava com os seus sentimentos por ela,
apesar de se ter mostrado relutante em admiti-lo. A primeira coisa em que pensou foi em Rita. Sabia que ela ia ficar destroada. George era o futuro dela. Esperara-o
pacientemente durante tanto tempo... Sentia-se triste tambm por ela. Gostava de Rita como de uma filha. Como afectaria tudo aquilo a sua relao com Hannah e Humphrey?
Suspirou resignada e decidiu telefonar a Hannah. Talvez Rita tambm tivesse recebido a carta de George nessa manh. Com um estremecimento, levantou o auscultador
e marcou o nmero de Hannah. Sentiu-se aliviada quando ningum atendeu. Chovia muito. Sentia a chuva bater contra as vidraas e o vento era to forte que parecia
ameaar os alicerces da casa. Pensou em Thadeus e desejou poder falar com ele, mas h muito que decidira nunca lhe telefonar de casa. Era faltar ao respeito a Trees.
Estremeceu com um pressentimento sombrio. Nem parecia de Hannah sair de casa com um tempo daqueles. Perguntou a si mesma se estariam em Bray Cove com Harry Weaver
e decidiu tentar ligar para l. Quando Harry atendeu, a voz dele pareceu-lhe estranha, pesada e sinistra.
- Saram h cinco minutos - disse ele, relutante em divulgar as terrveis circunstncias que os haviam levado a sua casa. Faye percebeu que alguma coisa no estava
bem. Sentiu-o no corpo. Enfiou uma gabardina a pressa e decidiu enfrentar o mau tempo. Trees sara na carrinha, por isso a sua nica alternativa era o carro, que
o marido s tirava da garagem em
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ocasies especiais. Estava lavado e cheirava a cabedal tratado. Tinha a certeza que ele ia compreender. Era uma emergncia.
A chuva era de tal maneira torrencial que os limpa-pra-brisas pouco melhoravam a sua viso. Conduziu devagar, com muito cuidado, porque as estradas eram estreitas
e cheias de curvas e o nevoeiro denso. Demorou mais tempo do que seria normal. Tinha a impresso de conduzir h horas, com a mente s voltas com ideias que lhe despertavam
ansiedade. Pelo menos George estava feliz na companhia de Agatha e de Jos Antnio. Alm de ter contado  me a deciso que tomara em relao a Rita, George falara-lhe
com entusiasmo da sua nova vida na Argentina. Por uma vez, no estava preocupada com ele.
Por fim, entrou no caminho de acesso, com os pneus a fazerem barulho na gravilha. Passou pelas rvores e estacionou  frente da casa. Era evidente que tambm eles
tinham chegado h pouco tempo, porque o vidro de trs do carro de Humphrey ainda estava embaciado. As luzes estavam acesas na sala e a pesada porta da casa estava
entreaberta. Faye encheu o peito de ar e saiu do carro, com os sapatos de trazer por casa a fazerem barulho nas pedras molhadas do cho. Abriu a porta e espreitou
para dentro com nervosismo.
- Ol! - chamou. Est algum em casa? Entrou e fechou a porta atrs dela. Ouviu vozes na cozinha. - Hannah?
As vozes calaram-se enquanto ela percorria o corredor; por fim o rosto cinzento de Hannah apareceu  porta da cozinha.
- Faye! - exclamou, os olhos a pestanejarem sobre as lgrimas.
- Oh, Hannah, no imaginas como lamento! - disse, abraando a amiga. - Como est a Rita?
- J foi para a cama. Est desfeita.
- Que ideia insuportvel! - Faye abanou a cabea, com um sentimento desesperado de culpa por ter sido o filho dela a causar tanta infelicidade.
- Entra e bebe uma chvena de ch connosco. Estvamos mesmo a falar do assunto.
Humphrey estava sentado numa cadeira de baloio ao lado da lareira, a olhar em frente com ar ausente. Maddie sentava-se no lugar do costume,  cabeceira da mesa,
agarrada a uma chvena de Ovaltine. Faye no teve coragem para se sentar. Ficou de p, de costas para a parede, encostada  bancada onde Hannah preparava vegetais.
215
- Eu prpria s soube hoje - explicou-se. - George contou que tinha escrito  Rita, por isso pensei que ela tambm devia ter recebido a carta hoje.
Com mos trmulas Hannah serviu uma chvena de ch a Faye.
- Estivemos em Bray Cove - comeou a contar, numa voz fraca... - A Rita tentou atirar-se da falsia.
Horrorizada, Faye cobriu a boca com a mo e olhou Hannah incrdula.
- Valha-me Deus! - conseguiu dizer. - Que aconteceu?
Hannah estendeu-lhe a chvena e a seguir sentou-se ao lado de Maddie.
- O Harry salvou-a - contou Maddie. - Se no fosse ele, estaria morta.
- No consigo sequer pensar nisso - disse Hannah. -  demasiado horrvel.
- Que estava ela a fazer na falsia num dia como hoje? - perguntou Faye, horrorizada por a deciso de George a ter levado a uma atitude daquelas. Sabia que Rita
era uma rapariga frgil, mas nunca a imaginara capaz de chegar a tais extremos.
- Levou a carta para a ler no stio onde costumavam fazer os piqueniques deles - respondeu Humphrey num tom aptico, com os olhos no copo de usque. - No sei o
que lhe ter passado pela cabea
; continuou, abanando a cabea. - Rita  uma rapariga sensata. Que estupidez fazer uma coisa assim. Pregou-nos um susto a todos.
Faye baixou os olhos e Maddie continuou a histria.
- O Harry por acaso estava na praia por baixo da falsia. Quando a Rita deixou cair o chapu-de-chuva por pouco no o matou. Mas ele foi suficientemente perspicaz
para pressentir que qualquer coisa estava errada. Por isso, correu pelo caminho acima o mais depressa que conseguiu e viu-a a ganhar balano mesmo junto da falsia.
Diz que, se tivesse vindo uma rajada de vento na direco errada, ela tinha cado de certeza.
Maddie evocava encantada os pormenores do herosmo de Harry. Faye notou que tinha o rosto muito corado em comparao com os pais. Pareceu-lhe quase indecente que
estivesse to bonita e resplandecente no meio de tamanha infelicidade.
- Agora j adormeceu - disse Hannah, tranquilamente. - Fui levar-lhe uma chvena de Ovaltine, mas ela no a bebeu. Meteu a cabea entre os cobertores e escondeu-se
de todos. Acho que precisa de dormir
216
bem para se libertar do choque. No me parece que quisesse realmente matar-se. Foi um pedido de ajuda, e felizmente Harry estava l para o ouvir.
- Tenho muita pena - disse Faye. - Sinto-me responsvel por tudo o que se passou.
- No digas tolices, Faye - disse Hannah. - Isto  um assunto entre o George e a Rita. Ns no podemos responsabilizar-nos pelas aces dos nossos filhos.
- Ento no vamos deixar que isto interfira na nossa amizade - sugeriu Faye, esperanada, a bebericar o ch.
- Claro que no - concordou Hannah. Humphrey permaneceu em silncio, perdido no espelho dourado do usque, que reflectia as suas feies distorcidas.
- A Rita  muito nova, e h-de encontrar outra pessoa que possa amar - disse Maddie cheia de confiana.
Hannah franziu o sobrolho quando ouviu o seu tom de voz pouco respeitoso.
- No me parece que essa ideia possa servir-lhe de consolo neste momento - observou duramente.
Maddie abafou um bocejo e ps-se a pensar quando conseguiria voltar a Bray Cove.
- Quando a Rita acordar telefonam-me? - pediu Faye. - Gostava de a ver.
- Claro - respondeu Hannah, que se ps de p para acompanhar a amiga  porta.
- Entretanto, se precisarem de alguma coisa, sabem onde podem encontrar-me - disse Faye, sabendo perfeitamente que isso no aconteceria.
O silncio de Humphrey era eloquente e cheio de ressentimento. Voltou a abraar Hannah, mas o seu corpo pareceu-lhe rgido e reticente.
Faye fez marcha atrs at  estrada, mas no voltou para Lower Farm. Em vez disso, dirigiu-se a casa de Thadeus.
Pouco depois, Mrs. Megalith apareceu em casa da filha. Com ela vinha um Max prudentemente optimista e um cheiro velho a gato. Max, como um aclito, ficou ao lado
dela, a pegar-lhe na gabardina e no chapu, a segurar-lhe a bengala enquanto ela se escovava. No tinha
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conseguido conduzir com aquele tempo e, como Max estava em casa sem nada que fazer, tinha-lhe pedido que a acompanhasse como motorista. Pelo caminho falara-lhe da
tentativa de suicdio de Rita.
- Me! - exclamou Hannah. Raramente se sentira to feliz por ver a me como nesse momento.
- Meu Deus, que manh vocs tiveram! - disse Mrs. Megalith, tirando a bengala das mos de Max sem um agradecimento sequer.
- Max, foste muito simptico em trazer a me de carro. Vamos todos para a sala. Esta cozinha est a deixar-me com falta de ar - sugeriu Hannah. - O Humphrey ficou
de rastos - sussurrou  me. - Nunca o tinha visto assim.
Mrs. Megalith manquejou at se instalar confortavelmente no cadeiro ao lado da lareira.
- Ol, av - disse Maddie, que entrou com um sorriso indecente no rosto magnificamente maquilhado. - O Harry Weaver salvou a vida da Rita!
Mrs. Megalith olhou-a por cima dos culos e franziu o nariz desaprovadoramente.
- Foi o que me disseram - respondeu. - Tira esse sorriso da cara, Madeleine, e vai-me buscar um porto. Um grande.
Maddie revirou os olhos na direco de Max, mas continuou a sorrir.
- Que queres tomar, Max?
- Ele toma um ch - respondeu a av. Com um dedo no ar, acrescentou: - No te esqueas que esse porto  num clice grande. - Depois de Maddie desaparecer, disse:
- Esta Maddie  uma rapariga muito tola.
- No sei o que se passa com ela hoje - disse Hannah, intrigada. Mrs. Megalith ergueu as sobrancelhas:
- A srio? - perguntou com ar cnico. -  o amor, Hannah.
- Amor? - suspirou a filha com ar cansado. A ideia de outra filha apaixonada ultrapassava de longe o que podia suportar.
- Sim, mesmo debaixo do teu nariz.
- No  o Harry? - abanou a cabea. Depois tudo pareceu encaixar-se. - Valha-me Deus! Porque havia eu de ter trs filhas?
- Esse ainda  o menor dos teus problemas, Hannah. Aqueles gatos morreram pela Rita, no pela Maddie.
- Quais gatos? - Hannah nunca perceberia a me, mas Max percebeu-a. Acenou afirmativamente, recordando o mau pressgio.
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- A Maddie vai sempre desembaraar-se, toda a sua vida. No me lembro qual foi a estrela que presidiu ao nascimento dela, mas foi de certeza uma estrela grande e
muito brilhante.
- E a Rita? - perguntou Hannah.
- Nasceu sob uma estrela frgil, lamento dizer. Mas h-de sobreviver, graas aos Harry deste mundo. - Mrs. Megalith riu-se e enterrou o queixo nos refegos de gordura
que lhe rodeavam o pescoo. - Por onde anda ela?
- Est a dormir.
- Nesse caso espero at ela acordar. De qualquer maneira, no nos vamos meter outra vez  estrada com este tempo.
Max estava louco por ver Rita, mas bastava-lhe encontrar-se em casa dela para se sentir reconfortado pela sua presena invisvel. Sentia-se horrorizado perante a
ideia de que ela quisera atirar-se da falsia. Apetecia-lhe dizer-lhe que George no merecia tudo aquilo, que no era o nico homem que poderia am-la. Max tambm
a amava, mas o brilho de George tornava o seu amor invisvel. George sempre fora o grande motor da vida dela. O ar que ela respirava. O vento que lhe permitia voar
sem esforo, como uma ave. O amor de Max era um grito dbil perdido nesse ar. Se ela pelo menos lhe desse tempo de mostrar o que valia... Seria mais homem que George.
Max tinha dezassete anos. Acabara a escola no Vero e em breve deixaria Frognal Point para viver na cidade. Mrs. Megalith encorajava-o a faz-lo. "No podes ficar
aqui o resto da vida com um velho saco como eu s costas", tinha-lhe dito. "s um rapaz inteligente, com um futuro brilhante  tua frente. Se os teus pais fossem
vivos, teriam muito orgulho em ti." Mas Max no queria que o seu sucesso agradasse aos pais mortos, mas sim a Rita. Tinha ambies maiores, que podiam ser satisfeitas
em Frognal Point.
Maddie voltou com uma chvena de ch e um clice grande de porto. Com um estalido da lngua, Mrs. Megalith pegou-lhe avidamente.
- Porque ests tu toda aperaltada, Madeleine? - perguntou  neta depois de uma boa golada, arrepiada com o lquido que lhe descia at ao estmago.
- Uma rapariga deve salientar os seus atributos - respondeu Maddie com um trejeito.
- No h dvida de que tu salientaste os teus - retorquiu Mrs. Megalith. - Ouvi dizer que tens dado uma ajuda l para Bray Cove.
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Maddie teve a decncia de corar.
- O Harry precisa de ajuda.  muito desorganizado. Alm disso, tenho aproveitado para desenhar aves - disse com orgulho.
- O qu?! Vestida dessa maneira?
- Claro que no, av. Quem  que a av julga que eu sou?
- Acho melhor no dizer, seno ainda ofendo a tua me.
- A Maddie  uma excelente secretria - interrompeu Hannah. - Alm disso, descobriu um talento que nunca ningum imaginou que pudesse ter.
- Eu pelo menos no tenho a menor vontade de imaginar - observou secamente Mrs. Megalith.
- Ela pinta maravilhosamente - disse Hannah, que acrescentou, voltando-se para a filha: - Vai buscar o teu bloco de desenho, Maddie.
Maddie ficou encantada por poder mostrar os seus desenhos, porque sabia que eram bons. Mrs. Megalith ficou agradavelmente surpreendida.
- Foi um talento que herdou de mim - disse com arrogncia. - Eu tambm era uma excelente pintora.
Nessa altura Rita apareceu  porta. Quase parecia uma sombra. Relutante, Maddie fechou o bloco de desenho.
- Maddie, vai fazer um Ovaltine  Rita e pe-lhe um bocado de brande - ordenou Mrs. Megalith, assustada com a cor cinzenta do rosto da neta mais velha. - Isso vai
de certeza fazer-te sentir melhor, minha querida - disse docemente. - Vem sentar-te ao p da lareira. Ests to fria!
Rita aproximou-se da lareira e encostou-se  grade de ferro, ao lado da av.
- Como te sentes? - perguntou-lhe a me. Rita encolheu os ombros.
- Vazia - respondeu.
- Vais acabar por te sentir melhor - encorajou-a a me.
- Hoje no - interrompeu Mrs. Megalith num tom estridente. - Nem amanh. No  fcil curar um desgosto de amor, mas para comeares a melhorar tens de falar do assunto,
em vez de o enterrares e deixares
infectar. Com isso  que ningum ganha nada, a no ser energia negativa, que s serve para abater as pessoas.
- Foi tudo to inesperado... - disse Rita. - Sempre pensei que
o nosso futuro era juntos um do outro. Sinto-me to magoada e abandonada!
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Ainda me custa acreditar que ele me deixou - disse com uma voz arrastada e o olhar fixo na carpete.
- Eu j lhe disse que acho que o George no sabe o que quer - disse Hannah.
Mrs. Megalith franziu o sobrolho, por pensar que a filha estava enganada, mas no disse nada.
- D-me a minha mala, Max - disse ela, com a mo estendida. Max foi buscar a mala ao trio. Ela p-la sobre os joelhos e comeou a vasculhar l dentro. - Ah, aqui
est - exclamou por fim, com um saco de veludo preto cheio de cristais na mo. - Quero que tragas o quartzo rseo sempre no bolso, querida. Os outros podem ficar
na tua mesa-de-cabeceira. - Rita pegou no saco, aliviada por a av no ter trazido as cartas de taro. Carregada de toda aquela energia positiva, olhou pela janela,
mas viu que ainda havia humidade de mais para um passeio. Maddie voltou com a chvena de Ovaltine. - No te esqueceste do brande, pois no? - perguntou Mrs. Megalith,
tirando a chvena das mos de Maddie e pondo-a nas de Rita. - Isto vai fazer-te bem. Tens de manter as foras. A vida  s uma srie de obstculos. O que temos de
fazer  saltar por cima deles e depois esquec-los. Nunca olhes para trs. No vale a pena chorar sobre leite derramado, j sabes. Se quiseres, vais conseguir sair
de tudo isto muito mais forte. Est ao teu alcance escolher.
- Tenho a impresso de no ter escolha - disse Rita, tristemente. Viu que Max olhava para ela e sentiu-se mais uma vez surpreendida com o afecto que brilhava nos
olhos dele. Voltou-se para a av. Mrs. Megalith escolheu uma comparao que Rita percebesse.
- Pensa em dois pssaros de asas quebradas - disse ela, pensativamente, a brincar com o pingente de selenite. - Foram abatidos uma manh de Primavera por dois caadores.
Correm a esconder-se nuns arbustos, a tentar tratar as feridas. Pouco a pouco, as suas asas feridas curam-se. Um dos pssaros diz que no pretende deixar que um
infortnio daqueles estrague a sua vida. Graas  sua fora de vontade, acaba por conseguir voltar a voar. No  fcil. Tem de praticar e voltar a praticar e h
dias em que quase no consegue, mas por fim a sua atitude e o seu esforo acabam por compensar e consegue voar. Voa ainda mais alto do que antes, e isso d-lhe um
prazer ainda mais especial porque sabe o que  no conseguir levantar voo. No entanto, o outro pssaro est demasiado assustado para conseguir sequer tentar voar.
Esconde-se nos arbustos,
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nas sombras, onde quer que possa chorar com pena de si mesmo. Incapaz de vencer a infelicidade e de esquecer o passado, acaba por destruir a sua vida, roubando-lhe
o que ela tem de mais precioso, que  a liberdade.
Mrs. Megalith tirou os culos e olhou para os olhos tristes da neta.
- Tu acabaste de ser abatida por um caador, Rita. Podes escolher qual o pssaro que queres ser. Agora no tens nada a decidir, mas mais tarde, quando chegar a Primavera
e conseguires avaliar a tua situao com frieza, vais ter de tomar uma deciso. Lembra-te da histria e deixa-te guiar por ela. No fim de contas, a escolha  tua.
E agora bebe. Vais ver que te sentes melhor com esse bocadinho de brande!
Nessa tarde, Faye voltou para ver Rita. O tempo estava um pouco mais claro e Mrs. Megalith e Max j tinham ido para casa, depois de um bom almoo. Thadeus tinha-a
reconfortado, dando-lhe foras com um abrao dos seus longos braos e ouvindo-lhe a histria da tentativa de suicdio de Rita. Ficara chocado com o que Faye lhe
contara. A possibilidade de uma jovem desistir de uma vida magnfica apenas por causa da rejeio de um homem estava para alm da sua capacidade de compreenso.
"Ela no teria aguentado a Polnia cinco minutos durante a guerra", foi tudo o que disse, o que fez Faye sentir-se muito melhor. George estava no direito de romper
o noivado. Era muito melhor mago-la naquele momento do que arrepender-se do casamento dez anos mais tarde, numa altura em que alm de uma mulher j tivesse filhos.
Faye percebia o filho e apoiava a sua deciso, por doloroso que isso fosse para Rita.
- Tenho muita pena - disse Faye a Rita, que estava sentada como uma verso murcha do seu antigo eu no banco de pedra junto da janela do seu quarto.
- A culpa no  sua - respondeu, olhando pela janela para a chuva fina que parecia flutuar no ar depois da tempestade.
- Eu sei, mas sou a me de George e gosto muito de vocs os dois.
- Convenci-me realmente de que amos formar uma famlia.
- Tambm eu. Gostaria muito que viesses a ser minha nora. - Rita voltou-se para Faye.
- Acha que ele um dia vai regressar?
- Tenho a certeza que sim. No me falou do assunto na carta, mas quando partiu s contava ficar um ano.
- Isso era quando me tinha a mim  espera dele.
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Faye pegou na mo de Rita.
- Ele estava muito confuso quando partiu, Rita. No sabia o que queria. S sabia que tinha de partir. Se queres saber a minha opinio, acho que  um peso grande
de mais para a conscincia dele pedir-te que esperes ainda mais. Ele no confia nele prprio e no deve querer sentir que tem de regressar mesmo que no esteja pronto
para isso. Agora que est na Argentina, est afastado de casa, de ti e de mim, da vida que tinha aqui. Tens de perceber que ele tambm estava a sofrer. Perdeu os
amigos na guerra e viveu uma experincia terrvel que no h-de esquecer no resto da vida. E agora est a recuperar. Espero que quando voltar j tenha encontrado
a parte dele prprio que perdeu em combate, ou, se no tudo, pelo menos alguma coisa.
- Mas eu no quero desistir - disse Rita com um suspiro. - Estarei errada?
- Deves fazer o que te parecer melhor para ti - respondeu Faye, apesar de saber que o melhor conselho que lhe podia dar seria que o deixasse partir e se conformasse
com a ideia. Contudo, no reuniu coragem para olhar aquela criana infeliz nos olhos e para lhe dizer a verdade.
Trees no foi de grande ajuda. No percebeu a gravidade do drama.
- Cus! - foi tudo o que conseguiu dizer, ao mesmo tempo que coava a cabea. Faye tentou explicar-lhe que o sucedido poderia vir perturbar a amizade entre as duas
famlias, mas ele respondeu com toda a segurana que isso no aconteceria. - Ns no somos responsveis pelo comportamento de George, e eles sabem isso perfeitamente.
- Eu sei que eles sabem - argumentou Faye, - mas aos olhos deles George magoou a filha deles, e por isso vo tornar-se muito protectores em relao a ela. Na posio
deles eu ficaria muito magoada com George.
- Pode ser que isso venha a acontecer - disse ele com um encolher de ombros. - Apenas o tempo o dir.
Faye acabou por se fechar no estdio a moldar um corvo furioso, com o bico muito aberto num grito. Ficou grotesco, mas brilhante. Perguntou a si mesma se Rita continuaria
a vir a casa dela de bicicleta todos os dias, depois do trabalho, para ter aulas de cermica. Duvidava.
Max estava no jardim, parado, a fumar no meio da chuva mida. Mrs. Megalith detestava que ele fumasse dentro de casa. Dizia que isso era mau para os pulmes dele,
mas Max encolhia os ombros e ria-se da
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ideia absurda. Em sua opinio, o fedor a gato era muito pior para a sade de todos. Olhou  sua volta para o jardim adormecido, as rvores nuas e as folhas apodrecidas
e pensou em Rita e no seu corao desolado. Depois recordou a sua prpria infncia e a parte do seu corao que tambm gelara. Tinha chegado a Elvestree, ainda um
rapazinho, num dia como aquele. Recordou o frio e o dia cinzento, as nuvens pesadas e o peso no seu corao. Lembrava-se de se ter despedido dos pais com um abrao
que afinal viera a ser o ltimo. Tinham-lhe dito que se ia embora por algum tempo, mas que quando as coisas acalmassem o mandariam regressar, a ele e a Ruth. Como
 evidente, nunca o haviam feito. A dor era relativa, filosofou. Rita no conhecia o sofrimento de perder a famlia e a casa onde vivia. Ele prprio no conhecia
o sofrimento de perder a pessoa que amava. Para ambos a dor era total, mas a experincia j lhe tinha ensinado que o tempo acabava por tornar o sofrimento mais suportvel.
No o fazia desaparecer completamente, mas suavizava as arestas, como embrulhar uma espada num tecido. S sofria quando tentava recordar o passado em pormenor. Eram
os cheiros, os sons, os sentidos, que o destruam, as coisas indescritveis que definiam a sua infncia que o debilitavam completamente, no as imagens que existiam
na sua mente. Tinha uma fotografia dos pais e outra de Lydia, a irm pequenina, que ficara com eles e acabara por morrer com os restantes judeus. Os seus pais pelo
menos tinham vivido, mas Lydia no tivera sequer essa possibilidade. Apagou o cigarro numa laje molhada e com ele as recordaes da famlia e da infncia.

CAPTULO 19
Na manh seguinte, Harry entrou na cozinha de Hannah com um sol
forte a bater-lhe nas costas e um livro e uma pequena caixa de carto nas
mos. O vento continuava a soprar forte, mas as nuvens j se tinham afastado, deixando atrs um cu azul-escuro. As gaivotas giravam em redor, lanando o seu grito
pungente no ar gelado. Hannah tinha acabado de dar comida aos pssaros e de quebrar o gelo no bebedouro, mas ainda estava de robe.
Quando o viu acenou-lhe da janela. Maddie fugiu da cozinha para se vestir antes que ele a visse na sua velha camisa de noite coberta por uma camisola, e Eddie foi
a correr abrir-lhe a porta das traseiras, encantada com a visita inesperada. No lhe parecia que ele tivesse vindo por causa dela; ningum podia falar de assunto
nenhum a no ser da tentativa de suicdio de Rita. Mas no se queixou. Tinha convencido
a me de que o melhor era ficar em casa para reconfortar a irm, de maneira que Hannah fizera duas chamadas, uma para a biblioteca onde Rita trabalhava e outra para
a escola da aldeia. Tanto a directora da escola como a bibliotecria tinham sido muito compreensivas.
- Bom dia, Harry - chilreou Eddie com ar feliz. Depois disse-lhe em voz baixa que a Rita estava muito plida e sossegada. Harry acenou afirmativamente e respondeu-lhe
que tinha trazido um livro para a animar.
- O que  que vem na caixa? - perguntou Eddie, em bicos de
ps, para tentar ver atravs da tampa, perfurada com buracos para o ar. - Uma surpresa para ti - disse ele.
O rosto de Eddie pareceu iluminar-se.
- Para mim! - disse, quase sem flego. - Mam. Mam, o Harry
trouxe-me uma prenda! - E foi a correr para a cozinha contar  me.
Harry entrou atrs dela, um pouco inclinado, quase a pedir desculpa.
225
- Quer uma chvena de ch? - perguntou Hannah.
- Sim, agradeo-lhe - respondeu, e depois pediu notcias de Rita.
- Continua na cama.  o primeiro dia do resto da vida dela, suponho eu - respondeu com ar sorumbtico. Depois forou um sorriso: - Que foi que trouxe  Eddie?
- Trouxe um livro  Rita.  um dos meus livros preferidos h muito tempo, as Fbulas de La Fontaine.
- Que simptico. Ela adora livros. Tenho a certeza que esse vai tirar-lhe outras ideias mais sombrias da cabea durante algum tempo. Obrigada.
Depois Harry inclinou-se e entregou a caixa a Eddie, que lhe pegou com muito cuidado, por ter percebido que continha qualquer coisa viva. Com os olhos a brilharem,
retirou a tampa com delicadeza. Ficou literalmente de boca aberta quando olhou para a pequena criatura que a olhava com nervosismo.
- Um rato! - exclamou, encantada.
- Um hmster - corrigiu Harry. - Tenho uma gaiola e um saco cheio de comida para ele no carro.
- Oh, Harry! O Harry  to generoso! Adoro o meu hmster! - exclamou Eddie, que aproveitou para o abraar com o seu brao livre e para enterrar a cara na sua barriga
em sinal de gratido.
Harry deu-lhe umas palmadinhas nas costas e riu-se.
- Ainda bem que gostas dele. Que nome lhe vais dar? - Eddie no precisou de reflectir.
- Vou chamar-lhe Eyra Gunch - respondeu orgulhosamente. Hannah riu-se e o seu estado de esprito sombrio desapareceu como por magia.
- Onde arranjaste um nome desses? - perguntou ela, surpreendida.
- Inventei-o - respondeu Eddie. - Ia arranjar outro morcego, como o Harvey, e ia chamar-lhe Eyra Gunch, mas o Harvey no ia ficar contente se eu gostasse de outro
morcego.  que ele era muito ciumento. Um hmster  muito melhor. De um hmster ele no pode ter cimes, pois no?
- Claro que no - concordou Harry. - Ele vai adorar viver na tua manga e brincar no cho do teu quarto. Podemos fazer-lhe uma pista l fora, se quiseres.
- Oh, que ideia to boa! Ele vai precisar de apanhar ar fresco e de fazer exerccio - concordou ela, entusiasticamente, tirando-o da caixa.
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Eddie deu meia-volta para apresentar Eyra Gunch a Maddie, que entretanto j se encontrava  porta, com uma saia de l e uma camisola, com o cabelo bem escovado e
os lbios de um vermelho-vivo fazendo um beicinho descarado.
- Que  isso? Um rato? - perguntou Maddie, torcendo o nariz enojada com a criatura peluda que se agitava entre as mos de Eddie.
- Foi uma prenda do Harry - explicou Eddie com ar importante.
-  adorvel - disse Maddie com voz amvel, contrariando a sua tendncia natural para fazer uma careta de asco. Olhou para Harry atravs das pestanas negras e sorriu.
- Bom dia, Harry.
- Bom dia, Maddie - cumprimentou Harry, mais uma vez deslumbrado com o seu rosto bonito e o seu corpo sensual, que parecia estremecer sob a roupa. Sentiu-se imediatamente
desastrado e ficou sem saber o que dizer.
Hannah passou-lhe uma chvena de ch e fez-lhe um gesto para que se sentasse  mesa da cozinha. Maddie seguiu-o e sentou-se na cadeira do pai. Humphrey partira de
carro para o trabalho pela manh sem dizer uma palavra. No sorrira, nem sequer dissera "bom dia", uma coisa muito invulgar. Tinha passado a noite em claro a magicar
em planos complicados para se vingar de George, uma coisa que tambm no condizia com ele, e depois imaginava o corpo frgil de Rita a cair do precipcio como uma
pedra. Sentia-se ludibriado, tinha a impresso que troavam dele, mas, acima de tudo, sentia-se intil. A sua filha estava destroada e ele no era capaz de a ajudar
a recompor-se.
Harry bebeu o ch, consciente de que Maddie o olhava com os seus olhos sedutores e atentos. Sabia que ela tinha uma paixoneta por ele. Apesar de toda a sua modstia,
era capaz de pressentir quando uma mulher se sentia atrada por ele. No podia dizer que as mulheres se atropelassem para o seduzir na realidade, isso s acontecera
duas vezes, mas depressa reconheceu o olhar atento e a maneira como se inclinava para ele. No entanto, nem sequer lhe passou pela cabea iniciar uma relao. Maddie
era como o fruto proibido na parte mais alta da rvore. O pssego mais suculento, mais macio e aromtico, tentadoramente maduro ao sol de Vero. Mas no s era proibido
como estava para l do seu alcance, como a ma no jardim do den. No estava preparado para ceder  tentao e colh-lo.
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- Que trouxe para a Rita? - perguntou-lhe ela, j que do seu quarto de dormir tinha ouvido a conversa entre ele e a me.
- Um livro. As Fbulas de La Fontaine.
- Que boa ideia. Quando ela acabar leio-o eu - mentiu.
Harry estava ansioso por voltar para o seu trabalho no livro que escrevia nessa altura. Comeara dois anos antes. Contava uma histria pica de amor e traio numa
Frana dividida pela guerra. Nesse momento, debatia-se com o aspecto amoroso. Quando se levantou para se ir embora, Maddie disse que ia com ele. Harry sabia que,
vestida como estava, no tencionava ir pintar aves para a praia e no seu estdio no havia mais nada para fazer, nem sequer na sua casa toda, de resto. Mas Maddie
estava decidida.
- Posso ler o que j escreveu? - pediu, decidida a evitar a dificuldade de ter realmente de ler o livro quando l chegasse.
Harry preparava-se para recusar e explicar que o livro ainda no estava pronto para ser lido quando lhe ocorreu uma ideia. Maddie era jovem, inteligente e sensvel.
Talvez pudesse ajud-lo e dar-lhe uma opinio sincera. Era sem dvida o tipo de mulher capaz de lhe dizer o que pensava
sem o menor tacto.
- - Est bem - respondeu-lhe, pondo-se de p. - Vamos embora.
Deixou o livro que trouxera para Rita em cima da mesa, despediu-se de Hannah, de Eddie e de Eyra Gunch e entrou no carro seguido de Maddie, excitadssima e determinada
a tornar-se indispensvel.
Quando chegaram a casa dele, Harry acendeu a lareira do seu estdio e instalou Maddie num sof com o original do livro. O volume de folhas f-la engolir em seco,
mas quando viu que estava dactilografado com espaos duplos ficou mais animada. Harry ps Tchaikovsky no gramofone, levou-lhe uma chvena de ch e um bolo e deixou-a
entregue  leitura. Sentou-se  secretria a escrever  mquina, cada vez mais imerso no mundo da guerra. Maddie ficou encantada quando viu a aguarela que lhe tinha
oferecido emoldurada e pendurada na parede sobre a secretria dele.
Leu as primeiras linhas, deu uma dentada no bolo e ps-se a observar-lhe as costas enquanto ele trabalhava. Adorava o cabelo dele, os seus ombros largos, a maneira
como as camisas dele se amarrotavam, por bem engomadas que estivessem. Em comparao com ele, a cadeira e a secretria onde trabalhava pareciam as de um ano de
conto de fadas, contudo
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tinha um aspecto modesto e delicado, como se no se apercebesse do poder do seu corpo imenso. Harry no percebeu que ela o observava porque continuava a escrever,
parando apenas de vez em quando para pensar na melhor palavra. Nessas alturas, levantava a cabea e procurava inspirao no que via da janela. Depois, os seus dedos
voltavam a apressar-se com eficincia sobre o teclado at que perdia o fio  meada. Mesmo assim nunca olhou  sua volta. Maddie resignou-se  ideia de que ele no
lhe ia prestar ateno por mais que fizesse rudos para o distrair, de maneira que comeou outra vez a ler. Para sua surpresa, por volta da terceira pgina comeou
a ficar presa ao livro e deixou de levantar constantemente os olhos para o observar. Sentia-se transportada pela maneira como ele contava a histria. Tinha a impresso
de estar realmente na pequena cidade francesa de Masmatre. Cheirava o fumo dos cigarros no caf, ouvia as vozes e sentia o paladar do caf e dos croissants. Parecia
impossvel que o livro lhe agradasse tanto que a fizesse esquecer o ch e o resto do bolo.
 hora de almoo tinha acabado os dez primeiros captulos e no estava com vontade de parar de ler quando Harry lhe sugeriu que arranjassem qualquer coisa para comer.
Ps-se de p e esticou as pernas, deixando o original no sof. Descobriu salada e carnes frias no armrio da cozinha e po na caixa do po. Conhecia a cozinha melhor
que Harry e ps a mesa com tudo o que conseguiu encontrar. A seguir sentaram-se os dois para almoar.
- Minta, se no gostar - disse ele com um sorriso tmido, surpreendido com o seu prprio comentrio. Estava habituado, mas no era imune  candura de Maddie. Ela
levou um pedao de po  boca e mastigou apreciativamente, mantendo-o na expectativa. - Por favor, diga que gosta - pediu ele, por fim. - Se detestar, no seja demasiado
dura; os escritores so muito sensveis.
Maddie bebeu um gole de gua e recostou-se na cadeira.
- Adoro o livro - disse-lhe ela sem mentir. - Tenho realmente a impresso de estar l. Sou Molly Cosgrove, a espia, a aventureira, a herona da sua histria. Ela
 audaciosa mas sensvel, caprichosa mas vulnervel, lindssima, mas no de um modo convencional. Dava um filme maravilhoso.
Harry parecia brilhar de gratido.
- Gosta realmente do livro? - perguntou, e por fim Maddie sentiu que era importante para ele.
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- Adoro a maneira como escreve. No conta tudo em grande pormenor, prefere manter a histria sempre em movimento. Estou mortinha por saber o que vai acontecer. No
posso mais, e ainda tenho pginas e mais pginas para ler. Estou cheia de medo de chegar s partes tristes. Ela apaixona-se? Eu j o conheo?
Harry fez uma careta divertida, contagiante, que encheu o seu rosto.
- No lhe digo - arreliou-a. Maddie riu-se.
- Oh, por favor! No me diga que ela se vai apaixonar por Klaus, o nazi?
Harry abanou a cabea.
- J disse que no vou contar.
- J h uma qumica um bocado sombria. Ele  bem-parecido e frio, atraente mas perigoso. Muito perigoso, um predador. Espero que ela no tenha uma aventura com ele,
seno vai mago-la. - Depois os seus olhos brilharam. - Oh, no! Ela vai ter uma aventura com ele para tentar obter informaes, no vai? - Harry ergueu as sobrancelhas.
- Tenho ou no tenho razo?
Maddie aproximou o rosto do dele, mas ele limitou-se a sorrir misteriosamente. Depois no conseguiu resistir a um impulso e na sua excitao beijou-o. O sorriso
dele desapareceu de um momento para o outro e uma ruga de preocupao atravessou-lhe a fronte. Olharam-se nos olhos por breves instantes, Maddie surpreendida, Harry
em pnico. Nenhum deles disse uma palavra. Por uma vez, Maddie ficou sem saber o que dizer. Deixou-se ficar,  espera ou que ele a beijasse ou que a mandasse sair.
De repente teve medo de ter estragado tudo. Ele estudava o rosto dela com ansiedade, e Maddie perscrutava os olhos dele tentando encontrar uma pista que lhe desse
a entender o que ele pensava. Ouvia a respirao dos dois e as batidas do seu prprio corao, como cmbalos e tambores que ressoassem nos seus ouvidos.
- Maddie - comeou ele, mas a voz saiu-lhe distorcida, quase irreconhecvel.
Ela foi rpida a reagir. Em vez de recuar, percebeu de sbito que a melhor forma de defesa era o ataque. Ps um dedo sobre os lbios dele e abanou a cabea. Depois,
devagar, retirou-o. A boca dele permaneceu fechada, mas no seu olhar os seus medos transpareciam. Maddie inclinou-se e pressionou os lbios sobre os dele. Abriu-os
muito ligeiramente
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e com a lngua desenhou o interior da boca dele. Harry no conseguiu resistir. Passou a mo pela nuca dela e aproximou-a do seu corpo. Depois beijou-a apaixonadamente
ao som do Primeiro Concerto para Piano de Tchaikovsky, que lhes chegava da sala ao lado. Ela percorreu o rosto spero dele com dedos trmulos. Nesse momento, em
que realidade e fico se confundiram, ela era Molly Cosgrove e ele Klaus, o nazi. Com um gesto do brao ele empurrou os vestgios do almoo para o outro extremo
da mesa. Um copo caiu e a gua molhou a carpete, mas isso no os incomodou. Apenas serviu para tornar o encontro mais dramtico. Para surpresa e arrebatamento de
Maddie, descobriu que Harry estava to impaciente como ela. No a levou para o quarto, como ela imaginara, nem fizeram amor no sof  frente da lareira, mas ali
mesmo, sobre a mesa da cozinha. Transfigurado pelo desejo, Harry Weaver parecia um homem diferente, o amante tantas vezes encontrado na fico e to poucas na realidade.
Era dominador, sensvel, generoso e sensual. Fazia com que Hank Weston, Steve Eastwood e Bertie Babbindon parecessem amadores. Em comparao com Harry, todos eles
eram desajeitados e desastrados, e as suas tentativas inbeis para a excitar lembravam-lhe o comportamento de rapazes de escola, inexperientes. Harry tinha o toque
lento e delicado de um homem que sabia dar prazer a uma mulher e Maddie gemia e contorcia-se sob o seu peso como uma prostituta depravada que tivesse os seus primeiros
orgasmos ao fim de anos e anos a fingi-los.
Quando ficaram juntos nos braos um do outro, inundados pelo prprio suor e pelo sumo do fruto proibido, j colhido e devorado, Maddie suspirou de felicidade, sem
saber que os suspiros do amante estavam carregados de culpa e arrependimento.
- Bom dia, Miss Hogmier - disse o reverendo Hammond quando entrou na loja da aldeia com a inteno de enviar uma encomenda para o cunhado, que vivia em Nottingham.
- Est uma bela manh! - exclamou entusiasmado.
- Maravilhosa. Espero que hoje a Rita Fairweather no se atire da falsia - respondeu a dona da loja com as sobrancelhas finas erguidas para ele em provocao.
O reverendo Hammond acenou devagar.
- Sim,  verdade - replicou cautelosamente, como se tivesse receio de ser ouvido.
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- Imaginem s! Querer matar-se por causa de um homem! - observou Miss Hogmier, que nunca amara nem fora amada e a quem, por isso, a ideia parecia extravagante.
- Pobre Rita. Realmente  um golpe duro ver os sonhos de uma pessoa destroados ainda to jovem - disse com um suspiro profundo. - Mas no acredito que quisesse
realmente matar-se.
, Miss Hogmier revirou os olhos e encolheu os ombros perante tanta
ingenuidade.
- Claro que queria. Estava a preparar-se para se atirar da falsia,
a segundos da morte. Se no fosse o Harry Weaver, tinha morrido esmagada sobre as rochas.
Imagine como teria sido horrvel.
- A Rita  uma rapariga sensata. Tenho a certeza que tudo no passou de um equvoco.
O reverendo Hammond recuou dois passos quando ouviu a porta
abrir-se, mas ficou surpreendido por no ver ningum. Depois, os seus
olhos foram atrados para o cho, onde viu um enorme gato preto a deslizar como uma brisa suave.
Estremeceu, recordado de Mrs. Megalith.
O rosto de Miss Hogmier contorceu-se de medo.
- No diga nem mais uma palavra - soprou ao reverendo, francamente abalado. - A bruxa de Elvestree tem espies por toda a aldeia. Todos ns estamos a ser vigiados.
Elwyn Hammond saiu o mais depressa que pde, esquecendo-se de
enviar a encomenda.
Rita acordou quando a me entrou no seu quarto. De p junto da porta, Hannah anunciou:
- O Max est aqui. Veio visitar-te.
Pestanejou com a luz que lhe chegava  cama atravs da abertura nas
cortinas, momentaneamente revigorada pela manh clara. Depois lembrou-se da carta de George e deixou-se abater pela depresso.
- O que  que ele quer? - perguntou entre gemidos, esfregando os olhos ainda inchados de tanto chorar.
- Ele fez o caminho todo de bicicleta. Diz que quer levar-te para
um passeio.
Rita teria preferido ficar na cama. O sono era a nica maneira de esquecer. Contudo, ps-se de p relutantemente e arrastou-se at  casa de banho. No sentiu estranheza
pela visita de Max. Fora Mrs. Megalith que
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lhe sugerira que viesse. Ningum queria que ela voltasse a passear sozinha para os lados da falsia. Max ficara encantado com a ideia e partira imediatamente de
bicicleta. Mrs. Megalith no fazia ideia que a sua sugesto correspondia aos desejos mais ntimos do rapaz. Alm disso, uma vez que ela lhe roubara o corao, parecia-lhe
que era ele o mais qualificado para a ajudar.
Rita teve um sobressalto quando viu o seu rosto manchado e amarelado no espelho. O seu aspecto era grotesco. Lavou a cara com gua fria e, embora isso no tenha
melhorado muito o seu aspecto, pelo menos serviu para a acordar. Passou uma escova pelo cabelo embaraado, mas a dor que isso lhe provocava acabou por faz-la desistir.
Atou-o em rabo-de-cavalo, acentuando assim sem querer a infelicidade que transparecia na sua expresso e depois vestiu qualquer coisa para sair, sem prestar muita
ateno ao aspecto com que ficava. Que importncia tinha isso quando George j no estava presente para a ver?
Quando viu Max  espera dela na cozinha, com a cara vermelha do frio e do vento, a sorrir-lhe com simpatia, sentiu-se um pouco mais animada. Deixou a me afadigar-se
 sua volta e aceitou a chvena de ch que ela lhe serviu. Hannah encorajou-a a comer as papas de aveia que tinha feito especialmente para ela.
- Pe-lhes um bocadinho de mel. Chegou agora de Elvestree e vai fazer-te bem - disse-lhe a me, que ficou a observ-la atentamente at que a viu levar a primeira
colher  boca com pouco entusiasmo.
- Pensei que est um dia to bonito que talvez quisesses ir dar um passeio pela praia - disse Max. - Vi um ou dois patos-colhereiros no esturio hoje de manh -
acrescentou, certo de que isso a animaria.
- A srio?
- Sim, estavam a apanhar insectos e peixes pequenos com os bicos, e faziam aquele grasnido de satisfao. A tua av diz que no se vem muitos por estas bandas.
- Sim, mas em Elvestree h qualquer coisa de mgico - disse Hannah, vendo a filha levar outra colher  boca com um pouco mais de entusiasmo. - No ficava muito espantada
se um dia destes comeassem a chegar l pinguins vindo das Galpagos.
Rita e Max puseram-se a caminhar em direco s falsias. A beleza da manh era contagiante e Rita descobriu que, apesar da sua infelicidade, o sol e o cu azul
contribuam para acalmar o seu sofrimento. No teve
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medo de se aproximar das falsias depois do que acontecera no dia anterior. Pelo contrrio, continuava a sentir-se atrada pelo lugar e por tudo o que ali sentia
das sombras do passado. Foram caminhando ao longo da parte mais alta, mas Max assegurou-se de que ia sempre do lado do despenhadeiro. Rita achou a precauo dele
divertida, mas fingiu que no tinha reparado. Mesmo assim, olhou para a praia e as rochas e imaginou o que teria sido o seu destino se Harry Weaver no tivesse chegado
no ltimo momento.
Desceram para a praia pelo caminho coberto de erva e sentaram-se nas rochas ao abrigo da falsia, a observar os pssaros e a conversar sobre o rudo de fundo das
ondas. Rita brincava com o pingente da pomba que George lhe enviara h apenas um ms.
- Uma parte de mim tem vontade de atirar isto ao mar - disse tristemente. - Mas a verdade  que ainda no consigo faz-lo.
Max arrancou uma concha de uma rocha e ps-se a brincar com ela.
-  difcil arrancar uma pessoa da nossa vida quando ela foi uma parte to importante dela.
- O George era a minha vida - respondeu ela com veemncia. - Ainda no consigo acreditar no que aconteceu. Contudo, este peso dentro de mim recorda-me que no se
trata da minha imaginao.
- Isso vai melhorar.
- Eu sei - disse ela, erguendo o queixo e deixando o vento frio acariciar-lhe o rosto. - Tenho a impresso que ele morreu, mas no tenho um corpo ou um funeral para
o chorar.
Max olhava para o mar e sentia o cheiro familiar da sua infncia alcan-lo de novo, vindo do seu corao que se acalmava um pouco.
- Mas o George vai acabar por regressar um dia. No est morto. E tu vais poder falar com ele acerca do que aconteceu. Um dia em que a ferida j no esteja em carne
viva.
- Tenho a impresso que tinha aguentado melhor se ele tivesse morrido na guerra. A morte no  rejeio.
- Pode ser pior que a rejeio - argumentou Max numa voz tranquila. Atirou a concha para a areia e pegou noutra. - Eles partem sem te levarem com eles.
Rita olhou para ele confusa e percebeu que j no era dela que Max falava.
- Mas isso tambm acaba por passar, no acaba? - disse ela com uma voz suave.
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Max olhou para ela.
- O tempo acaba por tornar tudo mais suportvel. Isso foi o que a experincia me ensinou. Um dia, vais ter de deitar fora esse pingente. Guarda-o numa caixa, escondido
de maneira que no estejas constante mente a v-lo e a recordar-te do que perdeste. Podes ter a certeza que resulta. S quando a tua dor tiver sarado vais poder
voltar a olhar para ele com nostalgia e sem sofrimento.
- A av diz que vou ter de falar do assunto - disse ela, escondendo o pingente dentro da camisola.
- E tem razo. Isso tambm te vai fazer sentir melhor. Mas no esperes que resulte de um dia para o outro.
- Tu quase no falas da tua famlia.
- Sabias que eu e a Ruth tnhamos uma irm pequenina?
- No fazia ideia.
- A Lydia. No me lembro bem dela. Ainda era um beb. Mas recordo o cheiro dela. Tambm me lembro do cheiro do quarto dela. Era um cheiro suave e quente, como o
do leite quente.
- E ela...?
- Sim, tambm morreu. Nos campos. - Voltou os olhos para a areia e concentrou-se num pequeno crustceo que avanava devagar numa poa de gua. - Tenho sorte por
ter ficado com a Ruth.
- Costumas falar do assunto com ela? - perguntou Rita, sem perceber que a tragdia de Max a estava a distrair do seu prprio desgosto.
- No. Ela tem medo de recordar - disse ele e, erguendo os olhos, olhou para Rita. - Falo contigo.
- Podemos ajudar-nos um ao outro - respondeu Rita com um sorriso, pegando-lhe na mo. - Vai ser o nosso projecto secreto.
- Um dia gostava de regressar.
- A Viena?
- Sim. Ao teatro que o meu pai construiu. s vezes sonho com ele. Nos meus sonhos parece muito grande, mas sei que a minha memria me atraioa porque na altura eu
era um rapazito. Mas era muito bonito. Estava cheio de luzes douradas e de veludo prpura. Era como o palcio de um rei. Um dia, quando for rico, volto a compr-lo.
- Talvez te cases com uma actriz como a tua me e ela cante e dance para ti.
- Talvez - respondeu Max com uma risada, mas era com Rita que ele imaginava.
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Um bando de gaivotas voou por cima dos dois. Max e Rita protegeram os olhos do sol para as observarem. Iluminadas pela luz, deslizavam e mergulhavam, a brincar com
o vento como s elas sabiam. Depois pousavam na areia em bando para procurarem comida. Olhar para as aves animou-os. Recordou-lhes que, embora as pessoas mudassem,
havia coisas que permaneciam sempre iguais.

CAPTULO 20
Harry estava mortificado. Aproveitara-se de uma jovem sem ter pensado nas consequncias. Pouco importava que ela tivesse a experincia sexual de uma mulher muito
mais velha. A verdade  que tinha apenas dezanove anos e ele era um divorciado de meia-idade com obrigao de saber o que fazia. Atormentado pelo seu acto irreflectido,
recolheu-se em si mesmo como uma tartaruga na carapaa, na esperana de que o problema desaparecesse se ele no fizesse nada para o enfrentar.
Maddie saiu de casa de Harry delirante de felicidade. Harry amava-a. Iam casar-se e viveriam felizes para sempre. Ele escreveria os seus livros, ela ajud-lo-ia
a limar as arestas, educaria os filhos de ambos e durante a tarde fariam amor na sua casa aconchegada de Bray Cove. Contudo, esperava-a um desapontamento, porque
Harry no lhe telefonou, e quando ela acabou por lhe telefonar, nessa noite, ele pouco mais conseguiu pronunciar que uma espcie de grunhido.
- Adorei a nossa tarde - sussurrou ela ao telefone. Do outro lado da linha ouviu Harry engolir em seco. - E se eu amanh fosse a fazer-te o almoo? - perguntou,
baixando ainda mais a voz, no fossem os pais ouvi-la.
- Bem, a verdade  que eu tenho de trabalhar neste livro. No fim de contas tenho um prazo para cumprir - balbuciou.
Harry parecia ter ficado subitamente gago. Uma mulher mais sensvel teria percebido a aflio com que procurava recuar e retirar-se com dignidade, mas Maddie no
percebeu.
- Eu posso ajudar-te. Hoje gostaste dos meus conselhos. Eu podia fazer o almoo enquanto tu escrevias e depois lia o que j escreveste e dizia-te o que penso.
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-  muito simptico da tua parte... - comeou Harry.
- Bom, ento vemo-nos amanh. Estou ansiosa pelo nosso prximo
encontro, querido Harry.
Quando Maddie desligou, Harry ficou estarrecido. Que havia de fazer?
Passou essa noite inquieto. Fora fraco e irresponsvel e no dia seguinte teria de sofrer as consequncias e dizer a Maddie que tudo no passara de um equvoco. No
escuro, repetiu para si mesmo conversas imaginrias, tentando convencer-se de que a sua atraco por ela era superficial, no passava de uma inclinao sexual, sem
a qual viveria perfeitamente. O seu pensamento arrastou-o para a ex-mulher e o erro que cometera com ela. No tinha jeito para as mulheres. No as percebia, e no
podia arriscar-se a falhar de novo. s voltas na cama, avaliou-se friamente com um sentimento de infelicidade. Estava quase com quarenta anos, era divorciado, estava
a ficar careca, continuava a esforar-se por escrever um livro decente, no tinha um centavo e sentia-se infeliz. Que tinha ele que pudesse oferecer a Maddie? Que
diabo veria ela nele? A sua atraco por ela era evidente, mas no havia dvida de que havia um esprito malicioso a pregar-lhe uma partida a ela.
No dia seguinte, Maddie foi a p para Bray Cove no meio de uma luz
estonteante. O cho estava coberto de uma camada fina de gelo que dava
ao mundo uma cor azul gelada. A beleza do campo pareceu estonteante
a Maddie, normalmente embrenhada de mais em si mesma para reparar
no que quer que fosse. Recordou o sorriso receoso de Harry e sorriu
; com ternura  ideia do seu rosto delicado e dos seus olhos sensveis.
Como os familiares dela ficariam surpreendidos quando descobrissem que,
entre tantos homens que havia no mundo, ela se apaixonara precisamente por Harry Weaver.
Harry no era rico, no era glamoroso, no era sequer bem-parecido como George, mas ela amava-o e, depois de terem
feito amor, estava ainda mais presa a ele. Esse Harry parecia-lhe completamente diferente do que todos conheciam. Era o seu Harry secreto.
Quando chegou a Bray Cove entrou em casa sem bater  porta e encontrou-o sentado  secretria. Nessa manh tinha escrito pouco mais de uma frase. Maddie sorriu-lhe
abertamente, lanou-lhe os braos ao pescoo e deu-lhe um beijo ruidoso no rosto.
- Como est hoje o meu amante? perguntou-lhe, aproximando
de novo os seus lbios do rosto dele. Contudo, sentiu o corpo tenso dele
e recuou. - Que se passa? Que aconteceu?
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Harry suspirou profundamente e ergueu os olhos para ela, que nesse momento se encontrava a um passo dele. Hesitante, conteve a respirao  vista da beleza luminosa
do rosto dela, que por momentos o deixou numa espcie de transe hipntico. Inspirou o aroma feminino do corpo de Maddie e sentiu os cabelos da nuca porem-se de p
com o nervosismo. Em silncio, repreendendo-se interiormente pela sua fraqueza, afastou os olhos e continuou como planeara:
- Maddie, o que aconteceu ontem foi mau. - Maddie ficou petrificada. Abanou a cabea e franziu a testa. Depois tentou sorrir, mas os seus lbios limitaram-se a estremecer
por segundos antes de se abrirem com o pnico. Harry continuou: - Foi encantador... Tu foste encantadora - conseguiu dizer, atabalhoadamente. - Mas no est certo.
- O que  que no est certo? - conseguiu ela perguntar num tom de voz quase estridente.
- Tu s muito jovem...
- Jovem? - repetiu ela, estendendo os braos como as asas de um condor amedrontado. - Jovem? No foi isso que pensaste ontem quando fizemos amor em cima da mesa
da cozinha.
- No devia ter feito o que fiz.
- J  um pouco tarde para lamentaes, no te parece?
- No lamento o que aconteceu, quer dizer, no dessa maneira. Foi maravilhoso... s que...
- Tudo o que querias era sexo? E agora que j tiveste o que pretendias j no me queres mais?
- No, no  nada disso.
Maddie ps as mos na cintura e o seu rosto comeou a ficar da cor do cabelo. Harry s conseguiu pensar que ela parecia ainda mais deslumbrante, o que tornou a sua
tarefa quase impossvel. Sentia um desejo imperioso de a beijar de novo, de saborear o sal da pele dela, mas sabia que no devia faz-lo, apesar de, naquele momento,
os argumentos a favor dessa atitude lhe parecessem estranhamente fracos.
- No acredito em ti, Harry! - gritou ela, furiosa. - Pensei que eras diferente. Pensei que eras uma pessoa especial, mas no s. s fraco, pattico, e eu mereo
melhor!
Antes que Harry tivesse tempo de protestar, ela saiu de casa dele, da vida dele, deixando-o mais confuso do que nunca.
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 medida que o rigor do Inverno ia abrandando e dando lugar  Primavera, o gelo no bebedouro dos pssaros ia-se tornando mais fino at que deixou de ser preciso
quebr-lo pela manh. Tambm o esprito alquebrado de Rita comeou lentamente a recuperar. Max adiou a partida para a cidade. A sua carreira podia esperar. Rita,
pensava ele, no podia. Passeavam ao longo das falsias, subiam e desciam o caminho da praia, faziam piqueniques na areia, liam poesia juntos, e o vento levava os
seus risos alegres  mistura com a tagarelice despreocupada das gaivotas. Rita mantinha segredo em relao  gruta que partilhara com George. No suportava a ideia
de l voltar. As recordaes a que estava associada continuavam demasiado vivas. Max ouvia-a falar de George e por vezes, especialmente ao pr do Sol, quando os
restos do dia pareciam sumir-se lentamente e com eles a sua reserva, Max falava-lhe da sua infncia.
Rita voltara s aulas de cermica com Faye e a amizade entre as famlias, que a me de George julgara comprometida, recuperara grande parte da fora de outros tempos.
Trees tinha razo, mas no lho recordava, porque tinha a impresso que tudo no passara de um desvio natural de pouca importncia  margem da estrada da vida. Apenas
Humphrey continuava a sentir o mesmo ressentimento, mas no o dava a conhecer a ningum.
Maddie parecia melindrada. Pusera de parte o caderno de desenho e os lpis e j no acompanhava a me a Bray Cove. Quando as andorinhas voltaram pareceu amaldio-las.
Que diabo a teria levado a interessar-se por pssaros?! Para descontentamento de Hannah e Humphrey, o carro de Bertie voltou a estacionar  frente da casa e o seu
rosto vazio e arrogante tornou a ser visto com frequncia a espreitar pela janela da cozinha com o costumeiro olhar insignificante. Maddie permitia que ele a beijasse
no parque de estacionamento  entrada de Frognal Point, mas o seu corao j no era o mesmo.
Rita pressentia que a infelicidade da irm tinha a ver com Harry Weaver, mas no se atrevia a pronunciar o nome dele. Se o orgulho de Maddie ficara ferido, era natural
que no quisesse falar do assunto. Assim, deixava-a passear a irritao pela casa como um drago vencido, sem perceber que, pela primeira vez nas suas vidas, tinham
uma coisa em comum.
No princpio de Abril, Faye recebeu outra carta de George. Dessa vez voltou a guard-la e resignou-se com tristeza  ideia de que a amizade
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entre as duas famlias, a que dava tanta importncia, no poderia resistir ao novo golpe. No poderia evitar o afastamento mal aquelas notcias chegassem aos ouvidos
de Hannah.
George ia casar-se. A noiva chamava-se Susan e tinha-a conhecido na viagem de barco para a Argentina. Era americana e ele estava muito apaixonado. Faye comeava
a sentir desprezo por ela e a acus-la de ter enfeitiado George to pouco tempo depois de ele ter deixado Rita. S quando falou com Thadeus percebeu que no tinha
qualquer razo para a acusar do que quer que fosse.
- Todos fomos dotados de livre arbtrio - disse-lhe ele, sentado ao lado dela no banco do jardim da sua pequena casa. A terra comeava a acordar do Inverno, os dias
iam ficando mais longos e o tempo mais quente. Os narcisos e as campnulas balanavam ao vento, e as primeiras andorinhas comeavam a danar no ar anunciando o regresso
das companheiras e da muito esperada Primavera.
- Como posso eu contar  Rita que o George se apaixonou por esta americana meia dzia de dias depois de a ter deixado?
- E para qu falar-lhe dos pormenores? - perguntou ele, aquecendo a mo fria dela entre as suas grandes mos quentes.
- Porque acho que ela tem o direito de saber. - Thadeus encolheu os ombros largos e resmungou:
- No te estou a dizer que lhe mintas, s que no lhe contes tudo.
- Que o George vai casar-se com outra mulher? Estou furiosa com ele. Romper o noivado j foi mau, mas esta notcia vai deix-la devastada.
- No fiques zangada com o teu filho. Ele tem o direito de amar quem entender. Ainda no se tinha comprometido a casar com Rita. No se tinha comprometido aos olhos
de Deus, s aos dos Fairweather.  melhor amar honestamente do que como ns fazemos.
Faye viu as andorinhas desaparecerem ao longe, a sua msica perdida
no vento.
- Pelo menos espero que case com a mulher certa para ele - disse, apertando a mo de Thadeus. - Pelo menos isso, meu Deus!
- As pessoas mudam. Aquilo que ele queria em rapaz no  forosamente o que quer como homem. A Rita estava bem para George enquanto ele era jovem. Talvez tenha simplesmente
amadurecido mais do que ela. Seja como for, no o acuses de uma coisa dessas. No querias que ele cometesse um erro, pois no? Ou ests mais preocupada com a tua
amizade com a Hannah do que com a felicidade do teu filho?
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- Claro que no! - respondeu prontamente Faye. Depois, suspirando com resignao, acrescentou: - S queria que todos fossem felizes.
- Mas a vida no  assim. No nascemos para ser sempre felizes. A vida est cheia de problemas e quanto mais depressa o percebermos maiores as nossas possibilidades
de viver contentes. Se tivermos demasiadas expectativas, acabamos por nunca nos sentir satisfeitos.
- Ento, que posso fazer? - perguntou ela, apoiando a cabea no
, ombro dele.
- Vai falar com a Hannah. Diz-lhe que o George escreveu a contar
que vai casar com uma americana que conheceu na Argentina. No me
parece que ela precise de saber mais do que isto. Depois, deixa-a digerir
isto sozinha. Se ela permitir que isso interfira na vossa amizade, pacincia. No podes fazer nada quanto a isso. Mais vale deixares-te levar pela corrente do que
tentares nadar contra ela. Isso s serviria para ficares esgotada.
- Felizmente tenho-te a ti! - suspirou Faye. - Porque ser que todos nos metemos em problemas to grandes por amor?
- Quanto a isso no fao ideia - respondeu-lhe ele com um sorriso.
Quando Faye chegou a casa de Hannah deixou a bicicleta encostada ao muro e subiu o caminho a p. Sabia que no valia a pena bater  porta. Num dia como aquele, Hannah
estava de certeza no jardim a cuidar dos pssaros e das plantas. Como estava na altura das frias, encontrou Eddie a meio do caminho a brincar com Eyra Gunch na
pista que Harry tinha construdo para ele no jardim.
- Ol, Faye gritou Eddie com uma gargalhada, porque Eyra tinha acabado de desaparecer num tubo de carto que ela tinha roubado de um rolo de papel higinico que
ainda no estava acabado. - Estou a trein-lo para acrobata - explicou, quando Faye se aproximou para ver do que estava ela a rir-se.
- Parece-me que ests a fazer um bom trabalho - respondeu numa voz tensa. Estava to nervosa que tremia da cabea aos ps. - Onde est a tua me?
- Est na estufa, a plantar as ervilhas - respondeu, pegando no tubo e pondo Eyra na palma da sua mo. - No  uma coisinha encantadora? Estamos a tornar-nos muito
amigos. Ele fez chichi no tmulo do
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Harvey quando o levei l. No me parece que tenha grande respeito pelos mortos.
Faye no pde deixar de sorrir com a exuberncia da criana. Depois respirou fundo e atravessou o relvado em direco  porta de madeira da estufa.
Hannah e Rita estavam a trabalhar juntas, uma de cada lado da vedao de bambu, a tagarelar alegremente ao mesmo tempo que iam plantando as ervilhas. Hannah sentiu
Faye aproximar-se e olhou para ela.
- Faye! - exclamou. - Que boa surpresa!
- Est um dia magnfico, no est? - disse Faye, adiando o mais possvel o momento horrvel em que teria de contar as novidades.
- Finalmente. Este ano, o Inverno pareceu maior que de costume, no sei porqu.
Rita notou a tenso no rosto de Faye e parou o que estava a fazer.
- Recebi uma carta de George - disse quase sem expresso. Olhou para Rita com um olhar desolado. Hannah parou de escavar e o sorriso desapareceu-lhe do rosto, transformado
numa ruga de preocupao. - Vai casar-se.
O rosto de Rita ficou afogueado e depois plido com o choque. Hannah olhou para a amiga, incrdula.
- Vai casar-se? Com quem?
- Com uma americana que conheceu l.
- Como  que ela se chama? - perguntou Rita, o que a Faye pareceu uma estranha pergunta.
- Susan.
Rita comeou a chorar. Hannah largou o ancinho e contornou a cerca para se aproximar dela e reconfort-la. Faye ficou a observ-las, constrangida, sem saber que
fazer com as mos. Queria ir-se embora, mas receava que a sua atitude parecesse brusca.
- Tenho muita pena - disse. - Apanhou-me completamente de surpresa. Nunca pensei que tivesse conhecido outra pessoa. A quinta da Agatha fica para os lados do fim
do mundo, no meio do nada.
Hannah abraava a filha, que chorava agarrada a ela, murmurando palavras de consolo, enquanto Faye continuava a olh-las com ar desconsolado. Eddie entrou na estufa
com Eyra Gunch empoleirado no ombro. O sorriso radioso desapareceu-lhe do rosto quando viu a me e Rita agachadas na terra molhada e olhou acusadoramente para Faye.
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- O que  que o George fez desta vez? - perguntou, e Faye sentiu um sobressalto quando ouviu o seu tom de voz.
- Vai casar-se - respondeu. Eddie ficou horrorizada.
- Como  que ele se atreve?! - exclamou, pegando em Eyra Gunch e enfiando-o na manga da camisola, que lhe pareceu mais segura. - Ainda h cinco minutos estava apaixonado
pela Rita! Que miservel!
- Acho que  melhor ir andando - respondeu Faye entaramelando a lngua. - Tenho muita pena do que aconteceu.
Nem Hannah nem Rita repararam nela. Apenas Eddie se dignou olh-la, como se tambm ela fosse culpada de traio.
- Quero ir dar um passeio pela praia - disse Rita por fim, desviando o rosto do peito molhado da me. Hannah pareceu ansiosa.
- Eu vou contigo - ofereceu-se, pondo-se de p.
- No, eu prefiro ir sozinha - respondeu Rita. Depois compreendeu o medo nos olhos da me e acrescentou com firmeza: - Prometo no me atirar da falsia.
Hannah no pareceu convencida.
- No me parece que devas ficar sozinha numa altura destas - protestou.
- Eu estou bem. S estou furiosa. As pessoas furiosas no se matam.
- Podes levar o Eyra se quiseres. Ele no vai falar contigo - sugeriu Eddie. Hannah ps a mo sobre o ombro de Eddie.
- Obrigada, querida, mas acho que o Eyra fica melhor contigo.
- Eu no vou l acima  falsia. Vou j para a praia.
- Est bem - consentiu a me de m vontade. - Mas no faas disparates.
Rita partiu em passo rpido. Nos ltimos meses acalentara uma pequena esperana de que George regressasse ao fim de um ano, como tinha prometido, e quisesse voltar
para ela. Era uma esperana frgil, e sempre tivera conscincia de que no devia alimentar sonhos ou desejos vos. Mas enquanto ele estivesse sozinho havia sempre
uma esperana. Agora que se tinha apaixonado por outra mulher, essa tnue esperana desaparecia e o corao dela parecia mergulhado em infelicidade.
Desceu o carreiro para a praia quase a correr, mas a certa altura deteve-se, reunindo coragem para ir at  gruta secreta dos dois. Devagar,
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comeou a dirigir-se para l. A cada passo ia recordando George mais vivamente. Mas os seus passos na areia eram solitrios. Quando chegou  entrada da gruta parou,
sem saber se devia prosseguir, incerta em relao ao que encontraria l dentro.
Dominando a ansiedade, entrou. Quando os seus olhos se adaptaram ao escuro ficou surpreendida por no ver seno um buraco na rocha. Deu alguns passos at ao fundo
da gruta e sentou-se na areia seca. Cruzou as pernas e ficou a ouvir o rudo hipntico das ondas a quebrarem-se na praia. Os seus dedos comearam a brincar com a
pomba que trazia ao pescoo. Apertou-a entre o polegar e o indicador, tentando perceber se seria capaz de a tirar e de a lanar ao mar. J no tinha qualquer razo
para a usar. S servia para lhe recordar George e as promessas que tinham feito um ao outro.
Com um suspiro, soltou o pingente e deixou-o cair na palma da mo. Olhou-o atravs das lgrimas. A carta que se perdera fora de mau agoiro. S agora o percebia.
No fora Thadeus que lhe dissera que a pomba  um smbolo de perdo e de felicidade conjugal? Perguntava a si mesma se George o saberia quando lha mandara. Fosse
como fosse, a verdade  que no conseguia perdoar-lhe. Ele tinha-a trado. Pouco a pouco, sentiu o dio instalar-se no seu corao como uma mancha negra. Era pesado,
amargo e peganhento, e to feio que se sentiu envergonhada de si mesma. Arrastou-se para fora da gruta, at ao stio onde o mar chegava, e atirou o pingente s ondas.
No fez barulho ao cair e ser arrebanhado pelas vagas.
E o anel? Que fazer com o anel de diamante que simbolizava a promessa dele de casar com ela? Tantas vezes olhara o seu brilho inocente e recordara as palavras dele:
"Sempre que o olhares quero que te lembres de como te amo." Tirou-o e f-lo deslizar pelo dedo mdio da mo direita. Por alguma razo sentia-se relutante em deix-lo
ir. S quando o ltimo raio de esperana desaparecesse o atiraria tambm para o fundo do mar.
Quando atravessava a aldeia decidiu visitar Thadeus. A ltima vez que o vira fora quando o mar levara a carta de George e nessa altura ele mostrara-se muito sensato.
Virou para o caminho que conduzia a casa dele e parou junto ao porto, parcialmente escondido por uma sebe, hesitando em entrar. O mais certo era ele voltar a achar
um disparate ela chorar pelo George. Devia t-lo visitado entretanto para lhe deixar perceber
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que ela no estava sempre mergulhada em desgostos. Lembrou-se de como a casa dele era acolhedora e acabou por decidir ignorar os receios e abriu o porto.
Bateu  porta e ficou  espera. No houve resposta. Voltou a bater e olhou  sua volta. Havia uma bicicleta encostada  parede. Deduziu pela bicicleta que ele devia
estar em casa e decidiu dar a volta  casa pelo jardim. O dia estava to bonito que achou que o mais certo era ele andar a trabalhar nos seus canteiros. Quando comeou
a contornar os rododendros viu-o sentado num banco com o brao  volta de uma mulher baixa de cabelo branco solto que tinha a cabea apoiada no ombro dele. Como
estavam voltados na direco oposta no reconheceu a mulher e decidiu no se intrometer no que lhe pareceu um momento de intimidade. Comeou a recuar cuidadosamente,
mas a curiosidade f-la voltar atrs. Aproximou-se protegida pelos arbustos e espreitou num ngulo melhor. Horrorizada, percebeu que a mulher era nada mais nada
menos que Faye. Com uma mo sobre a boca para abafar uma exclamao, afastou-se o mais depressa possvel, rezando para que eles no a tivessem visto.
Quando se sentiu em segurana do outro lado do caminho cobriu o rosto com as mos a tremerem. O seu corao palpitava com o medo e a fria. Nunca tinha visto Faye
de cabelo solto. Parecia uma rapariga, uma rapariga jovem e bela. Sentiu-se profundamente infeliz por Trees, a trabalhar na quinta enquanto a mulher tinha uma vida
romntica clandestina com Thadeus Walizhewski. No admirava que ele tivesse uma das peas dela no seu quarto. Uma das melhores peas dela. Saberia George que a me
era infiel? Talvez o adultrio lhes corresse nas veias. Que belo exemplo o dela, pensou Rita, amargamente. E logo Faye! Correu para casa, cega de raiva, e fechou-se
no quarto.
Rita percebeu que nunca poderia falar a ningum do que acabava de ver, mas nesse dia perdeu toda a f no amor. Sempre pensara que Trees e Faye eram um dos casais
mais felizes que conhecia. A sua ideia de casamento fora formada com base no casamento deles e no dos seus pais. Naquele momento, no s se sentia trada por George,
mas tambm pela me dele, por ter destrudo tudo aquilo em que acreditara.
Mrs. Megalith estava no meio do jardim com Nestor, o velho jardineiro, a orient-lo com a ajuda da bengala.
- Ali esto as papoilas-dos-prados, o rosmaninho e as violetas - disse ela, encantada com as jovens plantas. - Encantadoras!
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Nestor, j curvado pela idade e intimidado com a estranha personalidade de Mrs. Megalith, mantinha o equilbrio com dificuldade e ia apontando para os rebentos que
comeavam a espreitar da terra.
- Agora  difcil imaginar, Mistress Megalith, mas quando estas florzinhas comearem a ver-se vai ser uma maravilha ter aqui tantas cores. - O homem falava devagar,
com uma forte pronncia do Devonshire que at Mrs. Megalith tinha dificuldade em perceber. -  como ter um arco-ris no jardim da casa! - filosofou alegremente.
- Fartei-me de semear flores no Outono, especialmente erva-traqueira. Arranjei espao para outras, como as papoilas-dos-prados. Eu sei como Mistress Megalith gosta
de papoilas.
- Gosto mesmo, Nestor! So encantadoras! - respondeu e coxeou atrs dele, comunicando-lhe a sua aprovao pelo estado imaculado dos canteiros, que prometiam transbordar
de flores no Vero.
Mrs. Megalith adorava Elvestree. Crescera em Frognal Point e a sua casa pertencera ao av dela. Embora as pessoas parecessem convencidas de que as aves exticas,
os frutos raros e as maravilhosas hortalias se deviam  sua bruxaria, ela sabia a verdade, que a magia j ali estava muito antes de ela ter nascido e fazia parte
da casa como os tijolos de que era feita. Nestor percebia, porque tinha trabalhado para os pais dela, assim como o pai dele antes dele. Nunca estranhara o tamanho
das batatas nem a profuso de flores e couves. Nem sequer erguia as sobrancelhas quando o jardim produzia alcachofras, ruibarbos ou beringelas fora de poca, e estava
habituado s videiras e s bananas na estufa. Enquanto o resto do pas tinha de se contentar com ameixas e mas, ele podia levar para casa laranjas e pssegos para
comer com a mulher. Quando esta elogiava a habilidade da bruxa de Elvestree, o marido limitava-se a encolher os ombros porque sabia como as coisas eram e ainda se
recordava de, um dia, o pai ter levado para casa umas estranhas lechias, quando ele era ainda um rapaz.
Mrs. Megalith sentia-se orgulhosa da histria daquele stio. A casa j era do sculo XVII, mas o jardim era bastante mais antigo. A horta, rodeada por muros, era
capaz de j ter uns seiscentos anos. Dizia a lenda que, em tempos, pertencera a um mosteiro e que os monges fertilizavam a terra apenas com oraes. Mrs. Megalith
ria-se da ideia. Desconfiava que o mais certo era terem sido magos disfarados de monges e, provavelmente, magos gulosos.
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De nariz no ar, cheirou qualquer coisa. O aroma doce e frtil da Primavera regressara mais uma vez e a natureza estremecia de vida. Tambm lhe chegava o cheiro do
esturio e ouvia os pssaros na areia a lutarem por pedaos de peixe e por pequenos crustceos.
De repente, Nestor inclinou-se para o cho e afastou um tufo de ervas.
- Mas que  isto?! - exclamou, pondo-se de p para deixar passar Mrs. Megalith.
- Que foi, Nestor? - perguntou ela aproximando-se dele a manquejar.
- Parece-me que um dos gatos se atirou  sua andorinha. - O rosto de Mrs. Megalith pareceu escurecer de horror.
- Uma andorinha? Est viva?
- Desconfio que est, mas mais lhe valia ter morrido.
- Deixe-me ver. Saia daqui. - Empurrou-o para o lado e espreitou. - Valha-me Deus! Bem, v buscar o Max.
Nestor atravessou o relvado em passo rpido a gritar por Max. Este apareceu e percebeu pela maneira exagerada como Mrs. Megalith agitava os braos que havia uma
emergncia.
- Eu no posso baixar-me para a apanhar - disse ela quando o rapaz se aproximou, - mas queria que tentasses pegar no pobre animal sem o assustares. Imagina que 
feito de casca de ovo. - Max sorriu com indulgncia e pegou na ave com mil cuidados. Quando a andorinha ficou quieta, embora a tremer, nas mos dele, Mrs. Megalith
comeou a caminhar em direco  casa atravs do relvado. - Venham comigo. O Nestor tambm. Preciso da ajuda de todos. Havemos de curar esta andorinha, nem que seja
a ltima coisa que eu faa! - Todos seguiram Mrs. Megalith, que caminhava o mais depressa que podia com o seu andar pouco firme. Ruth estava na cozinha, a devorar
uma sanduche, quando todos entraram numa grande excitao. - Ruth, arranja-me uma caixa de carto e enche-a de palha. H muitas no celeiro.
Ruth franziu o sobrolho ao irmo, mas estava acostumada a obedecer a ordens e apressou-se a fazer o que Mrs. Megalith lhe tinha dito.
Mrs. Megalith empoleirou os culos na ponta do nariz e pegou no pssaro com as duas mos macias e hbeis.
- Max, vai buscar a minha caixa de cristais. Nestor, preciso de uma seringa do armrio dos medicamentos e de um copo de gua. Parece-me
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que  s uma asa partida, mas v-se que j no come nem bebe h algum tempo.
Nestor desapareceu pelas escadas acima em direco ao armrio, que ficava num patamar, onde Mrs. Megalith guardava os remdios. Ruth voltou com uma caixa de sapatos
que em tempos contivera uns sapatos prticos de atacadores que Mrs. Megalith lhe comprara para levar para a escola. Tal como lhe fora pedido, forrara-a de palha
e fizera buracos na tampa para o caso de ser preciso fech-la. Mrs. Megalith ps a andorinha l dentro e, quando Max voltou com a caixa dos cristais, vasculhou l
dentro at encontrar aqueles de que precisava para a cura. Deu gua  pobre ave com ajuda da seringa e prendeu a asa com um pauzinho, que lhe prendeu com firmeza
ao corpo.
- Vai sobreviver? - perguntou Ruth, espreitando para a caixa.
- Sim, vai sobreviver.  uma fmea - observou Mrs. Megalith. - E vai sobreviver, sim. Se eu soubesse qual foi o gato que fez isto torcia-lhe o pescoo.

CAPTULO 21
O reverendo Hammond percorreu a sua congregao com os olhos. Os bancos estavam cheios com os mesmos rostos, os mesmos chapus e os mesmos casacos de sempre, mas
havia uma mudana subtil que tornava aquele domingo diferente de todos os outros e bastante mais frio. Sendo um homem de Deus, percebeu-o imediatamente. No tinha
nada a ver com a brisa fresca que passava atravs das janelas abertas ou com Miss Hogmier ter cado das escadas abaixo e ter magoado o cccix, o que a levava a tocar
rgo com uma agressividade que parecia indicar que era a ele, e no s escadas, que acusava de ser a causa do seu desconforto. Tinha ouvido dizer  mulher, que
tinha ouvido dizer a Miss Hogmier, que tinha ouvido Hannah a falar com a irm na padaria, que George Bolton estava noivo de uma mulher chamada Cybil. A situao
era desesperada e no havia num raio de dezasseis quilmetros cozinha em que o assunto no fosse discutido por aqueles dias.
Para seu descontentamento, viu os Fairweather sentados no lado esquerdo da igreja enquanto os Bolton se sentavam no lado direito sem que nenhum deles olhasse para
os outros. Em vez dos habituais acenos amigveis, parecia haver entre eles um muro de silncio e de culpa e, embora todos soubessem que ele existia, ningum parecia
reconhecer a sua presena. Todos tinham os olhos pregados no livro de oraes ou no que se encontrava  sua frente. O rosto de Humphrey estava cinzento e parecia
ter desinchado como um sufl frio, enquanto Hannah enterrava o queixo no pescoo, escondendo o rosto inchado por trs do chapu. Rita estava lacrimosa, mas pensativa,
em busca de consolo na tranquilidade da igreja. No tinha coragem para lanar uma olhadela a Faye,  adltera Faye, que, est-se mesmo a ver, parecia to inocente
como um dos
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anjos pintados por trs do altar. Eddie brincava com Eyra Gunch, porque, tinha explicado  me, precisava tanto de ser reconfortado como todos os outros, j que,
como era um animal muito pequeno, pressentia a infelicidade, mas no a percebia. J o rosto de Maddie estava vermelho de fria, por recordar sem parar a sua ltima
conversa com Harry. Faye brincava sem parar com o seu anel de noivado, enquanto Alice e Geoffrey tinham um ar sombrio. At os seus filhos pequenos pareciam invulgarmente
sossegados. Trees continuava firme na sua convico de que cada homem lavra o seu prprio campo na vida e de que ningum se devia meter na dos outros, nem sequer
na dos prprios filhos. Olhava o reverendo  espera que ele iniciasse o servio e encarava todo o melodrama como um exagero das mulheres de ambas as famlias. No
tinha dvida de que Humphrey no se ralava com coisas daquelas, como ele fazia, e consideraria a crise pouco mais que uma infeliz tempestade num copo de gua.
O reverendo Hammond enfrentou o desafio com zelo, convencido de que era desejo de Deus unir aquelas duas famlias em necessidade evidente de orientao espiritual.
No seu ntimo, felicitou-se a si mesmo pelo sermo inspirador acerca do perdo e do amor, sem perceber que Humphrey e Hannah estavam magoados de mais para poderem
perdoar, e que Rita e Maddie estavam amargamente conscientes dos estragos que o amor podia fazer. No fim do servio, que deixou o resto da congregao estarrecida,
Humphrey limitou-se a rosnar um cumprimento a Trees antes de sair da igreja, seguido de perto por Hannah. Trees ficou confuso e ofendido. Deu o brao a Faye e desceu
devagar a igreja depois de ter sido brutalmente levado a compreender os sentimentos dos amigos. Afinal era Faye que tinha razo. O noivado de George tinha afastado
as famlias.
Quando saram da igreja, Faye e Trees encontraram Rita  porta  espera de Eddie, que tinha perdido Eyra Gunch na nave. Quando os viu aproximarem-se deu um passo
atrs, encostando-se mais  parede na esperana de que eles passassem sem a ver. Mas Faye observara a sua sbita retirada. Triste, decidiu tentar uma conversa, na
esperana de fazer as pazes com a rapariga.
- Bom dia, Rita. Como ests? - cumprimentou-a com uma voz amvel.
Rita corou e olhou com nervosismo por cima do ombro  procura de Eddie.
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- Estou bem, obrigada.
Eddie estava de gatas ao lado do altar a tentar convencer Eyra Gunch a sair de baixo da toalha, onde estava entretido a mordiscar uma velha hstia.
- No tens aparecido para as aulas de cermica.
- Tem sido um pouco difcil ultimamente...
- Eu percebo, claro que sim, mas no devias desistir, porque tens muito jeito.
- Tenho andado a trabalhar at mais tarde - explicou Rita desastradamente, j que todos sabiam que a biblioteca fechava sempre s seis.
- Bom, se mudares de ideias, gostava muito de te ver.
Faye tocou-lhe afectuosamente no brao, mas quando Rita no respondeu, acenou a Trees e afastou-se, esforando-se por esconder o desapontamento. Rita deixou descair
os ombros e respirou fundo. Por fim, Eddie apareceu a sorrir. Tinha conseguido encurralar o rato e atrara-o para fora do esconderijo com outra hstia.
- Ainda se eu no lhe desse comida que chegasse!  um guloso! - queixava-se pelo caminho.
Faye ficou desolada por Rita no querer continuar as lies e triste por a ligao que existira entre todos durante tantos anos ter sido cortada. Nunca lhe passou
pela cabea que a frieza de Rita pudesse dever-se a t-la visto com Thadeus no jardim, de tal maneira estava confiante de que o segredo lhes pertencia apenas a eles.
- Hoje o ambiente esteve de cortar  faca! - observou Miss Hogmier ao reverendo Hammond depois de todos terem sado. Subiu a nave lateral com a ajuda de uma bengala.
A cada meia dzia de passos fazia uma careta que lhe alargava as narinas e deixava ver os espessos plos negros do nariz, que lembravam uma vassoura de limpa-chamins.
- Valha-nos Deus! - suspirou o reverendo Hammond, observando Rita e Eddie, que desciam o caminho at que por fim desapareceram ao virar da esquina. - Fiz o possvel
por conduzi-los de novo ao caminho de Cristo. S espero que a semente tenha cado em terreno frtil.
- Uma ferida destas nunca vai sarar - afirmou Miss Hogmier, desdenhosamente. - E George est na Argentina, sem fazer ideia de nada do que aqui se passa.
- O mais certo  no fazer a menor ideia do sofrimento que causou.
- No me parece que se rale muito com isso.  um homem egosta, como sempre pensei.
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Miss Hogmier sentou-se pesadamente num dos bancos corridos da igreja, com uma espcie de grunhido quando o pesado traseiro tocou na madeira.
- Pobre Rita. Ainda o ano passado fizeram aquela festa para receber o George.
- Uma extravagncia e afinal por nada - fungou ela. - Aquele rapaz nunca pensou em ningum a no ser nele mesmo. Se quer saber,  bem-parecido de mais para o seu
prprio bem.
- Ela h-de encontrar outro.  nova e muito bonita.
- S que as famlias nunca se vo recuperar. Tanto melhor para os Bolton, de resto. Seria incapaz de confiar nos descendentes da bruxa de Elvestree, por bem-parecidos
que sejam. - Miss Hogmier olhou  sua volta com desconfiana. - No h por aqui gatos, pois no?
O reverendo Hammond lanou um olhar de relance ao altar, recordado do dia em que Mrs. Megalith aparecera com os gatos para sabotar o servio.
- Se houver, ponho-os a todos na rua - afirmou com ousadia.
- Essa atitude no  das mais crists... - disse Miss Hogmier cheia de admirao.
- Cristo expulsou os vendilhes do templo, no expulsou? Aqueles gatos so emissrios de uma pag. Se voltar a v-los, fao o que fez Cristo sem pensar duas vezes.
- Valente homem! - disse Miss Hogmier esforando-se por se pr de p. - Bem, agora vou andando para casa para fazer a minha lida. No tenho quem tome conta de mim.
Tambm no me queixo. Limito-me a sofrer em silncio, mas que pode uma pessoa fazer, sobretudo uma velha solteirona como eu? A sociedade no  amvel com as mulheres
solteiras. O melhor que a Rita Fairweather tem a fazer  arranjar algum, seno ainda acaba como eu.
- Isso seria uma sorte para ela, Miss Hogmier. A senhora  uma mulher de f - disse o reverendo Hammond com generosidade.
Miss Hogmier fez um estalido com a lngua e aceitou friamente o cumprimento, como se no fosse nada que no merecesse. O reverendo viu-a coxear at  porta e pestanejar
como um vampiro  luz do dia. No conseguiu impedir-se de pensar que Miss Hogmier fazia Mrs. Megalith parecer a fada boa.
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Quando Hannah chegou a casa despiu a roupa dos domingos e ps-se a fazer o almoo. Olhou pela janela e suspirou. Sentia a falta de Faye. No fora por culpa dela
que George arranjara outra mulher na Argentina, mas no conseguia evitar o ressentimento contra toda a famlia. Sentia-se to trada por Faye como por George e no
podia fazer nada em relao a isso. Sabia que Faye ficara magoada, mas no se sentia capaz de perdoar.
Rita sentou-se  janela do seu quarto a olhar para os pombos no relvado. Frognal Point tinha mudado muito nos ltimos meses e Rita detestava mudanas. Tinha medo
delas. Todo o seu futuro, em tempos planeado ao pormenor, parecia ter-se desfeito em pedaos e ela no sabia que fazer com os destroos. Nem Maddie parecia a mesma.
Parecia triste e distante, como se receasse intimidades, talvez por no querer partilhar os seus segredos.
Depois, um certo sbado, Maddie voltou de um passeio com Bertie e subiu directamente para o quarto da irm, onde esta escrevia poesia. Quando Rita levantou os olhos
e deu com o rosto cinzento de Maddie, encostada  porta do quarto, pousou a caneta e ps-se de p para lhe dar um beijo.
- Que aconteceu, Maddie? - perguntou-lhe, depois de a irm ter acabado de lhe ensopar a blusa com as lgrimas.
Maddie afastou a roupa que estava em cima da cama e sentou-se.
- Fui para a cama com o Harry e ele depois rejeitou-me - disse Maddie, limpando o rosto com as costas da mo. Rita procurou um leno em cima da cmoda e deu-lho,
e ela limpou as lgrimas com cuidado para no estragar a maquilhagem.
- No voltaste a v-lo desde essa altura? - perguntou Rita, sentando-se ao lado dela.
Maddie fungou com dramatismo.
- No, nem quero ver - acrescentou muito depressa. - Estou furiosa, e  tudo.
- E magoada.
- Um bocadinho - concedeu Maddie, deixando descair os ombros. - Acho que foi o primeiro homem por quem estive realmente apaixonada.
Rita nunca tinha visto a irm to desanimada.
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- Como  que isso aconteceu?
- Fui eu que o seduzi e foi maravilhoso. - Por momentos, os seus olhos ficaram de novo luminosos. - Maravilhoso! Mas ele diz que eu sou nova de mais para ele!
- Nova de mais?  s isso? - perguntou Rita, confusa.
- Ele usou o meu corpo e depois viu-se livre de mim.
- Tenho a certeza que no foi como dizes, Maddie! Eu neguei o meu corpo ao George e ele viu-se livre de mim. Talvez, se eu tivesse ido para a cama com ele, no tivesse
fugido com outra mulher. Se calhar devia ter seguido o teu conselho.
- Achas que ele se fartou de mim?
- Claro que no. O Harry no  assim.  delicado e bondoso, no  nenhum depravado. Que te disse ele alm disso?
- No fiquei tempo suficiente para ouvir mais.
- Perdeste a cabea. - Rita conhecia bem a irm. - E depois reataste a relao com o Bernie?
- Estava zangada - explicou Maddie - e precisava de algum. - Depois de pensar por momentos, Rita ps-se de p e aproximou-se da janela.
- Pensa no que aconteceu do ponto de vista do Harry. Ele  muito mais velho que tu, divorciado e pobre. Talvez se sinta culpado por se ter aproveitado de ti quando
no tem nada a oferecer-te. Eu j vi a maneira como ele olha para ti, Maddie. Se calhar devias ser mais persuasiva. O mais certo  ele estar a sofrer tanto como
tu.
Maddie riu-se desdenhosamente.
- Duvido. Ele enterrou-se logo no maldito livro.
- Vai falar com ele. s uma pessoa muito mais confiante do que ele.
- Vou pensar nisso - respondeu ela, pondo-se de p. - Sabes, Rita, s vezes s muito sensata. S  uma pena que te falte a mesma sensatez na tua prpria vida amorosa.
Maddie reflectiu no conselho da irm. Se o Harry se considerasse indigno dela, teria simplesmente de o fazer mudar de ideias, e o seu maior trunfo, achava ela, era
a sua sexualidade.
Determinada a reconquist-lo, sentou-se ao espelho e maquilhou-se com o maior cuidado. Era lindssima, com a sua pele muito branca, quase transparente, e olhos grandes,
felinos, que faziam a inveja de todas as raparigas que conhecia. No tinha sido difcil seduzi-lo alguns meses atrs;
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se conseguisse faz-lo de novo, teria uma boa possibilidade de o convencer da sua maturidade. Como tinha sido tola por desistir sem lutar, o que nem sequer parecia
coisa dela. Fora a reaco primitiva de uma mulher que nunca soubera o que era a rejeio. Enquanto ia aplicando o ruge e o batom ia pensando em pinturas de guerra
e na batalha que a esperava.
Com um vestido leve de Vero saiu de casa e foi de bicicleta at Bray Cove. Apesar da sua confiana em si mesma, sentia-se nervosa. H vrios meses que no o via
e no fazia ideia do que a esperava. No suportava a ideia de voltar a ser humilhada. E se o seu plano falhasse e ele a rejeitasse? Fez um esgar ao pensar nessa
possibilidade, mas depressa a ps de parte.
Quando chegou a casa dele deixou a bicicleta no caminho e deu a volta at  janela do escritrio. Como esperava, ele estava debruado sobre a mquina de escrever,
a esforar-se por acabar o livro que esperava viesse a fazer o seu nome e a sua fortuna. Os olhos dela pareciam querer perfur-lo. Parecia mais grisalho, mais magro
e desalinhado do que nunca. O escritrio estava de pernas para o ar, com livros e papis no cho por toda a parte, e mesmo do stio onde se encontrava conseguia
ver uma camada de p revelada pelo sol que conseguia penetrar atravs das janelas pouco limpas. A seguir, como se subconscientemente soubesse que era observado,
Harry voltou-se. Quando viu o rosto radiante de Maddie a olhar para ele, quase saltou com a surpresa. O seu rosto enrugou-se num ar carrancudo, mas acabou por dizer
o nome dela. Do stio onde estava sentado, a imagem dela podia ser uma iluso de ptica, com o sol a incidir directamente sobre o seu cabelo. Confuso, fez-lhe sinal
de que ficasse onde estava e ps-se de p, deitando a cadeira ao cho.
O corao de Maddie palpitava furiosamente, mas a reaco dele tinha sido encorajadora. Momentos mais tarde Harry dobrava a esquina.
- Maddie?! - exclamou. Dificilmente o seu aspecto podia ser considerado o de um aventureiro que usasse as mulheres para sua gratificao sexual. Maddie percebeu
que tinha tirado concluses precipitadas e decidiu reparar imediatamente as coisas.
- Oh, Harry, eu amo-te - disse ela caindo nos seus braos. - No me importo que sejas velho e pobre. Para mim s rico em tudo aquilo que interessa.
Harry estava boquiaberto. No sabia se devia ficar ofendido ou sentir-se lisonjeado com a declarao tipicamente desastrada dela. Abraou-a
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e aproximou o rosto do cabelo ruivo. O seu aroma era clido e familiar. Quando ela se afastou para o olhar, viu que ele a olhava com um ar arrapazado e um sorriso
encantador.
- Alm disso, tambm sou divorciado, raramente vou  igreja e sou um misantropo - comeou ele. Maddie viu que as cores tinham regressado ao seu rosto. - E tenho
a certeza que tens mais alguns inconvenientes a acrescentar  lista!
- Mesmo que tivesse, isso no tinha importncia nenhuma. Eu amo-te exactamente como s.
- E eu tenho sido um palerma. Desculpa se te magoei.
Maddie ps um dedo sobre os lbios dele, como fizera a primeira vez, mas agora foi ele que tomou a iniciativa, colando a boca  dela.
Em meados de Agosto, Max anunciou a Rita que se ia embora de Frognal Point. Estava um dia de sol intenso, um alvio depois de tanta chuva. Trees tivera grandes dificuldades
com a colheita. Fora preciso esperar at o cho estar seco para ceifar o trigo, que na altura ainda estava hmido e no completamente maduro, mas a paisagem tinha
beneficiado muito com as chuvas. As folhas brilhavam nas rvores, cujos ramos vergavam ao peso de tanta passarada. As flores voltavam-se para o Sol e brilhavam resplandecentes
no auge da sua beleza, e o ar era fresco com cheiro a mar e a flores. Max estava deitado ao lado de Rita no relvado de Elvestree, a ver a andorinha doente agora
recuperada, mas ainda sem conseguir voar saltitar pelo relvado. Felizmente, os gatos estavam a dormir dentro de casa, mas Max estava atento a algum oportunista que
tivesse esperana de obter ali uma refeio fcil.
- Quando te vais embora? - perguntou Rita, surpreendida. Ao longo dos ltimos meses habituara-se a contar sempre com Max. Maddie passava cada vez mais tempo em Bray
Cove, de maneira que acabara por contar apenas com ele como amigo e confidente.
- A um de Setembro - respondeu ele, procurando sinais de desapontamento no seu rosto.
- E onde vais viver?
Em casa da tua tia-av Hazel, irm da tua av. Ela tem uma casa perto de Oxford Street, o que vem mesmo a calhar porque - vou trabalhar na Broadcasting House.
- Na BBC? - Os seus olhos abriram-se de admirao. - E andavas a guardar segredo? - disse ela, dando-lhe um empurro amigvel.
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- No tinha a certeza de ter conseguido o emprego. J tinha concorrido h imenso tempo. Eles  que nunca mais se decidiam - mentiu Max. Na verdade, fora ele que
pusera em causa o seu emprego por ter-se mantido ali tempo de mais por causa de Rita. - Se tivesse a certeza, tinha-te contado, mas no queria que isso me desse
azar.
- E que vais fazer na BBC?
- O ch, provavelmente - riu-se ele. - No sei. Vou fazer seja o que for s para ficar com um p l dentro.
- Vou sentir muito a tua falta - disse ela com um sorriso pattico. O corao de Max pareceu ganhar asas, como se se preparasse para levantar voo.
- Tambm vou sentir a tua, mas no me vou embora para sempre. Hei-de voltar de vez em quando. Ou achas que eu conseguia afastar-me de Elvestree por muito tempo?
- A av tambm vai sentir a tua falta. E Ruth.
- A Ruth est muito apegada  Eddie, vai ficar bem. Para dizer a verdade, meteu na cabea que quer um rato como o Eyra Gunch, mas a av diz que os gatos o apanhavam
em menos de cinco minutos, por isso vai ter de se contentar em brincar com o da Eddie.
- Telefonas-me de vez em quando?
- E escrevo.
- s muito corajoso por ires assim viver para Londres sozinho.
- A guerra j acabou, Rita, e agora a nica batalha vai ser com o smog. Ouvi dizer que  horrvel. Mas no estou a morrer de vontade de ir. Tenho a certeza que me
vou perder em menos de nada. Nem num dia limpo sou muito bom a encontrar o meu caminho.
- A casa da tia Hazel no tinha sido bombardeada?
- Primrose diz que lhes caiu uma V-1 em cima e s por milagre sobreviveram.
- Para acabar com a av seria preciso bem mais que uma V-1.
. Riram-se ambos.
- Estou muito orgulhosa de ti, Max. Tenho a certeza que vais ser algum na vida. Os teus pais tambm se sentiriam orgulhosos.
- A andorinha est a desembaraar-se muito bem, no achas? - disse ele com uma careta.
Rita ficou surpreendida com a mudana de assunto, mas respondeu:
- Talvez ainda consiga voltar a voar...
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- Se tiver fora de vontade, pode vir a fazer tudo o que quiser - disse ele, olhando-a com o seu olhar intenso.
Rita lembrou-se subitamente da histria da av sobre os dois pssaros que no podiam voar e sentiu que corava.
- Graas a ti, acho que ainda vai voltar a voar - disse ela, e virou-se, de maneira a apanhar sol no rosto.
Com Maddie em Bray Cove, a criatividade de Harry voltou. Em vez de continuar a olhar a folha em branco com ar infeliz, sentiu-se inspirado como nunca sentira at
ento. Maddie levava os novos captulos para o jardim para ficar a ler ao sol enquanto no escritrio Harry tinha dificuldade em escrever suficientemente depressa
para acompanhar as ideias que lhe iam ocorrendo. Ao fim da tarde, quando as sombras de Vero iam subindo ao longo do relvado, ao ritmo do vento atravs das folhas
das rvores, ele levava-a para o quarto e faziam amor at  noite. No fim de Setembro, Harry acabou o livro. Para festejar levou-a  cidade, ao teatro, a ver A Importncia
de Ser Amvel, e depois a jantar num restaurante elegante com vista para o mar.
- Estou convencido de que este livro se vai vender bem - disse ele. Maddie sorriu com indulgncia. Estava a ficar cansada de o ouvir sempre a falar do livro, mas
quando isso acontecia procurava dominar-se e lembrar-se de como tinha sorte por t-lo conquistado de novo. - E no teria sido capaz de o escrever sem ti - continuou
ele, a olhar para o rosto radioso dela, o cabelo forte e brilhante, os olhos azuis vivos, e o seu corao pareceu encher-se daquela beleza sem limites.
- Foi um prazer para mim, Harry - respondeu ela sem exagerar. - Fazemos uma boa equipa.
- Durante a guerra fria - disse ele, referindo-se aos meses em que no se tinham falado - a minha criatividade secou. No era capaz de escrever uma linha. Nada resultava.
A minha escrita tornou-se pesada e desastrada, o meu pensamento confuso, as minhas personagens no tinham vida, pareciam peixes mortos no meio das pginas. Quando
voltaste, tudo mudou. Foste tu que me inspiraste e transmitiste confiana. Devo-te tudo, Maddie. No voltes a deixar-me.
- Ento no voltes a dizer-me que sou nova de mais para ti - respondeu ela com um esgar.
- No s nova de mais, mas s boa de mais para viver assim.
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Maddie empalideceu.
- Assim como? - perguntou ela, com um sentimento horrvel de dj vu.
- No est certo fazermos amor e depois escapulires-te para casa s
escondidas.
- Mas, Harry...
Harry sorriu-lhe e pegou na mo dela entre a sua mo grande e rude.
- Acho que est na altura de fazer de ti uma mulher honesta.
O corao de Maddie pareceu parar e depois voltar a bater com mais fora que antes.
- Ests a pedir-me que case contigo? - perguntou ela, esperanada.
- Aceitas-me?
- O qu? A um divorciado velho e pobre como tu? - Os seus olhos pareceram brilhar subitamente de emoo. - Claro que sim, querido Harry - riu-se ela, limpando uma
lgrima com a mo livre. - O que te fez pensar que no aceitava?
Quando Maddie e Harry anunciaram o seu noivado, Humphrey e Hannah ficaram encantados, apesar de um pouco surpreendidos. Contudo, ainda no rescaldo da crise de Rita,
acolheram as boas notcias com abraos e uma garrafa de champanhe da generosa garrafeira de Mrs. Megalith. Gostavam imenso de Harry e ficaram aliviados por ver que
as ambies de Maddie estavam agora reduzidas a uma vida sossegada em Bray Cove. Eddie estava excitada com a ideia de vir a ser dama de honor com Ruth e comeou
a planear fazer um casaco para Eyra Gunch, que assistiria orgulhosamente sentado sobre o seu ombro a todo o servio religioso, como ela o treinara para fazer. O
reverendo Hammond esfregou as mos assim que ouviu falar de um casamento e comeou imediatamente a preparar um longo sermo, tranquilamente ajoelhado junto do altar
para pedir ao Senhor a sua divina inspirao. Quando Mrs. Megalith ofereceu a Maddie o seu prprio vestido de noiva, que ela tinha usado com a mesma idade, Maddie
torceu o bonito nariz e riu-se descaradamente da ideia de usar uma das tendas da av. Contudo, quando foi com Rita e a me a Elvestree para o provar ficou agradavelmente
surpreendida.
- Est no meu quarto. Vai l para cima com a tua me. Eu e a Rita esperamos por ti aqui em baixo para poderes fazer uma entrada em grande - disse Mrs. Megalith,
sentando-se no sof rodeada por uma quantidade
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de gatos. Na mo tinha um copo de xerez e uma caixa vermelha j desbotada. Rita inclinou-se para a grade metlica da lareira apagada, pois o tempo ainda estava suficientemente
quente para no ser preciso acend-la. Olhou para a av, a tentar adivinhar se ela conseguia perceber a sua infelicidade, mas a av estava demasiado preocupada com
o casamento de Maddie para reparar. Seria possvel que no lhe ocorresse que toda aquela excitao e todos aqueles preparativos deviam ter sido para ela? Se George
no tivesse partido para a Argentina, naquele dia teria sido ela a provar o vestido. Afinal, a av comeara por lho oferecer a ela, mas era evidente que se esquecera.
Eles tinham tudo. Sentiu o dio, que comeava a ser-lhe familiar, debater-se no fundo do estmago como uma besta pegajosa e depois subir-lhe ao corao, onde expulsou
todo o amor, transformando-o em cime e ressentimento. Mas dessa vez no sentiu qualquer vergonha do seu rosto feio. Quando Maddie apareceu  porta, resplandecente
entre rendas e seda cor de marfim, com um vestido que parecia ter sido feito por medida para ela, Rita rendeu-se inteiramente  besta. Viu com amargura Maddie percorrer
a sala em todos os sentidos, com as suas costas direitas e pescoo elegante. O seu corpo rolio era modelado por um vestido to requintadamente modesto e feminino
que, no fosse ela sorrir com um orgulho to terreno, quase pareceria etreo. Tinha conscincia de que o vestido salientava as curvas suaves do seu busto e das suas
ancas e a ondulao suave do seu ventre. Estava encantada com o seu aspecto e passou atravs dos gatos para beijar a av.
- Adoro o vestido, av. Obrigada! - Mrs. Megalith abraou a neta.
- Estou muito orgulhosa de ti, Madeleine - disse com firmeza.
- Para dizer a verdade, sempre pensei que fosses um bocado vadia, mas hs-de ser uma boa mulher e me, e mais cedo do que imaginas. Afinal, s uma rapariga sensata.
- Maddie pestanejou, confusa com o que a av dissera. J no se lembrava da ltima vez que Mrs. Megalith a elogiara. Chegava a perguntar a si mesma se alguma vez
o teria feito. Rita sempre tivera a sua admirao e Eddie sempre a divertira, mas ela prpria parecia s ser capaz de despertar a sua desaprovao. - Com isto acho
que ficas perfeita - acrescentou, entregando-lhe a pequena caixa vermelha. Maddie abriu-a impaciente.
- Anis de prolas e diamantes! - exclamou encantada. - Para mim?
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- Sim, so uma oferta. Pertenceram  minha av e ela deu-mos quando fiquei noiva. Usei-os no dia do meu casamento com esse vestido. Vais ver que combinam perfeitamente.
Mrs. Megalith pegou neles com as mos grossas e p-los nas orelhas de Maddie. Maddie dirigiu-se ao espelho num salto para admirar o seu reflexo no grande espelho
dourado que estava por cima da lareira. Rita era obrigada a observar tudo indefesa, como se vivesse um pesadelo. Tudo aquilo devia ter sido dela.
Nesse momento, precisamente quando comeava a lamentar no ter seguido a gaivota solitria no seu voo, Max telefonou-lhe de Londres. Ficou to feliz por ouvir a
voz dele que a sua infelicidade desapareceu e foi substituda pelo sentimento terno de ser amada.
- Ests boa? - perguntou ele.
- Estou ptima - respondeu ela, embora a sua voz trasse a sua tristeza.
- No, no ests. Eu sei o que ests a sofrer. Este casamento devia ter sido o teu.
- Oh, Max, tu percebes...
- Eu gosto de ti, Rita. Detesto lembrar-me de que ests a sozinha, sem ningum com quem falar. E a aldeia est a ficar louca com o casamento, no  verdade?
- Sim.
- Deve ser horrvel para ti.
-  horrvel, sim. Mas ningum repara. Nem sequer a minha me. De repente, todas as atenes se centraram em Maddie. A me at convidou o Trees e a Faye para o casamento.
Acho que vo assinar uma trgua. Nunca mais vai ser a mesma coisa, mas pelo menos j nos falamos todos.
- E isso incomoda-te?
- Sim, incomoda - respondeu ela, sem saber se devia t-lo admitido.
- Mas a verdade  que o Trees e a Faye no tm a culpa de nada. No podes acus-los do que o George te fez a ti. - Rita no respondeu. Ele tentou preencher a pausa,
porque todos os minutos lhe custavam uma fortuna. - Acho horrvel que as famlias tenham de sofrer porque ele te desapontou. Podem sempre torcer-lhe o pescoo quando
ele voltar.
- Max, se eu te contar um segredo prometes no contar a ningum?
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- Prometo - respondeu ele, perguntando a si mesmo que segredo poderia ser to terrvel a ponto de a fazer baixar o tom de voz e falar com tanta seriedade.
- Descobri a Faye nos braos do Thadeus Walizhewski.
- Quem? O velho da aldeia?
- Sim.
- Tens a certeza?
- Absoluta. Tinha o cabelo solto, estava linda. Agora no consigo olh-la de frente sem a desprezar. Achas que a infidelidade corre no sangue?
Max riu-se:
- No, no acho.
- Ficaste chocado com o que te contei?
- Surpreendido sim, mas chocado no - disse ele. - No tenho nada a ver com o assunto e tu tambm no. No podes deixar a infidelidade de Faye destruir a tua confiana
no amor, Rita. As pessoas so todas diferentes.
- Acho que nunca mais vou amar. - Dessa vez foi ele que hesitou e ela que preencheu a pausa que se seguiu. - J no confio no amor.
- Um dia h-de aparecer algum que te vai amar to intensamente que vais deixar de ter razes para duvidar - replicou ele ao fim de um momento.
- Achas que sim?
- Tenho a certeza. Confia em mim.
- Quando? - perguntou ela, e no corao de Max pareceu acender-se uma fasca de esperana.
- Quando tu o quiseres - respondeu ele, estremecendo  ideia de que estivera a um passo de se declarar.
Mas Rita sabia que sempre amaria George e, enquanto isso acontecesse, no haveria lugar no seu corao para mais ningum.

CAPTULO 22
Estava um dia de sol perfeito para um casamento. O campo era varrido por uma brisa suave de Outono, mas o sol continuava quente, como se relutante em obedecer 
inevitvel passagem das estaes. Agatha adorara organizar o evento, dando ordens em todas as direces ao seu exrcito como um bravo general numa parada.  frente
da casa tinham sido alinhadas longas filas de cadeiras brancas e no lugar onde George e Susan trocariam votos fora montado um toldo de flores. O padre O'Bridie,
um velho padre irlands de Dublin que vivia em Buenos Aires h cinquenta e oito anos, concordara celebrar a cerimnia apesar de nem o noivo nem a noiva serem catlicos.
Movido pela promessa do lcool, teria casado fosse o que fosse desde que professasse a crena num s Deus. Agatha marcara o casamento para de manh, na esperana
de que isso no lhe deixasse tempo para se embebedar. Dolores e Agustina tinham passado semanas a planear as sobremesas para o almoo, que mais comeava a parecer
um banquete, e os gachos tinham matado trs vacas para o grande dia. Agatha enviara convites a todos os amigos, que eram muitos, mas sabia que os convidados iam
trazer os seus prprios amigos, e at algumas pessoas que no tinham sido convidadas iam aparecer, como era costume na Argentina. Susan tambm tinha alguns convidados,
mas George no conhecia ningum.
Agatha e Jos Antnio tinham ficado boquiabertos quando George e Susan lhes comunicaram os seus planos. Agatha no esperara que o sobrinho regressasse a Inglaterra
para casar com Rita, mas no previra que ele se apaixonasse por Susan. George era um homem diabolicamente atraente e Susan era, enfim, fora miseravelmente desfigurada.
Teria percebido melhor a atitude dele se se tivesse apaixonado por uma bela argentina.
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Jos Antnio deu-lhe uma palmada to vigorosa nas costas que por pouco deixava George com falta de ar. Agora percebia a relutncia do jovem em frequentar as prostitutas
de Jesus Maria e sentia-se aliviado por saber que, afinal, o sobrinho era um verdadeiro macho de sangue na guelra. Susan era inteligente e espirituosa. Tinha uma
postura distante e fria e era to misteriosa para ele como no dia em que a tinha conhecido. Continuava a no saber o segredo que se escondia por trs da cicatriz,
o mesmo se passando com a sua mulher. No se sentia atrado pelo seu aspecto nrdico, pelo cabelo louro e pelo corpo flexvel e arrapazado, mas percebia a atraco
por mulheres mais velhas, e Susan era evidentemente uma mulher to capaz como Agatha, apesar de ter sido suficientemente sensata para deixar a sua mulher tratar
de todos os preparativos do casamento. Tinha-lhes arranjado uma bonita casa branca com uma vista magnfica para a plancie e a montanha que parecera agradar a ambos.
George queria trabalhar na agricultura e Susan no queria viver na cidade. Acabara por se acostumar  vida tranquila do campo e s pessoas gentis que a viviam.
Tonito e Pia adoravam-na; ela prpria tambm lhes tinha uma grande afeio e passava horas na companhia deles a passear de bicicleta pelos campos ou em casa a inventar
brincadeiras para eles e para o seu bando de amigos. Um dia tinham-lhe perguntado por que razo um dos lados da sua cara estava "estragado" e ela respondera que
tinha sido um leo que a tinha arranhado em frica. A resposta deixara-os de olhos arregalados, cheios de curiosidade, e desencadeara uma avalanche de perguntas
sobre to encantadora violncia. O leo queria com-la? Como  que ela tinha escapado? Susan respondera a todas as perguntas com pacincia e humor, desejando que
a curiosidade dos adultos fosse to fcil de satisfazer como a das crianas. Por vezes, George via-a a olhar sonhadoramente as crianas, a expresso do rosto suavizada
pela ternura, e pegava-lhe na mo. Ele no tinha de falar e ela no precisava de se explicar. Mesmo assim, percebiam-se perfeitamente. O seu desejo de ter filhos
parecia viver bem no ntimo do seu peito. Era a que pousava a mo para o acalmar e dizer a si mesma que fosse paciente. Depois olhava para George e a esperana
brilhava-lhe nos olhos, que pareciam frios a todos menos a ele.
Naquele momento estava sentada, com um vestido cor de marfim, enquanto a cabeleireira lhe prendia o cabelo no alto da cabea. Entretanto
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ia perguntando a si mesma se no teria sido mais prprio uma noiva da sua idade ir de fato em vez de ir de vestido. Sentia-se uma fraude no papel de uma jovem noiva.
Achava que de certa forma estava maculada, por j ter estado noiva e grvida, ou ento achava que era mulher de mais para aquele casamento de menina. Ter-se-ia sentido
mais confortvel com uma cerimnia civil, sem confetes e com um ramo de flores simples. J estavam casados civilmente, mas George insistira que se casassem aos olhos
de Deus. Para ele era esse o casamento mais importante. Ouviu vozes no piso de baixo e percebeu que o padre O'Bridie j tinha chegado.
- Louvado seja o Senhor por ter concedido a este jovem casal uma manh de tal esplendor para abenoar o seu casamento! - exclamou o padre com um exuberante sotaque
irlands.
Apesar de ter vivido na Argentina a maior parte da sua vida adulta, falava muito mal espanhol e sempre que podia falava ingls. "A lngua de Deus  universal", dizia
muitas vezes aos que lhe perguntavam como se explicava que, ao fim de tantos anos, ainda no tivesse aprendido mais de meia dzia de frases. "O amor  igual em todas
as lnguas", acrescentava piamente. Porm, o amor no comprava carne no talho nem escrevia as suas cartas, de maneira que muitas vezes tinha de pedir a algum amigo
que lhas traduzisse. Mas nesse dia era diferente. Fora convidado para dizer a missa em ingls, como fazia na pequena Igreja de Todos os Santos em Buenos Aires, e
a maior parte da congregao falava bem a lngua. Ia beber um copito e fazer um sermo que nunca esqueceriam. Tal como acontecia com muitos bons membros da Igreja,
apreciava o som da prpria voz.
George juntou-se aos convidados que iam chegando. Com um fato leve de Vero, sentia-se aliviado por a brisa ser fresca, porque para lhe fazer suores bastavam os
nervos. Conhecia muito poucas pessoas, mas todas faziam uma grande algazarra em torno do acontecimento, j que os casamentos tendem a fazer sobressair o lado jovial
da maior parte das pessoas. H semanas que no pensava em Rita, mas nesse dia recordou-se dela. Frognal Point estava to longe que quase lhe parecia no se tratar
de um lugar real. Sentia-se feliz por no se casar com Susan l; conseguia imaginar a confuso se tivesse casado com Rita. As atenes sufocantes, a excitao, o
discurso pomposo do reverendo Hammond e os rostos dos aldeos que o conheciam desde criana. Ainda bem que estava no meio da Argentina, e ningum da sua famlia
viera ao casamento.
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Sentia-se feliz com a ideia de que era Susan que estava naquele momento a preparar-se para jurar perante Deus am-lo at que a morte os separasse. Viu a tia Agatha,
vestida de um azul resplandecente, cumprimentou os amigos dela e outras pessoas que nem ela conhecia, e sentiu-se agradecido por ela lhe ter oferecido abrigo da
guerra e daquela pequena aldeia da costa que por pouco no o sufocara. Se no tivesse sido ela, podia bem ter perdido o juzo a olhar o mar, e talvez no tivesse
voltado a ver Susan. Tinha de se lembrar de lhe agradecer no discurso.
Os convidados tomaram os seus lugares e o pequeno quarteto que Agatha contratara em Jesus Maria comeou a tocar. O rosto vermelhusco do padre O'Bridie assumiu uma
expresso grave e piedosa ao acompanhar George ao altar, onde este ficou  espera da noiva. Ernesto, um dos gachos, foi o seu padrinho e manteve-se junto dele na
fila da frente a sorrir-lhe com ar malicioso.
- Boa sorte, gringo! - soprou a George quando ele se aproximou. - Quando casei com Marta ela era elegante como um lpis. Como podia eu adivinhar que se transformaria
numa vaca? - disse-lhe e encolheu os ombros.
O padre O'Bridie levantou os olhos quando viu aparecer Susan, que atravessou o relvado seguida de Pia e Tonito.
George teve um sobressalto quando a viu aproximar-se. Pareceu-lhe frgil ao lado de Jos Antnio, com o seu aspecto ursino. Jos Antnio concordara em lev-la ao
altar; lado a lado, pareciam um elegante lrio ao lado de uma beterraba. Teve a impresso de que Susan flutuava em direco a ele, a luz a danar no seu vestido
simples e as flores que lhe enfeitavam o cabelo a flutuarem ao vento. Susan caminhava devagar, com os ombros direitos e o queixo bem erguido, embora o seu sorriso
fosse tmido, quase envergonhado. Segurava o ramo com firmeza e olhava em frente, enquanto Jos Antnio sorria abertamente aos amigos que ia identificando. A msica
chegou a um clmax melodramtico e George e Susan olharam-se com cumplicidade, ao mesmo tempo que faziam tudo o que podiam para conter o riso. De mos dadas, enfrentaram
juntos o padre O'Bridie at a msica chegar ao fim. George notou o aroma de lrios que lhe parecia exclusivo dela e recordou a primeira vez que a beijara, a bordo
do Fortuna.
Os msicos pararam de tocar e entre a congregao fez-se silncio. O padre O'Bridie ergueu os olhos injectados de sangue e comeou a falar
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com uma pronncia irlandesa cerrada. Agatha suspirou de alvio por ele no ter bebido mais que um copo de usque, apesar de a cor do seu nariz ser a de um homem
embriagado.
- Estamos aqui reunidos, em frente de Deus, para testemunhar o casamento deste homem e desta mulher. Sublinho a palavra "testemunhar" porque  isso que todos estamos
aqui a fazer.  verdade que todos viemos pelo vinho e pelas sobremesas, e podem ter a certeza que nos espera um verdadeiro banquete, porque eu j estive na cozinha
e o que por l vai  verdadeiramente espectacular! - e dizendo isto lambeu os lbios. - H dulce de leche, gelado e merengues - disse o padre, e Susan e George voltaram
a apertar a mo com fora. Ambos sentiam a fria de Agatha aumentar. - Mas voltemos ao que interessa. Sim, estamos aqui para presenciar os votos de George e de Susan,
de se amarem e honrarem at que a morte os separe.
Quando concluiu estas palavras, o padre abriu o velho missal com as mos pouco firmes e comeou a ler. O alvio de Agatha foi visvel.
Apesar da msica melodramtica, do kitsch da igreja improvisada no jardim com o toldo florido e os bancos brancos, alm do entusiasmo duvidoso do padre O'Bridie,
George e Susan sentiram-se comovidos com a cerimnia e fizeram solenemente os seus votos. Pouco lhes importava no conhecerem praticamente nenhum dos presentes j
que as testemunhas perante as quais fizeram os seus votos aos olhos de Deus e prometeram amar-se para sempre eram sobretudo estranhos. Quando pronunciaram os seus
juramentos estavam na realidade ss um com
o outro.
Agatha tinha pouca vontade de dar ao padre O'Bridie o que quer que fosse de beber e chegara a um ponto em que at lhe custava disfarar a contrariedade: o padre
no s caminhara pelo altar aos tropees, como se estivesse no convs de um galeo no meio de uma tempestade, mas alm disso o sermo eternizara-se sem que ningum
percebesse qual era o objectivo de tanta conversa. No entanto, quando viu a felicidade evidente de George e Susan, na companhia dos convidados, e a baixarem-se para
elogiarem Pia e Tonito por terem desempenhado perfeitamente os seus papis, acabou por se mostrar mais tolerante. Lembrou a si mesma que aquele dia no pertencia
ao padre O'Bridie; ele j tinha desempenhado o seu papel e, portanto, no tinha a menor importncia que bebesse at ao coma alcolico, se lhe apetecesse.
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Quando viu Dolores aparecer no relvado com uma travessa de empanadas esqueceu o padre embriagado, a noiva e o noivo, at mesmo os seus prprios filhos, porque o
vestido que a cozinheira tinha escolhido mais parecia um uniforme de uma prostituta de Jesus Maria que quisesse satisfazer um cliente extravagante. Era completamente
transparente, deixando ver com toda a crueza as enormes cuecas brancas que usava por baixo. Agatha chegou a recear que tambm Dolores tivesse sucumbido aos encantos
do vinho.
- Dolores, onde est o seu uniforme? - perguntou, recuando mais um passo quando notou a maquilhagem berrante de Dolores. A cozinheira sorriu com falsa modstia e
olhou-a por baixo das pestanas postias.
- Achei que era simptico vestir-me para o casamento do seor George - respondeu com orgulho.
- Sabe que as suas cuecas se vem por baixo do vestido? - retorquiu Agatha sem cerimnia.
- A srio? - respondeu a mulher, com um sorriso a querer despontar nos lbios pintados de um cor-de-rosa-vivo.
Agatha ficou horrorizada por Dolores se atrever a responder-lhe com tanta falta de respeito.
- Isso no me parece nada apropriado, Dolores. Agradecia que fosse imediatamente vestir o uniforme.
Antes que Dolores tivesse tempo de responder, o padre O'Bridie deu dois passos em frente aos tropees, enquanto os seus olhos faziam o possvel por se fixar na
apario. No seu estado de bebedeira, Dolores pareceu-lhe a Vnus de Botticelli
- Louvado seja o Senhor! - exclamou, dando dois passos atrs seguidos de dois passos pouco firmes em frente, sempre no convs do galeo imaginrio. Agatha teve uma
ideia brilhante.
- Dolores, a Agustina e as raparigas podem fazer o almoo, por isso a Dolores podia fazer-me o favor de tomar conta do padre O'Bridie? Tenho a impresso que este
sol foi de mais para ele. Leve-o para a estufa e d-lhe muita gua. Desconfio que est desidratado.
Dolores, reconhecendo o brilho da lascvia nos olhos do velho padre, ficou encantada de fazer o que lhe pediam. Entregou a travessa das empanadas a Agatha e deu
o brao ao padre O'Bridie, conduzindo-o delicadamente para a estufa. Agatha suspirou.
- Isto mata dois coelhos de uma cajadada - disse consigo mesma.
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Depois pegou no tabuleiro e provou uma empanada, agradecendo a Deus em silncio por a velha mulher ainda ser capaz de cozinhar.
O riso de Jos Antnio ouvia-se acima das vozes dos outros convidados como o mugido de um touro. O marido de Agatha atirava a cabea para trs e ria-se a bandeiras
despregadas. Como  natural, ria-se das suas prprias anedotas grosseiras, mas era de tal maneira encantador que todos se riam com ele. Os convidados falavam da
beleza da noiva, depois perguntavam uns aos outros em voz baixa como tinha ficado to cruelmente desfigurada. Quando Pia e Tonito ouviram esta conversa contaram
quase aos gritos a histria que Susan lhes contara, do leo em frica.
- Por pouco no foi comida! Disse que s ficou assustada muito mais tarde, porque enquanto esteve dentro da boca do leo estava espantada de mais para ter medo.
Se no tivesse aparecido um homem com uma espingarda, tinha servido de jantar ao leo.
Os hspedes ficaram to chocados com a histria que a aceitaram sem mais perguntas. Em vez de olharem Susan com compaixo, olhavam-na com admirao. A sua cicatriz
era herica.
De repente, os latidos de Bertie e de Wooster ouviram-se por toda a casa. Agatha e Jos Antnio olharam-se surpreendidos, porque os ces raramente ladravam. A excepo
era a chegada de algum visitante que no fosse bem-vindo. George franziu o sobrolho e pegou na mo de Susan, enquanto os convidados continuaram a beber e a comer
empanadas, indiferentes  inesperada perturbao. Gonzalo, o jardineiro, apareceu quase a correr de chapu na mo e inclinou-se cerimoniosamente quando se aproximou
da patroa.
- Quem , Gonzalo? - perguntou, sentindo que o vento norte a gelava at aos ossos.
- Seora Velasco - respondeu ele, olhando-a com receio. Agatha ficou sem respirao por momentos e depois voltou-se para o marido, que atravessava o grupo de convidados
com ar furioso.
- A tua me apareceu - disse-lhe Agatha, furiosa. - No a vemos h anos, mas tinha de aparecer precisamente no dia do casamento do George.  imperdovel.
- Gonzalo esperava especado que o mandassem embora com outra tarefa. No lhe agradava a ideia de voltar para a mulher antiptica que esperava no carro. Agatha, mostrando
considerao pelo empregado uma vez na vida, mandou-o embora com um "obrigada" seco e disse ao marido:
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- No vou falar com ela. No fim de contas, a me  tua.
Jos Antnio no protestou, mas respirou fundo, como um drago que preparasse um contra-ataque violento, e contornou a casa em passo de marcha.
A Seora Velasco estava sentada no banco de trs do carro a refrescar-se com um vistoso leque espanhol. Estava vestida de preto, como sempre desde o divrcio do
pai de Jos Antnio, no porque lamentasse a sua partida, mas por despeito: o ex-marido sempre odiara mulheres vestidas de preto. Era uma mulher muito alta e ossuda,
com cabelo grisalho, que usava num carrapito, o qual lhe dava um ar severo, em conjunto com a franja que lhe tapava a testa at aos olhos de rptil e a um nariz
de falco. Tinha lbios finos fechados numa linha de um vermelho-vivo que parecia rasgar-lhe uma ferida na pele, branca como a morte. Comeou a abanar-se ainda mais
agitada e o motorista, um homem com um longo historial de sofrimento e um fsico semelhante ao de um sapo por passar tantas horas por dia ao volante de um carro,
comeou a tamborilar os dedos no volante do carro.
- Pare imediatamente com isso! - gritou ela com irritao. Os dedos dele pararam e no voltaram a mexer-se at que Jos Antnio apareceu junto da janela do carro,
com Agatha na sua peugada.
- Me, esta visita  muito inesperada - disse Jos Antnio, quase incapaz de dominar a fria.
- Ora, deixa-te disso. No me digas que agora j no posso aparecer para visitar o meu prprio filho. Por amor de Deus...
- Estamos no meio de um casamento... - explicou.
- Ah, muito bem. Ainda no te viste livre de Agatha?
Agatha fechou os punhos de raiva.
- Se vem para ser malcriada, mando-a j de volta para Buenos Aires!
- No me digas que perdeste o sentido de humor, meu filho?! Apesar de ter tido uma vida muito dura, consegui manter o meu. Era s uma piada. Como est, Agatha? Prazer
    em v-la - disse  nora, que no sorriu. - Quem  que se casa?
- George Bolton, um sobrinho de Agatha que veio de Inglaterra.
- Por amor de Deus, Blanco, mexa-se que eu estou aqui a fritar.
O motorista saiu do carro com esforo e deu a volta para lhe abrir a porta. A Seora Velasco l conseguiu sair. Os seus ossos eram velhos e quebradios e os seus
msculos tinham definhado. Alm disso tinha dores por todo o corpo.
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- Vim para aqui para morrer - declarou impassivelmente, tirando a bengala das mos de Blanco, que parecia derreter.
- Ainda bem - retorquiu o filho.
Ela sorriu, com o que os seus lbios desapareceram completamente, deixando apenas algumas linhas vermelhas que mais pareciam rios num mapa.
- Afinal no perdeste o sentido de humor. Mas eu no estou a brincar. Vim despedir-me - disse ao filho, que franziu o sobrolho e desviou o olhar, sem saber como
reagir. - No vou ser melodramtica, no  o meu estilo - disse ela, enquanto Agatha revirava os olhos. - Vou morrer discretamente e tu podes enterrar-me no jardim,
debaixo daquele eucalipto onde eu me sentava a chorar quando o teu pai desaparecia para Jesus Maria para dormir com outras mulheres.
- Quer vir provar a comida da Dolores antes de falecer? - perguntou Agatha, percebendo que a irritante mulher viera para ficar vrios meses.
- Nunca pensei que a Dolores me sobrevivesse - suspirou a me de Jos Antnio.
- Ainda no sobreviveu - recordou Jos Antnio.
- Mas vai sobreviver. Pelo menos vou poder comer as famosas empanadas antes de morrer.
- Por acaso h muitas - disse Agatha, ansiosa por voltar para junto dos convidados.
- Gostava de conhecer os noivos. Esto s a comear as vidas deles, enquanto eu estou a acabar a minha. Parece-me que isso tem algum significado. O padre est aqui?
Diz-lhe que no se v j embora. Podia fazer j o funeral, enquanto toda a gente est com disposio para uma cerimnia.
Contornaram lentamente a casa, a Seora Velasco a fazer caretas e a gemer a cada novo passo, recusando a ajuda do filho, que de vez em quando tentava pegar-lhe no
brao com as grandes mos calejadas.
- Espera que eu morra para me agarrares - rosnou a velha senhora. - At l hei-de andar sem ajuda. No estou entrevada!
Quando passaram, os convidados afastaram-se, pois pressentiam o odor a morte. Ela ia cambaleando sem um sorriso para ningum. Por fim, Jos Antnio parou  frente
de Susan e de George, que estavam com Pia e Tonito. As crianas recuaram quando viram a horrvel mulher, que
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mais parecia uma bruxa dos seus contos de fadas. Escondidos atrs do vestido branco de Susan, espreitavam  sua volta com certo receio. A Seora Velasco levantou
os olhos vtreos e pousou-os em George.
- Que homem to bem-parecido - disse num ingls perfeito. - Quem  a feliz noiva?
Voltou-se para Susan e pestanejou de surpresa.
- Valha-me Deus, rapariga! Que aconteceu  sua cara? - perguntou com grosseria.
Entre os convidados ouviu-se um zunzum. Susan sentia as crianas atrs dela mortas por contarem a histria.
- Fui atacada por um leo em frica - respondeu despreocupadamente.
- Por um leo?
- Um leo enorme. Se no tivesse sido o guia, que levava uma arma, tinha-lhe servido de jantar.
Susan trocou um olhar com George e sorriu triunfantemente. A Seora Velasco voltou-se para o filho.
- Levem-me para o meu quarto. Estou muito cansada da viagem. Tragam-me um prato de empanadas - disse, e olhou uma ltima vez para Susan antes de comear a cambalear
em direco ao quarto. - Parece que a usa como um trofeu! Como um trofeu!
Fora vencido outro obstculo, e fora fcil. De sbito, Susan percebeu que a cicatriz j no a incomodava tanto. Viu a velha senhora caminhar em direco ao quarto
e passou a mo pelo rosto. A Seora Velasco tinha razo. Faria da sua cicatriz um trofeu. Inclinou-se e beijou os midos, que no perceberam que ela lhes estava
a agradecer a histria do leo em silncio. Se no tivesse sido a sua pergunta inocente, nunca teria pensado nela.

CAPTULO 23
Muito mais tarde, depois de os ltimos convidados terem partido e enquanto as pequenas luzes que Agatha tinha acendido  volta do jardim ainda estavam acesas, George
e Susan retiraram-se para o quarto. Estavam exaustos de tanta felicidade. No dia seguinte partiriam para o mar da Prata, onde um amigo de Jos Antnio lhes emprestara
uma casa com vista para o mar. A passariam algumas semanas sozinhos antes de regressarem a Las Dos Vizcachas e ao resto das suas vidas.
No andar de cima, Jos Antnio bateu  porta do quarto da me. Esta no respondeu, o que era estranho; o que o filho esperava era um grito de que entrasse ou se
fosse embora de vez. O cheiro enjoativo da morte pareceu-lhe escapar-se por baixo da porta at s suas narinas. Fez uma careta de repugnncia e desconfiou que, desta
vez, a me honrara a sua palavra e morrera de facto. Quando entrou no quarto, o pequeno candeeiro na mesa-de-cabeceira iluminava as feies de cera da me, que olhava
o tecto com a boca aberta num grito silencioso. Aproximou-se da cama com relutncia. No sentiu nada. Nem tristeza, nem sequer alvio. Nunca gostara dela, nem em
criana. Depois olhou para a empanada meio comida que se encontrava na sua mo e para a espuma nos cantos da boca. Devia ter morrido sufocada com uma das famosas
iguarias de Dolores. Perguntou a si mesmo se ela teria vivido tantos anos se no fosse a sua sofreguido.
Agatha entrou no quarto e tapou o corpo com um lenol. Devia ter unido os maxilares da sogra para ela no ficar to grotescamente de boca aberta, mas no teve coragem.
J lhe chegava t-la visto morta. Abriu a janela e acendeu uma vela, menos por respeito do que para se ver livre do cheiro. Depois saiu do quarto o mais depressa
possvel, no fosse o fantasma da Seora Velasco ter ficado para trs.
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Jos Antnio e Agatha despiram-se e meteram-se na cama. De repente, Agatha lembrou-se de Dolores e do padre O'Bridie, que no voltara a ver desde que os mandara
para a estufa ao meio-dia.
- Jos Antnio - sussurrou ela, como se a morte pudesse ouvi-la.
- Que , Gorda? Estava a ver se conseguia dormir - resmungou delicadamente.
- Mandei o padre O'Bridie para a estufa com a Dolores para ver se lhe passava a bebedeira, mas desde essa altura que no voltei a v-los. Tu viste-os?
Jos Antnio riu-se com vontade.
- No, no vi.
- Que  que eu fao?
- Nada. Deixa-os. Quando o padre O'Bridie acordar de manh vai ficar em choque se a Dolores ainda estiver l com ele.
- Talvez ela o tenha deixado sozinho e tenha ido para o quarto dela - disse esperanadamente.
- Talvez, mas seria estranho que no tivesse ajudado as raparigas a levantar as mesas.
- Valha-me Deus! - lamentou-se Agatha. - Sabes perfeitamente que ela no est boa da cabea, Jos Antnio. No achas que devias mand-la embora?
- Enquanto fizer estas empanadas deliciosas est fora de questo - disse ele entre risadas.
- Uma das quais matou a tua me - recordou-lhe ela com uma voz sria.
- Exactamente! - respondeu ele, dando meia-volta na cama. - A Dolores fica!
Na manh seguinte, George e Susan apareceram no alpendre corados e sorridentes. Agatha e Jos Antnio j estavam a tomar o pequeno-almoo com os midos, que receberam
os noivos com gritinhos de satisfao. Agatha, que estava firmemente convencida de que as crianas deviam ser educadas para no temerem a morte, ficara muito surpreendida
quando, depois de lhes comunicar o falecimento da av, elas tinham gritado de alvio e satisfao, antes de comearem a comentar um com o outro como ela era feia
e velha. George e Susan mostraram mais respeito, embora nenhum deles tivesse nada de simptico a dizer da senhora.
- E agora est aqui, nesta mesma casa disse Tonito, - com os olhos a brilharem de excitao.
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- O corpo dela est l em cima - acrescentou Pia, atravs da boca cheia de croissant. - Depois vai ser enterrada no jardim, para os vermes poderem com-la toda!
Agatha estava prestes a intervir quando o rosto plido do padre O'Bridie apareceu  porta.
- Bom dia, padre O'Bridie - disse Tonito, com uma pronncia irlandesa irrepreensvel, rindo-se depois. O padre O'Bridie avanou com andar incerto, com os olhos to
brilhantes como ostras em salmoura.
- Que dia magnfico - disse ele, sentando-se  mesa. A sua voz no era to forte como na vspera.
- Sente-se bem, padre O'Bridie? - perguntou Agatha, perscrutando o rosto dele em busca de pistas. - Ontem sentiu-se muito mal. Deve ter sido do calor.
- Sim, claro. Ns, Irlandeses, no nos damos bem com estes calores - explicou, servindo-se de uma chvena de caf forte. Serviu-se de trs colheres grandes de acar
e engoliu a mistela. Depois pareceu ficar mais calmo.
- Espero que a Dolores tenha tomado bem conta de si.
- Oh, sim, tomou. Obrigada. Tomou muito bem conta de mim.
- Ainda no a vimos esta manh. A pobre Agustina teve de fazer o pequeno-almoo sozinha - acrescentou Agatha enchendo-lhe a chvena. - Depois do pequeno-almoo tenho
outra tarefa para si, padre
O'Bridie.
O padre levantou os olhos com apreenso.
- A me de Jos Antnio est morta l em cima. Morreu durante a noite, engasgada com uma empanada.
- Com uma empanada? - repetiu o padre, benzendo-se.
- Uma das famosas empanadas da Dolores.
- J chammos o mdico, mas como  domingo ele est a tomar tranquilamente o pequeno-almoo - disse Jos Antnio. - Eu disse-lhe que no era preciso vir a correr.
Seja como for, ela j no vai a lado nenhum, no  verdade?
- O esprito dela j est com Deus - disse o padre O'Bridie, grato pela mudana de assunto.
- Se Deus estiver para a aturar - acrescentou Agatha, secamente.
- Deus ama todas as suas criaturas - disse o padre O'Bridie, piedosamente, o que fez Agatha fungar com desdm. - E como esto Mister
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e Mistress Bolton esta manh? - perguntou, voltando-se para George e Susan, que ouviam em silncio, surpreendidos com tudo o que acontecera no dia do seu casamento
sem que eles prprios se tivessem apercebido de nada.
Nessa altura, Dolores apareceu no alpendre com uma travessa enorme de bolos acabados de fazer. Vinha mais uma vez vestida de preto, com o cabelo preso atrs, como
de costume. No sorriu nem olhou para o padre. Deu os bons-dias com voz seca, ps a travessa no meio da mesa e endireitou-se, com ar importante. Todos olharam para
ela, espantados.
- Sente-se bem? - perguntou Agatha. Dolores acenou afirmativamente.
- Quantas pessoas almoam? - perguntou, torcendo as mos com nervosismo.
- O Seor e a Seora George saem s onze, por isso somos s ns e o padre O'Bridie.
O padre pousou a chvena com um rudo inesperado.
- Eu tenho de ir antes de almoo. O servio do Senhor no pode atrasar-se - disse com um sorriso piedoso.
- Claro - respondeu Agatha. - Eu digo ao Gonzalo que o leve  estao.
Dolores pousou os olhos no padre. Durante momentos houve um silncio desconfortvel. A velha solteirona suspirou ruidosamente, deixou cair as mos e comeou a falar
em espanhol num tom de grande emoo.
- Eu sou uma mulher temente a Deus, padre O'Bridie - disse, o que o padre pareceu entender porque levantou a mo direita e fez o sinal da cruz.
- Que Deus a abenoe, seora, e perdoe os seus pecados, assim como perdoa os daqueles que pecaram contra si.
Dolores franziu o sobrolho e encolheu os ombros; no percebera uma s palavra. Agatha traduziu tranquilamente o que ele tinha dito. Dolores endireitou-se outra vez
e levantou o queixo antes de resmungar desagradavelmente e de voltar a entrar em casa.
Jos Antnio riu-se enquanto comia um bolo. Se Dolores tinha voltado  sua personalidade habitual, irritadia, o mundo estava de novo em ordem. Agatha no concordava.
Enquanto o corpo em decomposio da Seora Velasco continuasse em casa, nada estava em ordem no mundo.
George e Susan partiram para o mar da Prata e Gonzalo levou o padre O'Bridie  estao. Dolores resmungou todo o dia na cozinha, como
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tinha feito durante quase quarenta anos, enquanto Agustina punha a mesa para o almoo. Jos Antnio organizou o enterro da me porque Agatha se recusou a faz-lo
e se fechou no quarto com dores de cabea. Pia e Tonito espiavam o pai, observando fascinados como o corpo era metido no caixo e este selado.  noite, com pouca
cerimnia, foi cavada uma cova debaixo do eucalipto, onde a Seora Velasco pedira que a enterrassem, e o padre de Jesus Maria presidiu  breve cerimnia. Ao contrrio
do padre O'Bridie, era um catlico severo que levava as suas obrigaes muito a srio. Agatha, ainda com dor de cabea, sentiu-se encorajada pela sua piedade e humildade.
Achou que a sua f regressara e esteve de cabea baixa enquanto o padre disse as oraes. Quando, depois do servio religioso, Pia e Tonito tentaram chamar os ces,
eles no obedeceram. De orelhas baixas e rabo entre as pernas, preferiam voltar para casa. Em vida no tinham gostado da Seora Velasco, e mesmo depois de morta
continuava a deix-los inquietos.
Susan e George ficaram aliviados quando ficaram sozinhos e puderam gozar livremente da companhia um do outro. A casa que lhes tinham emprestado ficava num lugar
magnfico com vista para o mar. Um carreiro de areia dava acesso a uma praia deserta. O Outono j se instalara, secando as folhas das rvores e fazendo murchar as
flores, mas, mesmo assim, os grilos e os chilreios dos pssaros ouviam-se por toda a parte. Do mar vinha j uma brisa fresca que os obrigava a acender a lareira,
mas isso s contribua para tornar a casa ainda mais romntica. O cheiro da maresia e da madeira a arder, to caracterstico do Outono, enchia os seus coraes de
nostalgia. Passeavam pela praia enquanto o Sol-poente brilhava na superfcie da gua e recordavam os passeios que tinham dado, na praia, no Uruguai. A rejeio dela,
na altura magoara-o profundamente, mas o que tinham pela frente naquele momento era o resto das suas vidas para se amarem. Uma tarde, em que Susan estava reclinada
a ler na varanda, George foi dar um passeio pela praia sozinho. Os seus sentidos foram invadidos pelas recordaes de Frognal Point, a tal ponto que conseguia sentir
o cheiro do ozono e ouvir os gritos pungentes das gaivotas a planarem no vento. Sentou-se na areia com os cotovelos apoiados nos joelhos a olhar o oceano ao longe.
H meses que deixara de pensar na sua terra. A felicidade envolvera o passado numa nvoa to espessa que dificilmente conseguia vislumbr-lo. Nesse momento, com
o som do mar a bater na areia e a areia debaixo dos ps, recordou Rita.
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Pensou em Hannah e em todos os pequenos pssaros que ela adorava e que criava no seu jardim. Recordou Mrs. Megalith e os seus sacos de cristais e sorriu afectuosamente.
Recordou a sua prpria me, o seu amor pela arte e pela msica, e o seu pai, que quase no dizia uma palavra e gostava das suas nogueiras da maneira que devia ter
gostado da mulher. Geoffrey tambm tinha voltado da guerra. Seria possvel que a guerra o tivesse mudado tanto como a ele? Sofreria com sentimentos de culpa? E Alice,
compreend-lo-ia como Susan o compreendia a ele?
George j no tinha pesadelos, mas pensava muito nos amigos mortos. Via-os em estranhas formaes de nuvens ou sob a forma de reflexos nebulosos na superfcie de
lagos. Jamie Cordell, Rat Bridges, Lorrie Hampton era seu dever honr-los, recordando-os e sofrendo as acusaes da sua conscincia. Se fossem vivos, que estariam
a fazer nesse momento? Recordava muitas vezes os combates e as escaramuas entre as nuvens, o perigo, a adrenalina e o medo, o sentimento de dever e a camaradagem.
Depois sentava-se e olhava o que o rodeava, feliz por estar vivo
e em terra.
Levantou os olhos e viu Susan, que caminhava pela areia na sua direco e acenou-lhe. Trazia uma camisola comprida creme, que aconchegava bem ao corpo para se proteger
do vento, e trazia o cabelo solto, que lhe caa em ondas suaves sobre os ombros. Sentou-se ao lado dele.
- Em que ests a pensar?
- Recordaes.
- Voltaram?
- Sim, voltaram.
- Isso tinha de acontecer. No podes esconder-te delas o resto da vida. Deves saber isso.
Ele beijou-a na tmpora.
- Mas no h stio do mundo onde me apetecesse mais estar do que aqui.
- Fico contente por saber.
-  s o barulho das ondas a baterem na praia e a extenso do oceano...
- Recordou-te Frognal Point.
- Recordou.
- No continuas preocupado com Rita, ou continuas?
- De vez em quando penso nela, mas no estou preocupado. Tenho a certeza que a minha deciso foi a mais acertada.
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- Ainda bem.
- Mas sinto uma certa nostalgia. No  tanto em relao s pessoas.  sobretudo o lugar...
- Mais cedo ou mais tarde vais ter de me levar l - disse ela, aconchegando-se contra ele. - Gostava de conhecer a tua famlia e de ver a quinta onde cresceste.
Parece to antiquada e britnica...
George riu-se.
- Oh, tenho a certeza que ias adorar. A paisagem  uma manta de retalhos de pequenos campos verdes. So campos e mais campos estreitos, com sebes altas de mais e
pasto para as vacas. Nos bosques acima de Elvestree...
- Onde vive a bruxa - interrompeu Susan.
- Sim, onde vive a bruxa, h campos onde as campainhas so tantas que formam uma espcie de carpete azul, como um lago. O cheiro  inebriante. As rvores esto cheias
de pssaros porque Hannah, a me de Rita, e a me dela, a bruxa, lhes deitam comida todo o ano. s vezes, o vento  to forte que no alto das falsias temos medo
de ser levados. L em baixo, na praia, a areia  grossa. Quando ramos midos fazamos castelos de areia, que parecia cimento at o mar chegar e os destruir. Entre
as rochas formam-se poas onde h sempre caranguejos e ourios-do-mar. Em midos coleccionvamos conchas para as mostrarmos na escola. Mesmo a aldeia  encantadora,
com uma pequena loja, uma escola e uma velha igreja. Para comprar carne ou peixe fresco  preciso ir  aldeia. Em mido tinha tudo isto como adquirido, mas agora,
que j vi um pouco do mundo, percebo como tive sorte por ter crescido no meio de tanta simplicidade.
- Parece um stio encantador, George - disse Susan com sinceridade. - Estou ansiosa por conhecer esse lugar.
- Um dia havemos de l ir. Levamos os nossos filhos e eu mostro-lhes as coisas que fazia em criana - disse George, e Susan sorriu com ternura imaginando os filhos
que teriam os dois. - E havemos de fazer piqueniques nas praias de gua fria com areia no meio das sanduches... Sim, porque por mais que tentemos h sempre alguma
que l vai parar.
- Apesar da tua claustrofobia, adoras Frognal Point, George.
- Eu sei. S precisava de me afastar por algum tempo. Quando quiser regressar ainda l vai estar, provavelmente igual ao que era quando a deixei. Nessa altura vou
estar pronto para Frognal Point.
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Ao fim de duas semanas regressaram a Las Dos Vizcachas e instalaram-se na casa branca com telhado verde e uma varanda com uma boa sombra. Susan comeou a plantar
flores que viessem a cobrir as paredes, enquanto George voltou ao trabalho da quinta. Agatha cedeu-lhe os servios de Gonzalo, um homem com um temperamento dcil
que sabia tudo acerca da natureza, e Marcela, uma prima de Agustina que comeou a fazer a limpeza  casa. Jos Antnio cedeu-lhe alguns gachos que lhe pintaram
a casa por fora e o ajudaram a reparar o telhado. Susan decorou o interior com simplicidade e bom gosto, com mveis feitos pelos artesos de Jesus Maria. Sentiam-se
gratos em relao aos convidados, que lhes tinham oferecido desde louas a roupa fina de cama. Susan estava imensamente feliz com a sua nova casa. Era fresca mas
aconchegada, elegante sem ser extravagante, com uma vista magnfica para as serras distantes, perdidas na nvoa. Mas o mais importante  que era dela. Era uma verdadeira
casa de famlia com quartos suficientes para vrias crianas. No conseguia pensar num stio melhor para criar uma famlia. O ar era limpo, as plancies seguras
e a quinta suficientemente grande para os midos poderem brincar. Havia pneis para montar, ces para brincar e lebres que saltavam na pradaria e ofereciam um espectculo
encantador observadas por trs das ervas altas. Seria um verdadeiro paraso para qualquer criana. Esperava que no faltasse muito para serem abenoados com um filho.
Mais uma vez, sentiu o corao bater mais depressa, como um minsculo colibri a bater as asas ansioso por se libertar.
Um ano e meio passou rapidamente. O Inverno foi frio e desolador. Houve tempestades nas montanhas, que esmagaram a erva e levaram as lebres a proteger-se nas suas
tocas. Susan manteve as lareiras acesas, mesmo no quarto de dormir, e agasalhava-se com camisolas e casacos pesados e quentes. Todos os meses esperava ansiosamente
um sinal de que estava grvida e todos os meses chorava lgrimas amargas de desapontamento. Ela e George faziam amor com frequncia. Ela era irresistvel para ele
e a alegria das chamas no seu quarto de dormir tornava a casa no meio da pradaria ainda mais romntica para os dois. Os ventos sopravam, as janelas estremeciam e
George fazia amor no aconchego da cama de casal.
s vezes, durante o dia, quando George saa, Susan percorria os quartos mais pequenos e imaginava como os decoraria para os filhos.
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Sonhava com o bero de madeira, o mbile que havia de fazer com todos os animais do jardim zoolgico e as cortinas grossas para impedirem o sol matinal de entrar
pelas janelas nos dias mais quentes do Vero. Ansiava por um beb que pudesse amar e a quem pudesse dar ternura, e esse anseio comeou a afligi-la. Tonito e Pia,
em tempos uma compensao para os filhos que no tinha, comearam a recordar-lhe constantemente que ainda no engravidara. Via-os brincar e sentia os seus corpos
quentes abraarem-na como ursinhos de pelcia, e tinha de fazer um esforo monumental para esconder a infelicidade que, por vezes, quase a impedia de respirar.
Depois, uma noite do princpio do Vero, enquanto descansava nos braos de George a ouvir histrias de Frognal Point, teve uma ideia. Era um tanto extravagante tendo
em conta as circunstncias, mas Susan sentia-se desesperada.
- Querido, fala-me da bruxa de Elvestree.
George riu-se e Susan sentiu o riso dele vibrar profundamente no peito contra o ouvido dela.
- A famosa Mistress Megalith.
- Ela tem realmente poderes mgicos?
- No sei. s vezes acontecem coisas estranhas em Elvestree. Seria tolice consider-la simplesmente uma fraude.
- Que tipo de coisas? - perguntou Susan, sentindo o suor juntar-se  volta do nariz, receosa de que ele adivinhasse a razo da sua pergunta.
- Ela  uma curandeira - explicou George, franzindo o sobrolho ao tentar recordar uma ou duas histrias das muitas que corriam na aldeia. - Dizem que curou um cancro
do estmago do irmo do reverendo Hammond apenas com uma fotografia. O homem vivia em Bristol, e estava doente de mais para a visitar, de maneira que ela pediu-lhe
uma fotografia. No sei se se tratou apenas de sorte ou se foi uma coincidncia, mas a verdade  que o homem ainda hoje  vivo. O reverendo Hammond sempre se recusou
a acreditar que foi ela que o curou, mas ainda hoje tem um medo terrvel de Mistress Megalith. Acho que ela contraria a viso dele do cristianismo, embora o prprio
Cristo tenha sido um curandeiro, no  verdade?
- Uma fotografia? - perguntou Susan, tentando que George no se desviasse do assunto.
- No lhe pediu mais nada, e faz isso muitas vezes. A Rita disse-me que ela tem uma sala cheia de fotografias e de velas para aquilo a que
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chama "cura dos ausentes". Mistress Megalith ganhou alguns hbitos estranhos na ndia. Este ritual bizarro  provavelmente um deles. Diz que todos temos um campo
energtico  nossa volta que  captado pelas fotografias e ela  capaz de trabalhar com ele. A Rita falou-me de um grande nmero de sucessos. Um deles  o da me
dela, a filha de Mistress Megalith, que tinha dores fortes nas costas, quase de certeza por passar tanto tempo acocorada no jardim a observar pssaros. Mesmo a minha
me teve uma vez um problema na mo e o meu pai tem asma, e a asma dele piora muitas vezes na altura da ceifa por causa do p. Ele adora-a, mas tambm  verdade
que  ela a nica pessoa em toda a aldeia que liga s suas preciosas nogueiras.
- Gosto da maneira como falas do teu pai. Vocs os dois so prximos? - perguntou Susan, desta vez procurando desviar a ateno do seu verdadeiro interesse, fazendo
perguntas acerca de outras personagens de Frognal Point.
- To prximos quanto possvel de um homem que vive num mundo s dele. Quando muito, consigo aproximar-me da superfcie. Ele no  falador, mas, a julgar pelas linhas
do seu rosto, que mais parecem a casca de uma das suas preciosas nogueiras, pensa e sente com intensidade. Gosto muito dele.
Susan ouviu-o com pouca ateno, mas George no desconfiou de nada.
Na manh seguinte, escreveu a Mrs. Megalith e enviou-lhe a melhor fotografia sua que conseguiu encontrar com um pedido apaixonado de que a ajudasse a ser me.

CAPTULO 24
Mrs. Megalith leu a carta de Susan com interesse. A carta em si no a surpreendeu, mas o contedo sim. Susan estava certamente desesperada para contactar a av da
noiva desprezada de George. Como  evidente, Susan pediu-lhe que o assunto ficasse entre as duas, uma coisa que ofendeu um pouco Mrs. Megalith, que respeitava a
privacidade de todos os seus clientes, quer eles o solicitassem quer no. Sozinha numa sala cheia de pequenas candeias, cristais e mbiles, Mrs. Megalith estava
sentada num cadeiro de couro de olhos fechados e com as mos sobre a fotografia. Com os olhos da mente, viu a mulher de George como se ela estivesse ali  sua frente.
Ao contrrio do que acontecia na fotografia, o seu cabelo estava solto e encaracolado  volta do pescoo e cado sobre os ombros. Os olhos eram frios e distantes,
mas debaixo deles havia uma alma afectuosa com um anseio profundo por um filho, que comeava a envenen-la. Mrs. Megalith sentiu a angstia dela e o bloqueio de
energia causado por esse bloqueio. Bastaria Susan libertar-se dessas emoes indesejadas para conceber.
A bruxa de Elvestree viu a medonha cicatriz que desfigurava uma beldade em tempos celebrada, compreendeu a sua causa e o aborto que se lhe seguira. Estava quase
a pr a fotografia de lado quando teve uma viso do futuro. George e Susan regressariam para viver em Frognal Point, levados por circunstncias que no dominavam.
Fez um espao sobre a mesa ao lado da janela para a fotografia e ps alguns cristais escolhidos sobre ela: uma ametista sobre a cabea, uma heniatite entre os ps
e um pedao de quartzo rseo sobre o ventre. Depois acendeu uma vela, fechou de novo os olhos e invocou os espritos.
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- Dedico este momento  cura de Susan Bolton. Que ela consiga libertar-se da energia negativa e conceba o beb por que anseia - disse numa voz clara e firme.
Depois recostou-se na cadeira e ps-se a pensar na mulher com quem George casara. As vidas de ambos estavam enredadas na de Rita, embora ainda no o soubessem. Nunca
se libertariam um do outro. Recordou a pequena histria dos dois pssaros que em tempos contara  neta. Se Susan era o pssaro com asas, com a terrvel cicatriz
no rosto que testemunhava o seu passado angustiante, com o nascimento do filho voltaria a ser capaz de voar.
E assim foi. No Ano Novo chegaram as boas notcias da gravidez de Susan. A mulher de George escrevera  bruxa de Elvestree com uma confiana cega e o seu instinto
tinha acertado. Acordara uma ou duas vezes a meio da noite com uma sensao de ardor no ventre, como se o seu corpo estivesse cheio de melao quente. No era desagradvel,
apenas estranho, e imaginou que fosse influncia da av de Rita.
Susan no falou da gravidez a ningum enquanto no teve a certeza. George tinha notado que Susan no parecia a mesma, mas no disse nada. Preferiu fingir que no
tinha reparado em nada quando a viu correr para a casa de banho para vomitar e quando ela comeou a perder o apetite. Por fim, passados uns dois meses, esperou-o
quando ele voltou do trabalho, o rosto a arder de excitao com as notcias que ambos aguardavam cheios de ansiedade.
- Vamos ter um beb - disse ela, alegremente, abrindo os braos para o receber. George ficou maravilhado. Nos olhos dela, em que antes parecia haver apenas desapontamento,
brilhava uma nova esperana. Levantou-a em peso do cho e comeou a danar com ela vigorosamente na varanda. O sol forte da tarde continuava a escaldar a plancie
e os dois atravessavam as manchas de sombra e os rasges dourados do sol em direco  felicidade eterna.
- Eu tinha reparado que tu andavas um bocado plida - disse por fim, pondo-a no cho. Estavam ambos sem flego.
- Eu sei, mas no queria atrair o azar contando-te cedo de mais. Tinha de ter a certeza. - Ps a mo sobre a barriga e as lgrimas vieram-lhe aos olhos. - Sinto-me
to feliz, George.
O marido tomou-a de novo nos braos e beijou-a.
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- Agora tens de ter cuidado - lembrou ele. - Tens de deixar de andar a esfregar o cho de joelhos. Vamos contratar a Marcela a tempo inteiro. No quero que exageres.
Agora tens um beb em quem pensar.
- Um beb! - disse ela cheia de satisfao. - Imagina s, George! Vais ser pai! - exclamou, e foi a vez dele de corar, as rugas do seu rosto suavizadas. - Vou decorar
o quarto do beb mais perto da altura - continuou Susan. - Aquele homem simptico em Jesus Maria, o que fez as nossas camas, pode fazer um bero. Estou to excitada
que nem sei o que hei-de fazer!
- Eu sei o que podes fazer. Descansa! - recomendou ele com firmeza acompanhando-a ao banco corrido da varanda.
Susan sentou-se e uma vez mais sentiu no peito as asas trmulas do pequeno colibri engaiolado.
- A gravidez no  uma doena - disse ela, mas sabia que George fazia bem em trat-la com cuidado. No havia nada nem ningum no mundo inteiro to importante como
o beb que crescia dentro dela.
Charles Henry Bolton veio ao mundo no dia 24 de Outubro de 1949 com o mesmo entusiasmo com que viveria o resto da sua vida. Era um beb turbulento com os olhos azuis
da me e o sorriso malicioso do pai. Quando fez um ano, o seu cabelo louro forte j formava caracis e, se no fosse a sua pequena figura vigorosa, teria sido muitas
vezes confundido com uma rapariga. Susan tinha pintado comboios e avies nas paredes do quarto dele e fez-lhe um mbile com os animais do zoolgico com que sonhara
muito tempo antes de ele ser concebido. Recuperou rapidamente do trauma de dar  luz e habituou-se depressa a amamentar, como se j o tivesse feito muitas vezes.
Charlie, como lhe chamavam, adorava a me com uma intensidade que quebrava o gelo dos olhos que lhe haviam sido geneticamente transmitidos. Assim que foi capaz,
comeou a estender os bracitos e a agarrar-se ao pescoo dela como um ursinho branco. Choramingava quando a me saa da sala onde ele estava e gatinhava atrs dela
to depressa, que o pai comeou a dizer que nunca lhe ia valer a pena aprender a andar.
George no esperava a emoo com que viveu o nascimento do filho. Incrdulo, olhou a pequena criatura que era parte dele e de Susan e, no entanto, um estranho para
os dois, que ambos teriam de aprender a conhecer. O beb pestanejava para George, sem o ver, e ele percebeu que
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aquele ser passara simplesmente atravs de Susan por uma regio desconhecida do cu para viver a sua vida. Um dia cresceria e deixaria de precisar deles. Eles morreriam
e ele continuaria a viver, talvez dando origem a uma nova gerao, completamente independente deles. George nunca se sentira to consciente da passagem do tempo
e do rio contnuo da vida. Em Charlie, era a sua prpria imortalidade que sentia. Mesmo que no acreditasse na vida para alm da morte, sabia que viveria atravs
do filho. Depois pensou nos amigos que tinham perdido a vida na guerra e lamentou que no tivessem vivido o suficiente para sentir a alegria e o deslumbramento de
um instante como aquele.
Aos dois anos, Charlie j conseguia montar um pnei. Susan, grvida pela segunda vez, acompanhava-o num e noutro sentido enquanto ele se queixava de que queria fazer
aquilo sozinho. Pouco depois, os gachos comearam a revezar-se para o levar atravs das plancies nos seus prprios cavalos, a segurar as rdeas com uma mo e com
a outra o rapazinho, bem junto s suas barrigas. O pequeno adorava estes passeios e gritava deliciado, pedindo-lhes que andassem mais depressa. O mais jovem de todos,
um rapaz moreno do Norte com olhos rasgados que lhe haviam valido a alcunha de El Chino, vinha busc-lo ao fim do dia, depois do lanche, e levava-o para uma cavalgada
em que assustavam as lebres e obrigavam os pssaros a levantar voo. s vezes,  noite, Jos Antnio levava-o at ao puesto para ouvir os gachos cantarem acompanhados
pela guitarra de El Flaco. Jos Antnio, que no tinha autorizao para cantar em casa, cantava na sua voz incerta mas entusistica, enquanto Charlie danava  volta
da fogueira como um pele-vermelha. George observava o filho com orgulho. Fazia-lhe avies de papel que depois lanavam ao vento e trepava com ele s rvores. Ensinou-o
a distinguir os animais da plancie dos da montanha, e Susan comprou-lhe uma caixa de aguarelas para que ele pudesse pint-los. Faye, encantada com a notcia do
nascimento de mais um neto, enviou-lhe uma encomenda de livros de histrias e Trees plantou uma nogueira em honra de Charlie e deu-se ao trabalho de gravar uma placa
com o nome dele e a data de nascimento, para que quando os visitassem soubessem qual era a rvore dele. Contudo, nenhum deles falou a Hannah e a Humphrey do nascimento
do neto; haviam aprendido com os erros do passado.
Nem Faye nem Trees desconfiavam que havia em Frognal Point mais uma pessoa que sabia do nascimento do filho de George, e muito menos
287
que se tratasse de Mrs. Megalith. Pouco depois de Charles ter nascido, Susan enviou-lhe um carto de agradecimento. Mrs. Megalith ficou encantada por saber que os
tinha ajudado. Ao fim de tantos anos como curandeira, continuava a sentir o mesmo prazer quando conseguia aliviar o sofrimento de algum. Conseguia perceber, atravs
da fotografia de Susan, que ela j se libertara da sua sombra negra. A ave aprendera a voar mais alto e mais depressa do que alguma vez voara. Felicitou-se a si
mesma pelo que acontecera, mas sonhava que o mesmo acontecesse com Rita. No entanto, a neta continuava mergulhada na pena de si mesma, como se estivesse determinada
a nunca mais sair da situao em que se encontrava. Mrs. Megalith comeava a estar cansada de a ver sempre a chorar pelos cantos, a recolher-se cada vez mais dentro
de si mesma, teimosa como o burro que Maddie e Harry tinham comprado para o seu pequeno filho. Qual o homem que desejaria uma coisa daquelas? Se havia coisa que
Mrs. Megalith desprezava, era a inrcia. A vida era o que fazamos dela e era preciso agarr-la pelos cornos e lutar com ela. "Deus ajuda os que se ajudam a si mesmos,
e eu tambm", resmungava sozinha com os seus botes.
Pouco depois do nascimento de Ava Faye, um amigo de Jos Antnio, do Texas, que vivia em Buenos Aires, apareceu em Las Dos Vizcachas numa pequena avioneta particular.
Para excitao de Charlie, o avio sobrevoou a quinta em crculos enquanto ele acenava com os pais, a tia-av Agatha e o tio-av Jos Antnio, e os primos Pia e
Tonito. Dolores esgueirou-se da cozinha e ficou especada a olhar como um caruncho negro na relva, com os olhos protegidos do sol. Gonzalo e Carlos, Agustina e Marcela,
todos foram a correr para o parque para verem melhor, ignorando os gritos irritados de Dolores, que se queixava de que eles no tinham tempo a perder com coisas
daquelas. Todos fingiram que no a tinham ouvido, esperando em silncio que o padre trpego no a tivesse levado a voltar aos seus dias de m disposio, como se
ela estivesse determinada a punir-se no s a ela, mas tambm a todos os outros, por permitirem que a sua virtude fosse to terrivelmente comprometida.
O avio deu vrias voltas, durante as quais Bobby Chadwin podia ser visto em miniatura a acenar atravs da pequena janela. George no voltara a aproximar-se assim
de um avio desde que sara da RAF. Sentia as palmas das mos molhadas de suor e no tinha a certeza se isso se devia ao medo ou  excitao. Parte dele desejava
voltar a elevar-se nos ares,
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no ouvir nada a no ser o vento, a vibrao do aparelho e o seu prprio silncio. Outra parte recordava as batalhas, o fumo negro de um avio em espiral sobre o
oceano, o cheiro da cordite, a adrenalina a subir no sangue e o suor que lhe caa sobre os olhos. Recordou os momentos em que fora reduzido a uma mquina de matar,
em que no pensara em nada seno em tirar vidas. Essa parte dele receava os cus porque o homem que fora ainda a se encontrava, nas sombras entre a vida e a morte,
onde as nuvens negras se reuniam para eclipsar o Sol. No queria regressar.
Bobby Chadwin aterrou e foi-se aproximando lentamente do stio onde o esperavam.
- Que paisagens magnficas! - exclamou. - Aproveitei para dar uma vista de olhos pela quinta. Tem um aspecto magnfico, Jos Antnio.
Susan sorriu quando ouviu Bobby pronunciar Jos como Josie, com uma forte pronncia do Texas. Jos Antnio deu-lhe uma palmada nas costas e abraou-o, e ela achou
que ambos se pareciam muito com dois ursos selvagens, peludos e rudes, mas ao mesmo tempo encantadores e divertidos. Bobby beijou a mo de Agatha e despenteou os
garotos com uma carcia. Depois viu o pequeno Charlie, louro e bonito como um putti de Rafael.
- Gostavam de dar um passeio no meu avio? - perguntou ele. Pia e Tonito gritaram logo que queriam e penduraram-se nas calas dele, enquanto Charlie estava demasiado
desorientado para dizer fosse o que fosse. Susan ficou arrepiada com a ideia do seu precioso filho metido no pequeno avio e ps-se a desejar que o americano esquecesse
a oferta.
Almoaram no alpendre em casa de Jos Antnio enquanto Ava dormia no carrinho de beb  sombra. Depois de almoo, Pia e Tonito lembraram a Bobby a sua promessa e
Susan tentou distrair Charlie com a promessa de panquecas de dulce de leche para o ch. As suas tentativas de nada serviram, porque Charlie admirava infinitamente
os primos. Fizessem o que fizessem, imitava-os cegamente.
- Mam, eu tambm quero andar de avio - disse ele. - Pap, deixa-me, por favor?
Susan olhou para George e detectou imediatamente nos seus olhos um vestgio de medo, que confundiu com um reflexo do seu prprio medo.
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- Na verdade, acho que ele  pequeno de mais - disse ela, acariciando-lhe o cabelo encaracolado.
- Ora, deixa l, ele vai adorar - encorajou-a Agatha, de tal maneira submetida ao encanto do americano que nem pressentiu as reservas de Susan.
- Por favor, mam! - suplicou ele. - J tenho quase cinco anos!
- Eu sou um piloto muito seguro, garanto - disse Bobby com um piscar de olho a Charlie.
- Ningum sabe pilotar melhor que George - disse Agatha com orgulho. - Foi piloto de combate durante a guerra e foi graas  bravura dele que vencemos.
Charlie mexeu-se desconfortavelmente na cadeira.
- Porque no vais tambm? - sugeriu Jos Antnio, limpando o rosto com um guardanapo, por ter comido o seu bife com demasiado entusiasmo. - E podias levar os trs
midos - disse com uma risada e ps-se a palitar os dentes. - Ali  que ningum me apanhava. Sou um homem de terra.
- Seria um prazer mostrar-lhe esta minha senhora - disse Bobby referindo-se ao avio. - Gostaria muito de pilotar com um homem com a sua experincia.
No tinha escapatria. George no podia recusar sem sofrer uma humilhao.
Tomaram o caf enquanto os midos brincavam  volta da mesa, incomodando Bobby de cinco em cinco minutos para os levar por fim a dar um passeio.
- Quero levantar voo na tua senhora! - disse Tonito, entre as risadas dos adultos.
Por fim, o americano acabou o caf e com Charlie s cavalitas caminhou em direco ao campo onde deixara o avio. Susan entrelaou os dedos nos de George e sussurrou-lhe
que tomasse conta de si mesmo e do filho de ambos.
- Preciso de vocs os dois - disse-lhe com nervosismo.
George apertou-lhe a mo para a tranquilizar, embora o contedo do seu estmago se tivesse tornado lquido.
Bobby mostrou o seu avio a George com todo o pormenor, indicando-lhe com orgulho os extras mais recentemente adquiridos. Depois deu-lhe umas palmadas, como George
se lembrava de fazer com o seu Spitfire.
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Sentiu uma vaga de nostalgia e teve de se segurar a uma asa para no cair. Bobby prendeu os midos com cuidado ao banco de trs e depois fez sinal a George para
que subisse para o banco da frente. George respirava pesadamente, acenava com uma confiana que no sentia e por fim saltou para a cabina. Quando viu os indicadores
e os comandos recordou a primeira vez que voara sozinho, num TigerMoth. A maior parte das pessoas tinha dificuldade em aterrar, mas George tivera problemas com tudo.
Procurou afastar a m recordao, mas o incmodo no estmago no desapareceu.
Sem a sua mscara de oxignio, os culos e o capacete, George sentia-se nu, e sem o pesado pra-quedas e o colete salva-vidas Mae West sentia-se leve de mais. Ali
estava ele, de camisa, calas e umas alpergatas de lona nos ps. Os midos estavam sossegados no banco de trs, com os pequenos rostos excitados a espreitarem pela
janela. Antes que Bobby pudesse reparar, George limpou discretamente o suor que lhe corria em bica da testa. Passou a lngua pelos lbios e sentiu um aperto de pnico
na garganta. O avio estremeceu um pouco e quando ganhou velocidade comeou a fazer um barulho que recordava as ferramentas desarrumadas dentro de uma caixa. O fumo
do leo e da gasolina chegou-lhe s narinas e comeou a salivar quando a blis lhe atingiu o estmago. Tentou concentrar-se na prpria respirao para no passar
pela vergonha de ter de vomitar. Depois, precisamente quando pensou que no se ia conseguir conter mais, o avio levantou voo com suavidade. O cho afastou-se e
o cu encheu as janelas, um cu de um azul muito mais intenso que o do cu acima da costa de Inglaterra, mesmo num dia de Vero. George olhou  sua volta as rvores
miniaturas e as pequenas casas na vasta plancie, em que as sierras distantes de grande altitude irrompiam como as vagas de uma tempestade ao longe, no oceano. Sentiu
a ansiedade dissipar-se. Estava uma vez mais no cu, no meio de um cu tranquilo em que apenas o estrpito abafado do motor e as batidas do seu corao lhe recordavam
a sua mortalidade. No havia sombras, no havia morte, e o homem que em tempos lutava sedento de sangue desaparecera.
Bobby olhou para ele e sorriu.
- Sabe bem, no sabe? - perguntou-lhe, atravs do altifalante.
- Melhor que qualquer outra coisa no mundo inteiro.


Parte II

CAPTULO 25
Frognal Point 1963
Faye estava sentada a ouvir Thadeus tocar violino. L fora, o sol da tarde escurecia por trs das nuvens negras que percorriam furiosamente os cus. O vento de Outono
batia nas vidraas como se quisesse chegar ao stio onde a fogueira ardia, enchendo a pequena sala de calor. Estremeceu, no do frio, mas porque tinha medo de voltar
para casa no meio de semelhante tempestade.
Observou Thadeus, agora com setenta e oito anos, a longa barba grisalha e os olhos profundos inalterados pela passagem do tempo, e percebeu que o amava mais do que
nunca. Tinham crescido juntos e tinham-se fundido como os ramos de uma rvore. A ltima dcada contribura para fortalecer a relao de ambos e para a envolver ainda
mais em segredo.
Ele fechou os olhos, sentindo a msica. Era uma melodia triste, que lhe recordou o seu passado polaco e tudo o que amara e perdera na guerra.
Tambm ela fechou os olhos, para sentir o calor do fogo na face e o movimento das labaredas danando para alm das plpebras cerradas. A msica tornava-a melanclica.
George estava fora h muito tempo e ela duvidava, nos raros momentos em que no conseguia iludir-se a si mesma, que ele algum dia voltasse. Concentrava o pensamento
no filho e na vida que ele escolhera do outro lado do mundo. Ela e Trees tinham ido visit-lo duas vezes, a segunda j h mais de cinco anos. Tinham conhecido os
dois netos, Charlie e Ava, e passado trs semanas em casa de Agatha e de Jos Antnio. Contudo, os anos tinham passado, como as folhas no Outono, tantas e to depressa
que, aos sessenta e quatro anos,
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Faye receava que a ltima acabasse por cair sem que tivesse oportunidade de os ver de novo. Mas, mesmo que os visse outra vez, os seus netos seriam uns estranhos.
Hannah afastara-se dela. Nos ltimos tempos raramente a via, a ela ou a Humphrey, a no ser na igreja e por vezes na loja da aldeia. Nunca lhe perguntavam por George.
Talvez se Rita tivesse casado tivessem conseguido esquecer o assunto e seguir em frente, mas Rita estava com trinta e seis anos, sempre solteira, e vivia uma vida
cada vez mais excntrica numa casa alugada para as bandas de Bray Cove. Tal como a me, espalhava trigo no jardim para atrair os pssaros e passava horas e horas
a tentar convenc-los a comerem-lhe  mo. Faye ouvira dizer que ela tinha um jardim magnfico, em que todos os tipos de animais, dos ourios-cacheiros s lebres,
brincavam entre os canteiros de violetas e de dedaleiras. Quando no estava no jardim ou na praia, dirigia a biblioteca, onde trabalhava h mais de dez anos. Canalizava
toda a sua energia para organizar as tardes do leitor, com autores com quem Max a punha em contacto, e aulas de poesia com um professor reformado de Oxford que recentemente
se mudara para Frognal Point. No tinha namorados e no cuidava especialmente da sua aparncia. Usava o cabelo em desalinho e roupas largas e cmodas. Apesar do
seu estilo de vida catico, continuava muito bonita, com uma espcie de beleza natural; a sua pele era clara e jovem e os olhos tinham um tom invulgar de castanho.
Mantinha a inocncia juvenil e parecia no envelhecer como as outras pessoas. Havia qualquer coisa de intemporal em Rita. Faye tinha pena que ela nunca tivesse recomeado
as aulas de cermica, mas sabia que continuava a trabalhar o barro, porque, alm de haver uma imagem bastante dramtica de uma gara em pleno voo na biblioteca,
a dona da loja onde se compravam os produtos para trabalhar o barro tinha-lhe dito que Rita passava por l muitas vezes para comprar materiais.
Maddie continuava amvel, e mais encantadora do que nunca. A felicidade dera um brilho saudvel aos seus olhos e a maternidade parecia ter tornado a sua pele mais
radiosa. Tinha trs filhos: Freddie, nascido em
1947, Daisy, que nascera inesperadamente dois anos mais tarde, e Elsbeth, nascida dezoito meses depois de Daisy. Maddie disse a Faye que Rita adorava os sobrinhos
como se fossem filhos dela. Quando no estava na biblioteca ou a trabalhar em cermica, ia para Bray Cove ensinar-lhes coisas sobre pssaros, crustceos e outras
criaturas marinhas. Costumavam
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passear num pequeno barco e apanhar caranguejos, lagostas e trutas, depois acendiam fogueiras ao fim do dia na praia, de onde o vento levava as suas vozes acompanhadas
pela guitarra hesitante de Rita, comprada em segunda mo. Rita e Maddie faziam piqueniques como em crianas e comiam as sanduches com areia na praia, vendo as crianas
construrem pistas de caas ao tesouro, como as que George fazia em tempos. A vida para Maddie era um idlio. Harry tivera um grande sucesso com o seu livro, que
fora traduzido em quinze lnguas e convencera mesmo a crtica, mas no tinham mudado a sua maneira de viver nem comprado uma casa maior. Eram felizes assim.
Eddie surpreendera toda a gente quando se inscreveu na Universidade de Bristol, onde estudara Zoologia. Conhecera o marido quando trabalhava numa reserva de caa
em frica, dois ou trs anos depois de acabar o curso. Hannah conhecera ento a dor de se separar de um filho, tal como Faye alguns anos antes, mas nunca falavam
do assunto. Eddie construra ali a sua vida, com os animais da selva, e era duvidoso que alguma vez regressasse. No havia lees nem leopardos em Frognal Point e
os interesses de Eddie tinham-se alargado a outros animais que no os morcegos. Mas Hannah sentia um grande orgulho na filha e nunca mostrava como a sua ausncia
a entristecia.
Faye abriu os olhos de repente, quando um claro de relmpago encheu a sala de uma luz fosforescente. Sentou-se de um salto ao mesmo tempo que um trovo pareceu
romper os cus e as nuvens descarregavam uma chuva violenta. Thadeus parou de tocar e pousou o violino. Olharam um para o outro, surpreendidos com a violncia da
tempestade. Quando caiu o relmpago seguinte Faye ps-se de p.
-  melhor ir andando para casa - disse ansiosamente. - Trees no sabe onde eu estou.
- No podes conduzir com este tempo. No  seguro.
- Nesse caso espero que a chuva passe. Os troves so to violentos que a tempestade deve estar mesmo por cima de ns.
- No vai demorar. Vamos ver, anda - sugeriu, aproximando-se da janela.
Estava tudo to escuro que parecia noite. Um novo relmpago iluminou o jardim por um momento com um tom prateado. Faye ps-se ao lado dele e deu-lhe a mo.
-  lindo, no ? - disse ela, tranquilamente. - Em criana, lembro-me de o meu pai me ter dito uma vez que a trovoada era provocada
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pelo choque das nuvens. Acreditei at h relativamente pouco tempo. Parecia to lgico. - Thadeus riu-se.
- As crianas aceitam tudo o que lhes dizem e depois os adultos esquecem-se de corrigir o que lhes explicaram. Agora rio-me de algumas das coisas em que acreditei
em rapaz e em que continuei a acreditar at ser homem.
- Os adultos tentam tirar os medos s crianas com histrias.
- Ou assust-las para no irem para certos stios aonde no devem ir e para no se magoarem.
- Tenho saudades do George - disse ela de repente.
Thadeus envolveu-a nos seus braos enormes e apertou-a contra si.
- Eu sei - respondeu com uma voz que pouco mais era que um gemido. Tambm ele sabia o que era ter saudades dos filhos. - Os nossos filhos pertencem a Deus e s temporariamente
so postos ao nosso cuidado. Mas isso no facilita as coisas por a alm...
- O amor  muito doloroso - disse ela, escondendo o rosto no peito dele. - Amar-te tambm me faz sofrer, Thadeus.
Ele rodeou-lhe a cara com as mos fortes e acariciou-lhe as faces com os polegares.
- Mas  graas ao sofrimento que sabemos apreciar a felicidade, Faye - retorquiu com um sorriso, e uma lgrima estremeceu-lhe nas pestanas como uma gota de orvalho
na teia de uma aranha.
Quando a tempestade abrandou um pouco, Faye foi-se embora para casa. Concentrou-se na estrada, mas a nica coisa que conseguia ver era Thadeus. Se ao menos Trees
desaparecesse, pensou com egosmo, poderia passar o resto dos seus dias na companhia de Thadeus. Ele precisava dela. Trees, por outro lado, no precisava de nada
seno das suas nogueiras.
Quando chegou a Lower Farm, o vento continuava forte. As folhas andavam num rebulio por toda a parte, sopradas contra o edifcio da quinta como ondas que batessem
em rochedos. Protegeu a cabea e correu para dentro de casa, com os sapatos a chapinharem nas poas que se tinham formado no caminho. Mal entrou chamou por Trees
e, quando no ouviu resposta, pensou que devia ter adormecido a ler os jornais  lareira na pequena sala de estar. Ps a chaleira ao lume e tirou duas chvenas do
armrio. A cozinha estava silenciosa como uma caverna escura.
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Quando acabou de fazer o ch serviu as chvenas e levou-as para a sala de estar, que encontrou vazia.
- Trees! - gritou para o trio, surpreendida.
Era impossvel que tivesse sado num dia como aquele, mas a verdade  que no estava em casa. Sentou-se no cadeiro dele e bebeu o ch sozinha, tentando adivinhar
onde se teria ele metido e ficando um pouco preocupada. Depois teve uma ideia. No era impossvel que, mesmo num dia assim, Trees tivesse sado para ver as malditas
nogueiras.
- Malditas rvores! - praguejou, irritada por ter perdido tanto tempo a preocupar-se quando era evidente que ele estava a mimar as estpidas das rvores. De certeza
que uma delas tinha sido arrancada durante a tempestade ou fora atingida por um raio.
Decidiu ir procur-lo. Vestiu o casaco e correu pela relva at ao pequeno bosque onde estavam plantadas nogueiras de todos os tamanhos em perto de um hectare de
terreno muito cuidado. Gritou o nome dele mas no obteve resposta. Comeou a sentir o medo a apertar-lhe a garganta. Pressentindo que acontecera alguma coisa, comeou
a andar mais depressa.
- Trees! - gritou de novo.
Continuou a no obter resposta. Depois viu  sua frente que um ramo grosso de uma rvore antiga fora atingido por um raio e cara no cho ao lado do tmulo de Mildred.
Engoliu em seco e levou a mo  boca. Quando se aproximou viu duas botas e um par de calas castanhas e por fim o corpo inerte do marido, com a cabea ao lado do
tmulo de Mildred. Correu para ele e baixou-se, tentando reanim-lo. Encostou o ouvido ao corao dele, rezando com todas as suas foras para ouvir nem que fosse
uma batida fraca, mas o seu peito era preenchido apenas por um silncio de morte. Trees partira. Devia ter cado e batido com a cabea na pedra tumular. Aconchegando-o
nos seus braos, chorou em silncio e desejou que tudo tivesse sido rpido, que ele no tivesse sofrido. A ideia de que ele tivesse pedido ajuda enquanto ela estava
nos braos do amante era insuportvel.
As notcias da morte sbita de Trees percorreram Frognal Point como uma brisa martima no Inverno. Quando Faye viu o corpo partir numa ambulncia, um carro chegou
 quinta e parou  frente da casa. Era Hannah. Faye estava to perturbada que Hannah se esqueceu do seu ressentimento e abraou a velha amiga.
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- Tenho muita pena - disse, num tom de voz em que transparecia a sinceridade. Subitamente, perante a morte, percebera como a zanga entre as duas era na realidade
mesquinha. As duas mulheres abraaram-se  chuva e depois entraram em casa, que estava quente, mas vazia.
Faye deixou-se cair numa cadeira enquanto Hannah punha a chaleira ao lume e se encostava ao fogo. Cruzou os braos; no seu rosto transparecia a simpatia.
- Ainda me custa acreditar, Faye. Que estava ele ali a fazer num dia assim?
Faye levantou os olhos vermelhos e suspirou.
- As malditas rvores dele - disse com um riso amargo. A sua paixo acabara por mat-lo.
- Ele gostava tanto das nogueiras - murmurou Hannah com um aceno de incredulidade.
Houve uma longa pausa enquanto ela tirava duas chvenas de ch do armrio e duas colheres de uma gaveta. Os lbios de Faye comearam a tremer.
- Eu nem sequer estava c - disse, num sussurro.
- Onde estavas ento?
- Tinha ido  aldeia visitar o Thadeus.
- O velho polaco? - perguntou Hannah franzindo as sobrancelhas. Nem sequer sabia que Faye conhecia Thadeus.
Faye acenou afirmativamente.
- Ele tinha-me encomendado uma pea de cermica, um urso, e eu tinha-a acabado. Fui levar-lha e acabei por me demorar vrias horas.  um homem fascinante. Se eu
soubesse... - disse, e inclinou a cabea, sentindo-se culpada pela facilidade com que a mentira lhe ocorrera. Hannah semicerrou os olhos, pressentindo que havia
na histria mais do que Faye lhe estava a contar. - Se calhar, chamou-me - continuou Faye num estado lastimvel. - Talvez no tenha morrido instantaneamente. E se
ele tiver pedido ajuda? Enquanto isso, estava eu a beber ch com Thadeus.
Hannah voltou-se e deitou gua a ferver no bule.
- No te atormentes, Faye - disse, procurando tranquilizar a amiga. - No podias ter feito nada. E agora j est num stio melhor.
Serviu as chvenas de ch e foi sentar-se do outro lado da mesa da cozinha. Foi ento que reparou que Faye tinha o cabelo solto. Hannah j no se lembrava da ltima
vez que a vira assim.
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- Que pensas fazer? - perguntou Hannah, tomando um gole de ch. Faye ps-se a olhar para a chvena.
- George ter de vir para tomar conta da quinta. Eu no sou capaz de o fazer sozinha.
Hannah ficou rgida quando a ouviu.
- E achas que vem? Ele deve ter a vida dele organizada por l.
- H-de vir - disse ela, sorrindo um pouco  ideia de que voltaria a ver o filho. - A ideia era s ele partir um ano para aprender agricultura e depois voltar para
aqui para trabalhar com o pai. As coisas no correram como nenhum de ns tinha pensado. - Levantou os olhos e olhou implorativa para Hannah. - Ns no gostmos do
que aconteceu nem com o George nem com a Rita. Eu queria que George vivesse aqui connosco. Ele j tinha estado tanto tempo fora, na guerra, que foi horrvel v-lo
partir outra vez. Eu gosto da Rita como se ela fosse minha filha e agora j no a vejo. S sei notcias dela pela Maddie.
- So tudo coisas do passado - disse Hannah.
- Eu sei. J passaram dezoito anos desde que George voltou da guerra. Agora estamos velhos. Quem diria? Nunca imaginei que havia de chegar aos sessenta e quatro.
Trees estava quase com setenta anos, o que j  ser velho. Parece impossvel que j estejamos nos anos sessenta! - disse, com um encolher de ombros. - Est na altura
de o George voltar para casa e ocupar o lugar do pai. Alm disso, tenho a certeza que vai querer faz-lo. Ele adorava o pai. Isto vai deix-lo destroado.
- Diz-me uma coisa - arriscou Hannah numa voz suave, enquanto a sua cabea dava voltas a pensar na maneira como Rita reagiria quando soubesse que George ia voltar.
- O George tem filhos?
- Dois, um rapaz e uma rapariga. - Hannah respirou fundo.
- Que bom. Os netos so uma bno para ns.
- S tenho pena de no os ter visto crescer. Agora o Trees nunca os vai conhecer.
Quando Hannah se foi embora ia triste. Sentia-se infeliz com a morte de Trees e ainda mais por ter deixado que a amizade com Faye se deteriorasse, mas tambm, tinha
conscincia disso, porque George ia voltar. Perguntava a si mesma como receberia Rita as notcias. No conseguia perceber porque no tinha a filha casado com outro
homem qualquer. As coisas teriam sido muito menos complicadas se ela tivesse a sua prpria
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famlia, em vez de ter de partilhar a de Maddie. Apesar de tudo, a filha parecia satisfeita. Mantinha-se ocupada e tinha um amigo leal em Max, que se tornara um
produtor de sucesso em Londres. A sua me nunca parava de lhe lembrar como ele era brilhante e como se tornara conhecido. Estava a comear a trabalhar tambm em
televiso, embora Hannah no conseguisse perceber que vantagens havia nisso, pois estava mais que satisfeita com a sua telefonia. Mas para ela, mais importante que
a carreira dele, era que conseguia fazer Rita rir-se como mais ningum, com um riso profundo, sentido, que a fazia corar e lhe trazia lgrimas aos olhos. Nesses
momentos passageiros, Hannah percebia o potencial de Rita, aquilo que a filha poderia ter sido se tivesse feito outras escolhas. Max parecia fazer vir ao de cima
a jovem confiante que George obrigara a esconder-se. Quando ele estava com a filha era como se George nunca tivesse existido. Certamente, um dia, Max arranjaria
uma rapariga simptica, casaria, e deixaria de ter tempo para Rita. Era um homem atraente e bem-sucedido. Se houvesse a menor possibilidade de surgir alguma atraco
sexual entre os dois, j teria surgido.
Quando Mrs. Megalith soube da morte de Trees deixou-se cair numa cadeira e ficou parada, a olhar em frente, como se estivesse em transe. Os gatos juntaram-se aos
ps dela, pressentindo a sua infelicidade, e um gato cinzento s riscas, especialmente atrevido, saltou-lhe para os joelhos e acariciou-lhe o brao com o focinho.
Contudo, Mrs. Megalith deixou-se ficar imvel, como se no tivesse dado por ele. Fora uma das pessoas que tinham passado pela vida de Trees que o haviam compreendido.
Tambm ela o amara, como a um amigo querido. Tinham falado interminavelmente sobre as nogueiras deles e ele tinha-a consultado muitas vezes sobre a melhor maneira
de as tratar. Ningum sabia dos cristais que ele enterrara junto das razes nem dos rebentos que trouxera para serem cuidados na estufa de Elvestree. Com ela, Trees
tivera -vontade para falar de tudo o que o preocupava, incluindo de Faye. Embora nunca o tivesse admitido abertamente, Mrs. Megalith sabia que ele pensava que Faye
tinha um amante. Este medo concentrara-o ainda mais nas suas nogueiras, que eram fiis e dedicadas, e mantinha-se assim alheado da realidade vazia que era o seu
casamento. Quanto mais Faye recuava, mais desviava para elas o amor e a ateno que devia ter dedicado  mulher, e por isso elas cresciam to saudveis e com to
magnfico aspecto. Ia sentir a sua falta to terrivelmente como as nogueiras.
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Hannah foi a Bray Cove nessa tarde contar as tristes notcias a Harry e a Maddie. Estavam em casa com Rita e com os filhos e j sabiam.
- Esta tarde encontrei o reverendo Hammond e ele contou-me - disse Maddie. -  triste, no ? Mas a verdade  que j no era novo. Que idade tinha? No estava quase
com setenta anos?
- Setenta anos no  ser velho, Maddie. O teu pai tambm est quase a chegar l.
- E como  que a Faye aceitou a morte dele? - perguntou Harry. - Sempre tive muito respeito por Trees.
Hannah respirou fundo e olhou para Rita.
- Est muito triste - respondeu, consciente de que teria de acabar por falar do regresso de George.
-  verdade que ela o encontrou debaixo de uma rvore? - perguntou Maddie. -  irnico, no ?
- Encontrou, mas est muito angustiada por no ter estado l na altura em que tudo aconteceu.
- E onde estava ela? - perguntou Rita, levantando os olhos.
- Tinha ido levar uma pea de cermica ao Thadeus Walizhewski, sabes, o velho polaco que vive perto da aldeia.
- A srio? - respondeu Rita, com uma certa hostilidade na voz. - Nesse caso, quando o marido morreu ela estava com outro homem?
Hannah endireitou-se na cadeira, tensa e surpreendida.
- Rita! Aquilo que ests a insinuar  um insulto a Faye! - retorquiu, para fria de Rita, que corou at  raiz dos cabelos de to furiosa. - Nunca a tinha visto
to perturbada - continuou Hannah. - Parecia desorientada e tinha os olhos vermelhos de tanto chorar. Esteve ao lado do corpo,  chuva, at a ambulncia chegar.
A Alice disse-me que os homens da ambulncia tiveram de a obrigar a soltar o corpo dele.
- Que horror! - disse Maddie.
- Quando l cheguei tinha o cabelo solto. Acho que nos ltimos trinta anos nunca a tinha visto assim.
Rita ergueu os olhos.
- Eu vi - disse, com uma indiferena estudada.
- A srio? - disse Hannah, erguendo as sobrancelhas.
- Sim. O Thadeus foi muito amvel para mim depois de o George se ter ido embora e um dia fui visit-lo, mas ele estava com a Faye no jardim, de. maneira que acabei
por me ir embora sem lhe falar. Nesse dia, ela tambm tinha o cabelo solto.
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Ningum disse nada. Mesmo Maddie ficou em silncio enquanto todos olhavam surpreendidos uns para os outros. Nenhum deles teria desconfiado que Faye tivesse um amante.
Hannah respirou fundo e mudou de assunto, para o nico capaz de impedir Rita de fazer mais revelaes.
- O George vai voltar para casa para tomar conta da quinta - disse, e viu a filha abrir a boca num grito silencioso.

CAPTULO 26
George andava a trabalhar na pradaria quando um rapaz a cavalo chegou a casa dele com um telegrama chegado de Jesus Maria. Susan recebeu-o com um mau pressentimento.
Percebeu instintivamente que no podiam ser boas notcias. O envelope tinha um ar pesado e formal, o tipo de coisa em que se comunica a morte de um familiar prximo.
Estava ansiosa por abri-lo para lhe poder dar as notcias com mais delicadeza, mas resistiu, por respeito  privacidade dele.
O telegrama passou a manh ameaadoramente imvel na mesa da sala de estar e sempre que passava por ele Susan sentia ali a presena ameaadora do destino, no pequeno
envelope cor de marfim com notcias que poderiam mudar todo o futuro de ambos.  tarde, Charlie e Ava voltaram da escola com instrues para ela lhes fazer fatos
para a pea da escola. Os dois atiraram as malas para o cho, beijaram a me e saram a correr em direco ao puesto, onde El Chino os esperava com pneis reluzentes
para os levar a passear pela pradaria, que naquela altura do ano, com a chegada da Primavera, estava salpicada de flores. Susan viu-os partir e receou por eles.
Se aquele telegrama trouxesse as ms notcias que ela temia, tambm as suas jovens vidas mudariam.
Por fim, George regressou, coberto de poeira e cansado do longo dia de trabalho. Ava correu para ele e abraou-o pela cintura, mas Susan esperou, mordendo o lbio,
com o envelope na mo.
- Que  isso? - perguntou ele, dando um beijo no rosto da filha.
- Chegou esta manh.
- E no o abriste? - perguntou George, surpreendido.
- Vem dirigido a ti - disse ela, entregando-lho. - Charlie, Ava, vo arrumar o vosso quarto de brincar. J est na hora de mudarem de roupa para o jantar.
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Os midos resmungaram que no percebiam porque no arrumara a Marcela a sala deles como era normal as empregadas fazerem. Depois de eles sarem George abriu o envelope.
Cheio de tristeza, leu as notcias. Susan percebeu pela expresso do rosto dele que eram to ms como esperara.
- O meu pai morreu - disse ele, com um aperto no peito.
Susan abraou-o e sentiu a tristeza penetrar no seu prprio corao. Teriam de partir da Argentina e construir um novo lar em Inglaterra. Sempre aceitara a ideia
de viver em Frognal Point, mas de repente, quando confrontada com a realidade, sentia-se insegura e amedrontada. Para os filhos seria uma grande aventura. Iam adorar
o mar e a areia, as poas de gua entre as rochas e as grutas, mas ela teria de ser confrontada tanto com o passado de George como com o seu e com os demnios que
ali deixara.
George sentou-se com a cabea entre as mos.
- No me despedi dele - disse numa voz fraca. - H cinco anos que no o via, e agora no vou voltar a v-lo. - Abanou a cabea como se no acreditasse, com um sentimento
sbito de abandono. Era inimaginvel. O pai sempre lhe parecera to forte e resistente como uma nogueira. - Nem sequer era velho. A minha me deve estar de rastos.
Temos de regressar.
Susan sentiu um ardor no estmago.
- Claro que sim - disse, tranquilizadora, surpreendida com a confiana que parecia transparecer na sua voz.
- No te importas?
Olhou para os olhos infelizes do marido e sentiu a ansiedade dissipar-se na compaixo que a dor dele lhe despertava. Beijou-o junto da orelha.
- Claro que no me importo, meu amor. A minha casa  onde tu estiveres. Havemos de nos adaptar. Vais ensinar os midos a apanhar caranguejos e comer sanduches de
areia e vamos comear uma nova vida. A vida  uma aventura, e desde que estejamos juntos havemos de ser felizes.
- s uma mulher incrvel, Susan. No fazes ideia de como te admiro. - Ela passou a mo pelo cabelo sujo de poeira dele.
- Fao, sim - respondeu.
A ideia de irem para Inglaterra deixou os filhos de George excitados. O pai fez o possvel por que tudo parecesse interessante e Susan procurou
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transmitir-lhes o seu prprio entusiasmo. Charlie s pensava na ideia de passar horas e mais horas metido dentro de um avio, mas para Susan e George a viagem representava
a parte mais desagradvel. Jos Antnio e Agatha ficaram tristes com a ideia da partida. Nos ltimos dez anos, George tornara-se um filho para ambos; alm disso,
gostavam de Charlie e de Ava como se fossem seus netos. A quinta ficaria mais parada e triste sem o riso e a energia de ambos e as noites tornar-se-iam longas e
vazias. Agatha consolava-se com a ideia de que George s viera para ficar um ano e acabara por ficar mais de dez, mas Jos Antnio no percebia porque no haviam
de ir apenas por algum tempo para consolar Faye. "As vidas deles so aqui connosco. Eles pertencem tanto a Las Dos Vizcachas como ns" refilava furioso. E quando
Jos Antnio se sentia infeliz descarregava a sua fria.
No entanto, nem a raiva de Jos Antnio conseguiu persuadi-los a ficar. Tristemente, esvaziaram a casa mas no as recordaes, que sempre ali ficariam, frgeis e
firmes. Susan olhou uma vez mais a casa que acabara por amar intensamente. O mundo exterior esperava-a com desafios que tivera esperana de nunca ter de enfrentar.
Esperava que Frognal Point a recebesse e perdoasse a George ter partido.
Na noite anterior  partida jantaram com Jos Antnio e com Agatha e depois sentaram-se no alpendre, como dez anos antes, quando Susan chegara. A noite estava quente
e o ar cheirava a flores. Aspiraram o aroma campestre a eucaliptos e jasmim, a erva acabada de cortar e a madressilva, determinados a nunca esquecer aquelas coisas
a que se tinham habituado como se tivessem direito a elas. As borboletas esvoaavam  volta do candeeiro e o canto estridente dos grilos parecia ameaar acordar
os campos adormecidos.
- Fomos muito felizes aqui, no fomos? - filosofava George, nostlgico. -  um lugar idlico. Devia estar satisfeito por regressar a Frognal Point, mas no estou.
A minha casa  aqui.
Susan pegou-lhe na mo e acariciou-lhe o queixo com o dedo.
- O mais certo  chegares  concluso de que l nada mudou.
- S o meu pai  que j l no est. - Inspirou o fumo do cigarro tentando imaginar Lower Farm sem Trees. - Parece-me impossvel. Ele era a minha casa. Agora vai
ficar diminuda, em todos os sentidos. Era um homem tranquilo, mas enchia a casa com a presena dele. Nunca me hei-de esquecer dele com as botas e o bon e com a
Mildred ao lado dele.
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Adorava o campo, a natureza, as rvores e os pssaros. E contagiou-me com a paixo dele. Acabei por tambm me transformar num homem do campo. Alm disso, era um
homem sensato. Nunca falou muito. Acho que isso deixava a minha me muito frustrada. Ela  uma pessoa alegre e afectuosa. Mas adorava-o. Todos o adorvamos.
- Era um homem muito particular. Sinto-me satisfeita por t-lo conhecido. Era um excntrico maravilhoso.
George sorriu.
- Detestava gastar dinheiro. A minha me contava que durante a guerra s fazia trocas. Dava ovos por senhas para roupa, trocava galinhas por peixe, porcos por fruta
da estufa mgica de Mistress Megalith. Cavou metade de um campo para fazer uma estufa. Achava que os outros passavam necessidades sem que isso se justificasse. Enquanto
o resto do pas sofria com os racionamentos, o meu pai produzia manteiga, leite e queijo, natas e ovos. Na verdade, quando regressei de Frana tinham melhor aspecto
e estavam mais saudveis que nunca. Ia para toda a parte naquela sua camioneta velha porque o combustvel para os veculos agrcolas no estava racionado. Era um
homem cheio de iniciativa e de energia. Deixava a minha me louca com os baldes que punha debaixo das telhas partidas e com a maneira atabalhoada como reparava o
telhado em vez de contratar quem o fizesse. Detestava gastar dinheiro para pagar a quem fizesse coisas que ele prprio sabia fazer. Agora, a minha me vai comear
a chorar por causa dos velhos baldes que lhe vo recordar o meu pai. Vai perceber como na realidade apreciava todas as manias dele. Se calhar, agora que ele se foi,
vai comear ela a cuidar das rvores.
- Se ela no o fizer, podes faz-lo tu - disse Susan, apoiando a cabea no ombro dele.
- No fundo, no fundo, sempre soube que um dia teria de tomar conta da quinta, quando o meu pai morresse, mas nunca pensei que isso acontecesse to cedo. Para ser
honesto, em parte tenho medo de regressar, Susan.
- Eu sei - respondeu ela suavemente, esforando-se por no reforar o seu prprio medo. - Mas agora ests comigo. Tens filhos, uma famlia. Concentra-te nas coisas
de que gostavas l, como o mar, a praia e a quinta onde foste criado. Agora vais ser tu a dirigi-la. A verdade  que no podias continuar aqui, a trabalhar para
o Jos Antnio, por muito que gostasses de o fazer. Um homem como tu devia administrar os seus
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prprios negcios, tomar a iniciativa.  a altura certa para irmos embora, acredita no que te digo.
- Mesmo assim vai ser duro partir, no achas?
- Podemos sempre voltar - disse ela. No entanto, sabia que se partissem seria para sempre.
Na manh seguinte, Dolores queimou as torradas, cozeu de mais os ovos de Jos Antnio e estragou o caf. Pia e Tonito queixaram-se de que os croissants sabiam a
carvo. Depois a cozinheira, profundamente infeliz, apareceu no alpendre a torcer as mos e a limpar o rosto molhado de lgrimas com o avental.
- Hoje no posso trabalhar - declarou de forma dramtica. - No me sinto bem.
Com isto deixou Agustina e Carlos a limparem o que eram, sem qualquer dvida, os restos do pequeno-almoo mais insatisfatrio que qualquer dos presentes alguma vez
tomara em Las Dos Vizcachas. Agatha e Jos Antnio olharam-se incrdulos. Dolores nunca mostrara a menor simpatia por George, mas no havia dvida de que a partida
dele a perturbara.
George, Susan e os filhos foram a casa despedir-se. Tinham pouca bagagem. A maior parte das coisas j tinham seguido de barco. Agatha abraou-os, escondendo as lgrimas
com o humor. Pia chorava desolada, sobretudo quando se despediu de Susan, de quem gostava quase como da me. O lbio inferior de Tonito estremeceu, mas, como os
homens no choram, manteve as costas direitas e a cabea erguida como o pai. Porm, Jos Antnio estava de rastos. Sabia que as estaes continuariam a ir e a voltar
e o ciclo da vida continuaria como sempre, mas o seu mundo nunca mais seria o mesmo depois de George e a famlia deixarem de fazer parte dela. Deu-lhes demasiadas
palmadas nas costas, disse demasiadas piadas sem graa e depois, quando o carro desapareceu deixando atrs de si apenas uma nuvem de p e o silncio da sua angstia,
arreou o cavalo e partiu numa cavalgada pela plancie que durou at ao cair da noite.
Todos sabiam que Mrs. Megalith no gostava da igreja em Frognal Point; ningum esquecera o dia em que ali aparecera com os seus gatos, mas abriu uma excepo e entrou
l no dia do enterro de Trees. No
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chegou atrasada e postou-se com ar importante junto da coxia. Teve o cuidado de no fazer barulho com a bengala e vestiu-se de preto da cabea aos ps pela primeira
vez na vida. Acompanhada por Max, muito elegante com o seu fato feito  medida em Savile Row, e por Ruth, sentou-se atrs de Hannah, de Humphrey e de Rita sem dizer
uma palavra. Apenas a sua selenite brilhava no escuro, como se estivesse a reunir energia para um bruxedo.
A igreja estava decorada com ramos de arbustos de bagas e frutos e outros apenas com belas folhas de Outono. Por cima do caixo de Trees, longo e fino como ele fora,
estava um pequeno cesto com nozes da primeira nogueira que havia plantado. O reverendo Hammond estava  frente do altar, procurando com os olhos algum gato que pudesse
ter-lhe passado despercebido. Tinha visto Mrs. Megalith e isso bastara para o fazer tremer, porque, apesar de invulgarmente abatida, a velha senhora parecia cada
vez mais uma bruxa, com as suas roupas negras e a selenite a brilhar de forma ameaadora. Mas Mrs. Megalith no estava com disposio para levantar problemas. Sempre
gostara muito de Trees e viera despedir-se, embora, com a sua idade avanada, estivesse certa de no faltar muito para se ir reunir a ele.
Faye lamentava que George no tivesse chegado a tempo para o funeral. Estava sentada no banco da frente com Alice, Geoffrey e os netos. Olhou para o caixo e imaginou
Trees l dentro, com as calas castanhas, a camisa azul e o bon. Contudo, resistira a calar-lhe as velhas botas. No lhe pareceu conveniente mand-lo ao encontro
do Senhor com botas enlameadas. Tinha sido ela que apanhara as nozes da nogueira romena que ele plantara pouco tempo depois de terem casado. Entretanto, tornara-se
uma rvore de quinze metros de altura com folhas avermelhadas, que fora sempre a preferida dele.
Ajoelhou-se na almofada que estava  frente do seu banco e tapou o rosto para rezar. Ao contrrio do que mandava a filosofia de Mrs. Megalith, Faye sentia-se mais
prxima de Deus na casa d'Ele. Rezara vezes sem conta em casa, mas estava mais confiante de que Ele a ouviria na serena tranquilidade da igreja. Agradeceu-Lhe a
vida de Trees e o amor dele, mas pediu-lhe ainda com mais fervor que lhe perdoasse o adultrio, com lgrimas que s Rita, Hannah e Maddie desconfiavam terem origem
na culpa.
Max sentiu um cheiro a violetas. Rita era a nica pessoa no mundo de quem se desprendia um aroma to doce. Viu-a de um banco atrs do
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dela, com o pequeno chapu preto e o cabelo solto que lhe caa pelas costas. Continuava a usar o anel de noivado de George, embora no dedo mdio da mo direita.
Custava-lhe a acreditar que uma mulher pudesse apegar-se tanto tempo  recordao de um homem. Era teimosa e estava equivocada. Max sabia que George ia regressar
a Lower Farm com a mulher e os filhos. Certamente quando o visse perceberia que os seus sonhos haviam sido vos. Teria de desistir dele. Seria possvel que no percebesse
o quanto ele, Max, a amava?
Alm de ser produtor de rdio, Max comeava a produzir programas de televiso. Tinha um talento infalvel para prever quais os que teriam sucesso e uma grande perspiccia
a julgar as pessoas. O seu prprio sucesso fora rpido e ganhava muito mais do que algum dia poderia gastar. No entanto, nenhum desse dinheiro era para ele. Era
todo para Ruth e para Rita, as duas mulheres mais importantes da sua vida. Um dia, Rita haveria de am-lo. Um dia havia de lev-la a Viena para lhe mostrar o Teatro
Imperial, que o pai construra para a sua me. Visitaria os bastidores na companhia dela e dariam vida s histrias que ele lhe contara na praia, como a da prostituta
coxa que seduzira o x da Prsia ou a das coristas que o abraavam  vez contra os seios quase nus.
Enquanto Max sonhava com nostalgia, Rita pensava em George. Olhava para Faye e no conseguia deixar de se sentir pessoalmente ofendida pelo seu adultrio. Trees
repousava inocente e alheado numa caixa de madeira enquanto a mulher chorava lgrimas de crocodilo como uma viva bem-comportada. Mas a apreenso sobrepunha-se 
irritao. Sabia que George vinha a caminho com a mulher e os filhos, a famlia que devia ter formado com ela. O dio fervia-lhe no peito e sentia-se envergonhada
por ceder a esse sentimento na casa de Deus, ainda por cima no dia de um funeral. Olhou para o solitrio que lhe brilhava no dedo e viu no seu brilho um pequeno
raio de esperana. "Sempre que olhares para ele quero que te lembres de como te amo."
Durante a prdica, Mrs. Megalith fechou os olhos e pressentiu a presena discreta de Trees. Estava de p junto do altar, de braos cruzados, a falar com o pai dele.
Mrs. Megalith no o criticou. O reverendo Hammond tinha um respeito tremendo por si mesmo, alm disso a sua postura era a de um homem moralmente superior. O que
mais divertia Mrs. Megalith era a rapidez e a eloquncia com que Trees falava. No conseguia ouvir o que ele estava a dizer, s sabia que no se calava, e na
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sua mente via como a sua expresso era animada. Em vida nunca estivera to  vontade a falar, nem mesmo acerca das suas nogueiras. "Deve estar a compensar o tempo
perdido, imagino eu", pensou consigo mesma, e depois limpou uma lgrima. Quando Max lhe pegou na mo, teve um gesto de recuo, embaraada por ter sido apanhada num
momento de fraqueza, mas apesar disso abriu os olhos e mirou-o com ternura e gratido. Ele respondeu-lhe com um sorriso discreto e sentiu, como na primeira noite
em que ela se inclinara para o beijar, o amor incondicional de uma me.
Maddie sempre fora egosta. Nesse dia olhava a congregao comovida, mas com indiferena. Gostara de Trees desde criana, mas ele nunca fora um homem com quem as
pessoas pudessem ter intimidade. Rita tinha mais razes para estar triste porque trabalhara com ele e quase se tornara sua nora, mas para Maddie fora uma presena
demasiado discreta. Era apenas um homem que em tempos fora o melhor amigo do seu pai, at George ter estragado tudo. No que ela fosse pessoa de se envolver em guerras
de famlia. J tinha a sua prpria famlia com que preocupar-se. Por muito que gostasse da irm, tinham passado dezassete anos e Maddie j no tinha pacincia. Se
a irm queria afogar-se em autocompaixo, que o fizesse, s que ela no estava disposta a deixar que isso dominasse a sua vida como dominara a da me. Muitos homens
se tinham aproximado dela, e haviam ficado desapontados por os seus avanos terem sido to prontamente rejeitados. S Max continuara um amigo fiel. Telefonava muitas
vezes a Rita, visitava-a sempre que podia e estava a par de tudo o que dizia respeito ao seu passado e, Maddie estava certa disso, de todos os seus segredos. O que
Maddie no percebia era porque no casava com ele. Max era rico e bem-sucedido, alm de que estava mais atraente do que nunca. O tempo deixara as suas marcas e as
primeiras rugas tinham aparecido como vindas do nada, gravadas no seu rosto pela mo da experincia. Os seus olhos pareciam mais intensos, escuros, menos ingnuos,
e a linha do cabelo j comeara a recuar. Se Rita no aproveitasse a oportunidade, ele acabaria por se apaixonar e por casar com outra mulher. Se ao menos se visse
livre do maldito anel de noivado que George lhe dera... Era trgico ver uma pessoa agarrar-se assim a uma coisa que estava obviamente terminada. Esperava pelo menos
que, quando George voltasse, Rita percebesse a inutilidade de todas as suas fantasias e atirasse o pattico, e minsculo diamante ao mar.
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Faye estava no seu estdio a trabalhar ao som da Sinfonia Alpina, a preferida de Thadeus, e sentia-se muito s. Sem Trees o silncio que ecoava na sala era insuportvel.
Mesmo quando no estavam na mesma sala, sempre sentira a presena dele em casa. A companhia do marido fora como um cobertor quente e espesso. S depois de ele partir
percebera como o amava. No com o amor apaixonado que sentia por Thadeus, mas Trees fora um homem delicado e de confiana. Tinha pena de no ter insistido um pouco
mais para perceb-lo. Nos ltimos tempos, ele acabara por se afastar ainda mais de tudo para se concentrar nas suas rvores; talvez se ela tivesse feito um esforo,
Trees no se tivesse afastado tanto.
Depois da morte do marido seria mais difcil encontrar-se com Thadeus. Para uma viva, o luto era um dever ainda mais essencial que a fidelidade fora em vida. No
podia arriscar-se a ser vista na companhia de outro homem enquanto o marido ainda estivesse quente no tmulo. S lamentava no poder fazer recuar o tempo at ao
Vero antes de George ter ido para a Argentina, quando ele era feliz com Rita, quando Trees e Mildred faziam parte de Lower Farm, como as nogueiras.

CAPTULO 27
Quando Susan, George e os filhos chegaram  pequena estao de Devon pouco mais conseguiram ver que o nevoeiro espesso e cinzento. Tinham sado da Argentina a meio
da Primavera e chegaram a Inglaterra no meio do Outono. Da costa soprava um vento frio e caprichoso em que s as gaivotas mais intrpidas se atreviam a planar. Charlie
e Ava encolhiam-se dentro dos casacos e olhavam desapontados o seu novo mundo. Sobre os carris acumulavam-se folhas ensopadas, que tambm formavam remoinhos  volta
de um candeeiro, cuja luz brilhava na neblina com pouca intensidade. Estavam cansados da viagem e sentiam-se desencantados com a fria realidade da sua situao.
Ainda s eram quatro da tarde e j comeava a anoitecer. A chuva parecia penetrar-lhes nos ossos e suprimir qualquer vestgio de optimismo.
Faye e Alice estavam na estao  espera deles. George sentiu um aperto no corao quando viu como a me tinha envelhecido. Parecia mais baixa e frgil, como uma
rvore pequena exposta  luz depois de a mais alta, que a protegia, ter sido arrancada. Os olhos dela tinham um brilho de felicidade quando o beijou e isso recordou
a George o dia em que voltara da guerra. Tinha o mesmo cheiro e a pele do rosto pareceu-lhe suave e macia contra a dele. No precisavam de falar. Soltando-se dos
braos do filho, Faye cumprimentou afectuosamente Susan e os netos, encantada por ver como Charlie e Ava tinham crescido, e depois George apresentou-os  irm. Muito
apertados, l couberam todos no carro que Trees comprara pouco tempo antes de morrer e percorreram o curto caminho que os separava de Lower Farm.
-  uma pena terem chegado num dia assim. Tem estado nevoeiro toda a semana - disse Faye, pressentindo a tristeza dos netos. - Quando chegarmos a casa j se aquecem.
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- Queria que eles, do comboio, vissem o campo, mas s se viam nuvens - disse George, que ia sentado  frente ao lado da me.
Olhou para trs e sorriu a Ava, que ia ao colo de Susan. Felizmente, a filha era pequena para os seus dez anos, ou nunca teriam cabido todos no banco de trs.
- Eles esto s cansados - disse Susan, com um beijo na cabea da filha. - Foi uma viagem muito longa.
- Tenho a impresso que a novidade da viagem de avio j se esgotou para o Charlie - acrescentou George, na esperana de fazer o filho sorrir, mas sem resultado.
Charlie continuou a olhar em frente com uma atitude indiferente. - Como vo o Johnnie e a Jane? - perguntou  me, mudando de assunto.
- O Johnnie est na Universidade de Exeter e a Jane acabou agora o liceu - respondeu Alice. - Est com esperana de entrar na Universidade de Bristol.
- Como o tempo voa! - maravilhou-se George. - Parece que ainda ontem eram crianas.
- Estiveste fora muito tempo, George - disse-lhe a irm, sem ressentimento.
- Espero que a terra pelo menos no tenha mudado - disse ele, esperanoso.
Faye sorriu e abanou a cabea, satisfeita por ele dar importncia s suas recordaes.
- Lower Farm e Frognal Point esto exactamente como os deixaste - disse ela. - Pode haver mais uma ou outra casa aqui ou ali e tambm meia dzia de caras novas,
mas tudo aquilo de que gostavas em criana continua na mesma. Ns assegurmo-nos de que assim seria, no foi, Alice?
Quando chegaram a Lower Farm, Faye serviu ch com bolos, sanduches e biscoitos a todos. Lancharam  frente da lareira na sala de estar. Assim que provou o bolo,
George recordou o seu regresso a casa depois da guerra, dezoito anos atrs. Era impossvel que tivesse sido a me a fazer aquele bolo! Os midos devoraram-no, saboreando
a novidade, e comearam a falar um com o outro em voz baixa. Susan ficou imediatamente encantada com a casa. Era muito inglesa, de uma maneira aconchegada e catica.
Reparou na pilha de partituras em cima do piano e nos livros espalhados sem ordem por cima das mesas ou empilhados
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no cho junto da parede. Ver Faye na sua prpria casa ajudava-a a perceb-la melhor. Tambm Susan, que no tinha conhecido realmente Trees, conseguia sentir o eco
da ausncia dele, e, por mais que Faye tentasse dissimular, Susan tinha o pressentimento de que ela se sentia desesperadamente incompleta sem o marido.
No entanto, quando a msica clssica encheu a casa e todos se sentiram confortavelmente instalados e com os estmagos aconchegados, comearam a ficar mais animados.
George perguntou como morrera o pai. Faye corou e baixou os olhos. O filho queria saber todos os pormenores. Enquanto Faye revivia o dia do temporal, as suas mos
iam ficando cada vez mais trmulas. Quando teve de confessar que no estava com o marido quando ele morrera, teve de as pousar, de tal maneira faziam tremer o pires.
- Mas onde estava a me? - perguntou George.
O tom em que perguntou no era acusador, mas Faye ps-se imediatamente na defensiva.
- Tinha ido  aldeia visitar um amigo - viu-se obrigada a responder.
Se no fosse a me ter corado, revelando assim os seus sentimentos mais ntimos, George no teria desconfiado. De repente recordou a imagem, esquecida h muito,
da me a sair da quinta de bicicleta a meio da noite. Nunca lhe perguntara onde fora e no percebia porque surgira a imagem no seu esprito ao fim de tantos anos.
- Quando voltei no o encontrei em stio nenhum - continuou ela. Procurei por toda a parte. Sabia que havia qualquer coisa errada. Quando o encontrei j estava morto.
Um ramo forte tinha-lhe acertado e ao cair ele bateu com a cabea na pedra que est no tmulo da Mildred.
- E o funeral? - perguntou George, lamentando profundamente no ter chegado a tempo para estar presente.
- Foi uma cerimnia simples, s para a famlia e os amigos - respondeu a me. O seu rosto recuperara a palidez habitual.
- No deves sentir-te culpado por no teres vindo, George - disse Alice com delicadeza. - Ele teria percebido.
- Eu sei, mas gostava tanto de me ter despedido - disse George, resignado.
- Todos ns gostaramos - acrescentou Faye com voz fraca.
- Amanh vou visitar a campa - disse George, tomando a mo de Susan, grato por ela estar consigo. - Com sorte talvez o nevoeiro j tenha
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levantado e nesse caso aproveito para te mostrar Frognal Point, a ti e aos midos.
- Ns adorvamos - respondeu ela, apertando-lhe a mo com simpatia.
- Eu quero ver caranguejos - disse Ava, mais animada depois de ter comido.
- Mesmo que o tempo esteja mau, vamos fazer um piquenique na praia. Vou mostrar-vos poas cheias de caranguejos e de ourios-do-mar e fazer uma caa ao tesouro na
areia.
Os midos ficaram excitadssimos, lembrados de todas as histrias que o pai lhes contara da sua infncia.
- Falaram-me tanto de sanduches de areia que estou ansiosa por provar uma - disse Susan, satisfeita por ver que os filhos j no tinham um ar infeliz.
- Claro respondeu Faye, divertida. - Fazem parte de Frognal Point. No  possvel fazer um verdadeiro piquenique na praia sem sanduches de areia.
Depois de jantar e de os midos terem ido para a cama, George e Susan sentaram-se no terrao sob um cu azul-escuro brilhante de estrelas. Estava frio e os dois
aconchegaram-se um ao outro, apesar dos casacos quentes. George fumou um cigarro, como nos tempos em que lutava por enfrentar a vida depois de ter voltado da guerra.
As lajes estavam molhadas e escorregadias, cobertas de folhas mortas e de pequenos ramos secos. Ouviram o assobio de um mocho vindo do alto de uma rvore prxima,
que conseguiu sobrepor-se ao rumor forte do vento. George sentia-se imerso em nostalgia. O cheiro das folhas mortas e dos animais da quinta recordava-lhe vivamente
a infncia. Mesmo o assobio do mocho era o de outros tempos. Se no fosse a ausncia do pai, tudo seria igual. Olhou para o jardim, tentando alcanar tudo o que
a vista e o nevoeiro permitiam, para l da mancha de luz projectada pela casa, e perguntou a si mesmo se o esprito do pai se encontraria ali entre as rvores que
tanto amara. Talvez se encontrasse com eles no terrao, a observ-los, divertido, com o distanciamento permitido pelo alm. Talvez Mildred estivesse com ele. Ou
talvez Mrs. Megalith estivesse enganada e no houvesse vida depois da morte. Apertou Susan nos seus braos e ficaram os dois em silncio, a olhar e  escuta. Susan
tentava perceber o lugar que passaria a ser o seu lar e George escutava os ecos e as imagens do passado.
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George estranhava estar em Lower Farm sem Trees. A casa parecia-lhe deserta, como se o seu esprito tambm tivesse partido, deixando atrs dele apenas tijolos e
cimento. Nessa noite ficou deitado a ouvir os estalidos familiares da madeira, a respirar o cheiro da lenha queimada e a recordar. Se no fosse Susan e os filhos,
seria como tivesse voltado a ser um menino, mas o seu corpo parecia-lhe grande de mais para a cama, como se fosse um homem a brincar numa casa de bonecas. Tinha
partido, construra a sua vida noutro lugar, e regressara para perceber que crescera e se afastara. No seria fcil voltar a adaptar-se. Quando fechou os olhos viu
os rostos dos amigos mortos na guerra. O regresso a casa fizera-o regressar tambm ao passado. Os demnios no haviam partido; s se tinham perdido na plancie argentina.
A manh seguinte surgiu esplendorosa. No havia uma s nuvem a perturbar a perfeio do cu, onde as gaivotas voavam de novo. Os seus gritos alegres ouviam-se ao
longe. Susan olhou pela janela e sentiu que o seu corao se enchia de alegria. O jardim brilhava como se algum ali tivesse espalhado diamantes, as gotas de orvalho
deixadas na erva e nas plantas iluminadas pelo Sol como por um encantamento. Pouco depois, apareceram Charlie e Ava. Ava guinchava de alegria e atirou-se para cima
da cama do pai para o acordar. George rebolou na cama e agarrou-a nos braos grunhindo como um urso. Charlie observava tudo isto com ar divertido, j grande de mais
para aquelas brincadeiras de criana por que uma parte dele ainda ansiava. Susan olhava-os maravilhada, reflectindo na maneira maravilhosa como as crianas se adaptavam
a novas situaes.
Faye detestava dormir sozinha. Desde o seu casamento que poucas noites tinha passado longe de Trees. Tinha sado s escondidas uma ou duas vezes a meio da noite,
para ir ter com Thadeus, s quando estava realmente desesperada, mas sempre acordara com o marido ao lado. Agora, comeara a acordar com um sentimento de vazio.
Sentia falta da presena quente dele na cama, da gua a correr na casa de banho quando ele lavava os dentes e fazia a barba, de saber que no estava sozinha. Por
momentos sentiu a dor fria na boca do estmago que tinha todas as manhs desde que ele morrera, mas os acontecimentos do dia acabaram por substituir essa dor por
optimismo. Abriu as cortinas e vestiu-se a correr para poder fazer o pequeno-almoo do filho.
Quando percorria o corredor em direco  cozinha percebeu que ali o barulho j era estarrecedor. H muitos anos que no tinha ningum de
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quem tomar conta. Desde que os filhos tinham crescido e partido de casa, ocupara-se com a cermica, um passatempo solitrio que exigia muitas horas de trabalho.
De repente voltava a ter uma famlia para quem cozinhar e a quem distrair. Ia precisar de algum tempo para se habituar a Susan, que se mantinha afastada e vigilante.
Faye tinha a impresso que isso estava relacionado com a cicatriz do seu rosto, mas os midos eram encantadores. Estava ansiosa por v-los brincar nos stios onde
George e Alice tinham brincado em crianas, e depois deles Johnnie e Jane. Iam gostar da quinta e dos animais e ela poderia ensin-los a tocar piano e a trabalhar
o barro. Os seus seres deixariam de ser solitrios. Mesmo que decidissem mudar-se para uma das casas mais pequenas da quinta, o que de resto era a ideia desde o
princpio, voltaria a sentir-se rodeada pela famlia, um sonho de que j desistira h muito.
Depois do pequeno-almoo, Susan e George foram a Frognal Point com os filhos. Charlie e Ava foram todo o caminho de nariz encostado s janelas do carro, sem deixarem
escapar nada, desde os pequenos campos rodeados de muros s curiosas casas espalhadas ao longo do percurso. A certa altura, tiveram de abrandar para percorrer parte
do caminho atrs de um conjunto de vacas leiteiras que se encaminhavam vagarosamente para a vacaria. Um velhote seguia atrs delas, empunhando uma vara, que ergueu
e agitou no ar em direco ao carro. Depois reconheceu George e tocou no bon em sinal de respeito. Quando George abriu a janela para o cumprimentar, o velho falou
com uma pronncia do Devon de tal maneira cerrada que Susan no percebeu uma palavra do que ele disse.
A aldeia estava sossegada. Passaram  frente da loja, onde Miss Hogmier esperava como um abutre que algum lhe levasse mais um dos mexericos da aldeia, e pelo White
Hart, o pub onde George costumava encontrar-se com os amigos para beber umas cervejas e jogar uma partida de dardos. Depois da guerra passaram a ser menos, apenas
uma mo-cheia de sobreviventes, todos to desalentados e cnicos como ele prprio, a juventude gasta e as perspectivas incertas. George perguntou a si mesmo que
lhes teria acontecido durante os anos em que estivera fora. Teriam casado? Teriam filhos? Teriam reencontrado as suas vidas? Recordava-os sentados ao balco em silncio,
a olharem para o fundo das cervejas como se a pudessem encontrar-se as respostas. Passaram por casas pequenas e bonitas espalhadas ao longo da estrada e tambm
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por uma ou outra casa grande escondida atrs de rvores altas e arbustos, a que s se chegava por caminhos particulares. No extremo da aldeia oposto quele por onde
tinham chegado erguia-se a igreja. Era pequena, atarracada e muito velha. George recordava os servios de domingo, a que costumava ir, vestido com as melhores roupas,
enquanto as mulheres usavam chapus elegantes e luvas. Sempre fora, alm de uma cerimnia religiosa, uma ocasio de grande importncia social para a aldeia. Lembrava-se
de como a me costumava demorar-se uma eternidade a conversar com Hannah e as amigas de ambas, enquanto ele e Rita jogavam  macaca entre as campas do cemitrio,
despertando assim a fria do reverendo Hammond. Recordou um dia em que Mrs. Megalith aparecera de surpresa e decidira contar uma histria aos midos. Estes tinham
ficado encantados com a ideia dos gatos mgicos que apareciam de repente vindos do nada.
- Vamos conhec-la? - perguntou Charlie, inclinando-se entre os bancos da frente.
- Claro que sim. Mistress Megalith  uma verdadeira lenda - respondeu George.
Susan sorriu consigo mesma. Tinha muito a agradecer  bruxa e estava ansiosa por faz-lo pessoalmente.
- Ela tem mesmo uma vassoura voadora? - perguntou Ava.
- Tenho a certeza que sim, mas s a usa  noite - respondeu-lhe o pai.
Susan deu uma palmada brincalhona no joelho do marido.
- No sejas mau, George - ralhou ao marido num tom divertido. - Que vo eles dizer quando a conhecerem?
George fez uma careta.
- Estou doido por descobrir - respondeu com ar malicioso, enquanto Susan ia acenando com a cabea ao ouvir as suas histrias de outros tempos.
George parou o carro no centro da aldeia e caminhou com a mulher e os filhos at  igreja. O cemitrio que a rodeava estava tranquilo. No se via ningum. Em princpio,
quaisquer almas que por ali andassem estariam fora do alcance dos sentidos humanos. A terra sobre a campa de Trees estava fresca e coberta de flores. George ficou
imvel, em silncio,  frente do pequeno monte de terra. Quando os seus olhos se detiveram na pedra que indicava o lugar, o seu corpo estremeceu dos ps  cabea
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com a sbita compreenso de que o pai partira definitivamente. Sentiu-se enfraquecido, como se lhe tivesse faltado a respirao. O nome dele, "Trees Bolton", estava
 frente dos seus olhos gravado na pedra. No Edmund Anthony Bolton, o seu nome verdadeiro, mas o nome por que todos o conheciam. Susan entrelaou os dedos nos dele,
mas no disse nada. Charlie e Ava corriam  volta da campa com to pouco respeito como dois cachorrinhos excitados.
- Ainda me custa acreditar que o meu pai est ali - disse George, com a testa franzida e uma expresso perturbada. - Parece-me impossvel que tenha morrido.
- Eu sei, querido - respondeu Susan. - s vezes basta uma pedra tumular para cairmos em ns, no ?.
- No fim,  a isto que todos somos reduzidos.
- Todos acabamos como p, mas tu ainda tens muitos anos de vida pela frente. No deixes que isto te afecte.
- Gostava de ficar aqui um bocadinho. Importas-te de levar o Charlie e a Ava at  loja contigo? Compra-lhes umas gulodices - sugeriu.
Ela sorriu-lhe, compreensiva.
- Demora o tempo que quiseres. Ns vamos devagar. Est um dia lindo e eu quero ficar a conhecer a minha nova terra.
Quando chegaram  loja, Charlie e Ava ficaram encantados com um co grande e peludo que estava preso a um marco de correio, de maneira que Susan deixou-os a fazer
festas ao animal e entrou na loja. Era muito maior do que parecia vista da rua. Havia um expositor de revistas, um balco do servio dos correios e o balco normal.
Miss Hogmier estava postada atrs do balco de braos cruzados, com uma bata cor-de-rosa, como se guardasse as prateleiras cheias de frascos altos de vidro cheios
de doces. Quando Susan entrou, observou-a sem pudor dos ps  cabea e logo que o seu olhar chegou  cicatriz do rosto deu um passo atrs de horror. Susan apercebeu-se
da reaco dela e cumprimentou-a friamente. Miss Hogmier enterrou o queixo nas banhas do pescoo e grunhiu. Susan, que nunca tivera feitio para conversa fiada, observou
as prateleiras olhando com ateno para tudo o que estava exposto, muitas das coisas produtos desconhecidos para si.
Susan j tinha notado que no estava sozinha na loja. Uma mulher jovem, com um cesto, percorria igualmente as prateleiras com o olhar, com o cabelo encaracolado
a esconder-lhe o rosto. Susan calculou que o co
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fosse dela. Ouviu a pequena campainha da porta tocar quando os filhos entraram na loja.
Olha s para estes doces todos! - exclamou Ava, de boca aberta de espanto.
- Eu queria um saco daquelas coisas vermelhas grandes - disse Charlie, apontando para qualquer coisa que se encontrava atrs da velha dona da loja.
- So bombons de morango - informou Miss Hogmier, olhando para Susan com reservas evidentes. As crianas deviam pertencer-lhe, porque tinham pronncias que ela no
conseguia identificar. - De onde so vocs? perguntou.
- Da Argentina - respondeu Charlie com ar importante. - Mas agora estamos a viver aqui.
Os olhos de Miss Hogmier abriram-se muito, como se ela tivesse acabado de acordar de um sono profundo.
- Vocs devem ser os filhos de George Bolton - disse devagar, inclinando-se sobre o balco para os ver melhor.
Charlie reparou nos plos que lhe saam do nariz, como as pernas de duas enormes aranhas, e franziu a testa um pouco enfastiado. Quando Susan se aproximou deles
e lhes pediu que escolhessem os doces que queriam, a outra pessoa que estava na loja aproximou-se por trs dela com o cesto cheio de compras.
- Os filhos de George Bolton! - exclamou Miss Hogmier de novo num tom estridente.
Ouviu-se um barulho repentino. A outra cliente tinha deixado cair a cesta e o seu contedo rolava pelo cho.
- Oh, desculpe - disse Susan, pensando que a culpa fora sua.
A jovem murmurou qualquer coisa inaudvel e baixou-se para apanhar as coisas que tinham cado. Charlie e Ava ajoelharam-se ao lado dela para ajudar enquanto Susan
observava, incomodada.
- Pelo menos no se partiu nada - disse Charlie, apanhando uma lata de feijes.
- Obrigada - murmurou a mulher, sorrindo com nervosismo, apesar de os seus olhos revelarem a sua perturbao.
- Pode passar  frente - disse Susan com amabilidade. - Os meus filhos ainda no escolheram.
A jovem olhava com ansiedade para Miss Hogmier, que ia somando o preo das suas compras e metendo cada uma num saco de papel pardo.
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Por fim, pagou e saiu da loja quase a correr, depois de um tmido "obrigada" dito por trs de uma cortina de cabelo.
- Era a Rita Fairweather - disse Miss Hogmier num tom acusador. S ento Susan percebeu o nervosismo da jovem. Fingiu que o nome no lhe dizia nada e continuou a
ajudar os filhos a escolher os doces.
- V, decidam-se - encorajou-os, ansiosa por sair da loja. - Charlie, porque no levas um saco de bombons de morango e a Ava um de chocolate?
- Nunca mais foi a mesma desde que o George Bolton se foi embora - continuou Miss Hogmier num tom sombrio. - Agora a companhia dela  um co. Vive para os lados
de Bray Cove. Nunca foi como as outras raparigas da idade dela, mas a excentricidade no  nenhum crime, no lhe parece? Deve ser duro ter uma irm com trs filhos
e um casamento feliz. No que alguma vez pensssemos que Maddie se contentaria com um homem como o Harry Weaver. Uma rapariga sofisticada e bonita como ela! Mas
a Rita, a doce e inocente Rita... Quase se matou quando soube que ele se tinha casado. Pobre rapariga. Tentou atirar-se de uma falsia. Desde ento nunca mais foi
a mesma.
- Um saco de bombons de morango e outro de bombons de chocolate, por favor - disse Susan com brusquido, devolvendo o olhar de Miss Hogmier com a maior frieza de
que foi capaz.
Miss Hogmier respirou ruidosamente pelas narinas peludas e, com certa relutncia, voltou-se para trs e retirou os frascos das prateleiras, no escondendo o desagrado
por Susan estar a obrig-la a maar-se com tal coisa.
- Deve ter sido difcil para a Rita v-la com os seus filhos - continuou Miss Hogmier sem dar trguas e estendendo a mo para receber o dinheiro. - Ela j se encontrou
com George?
Susan ficou rgida, escandalizada com o atrevimento da mulher.
- No me parece que o assunto lhe diga respeito - respondeu sucintamente, deixando cair as moedas na mo estendida da velha solteirona. Entregou os sacos dos bombons
aos midos e depois encaminhou-os apressadamente para a porta.

CAPTULO 28
Rita percorreu o caminho o mais depressa que as pernas lho permitiram, seguida por Tarka, a cadela golden retriever de longo plo castanho. Susan era uma mulher
lindssima. Mesmo naquele breve momento de embarao, Rita pressentiu a aura de serenidade que a rodeava, a sofisticao e a elegncia da sua roupa e da sua maneira
de falar. Sentira-se desastrada, pouco cuidada e constrangida. Ficara perturbada de mais para reparar na cicatriz.
Atrapalhada com a cesta das compras, que parecia mais pesada a cada passo que dava, subiu a encosta, ofegante e com o corao a bater com violncia. Tinha ouvido
dizer que George ia regressar a casa, mas ningum sabia exactamente quando. Encontrar-se assim com a mulher dele fora um choque. Os filhos de George estavam to
crescidos que ela prpria se sentira uma velha. Se tivessem casado, j teria filhos h, pelo menos, dez anos. Mas, pelo contrrio, tinha a impresso de que o seu
tero definhava.
Para Susan e os filhos estarem na loja, George no podia estar muito longe, deduziu Rita. O mais natural era que estivesse na igreja, a rezar pelo pai. Ao aproximar-se
pressentiu a presena dele antes de o ver, o homem que dominara o seu sono e os seus momentos de viglia durante a maior parte da sua vida. Parou e protegeu-se por
trs de uma rvore para o observar. O seu corpo longo estava curvado sobre a campa do pai. Apesar de ser muito mais vigoroso e entroncado que Trees, a sua postura
recordou-lhe a do pai dele, sobretudo pela maneira como inclinava a cabea e os seus ombros descaam. Sentiu que os olhos lhe ardiam e a garganta se contraa de
angstia. Tarka pressentiu a sua ansiedade e ganiu baixinho.
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Nesse preciso momento, George levantou os olhos e ela teve a impresso que olhava directamente para o stio onde ela se encontrava, meio escondida. De repente, os
dezassete anos que haviam passado entretanto pareceram desaparecer e Rita teve a impresso de que ele a chamava, como fazia quando eram os mais ntimos dos amigos.
O corao de Rita flutuou no seu peito como se lhe tivessem nascido umas asas minsculas. Embora tivesse os ps firmemente assentes no cho, teve a impresso que
no tinha peso. Por pouco no respondeu ao aceno dele. Quase lhe respondeu em voz alta, mas alguma coisa a fez voltar-se e conter-se. Sentiu-se dominada pelo desapontamento
quando viu Susan e os filhos subirem o caminho. Deu um passo atrs e transformou-se numa sombra que ningum pudesse ver. Ouviu os gritos de Charlie e Ava, que atravessavam
o relvado a correr e subiam os degraus da igreja. Susan avanava com tranquilidade, mas com ar pensativo. George fingiu esquivar-se quando a menina avanou para
o abraar e quando Susan se aproximou passou-lhe um brao em volta da cintura e beijou-a na tmpora, tal como a beijara tantas vezes a ela.
A sufocar de infelicidade, apressou-se a regressar a casa da me, onde tinha deixado o carro. No teve coragem para enfrentar a famlia  hora de almoo. As perguntas,
a curiosidade, a compaixo sem disfarce. Precisava de um momento a ss. Atirou o cesto das compras para o lugar ao lado do seu e recuou ao longo do caminho que conduzia
da estrada  porta dos pais. No reparou nos pombos que se encontravam no telhado, alegres a gozarem o dia de sol resplandecente, nem perdeu um minuto que fosse
a admirar o jardim que brilhava com as sombras douradas do Outono. O mundo que os seus olhos viam era cinzento e sombrio. George e Susan tinham eclipsado o seu sol.
Procurando ver atravs das lgrimas, Rita conduziu pelas estradas estreitas at  sua pequena casa sobre o mar. A chorar desconsolada, desceu a correr o caminho
para a praia. Sentou-se, apertou os joelhos entre os braos e brincou com o anel no dedo, enquanto recordava as promessas que tinham feito um ao outro na gruta,
no dia em que George partira para a Argentina. "Sempre que olhares para ele quero que te lembres de como te amo", dissera ele. Agora j no a amava, mas o eco das
suas palavras ainda a alcanava para l dos anos, embora o seu som fosse cada vez mais distante.
George deixou a campa do pai e levou a mulher e os filhos para a praia, onde fariam um piquenique. A me dele tinha razo, Frognal
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Point no mudara nada. Tudo tinha o mesmo aspecto e o mesmo cheiro, e quando se aproximou da falsia sentiu-se subitamente dominado pela nostalgia. Os filhos desciam
o caminho a correr para a praia, seguidos por Susan, que levava as mantas, e por George, que transportava com ele o peso de muitas recordaes, bem como o cesto
de piquenique cheio de comida e de bebidas. Susan reparou que ele tinha um ar abatido; deixou-o s e foi dar um passeio pela praia com os filhos. George abriu as
mantas, ps pedras aos cantos para elas no levantarem com o vento e serviu-se de um copo de vinho. Sentou-se protegido do vento, no lugar que a sua famlia e os
Fairweather sempre tinham escolhido para os piqueniques e a recordao causou-lhe um arrepio. Lembrou os tempos em que brincara naquele mesmo stio, ainda criana,
e em que amara, j um jovem, e, mais uma vez, a imagem de Rita dominou-o. Olhou o mar com os olhos turvos e o rosto de Rita sobreps-se  imagem hipntica das ondas.
Os olhos dela, os seus caracis, no podiam deixar de lhe lembrar a jovem que desiludira. Perguntou a si mesmo se ainda viveria em Frognal Point ou se teria ido
viver para outro stio. Talvez tivesse casado e, tal como ele, tambm tivesse filhos. No teria coragem de perguntar  me. Quando Susan e os filhos voltaram, George
fez um esforo consciente para afastar as melanclicas recordaes e comeou a mostrar-lhes as poas de gua onde se escondiam os caranguejos e onde os ourios-do-mar
se escondiam ameaadores, com os perigosos picos a ondularem na gua. Charlie e Ava estavam encantados. Mergulhavam entusiasticamente as mos na gua, para sentirem
as algas e os pequenos seres que a se escondiam. Depois, o pai mostrou-lhes como se construa na areia. Os dois irmos fizeram um belo castelo e Susan e Ava decoraram-no
com conchas que apanharam na praia. George construiu um canal e um fosso e quando a mar subiu, depois de almoo, o castelo resistiu um pouco mais. Satisfeitos com
as sanduches e os chocolates, os midos lutaram contra os elementos para salvarem a sua criao da runa. Construram diques, canais e paredes para afastarem a
gua do seu castelo, mas ao fim do dia o mar acabou por destruir tudo o que haviam feito.
- Se quiserem, amanh fazemos outro - prometeu George.
- Talvez a av venha connosco - sugeriu Susan com tacto. George pegou-lhe na mo.
- Boa ideia. Podemos convidar tambm a Alice. De manh queria mostrar-vos a quinta, por isso podamos vir lanchar. Que vos parece?
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Os midos desapareceram numa correria, aos saltos pela areia, a assustarem as gaivotas que se lanavam num voo furioso quando os viam aproximar-se.
Susan comeou a arrumar as coisas do piquenique, perguntando a si mesma se deveria ter falado a George do encontro com Rita na loja. Agora era tarde de mais. Ia
parecer estranho que ela lhe tivesse escondido deliberadamente o que acontecera.
- Foi um dia encantador - disse-lhe, fechando a cesta e pegando
nas mantas.
Ele sorriu-lhe e concordou.
- J tinha esquecido como tudo isto  bonito - respondeu ele, voltando-se na direco do mar. -  um lugar idlico para as crianas. - Com as mos na cintura, suspirou
profundamente. - Para ns, foi um lugar paradisaco para a infncia.
- Imagino que tenha sido.
- Para mim  estranho observar o Charlie e a Ava. So to parecidos comigo e com a Alice... Costumvamos percorrer a praia a correr e a chapinhar nas poas de gua
como eles.
- At alguma coisa lhes morder - disse Susan com uma risada.
- Vo acabar por se adaptar e a Argentina vai ser para eles uma recordao agradvel, que ho-de guardar o resto das vidas deles. Para ns vai ser mais difcil.
Susan abraou-o.
- Mas ns tambm havemos de nos adaptar. Na verdade, j me mudei tantas vezes que j lhes perdi a conta. Depois de nos mudarmos para a nossa prpria casa, as coisas
sero mais fceis. No vamos sentir-nos to desenraizados.
- Ou quando eu comear a trabalhar - acrescentou George, que sabia como o trabalho duro podia ser reconfortante. - Acho que era isso que o meu pai havia de querer.
Ia querer-nos por aqui, para podermos ajudar a minha me. Nunca lhe passou pela cabea sair de Frognal Point. Pela parte dele, tudo aquilo de que gostava estava
aqui, e o mesmo vai
acontecer connosco.
Quando percorreram a praia no sentido oposto ao da manh, George no conseguiu evitar olhar na direco da gruta escondida no meio das rochas e protegida por algumas
ervas mais altas. Tentou adivinhar se por dentro continuaria igual e sentiu-se dominado por um desejo forte de
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voltar l para uma vista de olhos. Talvez no lugar escuro e hmido do seu esconderijo em tempos secreto as suas recordaes se tornassem mais tangveis. Voltou-se
para Susan e por pouco no lhe sugeriu que fossem l os dois, mas alguma coisa o impediu de o fazer, talvez um sentimento intuitivo de que h coisas que devemos
guardar para ns. Susan renunciara  sua casa para o acompanhar e para viver com ele em Frognal Point, e a ltima coisa que queria era provocar um afastamento entre
os dois logo no primeiro dia, mostrando-lhe os stios que para ele continuavam habitados por Rita. A visita podia esperar. Voltaria um dia sozinho, acenderia um
cigarro e ouviria a ss os ecos de outros tempos.
Enquanto George estivera fora, Faye aproveitara a oportunidade para visitar Thadeus. Tinha sado com o Land Rover da quinta e deixara-o parado  beira da estrada.
Fizera o resto do caminho a p para evitar suspeitas. Quando chegou a casa dele encontrou-o de p  porta, como se ali estivesse desde a morte de Trees. Beijou-a
sem uma palavra e depois levou-a para dentro, para junto da lareira acesa. Pela primeira vez desde a morte do marido pde chorar sem vergonha ou culpa, porque nos
braos de Thadeus era impossvel senti-las. J no estava sozinha e a dor surda que sentia na cabea e no corao pareciam abrandar com cada uma das carcias delicadas
dele, com cada uma das suas palavras ternas. Os seus olhos de pessoa muito vivida fixavam-se nela cheios de compreenso, e Faye sabia que, apesar dos seus esforos
para viver um luto que conviesse a uma viva, nunca poderia viver sem Thadeus. Ele fazia parte dela como os rgos do seu corpo que a mantinham viva.
No dia seguinte na igreja, Faye apareceu de queixo levantado. Continuava vestida de preto, mas no seu corao reinava o vermelho-vivo e secretamente sorria para
si mesma porque sentia o amor de Thadeus consumir o seu esprito com um fogo ardente. No entanto, ningum reparou nela porque todos os olhos estavam postos em George
e na mulher que ele tinha escolhido em vez de Rita. As suas expresses estavam cheias de curiosidade, o que era natural, mas quando conseguiu deixar de pensar em
Thadeus, Faye comeou a sentir o ressentimento que vibrava no ar. Tinha esperana de que George no tivesse notado, mas isso seria impossvel, porque todos levantavam
a cabea para verem melhor. Faye olhou para Hannah e Humphrey e perguntou a si mesma se a amargura dos dois voltaria ao de cima com o regresso de George. Reparou
que Rita no estava na igreja. Hannah olhava ansiosamente  volta e para o lugar
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ao seu lado que continuava vazio. Rita nunca faltava  igreja. Maddie e Harry tinham vindo com os trs filhos, que olhavam Charlie e Ava com curiosidade. Quando
Charlie cruzou o olhar com Daisy ela sorriu-lhe sem dissimulao, o que o desarmou completamente. Daisy, com catorze anos, era muito parecida com a me e igualmente
consciente do seu bonito rosto, longo cabelo ruivo e olhos azuis brilhantes. Charlie tambm teve conscincia dos seus atractivos, o que o levou a enterrar os olhos
no livro de oraes, na esperana de que no fim do servio religioso no tivesse de falar com ela.
George estava ocupado de mais a procurar Rita entre os presentes para reparar nos olhares cheios de ressentimento. Se ainda vivesse em Frognal Point, estaria ali
de certeza, por isso concluiu com tristeza inesperada que ela devia ter-se mudado. Ficou surpreendido quando Maddie lhe sorriu afectuosamente e deu por si a retribuir
o sorriso com gratido. O reverendo Hammond estava muito mais velho e parecia ter adquirido o hbito de perder o fio  meada e de se repetir. Miss Hogmier renunciara
de m vontade a tocar rgo por causa da artrite. O funeral de Trees fora o seu canto do cisne. De momento, sentava-se no banco da frente, onde exibia os seus sentimentos
piedosos pondo-se de p para cantar e ajoelhando-se para rezar um momento antes de qualquer outra pessoa, como se estivesse ansiosa por mostrar como conhecia bem
o ritual e a que ponto era devota. Ainda cantava mais alto que Hannah, que gostava de cantar com entusiasmo, e a sua voz era to estridente e desafinada que os risos
de Charlie e de Ava se juntaram aos de Freddie, Daisy e Elsbeth, num novo lao de hilaridade partilhada.
Susan estava perfeitamente consciente da hostilidade com que era observada. Manteve o queixo bem erguido e devolveu os olhares com desdm, como se observasse uma
manada de vacas curiosas. Sentiu com desagrado a sua falta de prtica depois de ter passado os ltimos dezassete anos numa terra em que todos a conheciam e ningum
prestava ateno  sua cicatriz. No entanto, sentia-se menos confiante que no passado, porque no sabia se as pessoas a observavam por causa da sua cicatriz ou por
ela ser a desavergonhada que lhes roubara o seu rapaz. Fosse como fosse, a sua curiosidade era impertinente, at ofensiva. Satisfeita por ter conseguido encar-los
com desdm, um a um, voltou os olhos para o livro de hinos.
No fim do servio religioso, quando George se levantou para sair, Maddie abriu caminho entre os presentes para o cumprimentar.
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- Bem-vindo a casa! - saudou-o com entusiasmo e cumprimentando-o com um beijo afectuoso. - Estou a ver que os teus filhos j fizeram amigos - acrescentou com uma
carcia afectuosa na cabea da sua filha mais pequena, Elsbeth, com doze anos. George voltou-se para Charlie e Ava, que se aproximavam no meio de outras crianas.
Elsbeth libertou-se da me e foi a correr ter com eles. - Todos juntos parecem uma casa a arder. Que bom teres voltado finalmente!
Susan sentiu-se aliviada com a simpatia inesperada de Maddie.
Continuaram a aproximar-se lentamente da porta e Susan reparou que as pessoas se afastavam dela como se tivesse alguma doena contagiosa. O seu ressentimento era
cada vez maior. A certa altura, uma mulher alta, de cabelo grisalho, tocou-lhe no ombro.
- Espero que no se importe - disse ela, com a boca de um vermelho-vivo a desenhar um sorriso bonito. - Chamo-me Antoinette. Sou... enfim...  muito complicado explicar,
mas, embora no seja da famlia de George, quase fui. Gostava de lhe dar as boas-vindas a Frognal Point. - Estendeu a mo longa e elegante a Susan e fixou nela os
olhos felinos. Em voz baixa e num tom confidencial, acrescentou: - No ser um lugar dos mais sofisticados, e  por isso que nunca deixei de ficar com um p em Londres,
mas, se pensarmos que o meio  rural,  quase encantador. Assim que a conhecerem vo receb-la bem, tenho a certeza. A Rita  muito popular aqui e todos se sentem
ofendidos por George a ter trocado por si. Mas eu no me importo com o que os outros pensam. A Rita era muito imatura para ele. - Antoinette sorriu graciosamente
e acrescentou: - Se se sentir muito sozinha, venha visitar-me. Vivo aqui perto e pelo que vejo acho que vai precisar de uma amiga.
Dito isto, a tia de Rita deu a Susan um carto de tom azulado onde se encontrava o seu nome e endereo.
- Obrigada, Antoinette - respondeu friamente Susan, pouco impressionada com o encanto xaroposo da mulher.
Antoinette saiu da igreja satisfeita por ter feito amizade com a nova mulher de George. Todos falavam dela, mas at ao momento ningum tinha conseguido saber nada
do mistrio do seu rosto desfigurado. "Pobre mulher", pensou com maldade. "A beleza  to valiosa..."
George continuava a conversar com Maddie e com Harry quando Susan foi ter com ele. Nesse momento, George trocou um olhar com Hannah, que estava indecisa em relao
a cumpriment-lo. Por um lado, estava
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farta da tolice de Rita, mas por outro sentia-se presa por uma lealdade natural  filha. Contudo, no momento em que George a olhou, com o rosto mergulhado na dvida,
pressentiu por trs dos seus olhos o rapazinho que ele fora em tempos e teve pena dele. No devia ser fcil regressar a todas as recordaes que ali o esperavam.
- Ol, George - disse ela. - Bem-vindo a Frognal Point - acrescentou, com uma palmada amigvel no brao dele. - Sinto muito pela morte do teu pai. Deve ter sido
uma perda dura.
George sentiu-se aliviado por ela no parecer guardar ressentimentos contra si. Teve vontade de lhe perguntar por Rita, mas conteve-se, frustrado por ningum lhe
falar dela. Era como se tivesse deixado de existir.
- Imagino que vocs vo viver para a casa da quinta - continuou Hannah, esforando-se por agir com naturalidade.
- Vai ser estranho viver l, a algumas centenas de metros da minha antiga casa, mas havemos de nos habituar.
- Os teus filhos so encantadores. Pelo que vejo j fizeram amizade
com os meus netos.
- Quantos netos tem?
- Alm destes trs, a Eddie tem dois filhos. Est a viver na frica do Sul.
- Ela sempre gostou de animais - observou George com um sorriso.
- Assim que viu um leo deixou-se logo de morcegos, acho eu. - Ambos se riram, mas George ficou ansioso por ouvir o que ela teria a dizer ainda. - A Rita... - comeou
ela, e George esperou ansiosamente que completasse o que ia dizer.
Nesse momento, Susan despediu-se de Maddie e de Harry e voltou-se para se juntar ao marido.
Quando viu que Hannah no ia completar o que comeara, George sentiu-se desapontado. Quem lhe dera que ela tivesse satisfeito a sua curiosidade. "A Rita o qu?",
pensou desesperado. "Morreu? Tem quatro filhos? Foi viver para longe? O qu?" Dominou a curiosidade e passou um brao pela cintura de Susan.
- Hannah, deixe-me apresentar-lhe a minha mulher, Susan.
- Bem-vinda - disse Hannah com voz sumida antes de se desculpar e desaparecer.
Depois de ela se ter afastado, Susan perguntou a George:
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- Era a me de Rita, no era? - perguntou. George respondeu afirmativamente. - Tenho muita pena que continue a sentir-se amargurada com o assunto. Querido, tenho
uma coisa a confessar-te...
Estava a ponto de falar ao marido no encontro com Rita quando o reverendo Hammond e Miss Hogmier se aproximaram para os cumprimentar, como uma espcie de entidades
oficiais da aldeia nomeadas por si mesmas.
- Ns as duas j nos conhecemos - disse Miss Hogmier com brusquido, e Susan sentiu-se invadir pela clera.
- S da loja - disse Susan, reconhecendo a velha senhora com uma polidez um tanto forada.
- Mas a mim no conheceu - interrompeu o reverendo, estendendo-lhe a mo grande e transpirada. Susan apertou-a com relutncia.
- Foi um sermo encantador - disse ela, desesperada por afastar a ateno de Miss Hogmier do seu encontro anterior.
- Obrigado, Susan.  muito amvel. J sou vigrio h muitos anos, de maneira que comeo a ter alguma prtica. Mesmo assim,  sempre agradvel ouvir um cumprimento.
Conheo o George desde criana. Como o tempo voa... H quanto tempo sou vigrio, June? - perguntou ele a Miss Hogmier.
A velha solteirona franziu o sobrolho e semicerrou os olhos.
- No me lembro bem... - respondeu em voz queixosa. - Quarenta anos, Elwyn? Alm de estar a ficar mais presa dos ossos e a perder a agilidade das articulaes, tambm
estou a perder a presena de esprito.
- Sempre tomou conta da loja, desde que me lembro - disse George, procurando ser amvel.
- L isso  verdade - respondeu ela, levantando bem a cabea e mostrando trs grossos plos. - No h um nico cliente que no conhea pelo nome. Frognal Point est
cheio de boas pessoas. A maior parte agradece-me o que fao por elas - acrescentou, fixando Susan com um olhar duro.
- Bom, gostei muito de falar convosco - disse George, comeando a afastar-se, - mas temos de ir andando.
Nessa altura, Miss Hogmier pegou-lhe pela manga do casaco e inclinou-se para ele. Susan conteve a respirao.
- Sabes alguma coisa da Rita? - insistiu ela. - Quando ela viu a tua mulher, deixou cair o cesto das compras. Pobre rapariga. Ficou num
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estado... Ainda por cima continua a viver sozinha. Eu sei o que isso . Tambm no tenho ningum que tome conta de mim. Quem diria que ela tambm havia de ficar
na prateleira... Pensei que ia ser eu a nica em Frognal Point.
George pegou na mo de Susan.
- E foi, no se preocupe. A Rita  generosa de mais para a deitar de l abaixo.
O sorriso dele era de tal maneira encantador que Miss Hogmier no percebeu se devia ter ficado ofendida ou lisonjeada. Mesmo assim sentiu-se desapontada.
- Eu ia contar-te, querido - disse Susan quando desciam o caminho estreito at ao stio onde os filhos brincavam com Freddie, Daisy e Elsbeth.
- No tem importncia. Bruxa intriguista!
Ambos se riram, mas George teve a impresso que Miss Hogmier lhe tinha acertado com um murro no estmago.

CAPTULO 29
Nessa noite, George esgueirou-se da cama e deixou Susan a dormir. Desceu as escadas de madeira, com o cuidado de evitar o mais possvel os rangidos. Vestiu o velho
casaco do pai, que continuava pendurado no cabide e ainda estava impregnado do cheiro caracterstico de Trees, aquele cheiro nico a campo e a terra que o distinguia.
Pegou nos cigarros e no isqueiro, que estavam em cima da mesa da cozinha, e saiu para o terrao. Para sua surpresa, viu a figura pequena da me aconchegada numa
das cadeiras hmidas do jardim, com as mos  volta de uma chvena de leite quente. O branco das suas mos parecia fosforescente  luz clara do luar. Quando George
apareceu  porta, a me olhou na direco dele sem ficar surpreendida. Haviam sido muitas as noites em que se tinham encontrado naquele mesmo stio, sem conseguirem
dormir, atormentados pelos sonhos.
- Sentes-te bem? - perguntou-lhe, quando ele se sentou ao seu lado.
Ele inclinou-se para a frente, acendeu um cigarro e pediu-lhe:
- Conte-me o que aconteceu  Rita.
- Pensei que isso te fizesse sentir culpado.
- Agradeo a preocupao - respondeu ele, - mas quero saber. Ainda me preocupo com ela, me.
George soprou uma baforada de fumo. Preocupava-se mais do que seria capaz de admitir a quem quer que fosse.
- A Rita nunca recuperou nem te esqueceu, George. A triste verdade  essa.
George olhou para alm do jardim, cheio de folhas que reflectiam o luar e em que a passagem do vento produzia um leve restolhar.
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- A Susan viu-a na loja da aldeia e ela ficou to perturbada que deixou cair o cesto das compras. Pelo menos, foi o que me contou Miss Hogmier.
- No acredites em tudo o que essa intriguista conta - disse-lhe a me com alguma rispidez.
- Mas ela vive sozinha?
- Bem, vive com o co.
- Onde?
- Para as bandas de Bray Cove. Trabalha na biblioteca.
- Ainda? - perguntou George, chocado por saber que a vida de Rita estagnara.
- Sim, agora  ela a bibliotecria. Na verdade, no anda por a a chorar pelos cantos.  uma mulher muito activa e tem organizado muitos eventos interessantes. Tem
trazido c autores muito curiosos, tudo isso atravs de Max, que parece conhecer toda a gente. O Max est muito bem. S de pensar que chegou ao nosso pas sem nada...
Teve um grande sucesso na rdio e mais tarde tornou-se produtor de televiso.  um homem cheio de talento, o mais ilustre de Frognal Point.
George sentiu uma ponta de cimes. O pequeno Max fizera-se um homem.
- Ele  casado?
- No. Anda sempre a aparecer nos jornais com uma beldade qualquer, mas ainda no assentou. Estes refugiados so pessoas com passados dolorosos, George - disse ela,
pensando em Thadeus. - Precisam de mulheres muito especiais. Espero que ele venha a ser feliz, porque o merece.  um homem que faz muito pelos outros.
George estava ansioso por encaminhar a conversa de novo para Rita.
- A Rita continua a trabalhar em cermica?
- Sim, continua. E  bastante boa. Nunca pensei que fosse to talentosa, mas a infelicidade pode ser um grande estmulo para a criatividade.
Faye sabia do que estava a falar. Os seus melhores trabalhos tinham sido inspirados por Thadeus ou por Trees, depois da morte deste.
- Porque  que ela no foi  missa? Dantes nunca faltava. - Faye bebeu mais um gole de leite.
-  capaz de no querer encontrar-se contigo - respondeu ao fim de um bocado.
- Acha mesmo que  isso? - insistiu George, com um olhar magoado.
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- Talvez as coisas fossem diferentes se estivesses sozinho, mas  natural que ela no queira encontrar-se contigo e com Susan ao mesmo tempo. Lembra-te de que ela
ficou muito magoada.
- Ainda? Ao fim de todos estes anos? - disse ele, encolhendo os ombros com ar incrdulo.
George nunca esperara que ela se agarrasse  recordao dele durante tanto tempo. Sentiu a ferida aberta por Miss Hogmier abrir ainda mais, mas esta depressa foi
substituda por uma satisfao vergonhosa por Rita ainda lhe pertencer, apesar de todos os anos que tinham passado.
Faye pousou-lhe a mo no brao e sentiu um arrepio. O toque familiar do casaco de Trees produziu nela um sentimento de arrependimento.
- Deixa-a em paz - aconselhou-o. -  melhor assim.
- No tenho outro remdio - resmungou ele. Contudo, no tinha inteno de o fazer. - Porque veio c para fora? - perguntou. - Saudades do pai?
- Vestiste o casaco dele - disse ela, com uma palmadinha. - Ainda no deitei nada fora. Se quiseres ficar com alguma coisa,  s escolheres.
- Ainda passou pouco tempo. Seria estranho. Mas gostava de comear a tomar conta das rvores dele. Importa-se?
- Claro que no. Tambm gostava de o fazer, mas no sei.
- Ele adorava aquelas rvores.
- Foi uma das suas adoradas rvores que o matou. Sinto falta da companhia dele. Acho que s comeamos a dar valor s pessoas depois de elas desaparecerem. s vezes
passvamos vrios dias quase sem falar um com o outro, mas a verdade  que ele era uma presena afectuosa em casa. Nunca me sentia sozinha, s solitria. Percebes
o que quero dizer?
- Nem por isso - respondeu ele.
Faye queria falar-lhe de Thadeus, de como ele preenchia a parte dela que Trees sempre negligenciara.
- s vezes penso que o teu pai gostava mais das malditas rvores do que de mim. J pensaste no que  ter cimes de um bosque de nogueiras? Agora parece-me uma tolice.
- No parece nada - disse ele. De repente a imagem da me a sair de bicicleta a meio da noite voltou a surgir-lhe na mente e teve vontade de lhe fazer mais perguntas
sobre o assunto. Contudo, acabou por recuar. No lhe pareceu correcto meter-se no assunto sem que ela desse sinais de que queria que ele o fizesse.
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- Nos ltimos tempos andvamos pela casa quase como duas sombras. Praticamente no falvamos. Agora tenho pena de no ter feito um esforo para comunicar com ele.
- No vale a pena, me. Ele sabia que a me o amava.
- Espero que soubesse. Se eu estivesse l quando o ramo caiu, talvez lhe pudesse ter dito.
- E onde estava a me exactamente? - perguntou George, que sentiu a ansiedade que a rodeava como uma matria escura e viscosa. Ela hesitou, coou o pescoo e pousou
a chvena na mesa  frente da cadeira. De repente, George teve a impresso que o cho se tornara menos firme debaixo dos seus ps.
- Eu andava a fazer uma pea de cermica para um velho da aldeia. - Houve uma longa pausa enquanto George punha as peas do puzzle no lugar.
- Como  que ele se chama?
Faye quase no se atrevia a respirar. Tinha a certeza que o filho sabia.
- Thadeus Walizhewski.
George reconheceu o nome, embora, como a maior parte das pessoas da aldeia, nunca tivesse falado com o polaco.
- E a me est apaixonada por ele? - A me continuou sem fazer um gesto.
- Estou - respondeu num sussurro.
Assim tudo fazia sentido. A solidez do casamento dos seus pais no passara de uma iluso. Em criana nunca pusera em causa a relao dos dois, mas em adulto conseguia
ver perfeitamente as falhas. Contudo, no achava mal que a me procurasse o amor com outro homem. Quem era ele para a julgar? Era to culpado como ela. Ela amara
Trees e Thadeus. George comeava a perceber que era possvel amar duas pessoas ao mesmo tempo por razes completamente diferentes e de maneiras tambm diferentes.
Ele prprio amava Susan, mas, agora que estava de novo em Frognal Point, uma parte do seu corao que estivera muitos anos adormecida comeava a querer voltar 
vida.
Passaram-se algumas semanas. George tomou conta da quinta, que o manteve muito ocupado, j que as coisas se tinham modificado profundamente desde a guerra. Andava
de um lado para o outro em fato de trabalho, as mos e o cabelo sujos de terra, o que lhe recordava o tempo passado a cavalgar na plancie na companhia dos gachos.
Percorria
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a quinta no Land Rover, observando os campos na companhia de Cyril e procurando conhecer de novo a propriedade que herdara. Nada lhe parecia insignificante. Conduzia
o tractor, varria o cho, reparava mquinas avariadas, dava de comer aos animais e recordava os tempos em que, jovem, trabalhara com o pai. Lamentava no ter estado
ali quando o pai tinha comprado a nova ceifeira debulhadora Massey Ferguson.
- Era o orgulho dele - disse-lhe Cyril, com uma palmada no flanco verde da mquina, como se se tratasse de um animal obediente. - Avana pelos campos a fazer o trabalho
de doze homens. Quando o senhor Trees estava ao volante desta beleza tinha sempre um sorriso nos lbios.
Os filhos de George e Susan comearam a frequentar a mesma escola que os de Maddie e nada indicava que sentissem a falta das plancies soalheiras de Crdova. Mas
Susan sentia. Dificilmente passava um dia em que no as recordasse com nostalgia. Sentia-se deslocada em Frognal Point. A hostilidade que sentira na igreja seguira-a
at Lower Farm e, por muito que Alice e Faye se esforassem por receb-la bem, continuava a ter a impresso de que a olhavam atravs de um painel forte de vidro.
No tinha sido feita para a humidade, os ventos costeiros e o mar. Detestava andar de barco enjoava sempre e no suportava o frio. Os piqueniques na praia tinham
perdido o encanto. Alm de se meter na comida, a areia parecia tambm penetrar na roupa e arranhar-lhe a pele. Sentia a falta de Agatha e de Jos Antnio, que a
tinham recebido com o calor do sol da Argentina.
Por fim, a moblia chegou de Buenos Aires e George e Susan puderam mudar-se para a casa da quinta. Talvez, pensou Susan, se tivesse a sua prpria casa para se abrigar
e proteger, comeasse a sentir-se mais  vontade. Assim, com um forte sentimento de que alguma coisa se repetia, comeou a esfregar o cho, a pintar as paredes e
a fazer cortinados com a mquina de coser de Alice. No tinha tempo para se pr a especular sobre Rita. Ningum falava dela, por delicadeza, e Susan no voltara
a cruzar-se com ela na aldeia. As sombras do passado pareciam desaparecer sob as peas de mobilirio e as carpetes que estendia no cho, e que transformavam a pequena
casa rstica numa habitao elegante e acolhedora.
Uma tarde em que Susan saiu com os filhos para ir conhecer Mrs. Megalith, George aproveitou a oportunidade para um passeio a ss pelas falsias e para fumar um cigarro
na gruta que se tornara um smbolo
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de tudo o que em tempos amara e deixara. Estava uma tarde magnfica. O Sol comeava a pr-se, dando ao cu uma cor rosada. O mar parecia cobre lquido e, ao longe,
as ondas reflectiam a luz como estrelas. Dominado pela nostalgia, George encaminhou-se para as rochas onde em tempos estivera com Rita. Nessa altura estavam ambos
to cheios de alegria e de optimismo, to longe de imaginar que a sua histria de amor terminaria com o Vero... Essa parte da sua vida terminara. Era um captulo
encerrado, que acumulava p e estava a ser esquecido. Talvez um dia viesse a ensinar aos filhos o que sabia sobre pssaros, e talvez Charlie gostasse de os observar
e viesse a desejar voar como acontecera com ele. Ou talvez viesse a amar outras coisas, coisas que tornaria suas. No podia esperar que os filhos vivessem a sua
vida.
Atravessou a extenso de areia que separava as rochas da abertura da gruta, naquele momento com alguns centmetros de gua. Em tempos, quando olhava para a entrada
da gruta, ela parecia-lhe um lugar excitante. Nesse dia pareceu-lhe um lugar abandonado, triste, frio, vazio. Muitos anos atrs tinha o cheiro de Rita, mesmo quando
ali vinha sozinho. Nessa altura, a presena dela era to forte que era como se o calor do corpo dela estivesse impregnado nas paredes, como se a prpria gruta vibrasse
com vida. Passados todos aqueles anos, pareceu-lhe um lugar distante, colrico, em que se sentiu a mais. Os espritos que tinham vivido naquele lugar j ali no
se encontravam.
Apetecia-lhe ir visitar Rita. Queria falar do passado, dizer-lhe que tinha pena do que sucedera, que nunca quisera mago-la. Amava e respeitava Susan, que o compreendia
e era sua igual em todos os sentidos. No entanto, ao mesmo tempo, sentia nostalgia pelo rapaz que fora em tempos e por Rita, que fizera parte desse rapaz.
Percorreu as paredes com o olhar, recordando momentos de intimidade em que no voltara a pensar em quinze anos. Pusera-os deliberadamente de parte. Mas nesse momento
as imagens pareceram regressar em catadupa, demasiadas de cada vez, e teve dificuldade em perceb-las a todas. Lembrava-se do sabor dela quando se beijavam, da inocncia
suave da pele dela quando lhe percorria as pernas com a mo, e do seu riso quando atirava a cabea para trs, expondo o pescoo branco que ele beijava provocadoramente.
Sentia o aroma adocicado das violetas que lhe parecia exclusivo dela,  mistura com o cheiro forte a mar, e a sua alma foi dominada pela nostalgia.
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De repente um objecto brilhante meio enterrado na areia chamou a sua ateno. Sem dvida a gua na mar alta levara-o at ao fundo da gruta. Aproximou-se e, curioso,
escavou um pouco a areia e pegou-lhe. Reconheceu-o imediatamente. Era o pingente da pomba que comprara a Rita a bordo do Fortuna.
Regressou devagar  praia, com o pingente a arder-lhe num bolso das calas. Tocou-lhe, pensativo, reflectindo no seu significado. Que lhe importava tudo aquilo?
Porque havia a recordao de Rita de o perseguir? Escolhera quebrar o noivado, casar com Susan, comear uma nova vida do outro lado do mundo. Nunca lamentara essas
decises. Mas agora que regressara sentia a falta dela.
Mrs. Megalith ficou surpreendida quando recebeu uma chamada de Susan. Susan no era comunicativa ao telefone, mas tinha uma voz melodiosa e a sua pronncia indicava
que se tratava de uma pessoa sofisticada, que contrastava com a aldeia de Devon onde se encontravam. Mrs. Megalith ficou curiosa.
Quando chegaram, ela andava pelo meio do jardim com um casaco velho e um par de botas. Susan tocara vrias vezes  campainha, mas como ningum respondera decidira
contornar a casa pelas traseiras. Para sua surpresa, o jardim parecia um enorme avirio, cheio de espcies exticas. Havia pssaros a voar, as asas graciosas iluminadas
pelos ltimos raios de Sol, de cor mbar, pssaros no cho a debicarem sabe-se l o qu no meio da erva, como se tagarelassem alegremente uns com os outros. A luz
do entardecer ia enfraquecendo devagar, colorindo as rvores com uma vibrante tonalidade rosada e as folhas de um vermelho escuro e vvido. Mesmo Charlie e Ava pareciam
deslumbrados com o espectculo extraordinrio.
- Ela  realmente uma bruxa - soprou Charlie  irm.
- Chiu! - ralhou a me, com medo que a velha senhora ouvisse e ficasse ofendida. - O pap estava s a brincar - acrescentou na esperana de os convencer.
Charlie respondeu-lhe revirando os olhos com impacincia. Quando Mrs. Megalith os cumprimentou, os trs pareceram saltar como ovelhinhas assustadas.
- Ah! Susan! Que imagem encantadora! - exclamou ela, manquejando em direco a eles apoiada  bengala. - Adoro esta altura do dia.  to agradvel ver os passarinhos
acomodarem-se para a noite...
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Susan achou que eles pareciam fazer tudo menos acomodar-se, mas sorriu e estendeu-lhe a mo.
-  um prazer conhec-la pessoalmente - respondeu-lhe. - Estes so os meus filhos, o Charlie e a Ava.
- Fico sempre satisfeita quando as coisas correm como planeado - disse Mrs. Megalith com uma voz profunda e rica. Deu uma palmadinha na cabea de Charlie. Ava abriu
muito os olhos quando viu todos os cristais que brilhavam nos seus velhos dedos engelhados. - Arranjmos um rapazinho muito bem-parecido! - Susan sorriu do ar aterrado
do filho, que ficou perfeitamente imvel at que Mrs. Megalith retirou a mo, depois passou ele mesmo os dedos pelo cabelo no fosse a bruxa ter l deixado alguma
coisa.
- Tem um jardim magnfico - disse Susan com sinceridade. - E uma vista belssima do esturio.
- Tenho muita sorte, e na minha idade damos valor ao que temos e apreciamo-lo. E vocs, como se esto a adaptar a Frognal Point? - perguntou Mrs. Megalith, que comeou
a encaminhar-se para casa. Ava e Charlie, habituados a correrem  solta, seguiam-na devagar, como uma dama de honor e um pajem dedicado. - Se isso vos reconfortar,
posso dizer-vos que nunca me adaptei e vivo neste stio desde que nasci.
- Estamos a fazer o possvel por nos integrar. Os midos j esto na escola e j fizeram amigos, especialmente os seus netos - respondeu Susan. Mrs. Megalith olhou-a
e tentou adivinhar que pensaria Rita do assunto. - Vou dar tempo ao tempo, sobretudo por causa do George. Fomos muito felizes na Argentina, mas no fim de contas
esta  a terra dele.
- Ele era um jovem muito enrgico, se bem me lembro - disse Mrs. Megalith, abrindo a porta das traseiras, que dava para a estufa.
Nos vasos havia plantas exticas e algumas parreiras trepavam pelas paredes e espalhavam-se ao longo do tecto como razes de rvores. As visitas seguiram-na por
um corredor, at que entraram numa sala da casa onde havia uma lareira acesa. Por cima, havia uma prateleira com um grande nmero de fotografias.
Susan sentiu-se imediatamente atrada por elas. Todas estavam em molduras, um tanto amontoadas, e eram sobretudo dos netos e dos bisnetos de Mrs. Megalith.
- Tem uma grande famlia - observou Susan, que, quando viu uma fotografia de Antoinette, percebeu a sua observao de que por pouco no fora da famlia de George
antes de Susan ter casado com ele.
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- Parece a famlia de um coelho. s vezes quase lhes perco a conta. J conheceu o Max? - perguntou Mrs. Megalith, e os seus olhos pareceram mudar de tonalidade.
Susan respondeu negativamente e Mrs. Megalith acrescentou: -  um homem excepcional. Alm de bem-parecido,  muito dotado e talentoso. Terrivelmente talentoso.
Susan deixou a velha senhora discorrer livremente sobre Max enquanto observava uma fotografia de Rita, que, com o cabelo comprido e ondulado e os olhos doces, parecia
uma mulher despreocupada e feliz. Perguntou a si mesma se, caso no tivesse conhecido George, teria deixado que John Haddon a tivesse destrudo.
- Penso que no conheceu a minha neta - disse Mrs. Megalith, indicando a Charlie e Ava com um gesto que podiam sentar-se. - No aguento que fiquem a parados - disse
ela com irritao, acenando todos os seus queixos na direco dos midos. - Deixam-me tonta, por isso faam favor de se sentar ou de ir l para fora brincar com
os gatos. Eles no tm muitas oportunidades de brincar, garanto-vos.
Charlie e Ava saram da sala sem dizer uma palavra.
- Cruzei-me com ela na loja, mas no fomos apresentadas - respondeu Susan, cautelosamente.
- Teve sorte por ela no lhe ter arrancado os olhos - disse Mrs. Megalith com desdm.
Susan inclinou-se sobre a lareira.
- No me parece que os nossos caminhos estejam destinados a cruzar-se de novo. De resto, h boas razes para isso. - Afinal, casei com o homem que ela amava...
- Estou convencida de que ela pensa que ainda o ama, mas se se desse ao trabalho de o observar ia perceber que ama um homem completamente diferente. As pessoas mudam,
e eu tenho a certeza que o George j no  o rapaz com quem ela cresceu. s vezes, a realidade  dura, mas a Rita no parece viver na realidade. Na verdade, aquela
rapariga surpreende-me, e eu sou mdium.
- Tem razo, o George tornou-se um homem diferente - disse Susan com prudncia.
- Em crianas eram inseparveis - continuou Mrs. Megalith, que no percebeu que Susan teria preferido no falar de Rita. - Mas o George ficou muito marcado pela
guerra, e a pobre Rita foi apenas mais uma baixa. Hitler tem muito por que responder. J com o Max a histria 
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outra, muito diferente. A tragdia dele  a tragdia da Europa. Tantas vidas inocentes... O George pensa que sofreu muito, mas no perdeu a famlia nos campos de
concentrao como o Max.
- O sofrimento  sempre relativo, Mistress Megalith. George perdeu os amigos e viu muitas coisas terrveis. E desde ento elas ainda no deixaram de o atormentar
- respondeu Susan, que no estava a gostar das insinuaes de Mrs. Megalith.
- Teve muita sorte por ter encontrado a felicidade consigo.
- Eu compreendo-o.
- Claro que sim, minha querida. - Mrs. Megalith brincava com a selenite que trazia sempre ao pescoo. - No fim de contas, ele no  assim to complicado, pois no?
Nessa altura, Charlie e Ava irromperam pela sala. Vinham aos encontres e a implicar um com o outro.
- Mistress Megalith, a senhora  uma bruxa? - perguntou Charlie com uma expresso atrevida.
Susan ficou horrorizada.
- Charlie, francamente! - ralhou, embaraada. Mrs. Megalith olhou para ele com firmeza.
- Sou sim - respondeu com toda a seriedade. Ava deu um passo atrs.
- E faz feitios? - perguntou Charlie.
Susan tentou intervir, mas Mrs. Megalith fez-lhe um gesto de que tudo estava bem. H muitos anos que no se divertia tanto.
- Fao.
- Feitios de que tipo?
Mrs. Megalith inclinou-se para a frente e disse num sussurro sombrio:
- Lembram-se de todos aqueles pssaros no jardim? - perguntou a Charlie, que acenou que sim. - Todos foram rapazinhos atrevidos como tu. - Mrs. Megalith voltou-se
para Susan e disse-lhe com uma careta: - Avise o seu marido de que a culpa vai ser dele, por andar a espalhar disparates acerca de mim.
Quando voltaram para casa, Charlie insistiu todo o caminho que no tinha acreditado nela. Ava arreliava-o e dizia-lhe que era um pateta e acreditava em tudo o que
lhe diziam. Susan conduzia em silncio, incapaz de pensar no que quer que fosse que no em Rita. O seu rosto rosado permanecia na sua mente, recordando-lhe que,
por muito que tentasse
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integrar-se naquela aldeia da costa, isso seria impossvel. Descobrira outro lado do homem que julgara conhecer. O lado que amava as mesmas coisas que Rita. O lado
que pertencia a Frognal Point. O lado a que ela prpria era alheia. Sentia-se uma espcie de pea de puzzle com a forma errada.
Nessa noite, estava a arrumar o quarto enquanto George estava no banho, a cantar as canes que Jos Antnio cantava com os gachos em Las Dos Vizcachas, quando
ao dobrar as calas dele ouviu qualquer coisa metlica nos bolsos e encontrou o pingente. Nunca o tinha visto e, para sua fria, sentiu o corao bater mais depressa.
Repreendeu-se a si mesma por se sentir to insegura. Se o tivesse encontrado na Argentina, no teria sequer pensado no assunto. Recomps-se e entrou na casa de banho,
onde George tinha o rosto coberto de creme da barba. Quando a viu, o marido olhou-a surpreendido. Ela apresentou-lhe o pingente e ficou  espera que ele se explicasse.
- O que  isto? - perguntou-lhe, tentando dominar o tremor na voz.
- Encontrei-o numa gruta na praia - respondeu ele com voz inocente.
- A srio?
- Estava meio enterrado na areia. Pensei que talvez gostasses dele. - Ela olhou para o pingente e depois de novo para o marido. A sua desconfiana no desaparecera.
- Foste muito amvel. Deve ter sido alguma rapariga que o perdeu - respondeu-lhe, estudando-o com mais ateno. -  uma pomba. Parece-me mais adequado para uma rapariga
mais nova, no achas? Para uma rapariga que goste de pssaros. - Olhou-o com frieza e acrescentou: - Vou d-lo a Ava.
Saiu e deixou-o sobre a cmoda, perguntando a si mesma se no teria exagerado.
George passou a navalha pelo rosto. De repente estremeceu. A lmina tinha-lhe aberto um golpe no queixo. Sentou-se, imvel, a ver o sangue espalhar-se na gua do
banho.

CAPTULO 30
As semanas foram passando e o Inverno instalou-se de vez, e com ele os nevoeiros gelados e os ventos fortes. Ava comeou a usar orgulhosamente o pingente depois
de Susan lhe ter comprado um fio mais pequeno. George disse-lhe que lhe ficava muito bem e depois no voltou a falar do assunto, o que levou Susan a recriminar-se
por ter tirado concluses precipitadas. As frias chegaram e os midos comearam a passar grande parte do tempo com os filhos de Maddie, a brincar na quinta e a
construir acampamentos nos bosques. Para surpresa de Susan, ela e Maddie tornaram-se amigas. Maddie no lhe guardara rancor, ao contrrio do resto da aldeia, apesar
de estar entre os que teriam mais razes para o fazer. Para ela parecia no ter importncia dar-se com a mulher que roubara  irm o homem que ela amava. Nunca falavam
de Rita. Ao fim de algum tempo, Susan deixou mesmo de pensar nela. Descobriu que tinha muito em comum com Maddie. Alm dos filhos e de Frognal Point, Maddie era
uma pessoa directa e sofisticada, coisa que fora buscar nem a me sabia onde. Nenhuma delas gostava de actividades relacionadas com o mar e a praia, que tanto agradavam
a George e a Rita, preferindo sentar-se  volta de uma mesa posta para o ch no conforto das suas salas de estar. Riam-se as duas e partilhavam histrias acerca
da terrvel Miss Hogmier e da excntrica Mrs. Megalith. Ambas se aborreciam com os sermes do reverendo Hammond e trocavam olhares cmplices nos servios de domingo,
quando ele comeava a divagar e a repetir-se.
No entanto, George no conseguia esquecer Rita. Notou a ausncia dela na missa ao domingo e comeou a dar por si  procura dela quando passeava pelas falsias ou
trepava s rochas na companhia dos filhos. Na sua mente, a imagem dela ia-se avolumando de forma desproporcionada
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e Frognal Point ia-lhe parecendo cada vez mais incompleto sem a sua presena. No reparou na frieza que se ia insinuando no seu casamento. Susan refugiava-se cada
vez mais nas vidas dos filhos, enquanto ele observava a praia com ansiedade crescente em busca do seu passado.
Mas no fim-de-semana anterior ao Natal as suas famlias deram um passeio na praia e ele por fim viu-a. Estava uma tarde muito fria. O sol j derretera a geada e
parecia esforar-se por derreter tambm a fina camada de neve que cara durante a noite. George fora  frente com Charlie. Tinham feito um papagaio que estava a
ser difcil de dominar, que danava mais do que devia e oscilava ao vento sem direco precisa. Charlie estava encantado e gritava para trs, para a me, para ter
a certeza que ela os via. Susan interrompia a conversa com Harry e Maddie de vez em quando, mas ao fim de algum tempo afastaram-se de mais para se ouvirem uns aos
outros. George e Charlie tinham-se transformado em silhuetas minsculas muito ao longe.
Por fim, quando se aproximaram da velha gruta secreta, George soltou o fio sem querer. Ficou a ver o papagaio afastar-se triunfante pelos ares, at que deu uma reviravolta
e acabou por se precipitar nas rochas. Charlie seguiu o pai at  falsia, onde ambos se deitaram de barriga para baixo a espreitar o pobre papagaio. George esticou-se
o mais que conseguiu, mas ele estava fora do seu alcance.
- Desculpa, Charlie - disse ao filho com um aceno de cabea. -  melhor esperarmos at o Harry chegar. Talvez ele consiga ajudar-nos.
Nesse momento os seus olhos foram atrados por um movimento na praia,  beira da gua. Susteve a respirao e esforou os olhos, mas, apesar da distncia, no teve
dvida de que se tratava de Rita.
Ps-se de p e disse ao filho:
- Charlie, porque no voltas para trs e lhes dizes que perdemos o papagaio? - sugeriu ele.
Charlie partiu a correr sem hesitar, deixando George sozinho a ver o seu antigo amor caminhar devagar em direco a ele, seguido por um co saltitante de cor dourada.
Quando conseguiu v-la melhor distinguiu o cabelo comprido preso sob um chapu de l muito inclinado sobre a testa. Usava um casaco bege e umas botas de cabedal
de cano alto e tinha as mos metidas nos bolsos.
Atingido pelo vento, mas tambm pelas recordaes que lhe acorriam em catadupa, deixou-se ficar parado junto da praia, consciente de que minutos
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mais tarde ela levantaria os olhos e no poderia deixar de o ver, a observ-la. Apetecia-lhe descer o carreiro a correr em direco a ela, como teria feito na sua
juventude, e falar-lhe, mas Susan e os outros j se aproximavam, incentivados por um Charlie excitadssimo. Meteu as mos nos bolsos e os ombros descaram em desnimo.
Dominado pela tristeza, olhou desamparado para os traos de Rita at que conseguiu foc-los perfeitamente. O seu rosto permaneceu impassvel. Tinha o nariz vermelho,
mas a pele do rosto e do pescoo era muito branca. A tragdia da vida dela parecia dot-la de uma beleza que na realidade no possua e o corao de George foi tocado
pela nostalgia do que poderia ter sido e no fora. Involuntariamente, estava a romantiz-la, rodeando-a de um feitio intemporal que se teria quebrado se ele tivesse
tido a oportunidade de falar com ela. Mas no o fez e foi dominado pelo encantamento.
Rita levantou os olhos, como ele esperava, e parou de andar. Deixou-se ficar no mesmo stio, perfeitamente imvel. Apenas o seu cabelo continuava a danar ao vento,
indiferente  imagem que lhe gelava o sangue nas veias. O silncio pareceu descer sobre a pequena gruta onde as recordaes se combinavam num momento irreal que
parecia alheio s fronteiras do tempo. O co corria em todos os sentidos pela areia, a ladrar s ondas e aos pssaros que procuravam comida. Depois, Rita levantou
a mo e o seu gesto pareceu quebrar o encantamento.
George voltou-se para Susan e os outros, que j estavam apenas a alguns passos de distncia.
- Ento onde est o papagaio? - perguntou Susan. - No tem importncia, querido. Podemos comprar outro.
Depois olhou para baixo, para a praia. Ao princpio, s viu o papagaio preso nas rochas, com a cauda a oscilar como uma longa cobra. Depois, a sua ateno foi atrada
pela mulher que os olhava do meio da praia. Pareceu-lhe que demorara muito a meter a mo com que protegia os olhos de novo no bolso e a continuar o passeio. No
voltou a levantar os olhos. Manteve-os fixos  sua frente, determinada a no dar  americana o prazer de lhe deixar ver o seu sofrimento. Susan reconheceu imediatamente
Rita, mas fingiu no ter reparado nela.
- Tenho a impresso que se tu e o Harry segurarem Charlie pelos tornozelos ele  capaz de chegar l - sugeriu descontraidamente, embora se sentisse como se tivesse
levado um murro no estmago.
Recuperaram o papagaio e lanaram-no de novo, mas George no recuperou a boa disposio. Voltou a mergulhar nos seus pensamentos, onde
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a mulher no podia acompanh-lo. Quando viu o rosto sombrio dele, Susan lamentou que tivessem vindo para Frognal Point. Tinham sido to felizes na Argentina...
Rita sentiu as pernas tremerem de tal maneira que mal conseguia andar. Ele tinha-a visto e no tirara os olhos dela. Durante o longo momento em que os seus olhares
se tinham encontrado, ia jurar que vira, mesmo a uma distncia to grande, um brilho de arrependimento. Continuou a caminhar pela areia, consciente de que George
continuava no alto da falsia, com a mulher ao lado. Pressentia o desapontamento dele. Talvez George quisesse falar com ela. Talvez se estivesse sozinho tivesse
descido o caminho de areia a correr, como fizera tantas vezes para chegar ao p dela e a abraar. Talvez a tivesse tomado nos braos e lhe dissesse o quanto lamentava
o que acontecera, que tomara uma deciso errada e passara os ltimos dezoito anos mergulhado em arrependimento. Enquanto brincava com o anel de diamante, Rita sentia
a certeza de que num recanto qualquer do seu corao ele ainda a amava.
De repente sentiu-se melhor e teve um impulso inesperado de correr pela praia com os braos abertos. Quando olhou de relance para o stio onde antes estivera George
viu que se tinham ido todos embora. Apenas os canaviais se erguiam em direco ao cu, acentuando o vazio deixado pela ausncia dele. Cheia de uma exuberncia infantil,
a mesma que dominara a sua juventude, estendeu os braos e correu contra o vento. Riu-se para Tarka, que ladrava excitada, abanando a cauda e saltando na areia ao
lado dela. Os pssaros fugiram a voar e Rita teve a impresso de que tambm ela seria capaz de o fazer, to leve era o seu estado de esprito.
Nessa noite, Susan sentiu-se esmagada. Tudo o que desejava era fazer as malas e voltar para a Argentina. Atormentada pelos seus medos, abriu o frigorfico, apenas
para descobrir que j no havia leite. George lia os jornais na sala e Charlie e Ava jogavam xadrez  frente da lareira, a ouvir os discos de Jimmy Hendrix. Como
sabia que a loja da aldeia estava fechada e o leiteiro chegava sempre tarde de mais para o pequeno-almoo de George, decidiu ir pedir um litro de leite a Faye.
Quando se aproximou da casa grande da quinta comeou a ouvir vozes vindas da sala de estar. Se no tivesse ouvido Alice dizer o seu nome, teria chamado em voz alta.
Quando percebeu que estavam a falar dela, ficou imvel e susteve a respirao.
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- A Susan  muito simptica, mas tambm  uma pessoa fria - dizia Alice.
- Mas faz o George feliz, e isso  o mais importante - respondeu Faye, ao que se seguiu uma pausa.
- Ele no parece muito feliz - observou a voz fina de Alice. - Acho que tinha sido mais feliz se tivesse casado com a Rita. O George sempre acreditou que podia ter
tudo o que quisesse. Sempre foi muito precipitado a desistir do que  bom para ele em troca de qualquer coisa melhor que possa vir a caminho.
- No neste caso, filha. Ele parece-me perfeitamente satisfeito com Susan. Alm disso, ela deu-lhe dois filhos encantadores e uma vida estvel. Estou de acordo que
no  uma pessoa muito afectuosa, mas tambm deve ser duro para ela estar aqui. A Inglaterra deve parecer-lhe horrivelmente fria e hmida.
- Ela no se integra. Ao princpio, ainda fez um esforo para partilhar os interesses dele, mas agora raramente vai com George onde quer que seja. J me encontrei
vrias vezes com ele na praia e vai sempre sozinho. Tenho a impresso que ela deixou de se esforar.
- Isso no  crime nenhum. Eu nunca fiz nenhum esforo por me interessar pelas rvores do teu pai e ele nunca quis saber de cermica para nada.
- Isso  diferente. No estou a falar de um passatempo, estou a falar de um modo de vida. George  o mar, a praia, as falsias, os pssaros. Ele adora as pessoas.
J Susan  evidente que no gosta delas. J reparaste como ela se afasta depois da missa, como se ningum fosse suficientemente bom para ela? Faz-me lembrar a Antoinette...
Susan no aguentou nem mais um minuto. Com os olhos cheios de lgrimas, voltou para trs e enfrentou de novo o vento. O frio acalmou-a e tirou-lhe a cor do rosto.
Era ento aquilo que todos pensavam dela. Que ele estaria melhor se tivesse casado com Rita. Sentiu o ressentimento subir-lhe no peito. Seria possvel que George
pensasse o mesmo?
No estava disposta a continuar a tolerar aquilo. Estava farta de ser posta de lado e de fingir que nada se passava. Quando chegou a casa, George estava na cozinha
a servir-se de biscoitos. Quando viu a cara dela fechou a lata.
- Que aconteceu? - perguntou ele, lembrando-se imediatamente da me.?,
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- Temos de ter uma conversa - disse ela com firmeza.
George seguiu-a at ao quarto, perguntando a si mesmo qual seria a causa da irritao dela. Depois de entrarem no quarto, Susan fechou a porta  chave para ter a
certeza de que os filhos no entravam sem eles se aperceberem.
- Que aconteceu?
Ela voltou-se para ele de braos cruzados. O seu rosto estava de novo vermelho.
- Ouvi agora mesmo, sem querer, uma conversa entre Alice e a tua me.
- Acerca de qu?
- - De mim.
- E que diziam elas?
- Que estarias melhor se tivesses casado com Rita.
George sentiu que o seu corpo se descontraa e respondeu com uma risada:
- E tu ligaste alguma coisa ao que elas diziam?
- Eu vi a maneira como olhaste para ela hoje, George. No sou cega.
- Ela vive aqui, Susan. Quer queira quer no, tenho de a ver.
- No  disso que estou a falar. Estou a falar da maneira como olhaste para ela. Continuas a am-la?
- Claro que no. Eu amo-te a ti - respondeu ele, como se toda aquela conversa no passasse de um disparate.
- Apesar de eu no me ter adaptado?
- Tu adaptaste-te!
- A tua me acha que no.
- O que interessa  o que eu acho.
- Por amor de Deus, George! - quase gritou. - Agora sou eu que sou perseguida pelos teus fantasmas!
Ele levantou-se, aproximou-se dela e tomou-a nos braos sem que ela resistisse.
- Ainda agora chegmos. J sabamos que as coisas no iam ser fceis. Para mim tambm no.  pelas recordaes da guerra que me sinto atormentado, no pela Rita.
- ramos to felizes na Argentina... - disse ela, envolvendo-o pela cintura. - Quem me dera que pudssemos regressar.
- D-me algum tempo. Eu vou melhorar, Susan. Prometo.
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Na manh seguinte, George sentiu necessidade de ficar sozinho no meio das adoradas nogueiras do pai. Talvez naquele stio sentisse a proximidade dele. A acreditar
em Mrs. Megalith, era ali que ele se encontrava, afastado apenas por algumas vibraes que tornavam impossvel que o vissem. Na sua imaginao, revia a sua silhueta
de homem alto e vigoroso, incluindo o bon e as pesadas botas que nunca largava, de p ao lado dos amigos que tinha perdido na guerra: Jamie Cordell, Rat Bridges
e Lorrie Hampton. Enfiou as mos nos bolsos e levantou os ombros para enfrentar a ventania que vinha do mar. Depois, uma pequena placa cinzenta na base de uma rvore
jovem chamou-lhe a ateno. Baixou-se para a observar e leu: Charles Henry Bolton, 24 de Outubro de 1949. O pai nunca lhe tinha contado que plantara uma rvore para
o neto. Passou um dedo sobre as letras, com os olhos hmidos de lgrimas. Sentia falta do pai. Sentia falta do rapaz que fora em tempos. Depois, o seu pensamento
voltou-se para Rita. Tambm sentia falta dela.
Max estava ansioso por voltar a Frognal Point para o Natal. O Natal em Elvestree era sempre memorvel, apesar de o acontecimento no lhes dizer respeito. Mrs. Megalith
respeitara as razes judaicas de Max e Ruth e tambm as festas religiosas que eles tinham celebrado na ustria, em crianas. De acordo com o que aprendera, acendia
velas na sexta-feira  noite e escondia-lhes as prendas da Hanukkah, com a menor de oito velas  janela, de acordo com os preceitos da Lei. Nunca os levara  igreja
e, em certas ocasies, transformara a sua sala de estar numa verdadeira sinagoga. A primeira vez que Max e Ruth haviam entrado numa sinagoga em Inglaterra fora muito
depois do fim da guerra, numa altura em que Mrs. Megalith fizera questo de lev-los, ainda adolescentes, a Londres, onde tinham ficado em casa da irm dela. Mrs.
Megalith aguentara todo o servio da manh em Bevis Marks, sem perceber uma nica palavra de hebreu, para que Max e Ruth pudessem permanecer fiis  religio dos
pais. Fora tambm a primeira vez que Ruth chorara com saudades de casa. Ao ouvir a lngua e o ritual da sinagoga, escutara tambm os ecos da infncia e fizera todo
o caminho de regresso a Devon a chorar, no comboio. Max tambm tivera vontade de chorar, mas sabia que tinha de ser forte pela irm. Cerrara os punhos e contivera
as lgrimas com dificuldade. As recordaes eram quase insuportveis. Quando chegara a casa tinha
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preenchido o vazio que se lhe fizera na alma com o pequeno livro de poesia da me. Ao ler os versos que ela em tempos lhe lera, acabara por ceder a recordaes em
geral demasiado dolorosas.
Tristemente, recordou a ltima refeio que a me lhe tinha preparado antes de os dois embarcarem no comboio que devia levar as crianas para Inglaterra. O pai assistira
a tudo com solenidade, com o nariz franzido e rodeado por uma nuvem familiar de tabaco. Ningum poderia prever o horror que os aguardava nem a possibilidade de fuga
que marcaria o destino de Max e Ruth. Lydia dormia sossegada no bero, sem noo daquilo que a esperava. Max tinha reparado que as mos muito brancas da me tremiam
quando ela lhes serviu a sopa de uma grande caarola e isso fizera-o sentir um n na garganta. Seria possvel que soubesse que no voltariam a encontrar-se? Que
no os veria crescer? O sofrimento devia ter sido insuportvel. Tinha tentado esconder a angstia por trs de um sorriso forado, mas no conseguira evitar o tremor
nas mos. O corao de Max enchera-se de medo e da sensao horrvel de que cortara a ligao com tudo o que at ali fora o seu apoio e suporte.
Na manh seguinte sentara-se no comboio com Ruth, de olhos postos na paisagem desolada de Inverno, recordando com todas as suas foras a cor e a majestade do Teatro
Imperial, as cadeiras de veludo vermelho, os projectores e o cheiro da tinta e do perfume, o rudo das vozes, as cadeiras a arrastarem-se, os gritinhos das actrizes,
vestidas de sedas e de rendas. Imaginou-se escondido no camarote do pai a assistir aos ensaios, sem que ningum o pudesse ver, rodeado pela nvoa da familiaridade
e do hbito.
O Natal sempre fora um prazer. No recordava a Max e a Ruth a famlia que tinham perdido na guerra nem a infncia que lhes havia sido to abruptamente roubada. O
Natal estava cheio de brilho, de novidades e de novas recordaes. Para Max representava tambm a oportunidade de se encontrar com Rita, o que sempre aguardara com
mais ansiedade que qualquer prenda. Nesse ano seria ainda mais especial porque ia pedir-lhe que casasse com ele.
Tinha a certeza que seria capaz de a fazer feliz, especialmente porque tinha criado uma reputao e possua dinheiro suficiente para satisfazer mesmo a mais materialista
das mulheres. E Rita no era materialista; pelo contrrio, era uma mulher de gostos simples. Tinha a inteno de lhe comprar uma casa o mais perto possvel de Frognal
Point e de lhe dar
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os seus prprios filhos. Nesse stio poderia observar as aves e correr pela areia. Havia de lev-la a Viena para lhe mostrar o teatro que o pai construra, e que
ele tinha esperana de vir a comprar. Nas noites de estreia veriam, de mos dadas, o pblico a encher os lugares, como o pai fizera quando a me a actuara.
Sabia que Rita gostava dele. Pressentia-o nas pausas entre as frases, quando o riso dela se arrastava e olhavam um para o outro com ternura. Mas no tinha a certeza
que ela o amasse como ele a ela. Isso j seria de mais. No entanto, um casamento era muito mais que a excitao apaixonada dos amantes. Era estabilidade, famlia
e afecto. As ltimas vezes que tinha estado em Frognal Point, ela parecera-lhe muito mais feliz e no tinha falado de George. Tinham conversado  volta de garrafas
de vinho e passeado pela areia  luz do luar. Com a exuberncia de crianas, tinham corrido pela areia, a rir-se, de cabea ao vento, e a provocarem-se um ao outro.
Nunca lhe confessara que a amava, no se atrevera a faz-lo. No entanto, o tempo ia passando e os dois estavam a ficar mais velhos. No podia esperar mais.
Max partiu para Devon no seu novo MG. Sentia-se bem ao volante de um carro desportivo novinho em folha, a percorrer caminhos estreitos pelo meio dos campos para
ir ter com a mulher que amava e passar com ela o resto da sua vida. Apesar de o tempo estar frio, conduziu com a capota descida, com um casaco de l, cachecol, um
casaco grosso e luvas de pele de ovelha. Gostava de sentir o vento a bater-lhe no rosto, morder-lhe a pele com dentes minsculos e aguados, e de observar o que
o rodeava com os seus culos antiquados, com a excitao de um homem que passava a maior parte da sua vida na cidade. O cu no estava azul, mas o dia era de uma
luminosidade resplandecente. O sol fazia o que podia por derreter a geada. Max transbordava de alegria, cantando a plenos pulmes com o rdio, que levava no volume
mximo. Quando se aproximou de Elvestree desligou o rdio e inspirou a plenos pulmes os aromas que lhe anunciavam a chegada a casa. Tinha a impresso de j cheirar
a madeira a arder na lareira e de sentir o gosto do champanhe da generosa cave de Denzil. Pisou o acelerador e no conseguiu conter um sorriso ao pensar em Mrs.
Megalith, que estaria sem dvida vestida de veludo escarlate, com lenos de seda e a brilhar de cristais. O mundo tinha avanado, mas Elvestree no fora afectado
pelo tempo nem pela moda.
Parou o carro junto da casa e entrou pela porta da frente, decorada com uma coroa de azevinho e bagas vermelhas. Tropeando nos gatos, l
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conseguiu chegar  sala de estar, onde foi atrado pelo calor da lareira acesa e pela msica. Quando Mrs. Megalith o viu levantou-se da mesa das cartas para o abraar.
- Meu querido Max! - exclamou alegremente. - Ou conduziste como o vento ou levantaste-te com o nascer do Sol.
- As duas coisas - respondeu ele, rodeando-a com os seus longos braos.
Mrs. Megalith cheirava a canela e a naftalina, um cheiro que lhe despertava nostalgia, como o cheiro da lenha a arder. Depois de o beijar, deu dois passos atrs
e olhou-o com aprovao. "No h dvida de que se tornou um belo homem", pensou com orgulho.
- Onde est a Ruth? - perguntou ele enquanto se servia de um copo de vinho.
- Na cozinha, a fazer o almoo. Ultimamente anda muito lenta. Acho que anda a trabalhar de mais. Est muito plida - respondeu Mrs. Megalith, deixando-se cair num
cadeiro e olhando-o por cima dos culos de ler. Ruth continuava a viver em Elvestree. Ganhava a vida a cozinhar para famlias da aldeia. - No imaginas as histrias
que tem para contar - continuou Mrs. Megalith, pegando no jornal. - Algumas das famlias para quem ela trabalha so realmente excntricas.
Max olhou para Mrs. Megalith de sobrancelhas erguidas e com vontade de rir. No havia ningum to excntrico como a me adoptiva dos dois. Tinha a impresso de que,
ela no envelhecera um s dia desde que a conhecia. Continuava a sofrer os efeitos da bomba que cara em casa da irm durante a guerra, pois desde essa altura usava
bengala, o que a fazia parecer mais velha e vulnervel do que realmente era, mas a sua fraqueza era enganadora. Talvez o seu cabelo estivesse mais branco, mas continuava
forte e brilhante e a sua pele era lisa e macia como a de uma mulher muito mais jovem. Tal como o resto da casa e os jardins, parecia ter sido tocada por uma magia
inexplicvel, e o mais certo era vir a sobreviver a todos os que a rodeavam.
- Traz-me um porto - disse ela, e olhou-o por cima dos culos com um olhar inteligente cor de selenite. No era fcil esconder-lhe o que quer que fosse. - Porque
ests com esse ar de gato que comeu o canrio?
Max tinha vontade de lhe contar que ia pedir Rita em casamento. Custava-lhe conter o nervosismo, mas no queria estragar a surpresa. Se
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ela no tivesse j percebido, teria uma oportunidade rara de a surpreender.
- Estou s feliz por estar em casa - respondeu.
Mrs. Megalith fungou, incrdula, e olhou-o com desconfiana.
- Sempre foste um bocado selvagem - disse ela, pegando no clice de porto que ele tinha na mo. Max sentou-se em frente dela e recostou-se confortavelmente. - J
estava na altura de arranjares uma rapariga com quem gastar todo o teu dinheiro.
Max riu-se.
- Elas no nascem nas rvores, no sei se sabe... - respondeu-lhe ele.
- s vezes basta-nos olhar para o que est  frente dos nossos narizes.
Max olhou-a de olhos semicerrados, tentando adivinhar se ela pressentira as intenes dele. Teria Rita falado com ela? Conheceria Mrs. Megalith os seus sentimentos?
Decidiu no dizer nada.
- Como est a Rita?
Mrs. Megalith pousou o copo e tirou os culos.
- Graas a ti, Max, est contente.
- Porqu? - perguntou ele, quase sem se atrever a respirar.
- Sente-se feliz. Ajudaste-a a transformar aquele emprego aborrecidssimo na biblioteca numa coisa interessante, encorajaste-a a ler e a conhecer pessoas interessantes;
ela anda ocupada e a vida dela tem sentido. Acho que j se encontrou com George e Susan e j percebeu que tem de seguir com a vida dela. Parece-me que essa tolice
j acabou. Tem um aspecto maravilhoso e at parece que est com mais energia. Tambm j estava na altura!
Max bebeu mais um gole de vinho e procurou acalmar os nervos. Sentiu-se muito encorajado pelas palavras de Mrs. Megalith. Assim era natural que a amizade dos dois
se tornasse algo mais profundo.
- Esta tarde vou visit-la - disse ele, bebendo o copo at ao fim.
- Ela vai passar o Natal a Bray Cove, para aproveitar a companhia dos sobrinhos - disse Mrs. Megalith, que notou o desapontamento de Max e acrescentou: - Porque
no ficas para amanh? Eles vm todos almoar aqui a casa. A Ruth escolheu o peru mais gordo de propsito.
- Imagino que esteja a planear uma consoada tranquila na companhia de Maddie e de Harry - disse ele numa voz em que no transparecia qualquer emoo.
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- Eu acendi a menor com a Ruth. Os velhos hbitos so assim. Lembras-te de eu vos ter contado a histria do malvado rei Antoco, que tentou impedir os judeus de
rezarem  sua maneira?
- Sim, e ns costumvamos fazer estrelas de lato e pendurvamo-las no tecto da cozinha.
- Tu adoravas procurar as tuas prendas. Um dia hs-de fazer tudo isso com os teus prprios filhos.
A ideia alegrou Max. Imaginou uma casa como Elvestree, uma lareira acesa e Rita rodeada dos filhos dos dois. H anos que esperava por ela. Que importncia tinha
esperar mais um dia? Ia declarar-se no dia seguinte.
Nessa noite, Ruth e Max deram um passeio pelo jardim. Caminharam pelo relvado com um luar to luminoso e a Lua to brilhante no cu estrelado que o esturio parecia
um manto prateado estendido sobre um leito de areia. Max fumava, lamentando no estar ali com Rita, porque a noite era das mais romnticas que j vira. Ruth falava-lhe
do jovem estudante de Medicina por quem se apaixonara, mas Max no tinha coragem de partilhar com ela o seu prprio segredo. Guardara os seus sentimentos para si
mesmo durante tanto tempo que se sentia incapaz de falar deles antes de ter alguma coisa concreta para contar.
- Se a Lydia tivesse sobrevivido, teria agora vinte e seis anos - disse Ruth de repente. Max parou e olhou para ela. Era a primeira vez que falavam da irm. Mesmo
no comboio depois do servio religioso em Bevis Marks, Ruth no tinha falado da irm mais nova. - Gostava de me lembrar dela - disse. - Gostava de ter uma ideia
da cara dela.
- Eu tambm no me lembro - confessou Max.
- s vezes tenho tanto medo, Max, porque tambm no consigo ver a me e o pai. No consigo visualizar os rostos deles. Tento, mas  tudo um nevoeiro. Depois tenho
de olhar para aquela fotografia, aquela velha fotografia com a imagem quase a desaparecer.  tudo o que me resta. At a memria vai desaparecendo.
Max abraou-a e beijou-a no rosto. Ruth quase no aparecera todo o dia, mas nem Max nem Mrs. Megalith tinham prestado grande ateno ao assunto. Ruth sempre fora
assim, muito sossegada, uma jovem reservada que pouco falava e guardava os seus pensamentos para si.
- Porqu agora, Ruth? - perguntou-lhe o irmo.
Ela voltou para ele os olhos, que brilhavam  luz do luar. Durante um instante hesitou, como se no estivesse certa do que ia fazer, mas depois tentou esconder uma
lgrima e os lbios estremeceram.
355
- Porque estou grvida e gostava muito que a me estivesse comigo. - Max abraou uma vez mais a irm.
- Ests grvida? - perguntou, surpreendido.
- Sim, e sinto-me muito sozinha.
- Valha-me Deus, Ruth, tu no ests sozinha. Eu estou aqui contigo.
- Eu sei, mas...
- O pai do beb ficou contigo? - perguntou-lhe Max. - Se no tiver ficado, eu...
- Ficou, sim. Ns estamos apaixonados, Max - interrompeu-o ela, pressentindo a fria dele.
- Ele est disposto a casar contigo?
- Ele queria casar comigo, mas no tem dinheiro. Ainda no acabou o curso. Vive com os pais.
As lgrimas corriam-lhe pelo rosto enquanto contava a sua histria ao irmo.
Max estava horrorizado com a sua prpria negligncia. Andava to preocupado com Rita que no tinha reparado nos problemas da irm. Sentiu-se envergonhado do seu
egosmo e decidiu resolver tudo.
- Porque no me contaste h mais tempo? - perguntou.
- Estou a contar-te agora.
- A minha famlia s tu, Ruth. Sabes perfeitamente que eu tomo conta de ti. - A irm sorriu-lhe cheia de gratido e limpou os olhos. - No te vai faltar nada, garanto-te.
- s to bom para mim, Max...
- Tu s toda a minha famlia. O que  meu  teu - disse-lhe, e enrolou-lhe um caracol solto por trs da orelha. - Ele  boa pessoa? - perguntou ainda.
-  o melhor que possas imaginar!
- Sendo assim, casa com ele e faz de conta que Mrs. Megalith te deu dinheiro. No lhe digas que sou eu que te vou ajudar, no v ele ficar magoado.
Ruth abraou-o.
- Obrigada, Max - sussurrou-lhe ao ouvido, quase sem acreditar que todos os seus problemas tinham sido resolvidos com uma simples conversa.
- S te peo uma coisa - disse ele com firmeza. - Nunca mais hesites em pedir-me ajuda. O pai dava meia dzia de voltas no tmulo se soubesse que no me tinhas pedido
ajuda quando precisaste.
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- Prometo - respondeu ela, feliz.
Aquele Natal seria o melhor da sua vida. Passearam de brao dado os dois e Ruth foi-lhe falando de Samuel Kahan, de como se tinham conhecido, quando ela tinha cozinhado
para os pais dele num fim-de-semana na Primavera anterior. Ruth seria mulher de um mdico judeu. Os seus pais teriam ficado muito orgulhosos.
Quando passaram  frente da janela da sala de estar ambos pararam de repente  vista do espectculo extraordinrio que a viram. Mrs. Megalith falava sozinha num
tom muito animado. Ria-se, gesticulava e procurava mostrar-se sedutora, como se falasse com uma pessoa que admirasse profundamente.
- Querido Denzil, ainda h muitas garrafas na adega - dizia com um sorriso astuto. - Lembras-te daquele Krug de 1928? Ah, que dia aquele...
Depois reclinou-se no cadeiro e riu-se em resposta a qualquer coisa que Denzil teria dito. Inclinou a cabea e suspirou profundamente, sem nunca tirar os olhos
do que devia ser o esprito do marido morto. Ruth olhou para Max e riu-se.
- Anda - disse ele, abrindo caminho. - Acho que  melhor entrarmos pela porta das traseiras, no te parece?

CAPTULO 31
Na manh seguinte, Max acordou com um sentimento intenso de optimismo e excitao. Quando o Sol se pusesse nesse dia, era muito possvel que Rita j tivesse aceitado
o seu pedido de casamento. E ele no ia permitir que o seu nervosismo estragasse uma manh magnfica ou admitir, sequer, a ideia de que ela pudesse recusar. Tomou
banho, vestiu-se e juntou-se a Ruth e a Mrs. Megalith na cozinha para tomarem o pequeno-almoo, que Ruth preparava no fogo a gs, com o rosto vermelho de felicidade.
A sua alegria era contagiante, e em breve os trs riam-se e diziam piadas  volta da mesa. S Max sabia por que razo Ruth comia por duas e sozinha ia acabando com
um prato de azeitonas.
Quando Max viu Rita percebeu imediatamente que o seu aspecto mudara. Parecia to radiante como quando se tinha apaixonado por ela. O seu rosto estava vermelho como
as ameixas de Elvestree e os seus olhos to dourados e brilhantes como o xerez de Mrs. Megalith. Rita sorriu-lhe um sorriso aberto e despreocupado e ele sentiu um
n no estmago, como quando atravessava a ponte  entrada de Frognal Point com demasiada velocidade. Abraou-a afectuosamente e sentiu mais uma vez o aroma a violetas
que parecia impregnar a sua pele.
- Ests com ptimo aspecto - disse ele, olhando-a aprovadoramente.
- Obrigada.
- Vens dar um passeio comigo depois de almoo? Gostava que tivssemos tempo para falar. Tenho a impresso que no conversamos h sculos.
- Claro, como nos bons velhos tempos - disse ela, alegremente. - Podemos levar a Tarka. Tive de a deixar no carro porque ela detesta os gatos da av.
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- Imagino que o sentimento seja mtuo.
- Tambm ests com ptimo aspecto, Max - observou ela, reparando que os olhos dele brilhavam com uma tonalidade azul especial.
- Tenho tantas coisas a contar-te, Rita. Quem me dera que pudssemos tirar um bocadinho sozinhos os dois - disse ele, sem tirar os olhos dos dela.
- Mais tarde - sussurrou-lhe ela, franzindo o nariz. - Tambm tenho muito que te contar - disse ela, e sorriram um ao outro como velhos amigos.
Maddie e Harry serviram-se de bebidas, enquanto Freddie, Daisy e Elsbeth foram a correr para junto da rvore de Natal, que ficava num dos cantos da sala, decorada
com bolas antiquadas de vidro, fitas vermelhas e douradas e figuras de veludo muito mais velhas que a prpria Mrs. Megalith. Por baixo da rvore havia vrias pilhas
de prendas embrulhadas em papel brilhante, que tinham sido trazidas pelas vrias famlias. Os midos comearam logo a namorar as suas, mas Rita disse-lhes que esperassem
pacientemente at a bisav decidir que estava na altura de as receberem. A tia Antoinette e David chegaram carregados de sacos do Harrods cheios de volumes de formas
extravagantes, todos embrulhados com o mesmo papel vermelho pela empregada da loja. A seguir chegou William, com a sua mulher glamorosa e altiva e os filhos pequenos,
e Emily, com o marido advogado e aborrecido e o filho que no parava de gritar. Antoinette disse logo  filha que levasse o beb para o andar de cima. Em sua opinio,
as crianas pequenas raramente deviam ser vistas e nunca deviam ser ouvidas. David ficou satisfeito por encontrar Humphrey e Hannah, que deixavam os casacos no sof
no meio dos gatos. Pegou no amigo pelo brao e levou-o para uma sala mais pequena, longe da confuso da sala de estar, para discutirem o governo de Macmillan, uma
discusso acompanhada por bons charutos e copos de usque Bell's.
Hannah cumprimentou os netos e deu a Elsbeth um verdadeiro ramalhete de penas que tinha apanhado no jardim para ela juntar  sua coleco, j bastante grande. Tal
como os pais, Elsbeth adorava pssaros e j conhecia todos os da regio pelo nome. Hannah lembrou-se subitamente de Eddie, em frica, e sentiu um aperto doloroso
no corao. Tinha a certeza que ela gostaria de estar ali para celebrar o Natal com a famlia. De todas as suas filhas, Eddie fora a mais especial para ela, e acabara
por ser a nica a partir. Se ao menos ela tivesse conseguido pr
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a vassoura a funcionar, poderia visitar a famlia por um dia... Sentou-se  lareira ao lado da irm, mas no falou das suas saudades a Antoinette. Em vez disso,
sujeitou-se a ouvir a irm louvar a nora, que, evidentemente, lhe parecia uma espcie de cpia dela prpria.
- O William sempre teve bom gosto no que diz respeito a mulheres - declarou, com um orgulho um tanto deslocado. - Fui eu que o tornei to exigente. Pensei que nunca
ia encontrar ningum  altura dele, mas a Caroline, alm de ser muito bonita e cheia de classe, tambm  inteligente. Eu sempre disse que as mulheres atraem os homens
com a sua beleza, mas  com a inteligncia que os conservam. E ela  uma rapariga brilhante.
"Tambm  desagradvel e antiptica", pensou Hannah com os seus botes. Nunca tinha visto cara mais desdenhosa em toda a sua vida. Por outro lado, pensando bem,
Antoinette tambm nunca sorria. Limitava-se a esticar ligeiramente os lbios, arrepanhava um pouco a pele do rosto como se estivesse com dores e gesticulava de forma
afectada e artificial. Reparou que o cabelo da irm estava mais comprido e ruivo que de costume e os lbios estavam pintados de um tom vermelho-vivo que no lhe
ficava bem. J estava demasiado velha para cores to vibrantes.
Mrs. Megalith observava majestosamente a sala, sentada no seu cadeiro. Os midos faziam barulho de mais e estavam todos estragados com mimos. Antoinette fumava
de mais e tinha um aspecto ridculo, imitado servilmente das revistas de moda. Hannah vinha coberta de penas dos pssaros do novo pombal que Humphrey lhe fizera
para compensar a ausncia de Eddie. William e a mulher, que falava por monosslabos, em vez de se esforarem por falar com toda a gente, estavam encostados  parede
com ar desdenhoso, a beber o champanhe dela e a olhar todos os que os rodeavam de cima para baixo. Maddie parecia beber as palavras da palerma da tia, enquanto Harry
a olhava com adorao. Que ridculo continuar assim apaixonado pela prpria mulher na idade dele... Rita andava encantada, uma verdadeira bno, mas Antoinette
no deixaria de fazer qualquer coisa que a deixasse desanimada antes de o dia acabar. Ruth trabalhava na cozinha ao mesmo tempo que ouvia rdio. Mrs. Megalith no
pensava muito nela. Pelo menos podia ficar descansada com a comida. Na idade dela, a comida era um dos grandes prazeres da vida.
No entanto, o seu rosto pareceu tornar-se mais doce quando ps os olhos em Max. Olhava-o com uma adorao mal disfarada. Voltou-se
360
para Emily, que tinha deixado o filho a dormir no andar de cima e no prestava ateno a nada seno ao choro dele, e disse-lhe:
- Ora ali est um homem como deve ser. Porque no casaste com um homem como o Max?
Apesar de ter crescido entre os comentrios pouco delicados da av, Emily continuava a sentir-se ofendida com eles.
- Porque Max h s um, e ele no ia querer-me - respondeu ela.
- Ele  muito talentoso. Muito, muito talentoso. Sempre foi. Reconheci o talento dele logo em pequeno e sempre me esforcei por encoraj-lo. A educao  tudo, Emily.
No te esqueas disso com o... Como  que ele se chama?
- Guy - respondeu ela, um pouco triste.
- Que nome to disparatado, Guy! - exclamou Mrs. Megalith, unindo os lbios numa expresso depreciativa. - Ainda ests a tempo de o mudar. Porque no lhe chamas
Denzil, como o teu av? O teu av era um homem maravilhoso. Seria uma honra para ele ficar com o nome do av. Com alguma sorte, talvez isso transmitisse algum carcter
 criana!
Emily no tinha confiana suficiente em si mesma para enfrentar a av, de maneira que fugiu da sala com a desculpa de que tinha de ver se o filho continuava a dormir.
Mrs. Megalith quase no deu por isso. A sua ateno estava firmemente posta em Max. Quando Rita lhe perguntou se podiam comear a distribuio das prendas, Mrs.
Megalith resmungou desaprovadoramente:
- No meu tempo, cada um tinha uma prenda e mesmo isso j era considerado um luxo. Agora, o Natal parece s ter a ver com as prendas.  uma espcie de orgia de consumo!
Entrega-as tu, Rita, ou pede aos midos que o faam, e ensina-lhes qualquer coisa acerca de ddivas. Se ouvir algum a choramingar por no ter recebido a prenda que
queria, dou-lhes uma sova a todos!
Mrs. Megalith cruzou um olhar com Max e piscou-lhe o olho. Ele levantou-se com um sorriso e foi sentar-se ao lado dela no sof. Serviu-lhe um xerez e perguntou-lhe
ao ouvido:
- Est a aguentar-se bem?
Ela riu-se e pousou-lhe a mo sapuda num joelho.
- Tu s o nico aqui que pensa um bocadinho em mim - disse ela.
- Eu sempre soube que secretamente odeia o Natal!
- No te parece que a Hanukkah sempre foi mais divertida? ramos s ns os trs - disse ela com um suspiro sonoro.
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- O dia de Natal  uma compulso nacional, e  por isso que o detesta.
Ela olhou para ele e semicerrou os olhos.
- Tens toda a razo, Max. Sempre detestei ir com a carneirada, como tu.
- Mas  um prazer para toda a sua famlia - disse ele, olhando os midos, que abriam as prendas com os rostos cheios de excitao.
- Os midos de hoje esto estragados com mimos. No viveram a guerra. J eu, vivi duas.
- No podemos esperar que eles dem valor quilo que ns vivemos. Como poderiam eles perceber? Tudo o que podemos fazer  ensinar-lhes que a famlia, o amor, a lealdade
e o respeito tm muito mais valor que quaisquer bens materiais.
Mrs. Megalith olhou para ele com firmeza.
- Sabias que s mais importante para mim que qualquer outra pessoa no mundo inteiro? - perguntou de repente. - Quando morrer, vou deixar-te tudo o que tenho.
- No fale de morrer, por favor. Vai ver que morre mais tarde que todos ns - disse ele, subitamente srio.
- No, no morro. E tu adoras Elvestree. E percebes este lugar. s o filho que nunca tive. E quero que o saibas. No quero partir sem te dizer.
- Pelo menos no parta j - disse ele, tentando aliviar o tom da conversa. - Primeiro tem de me casar!
Mrs. Megalith riu-se.
- Assim  que ! - exclamou. - S espero  que ela esteja  tua altura, seno vais ter de me ouvir!
Depois de todas as prendas terem sido abertas e todas as garrafas bebidas, Ruth anunciou que o almoo estava pronto. Abriu a porta da sala de jantar e sorriu orgulhosamente.
A sua decorao foi admirada por todos, mesmo por Mrs. Megalith, a primeira a entrar na sala apoiada na sua bengala, ajudada por Max, a nica pessoa a quem permitia
uma ajuda. As mesas estavam ornamentadas com bolachas e chocolates com pratas coloridas e com azevinho. Ruth tambm tinha acendido velas e reduzido a intensidade
das lmpadas para dar  sala uma ambincia dourada e festiva. Quando entrou na cozinha com Maddie e Rita para servirem os pratos, chegou-lhes a todos um cheiro irresistvel
a peru assado. Humphrey
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serviu o vinho e Mrs. Megalith sentiu-se aliviada por Ruth ter determinado os lugares. Os pequenos cartes escritos com a sua letra sentavam-na entre David e Max.
Os midos olhavam pela janela, encantados por verem que tinha comeado a nevar. Por fim, todos se sentaram  mesa, alegres por estarem juntos num dia magnfico.
At Mrs. Megalith apreciou a alegria que a neve trouxera a todos e quando provou o peru ficou to contente que ergueu o copo num brinde a Ruth,  famlia e ao futuro.
Depois acrescentou, como todos os anos, consciente como estava de que Max e Ruth eram convidados  sua mesa:
- Quero agradecer aos nossos dois amigos judeus por estarem presentes na nossa festa. No devemos esquecer que h apenas um Deus e aos olhos d'Ele todos somos iguais.
A Max e a Ruth e a todos os que esto com eles em esprito.
Depois do almoo, Rita e Max escaparam-se para darem um passeio sozinhos pelo esturio. Bem aquecidos com casacos, chapus e a sua prpria exuberncia, desceram
do jardim em direco  areia, que se estendia por vrios quilmetros ao longo do mar. Tarka estava encantada por a terem tirado do carro e quase voava pela encosta
abaixo, com a cauda s voltas como o rotor de cauda de um helicptero. Falaram do almoo e riram-se ao recordar algumas das conversas, especialmente as da tia Antoinette,
cujas mentiras se tinham tornado to grotescas e exageradas que j pertenciam a uma nova dimenso.
-  uma doena - disse Max.
- Eu sei, uma doena terrvel. No sei como  que o tio David a aguenta.
- Nunca est em casa. Se pensares bem, esteve escondido com o teu pai na sala pequena todo o dia. Desconfio que ele nem sequer gosta dela.
- H pessoas que ficam juntas apenas por hbito ou porque  mais fcil do que separarem-se. Imagina o falatrio se ele dissesse que a ia deixar!
-  capaz de no valer a pena, no achas?
Os dois comearam a caminhada pela areia. Tinha comeado a nevar a srio, uma neve que se pegava  roupa como as penas de Hannah. Rita voltou-se e tentou apanhar
um floco com a boca.
- Ainda no comeste que chegasse? - brincou ele.
- Quanto mais comemos mais queremos comer - disse ela, a correr pela areia, seguida por Tarka, que lhe ladrava aos calcanhares. - No  maravilhoso? Adoro a neve!,
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Ele correu atrs dela e pegou-lhe na mo. Dominado pela emoo, obrigou-a a olh-lo de frente:
- E eu adoro-te a ti.
Rita olhou-o com um olhar vtreo de tanto frio.
- Amo-te - continuou ele.
- Oh, Max! - suspirou ela. O seu rosto revelava uma ansiedade profunda.
- No digas nada. Ouve-me s - disse ele, e pegou-lhe em ambas as mos. As mos dela eram macias, mas calejadas do trabalho com o barro. A sua respirao parecia
flutuar no ar gelado como fumo. O esturio estava mergulhado em silncio. - Amo-te desde o primeiro dia que te vi, Rita. No h nada em ti que eu no ame. Eu sabia
que tu querias casar com George e que ficaste destroada quando ele foi para a Argentina, mas tenho a certeza que conseguia fazer-te feliz. Se casares comigo, tornas-me
mais feliz do que alguma vez imaginei possvel.
Rita olhava-o com nervosismo. Mordeu o lbio, ao mesmo tempo que ia pensando no que havia de lhe responder. Sabia que ele a amava como amigo, mas nunca lhe passara
pela cabea que pudesse haver nele um sentimento mais profundo. Naquele momento, sentia um aperto no corao  ideia de que poderia no s mago-lo, mas at perd-lo
para sempre.
- Oh, Max, nunca ningum me tinha dito nada to bonito - respondeu, com voz incerta.
- Tudo o que disse  verdade. No imaginas como  bom poder dizer-te o que sinto ao fim de tantos anos.
- Eu no posso casar contigo - disse ela com simplicidade.
- Mas porqu? - perguntou Max, de novo com um n no estmago.
- Porque o meu corao pertencer sempre ao George.
Max sentiu anos e anos de esperana desvanecerem-se diante dos seus olhos.
- Por amor de Deus, Rita! - exclamou, exasperado. - Ele  casado com a Susan e tem filhos dela. No podes agarrar-te assim a uma recordao. Uma recordao no vai
tornar-te feliz, nem dar-te uma famlia para amar ou uma vida para viver.
Ela deixou cair os braos e meteu as mos nos bolsos.
- Eu vi-o a semana passada.
- E...
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- Ele estava no alto da falsia e eu andava a passear a Tarka na praia. Ele ficou sozinho por uns momentos e olhmos um para o outro.
- Olharam um para o outro? - disse Max, surpreendido, perguntando a si mesmo que haveria de especial naquilo.
- Quando eu parei e olhei para ele, ele no desviou os olhos. Olhou para mim sem disfarces. Tenho a certeza que ele lamenta ter-me perdido. Senti que estava arrependido
- explicou ela, com o punho fechado sobre o corao.
- Por amor de Deus, Rita. Ests a imaginar tudo.
- No estou. Conheo George desde criana e sei ver o que ele est a pensar.
- Nesse caso, por que razo no falou contigo em vez de se limitar a olhar?
- Porque estava com Susan.
- Isso no  o comportamento mais prprio num homem que pensa que casou com a mulher errada!
Max estava cada vez mais irritado com a recusa dela de encarar a verdade.
- Eu sei como ests magoado. Adoro-te como amigo, um amigo muito, muito querido. Mas como posso casar contigo se amo outro homem?
- Mas ele no te ama a ti, Rita. Como  possvel que no consigas meter isto na cabea? - respondeu-lhe Max, batendo com o punho fechado na cabea para sublinhar
bem o que queria dizer.
Rita comeou a ficar irritada.
- Ouve, Max, quem eu amo s me diz respeito a mim.
- Mas os anos vo passar e tu vais acabar por ficar velha e amarga. E a mim custa-me horrores ver-te desperdiar assim a tua vida. Cada um de ns s tem uma vida!
Uma nica vida! - disse, e pensou em Lydia, a quem essa ddiva preciosa fora negada, enquanto Rita deitava fora daquela maneira a que lhe fora dada. Sentiu a garganta
apertada de fria e ressentimento. - De que ests  espera, Rita? - disse, e teve conscincia de que estava a gritar. - Que o George deixe Susan para casar contigo?
Tu pensas do divrcio o mesmo que eu. Mesmo que ele te amasse, como poderia olhar-se a ele prprio no espelho e respeitar-se sabendo que tinha deixado a mulher e
os filhos?  isso que queres que ele faa? Queres destruir todas essas vidas?
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Fez-se silncio enquanto Rita digeria as palavras dele. Olharam um para o outro, a engolir a raiva e a combater o desapontamento. Rita sabia que a amizade dos dois
no voltaria a ser como dantes, mas por alguns momentos sentiu-se demasiado irritada para se ralar.
- Tenho muita pena - disse ela num tom de cansao. - Eu sei que tu no percebes. Ningum percebe. Eu amo George e sempre hei-de am-lo. Vou morrer a am-lo.
As palavras dela atingiram Max no mais profundo do seu ser.
- No, no percebo - disse. - Um dia, Rita, hs-de acordar e perceber que hoje cometeste um erro grave, e nessa altura j no estarei por c. Ofereci-te uma possibilidade
real de seres feliz, mas tu escolheste continuar no teu mundo sombrio do faz-de-conta. Se  isso que queres, no posso ajudar-te. Mas tambm no posso continuar
a ser teu amigo. Tenho de aprender a viver sem ti.
E Max voltou costas e caminhou em direco a casa, desaparecendo no nevoeiro que subia do mar. Rita viu-o ir e parte dela desejou correr atrs dele. Era o seu nico
amigo verdadeiro. Contudo, a sua parte teimosa, revoltada, a parte que se agarrava a George como erva daninha, impediu-a de o fazer. Olhou para o pequeno diamante
que lhe brilhava no dedo e perguntou a si mesma se teria tomado a deciso mais correcta.
Max j no se lembrava da ltima vez que tinha chorado. Tinha desejado faz-lo muitas vezes, mas sempre se contivera. Impedia-se de chorar at o esforo comear
a doer-lhe e mordia o lbio at fazer sangue. Sempre tivera de ser forte por Ruth. Mas aquilo no tinha nada a ver com a irm, os seus pais ou a sua irmzinha que
morrera nos campos de concentrao. Nesse dia era por si mesmo que chorava, e por Rita. Inclinou a cabea e chorou at molhar a gola do casaco, aliviado por o nevoeiro
ser to espesso que ningum podia v-lo. Voltou a entrar no jardim e passou pelas crianas sem que ningum lhe dissesse nada. Quase no repararam nele e continuaram
a construir o seu boneco de neve, at que o nevoeiro chegou ao jardim e as envolveu tambm a elas.
No precisou de muito tempo para fazer a mala. Escreveu uma nota a Mrs. Megalith a explicar a razo da sua partida apressada, meteu-se no carro e partiu para Londres.

CAPTULO 32
Quando Mrs. Megalith leu o bilhete de Max franziu o sobrolho e abanou a cabea, perturbada.
- Isto no est certo - murmurou, tirando os culos e fixando o nevoeiro branco e a neve que caa silenciosamente do outro lado da sua janela. Leu de novo o bilhete
e cerrou os lbios com impacincia. - Que rapariga to tola! - suspirou, incapaz de compreender a neta. Levantou-se, pegou na bengala e comeou a percorrer a sala
em todos os sentidos com o seu passo lento e incerto. Max e Rita pareciam feitos um para o outro. Sempre tinham parecido. A razo por que Rita preferia um homem
que nunca poderia ter, em vez de casar com Max, estava para l da capacidade de compreenso de Mrs. Megalith. Aquilo que a deixava mais frustrada era no ser capaz
de ajudar Max. Gostaria de fazer a neta ganhar juzo, mas sabia que no devia meter-se. O destino tinha outros planos e ela achava que no devia interferir nesses
planos.
Quando Rita voltou a casa percebeu pela expresso da av que ela sabia o que tinha acontecido. No ficou surpreendida por saber que Max tinha voltado a correr para
Londres, embora isso a tenha deixado triste. Incapaz de enfrentar a desaprovao, a incompreenso e a pena nos olhos da av, foi para a sala de estar arrumar os
papis de embrulho das prendas e esconder a sua infelicidade com uma mscara de eficincia. Sentiu-se aliviada quando Maddie e Harry decidiram ir-se embora depois
do lanche. Os midos estavam cansados e nevava cada vez mais, o que tornava as estradas perigosas.
Max regressou para o Ano Novo e um futuro sombrio. Mergulhou no trabalho. Comeou a sair de casa ainda mais cedo e a ficar no escritrio at tarde. Sentia horrivelmente
a falta de Rita, mas estava furioso com
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ela. Tinha muitos amigos e uma vida social agitada. Recebia constante mente convites para jantares, cocktails, estreias de teatro, de pera e de ballet. Os convites
iam-se acumulando sobre a lareira, mas ele sentia-se mais s do que nunca. Os amigos apresentavam-no a mulheres muito bonitas. Havia at aquelas que se aproximavam
dele por sua prpria iniciativa. Poderia ter escolhido qualquer delas, mas s Rita lhe serviria.
- Tenho tudo e no tenho nada - dizia quando os amigos lhe lembravam com admirao o seu sucesso e a sua riqueza. Nenhum deles percebia o que queria dizer.
Assim que regressou a Londres transferiu dinheiro para a conta da irm. Foi com prazer que partilhou com ela a sua riqueza. Ruth passara a ser a nica pessoa que
contava para ele. Comprou-lhe uma casa bonita em Frognal Point, com um jardim grande, um velho celeiro e at um lago com patos. A irm mudou-se para essa casa com
Samuel Kahan depois de um casamento civil em Exeter. Mrs. Megalith organizou uma pequena festa em honra dos dois, mas no convidou Rita. Max sentia-se feliz pela
irm e pelo marido, e ao mesmo tempo invejava-a. Ruth tinha tudo o que ele prprio desejava.
A irm mantinha o contacto frequente por telefone. Embora estivesse a par da rejeio de Rita, no falava do assunto, porque o irmo evitava discutir a sua vida
particular. Procurava por isso ajud-lo o melhor que podia mantendo-se uma presena assdua na vida dele. Mrs. Megalith tinha pena que ele j no viesse a Elvestree
tantas vezes como dantes. Percebia que lhe custava estar perto de Rita, mas sentia a falta dele. Furiosa com Rita por ter rejeitado Max, procurava cada vez menos
a companhia da neta. Quando se encontrava com ela, mostrava-se impaciente e brusca, deixando-a mais isolada e com a impresso de no ser compreendida.
Rita sentia mais a falta de Max do que estava a contar. No seu corao parecia haver um vazio com a forma de Max e mais ningum conseguia preench-lo. Voltou a refugiar-se
na cermica. Em tempos, comeara a trabalhar em cermica para manter a ligao com Faye e, indirectamente, com George, mas dessa vez f-lo para aliviar o sofrimento
da perda do amigo. Nem reparou que, quando a Primavera expulsou a tristeza do Inverno e pintou de novo os campos de cores alegres, a sombra da ausncia de Max comeou
aos poucos a eclipsar George.
O reverendo Hammond tinha-se apercebido de que Rita j no frequentava a igreja. Sabia que era por causa de George e Susan, mas isso
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parecia-lhe uma fraca desculpa para no adorar o Senhor como devia. Como porta-voz de Deus, achou que era seu dever falar-lhe do perdo e gui-la de novo para a
luz. Depois do servio de Natal, uma altura em que a sua ausncia fora ainda mais vergonhosa, resolveu ir visit-la. Miss Hogmier no demorara a dar-lhe a conhecer
os ltimos desenvolvimentos da sua histria.
- Aquele rapaz judeu pediu-a em casamento - disse ela com desdm quando ele apareceu na loja para comprar ch para a mulher.
- Max? - exclamou o reverendo Hammond, surpreendido. Miss Hogmier cruzou os braos e confirmou.
- E ela recusou-o.
- Que tolice! - disse ele.
- Tambm me pareceu. Uma rapariga como Rita devia sentir-se grata por estas pequenas bnos. Ela no est a ficar mais nova, e um judeu  melhor do que nada.
- Talvez uma palavrinha minha pudesse faz-la mudar de ideias. Detestava v-la envelhecer sozinha. No que haja algum estigma para as mulheres ss - apressou-se
a acrescentar quando viu os plos nasais de Miss Hogmier comearem a fremir.
- Estou convencida de que nem Deus conseguiria fazer aquela teimosa mudar de ideias - afianou ela.
-  uma ovelha tresmalhada do Senhor, Miss Hogmier. O meu trabalho  traz-la de novo ao redil.
- Faa como entender, reverendo Hammond, mas no diga que no o avisei. Ela  capaz de lhe responder mal, como a av. - Com os olhos, verificou se havia gatos pela
loja, e depois acrescentou em voz baixa: - J comea a estar na altura de a velha bruxa ir ao encontro do Criador e de levar os espies com ela.
O reverendo Hammond esperou por uma ocasio apropriada para falar com Rita. A sua oportunidade chegou no Vero, depois de Ruth Kahan ter dado  luz uma rapariguinha
rosada a quem deu o nome de Mitzi, em homenagem  me. Para sua surpresa, soube por Miss Hogmier, cujo trabalho era saber estas coisas, que Rita se tinha despedido
da biblioteca para se dedicar  cermica a tempo inteiro.
- Tem andado na companhia de um grupo de meninos ricos de cabelos compridos que decidiram passar o Vero na praia - informou-o Miss Hogmier com ar reprovador. -
Tm andado a desencaminh-la.
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-  por causa deles que ela acha que j no precisa de trabalhar para viver, como se o bom Deus estivesse a preparar-se para lhe enviar man dos cus. Passam os
dias sentados na areia  volta de fogueiras a cantar e a tocar guitarra. No sei quem  que ela pensa que  para andar por a com aqueles vestidos esquisitos e os
colares de contas. Imagino que a me esteja farta de a ver com o cabelo por pentear. J falta pouco para lhe chegar  cintura. No meu tempo, as mulheres tinham mais
orgulho na sua aparncia. J eu, apesar de estarmos nos anos 60, continuo a dormir com rolos no cabelo e nunca ningum me viu na rua sem um bocadinho de maquilhagem.
Se no fizesse um esforo por me apresentar bem, acabava por perder todos os meus clientes.
O reverendo Hammond seguiu de carro ao longo da costa, para l de Bray Cove, at ao stio onde Rita vivia na sua casa sobranceira ao mar, com a inteno de a persuadir
a abrir de novo o seu corao a Deus. No
lugar ao lado do seu levava uma velha Bblia com letras douradas sumidas na capa e uma fita j meio desfeita a marcar o passo que tencionava ler-lhe.
Era um dia quente de Vero. As gaivotas voavam no cu e o sol reflectia-se nas extremidades das suas asas quando elas planavam acima das falsias ou mergulhavam
em direco ao mar. Sentia a presena de Deus na beleza da manh e sabia que Ele o acompanhava naquela importante misso. De todas as suas obrigaes na parquia,
aquela era uma das suas preferidas.  verdade que gostava de casamentos, e os funerais tambm eram uma parte importante do ciclo da vida religiosa, mas os encontros
individuais com os membros da sua parquia eram o que lhe dava maior satisfao.
Quando entrou no caminho que conduzia  casa de Rita ficou impressionado com o aspecto bonito de tudo o que a rodeava e da prpria casa. A parte da frente estava
coberta de clematites, enredadas em rosas e madressilva. Havia ainda vasos grandes de rosmaninho junto da porta.
O reverendo inspirou profundamente, saboreando os aromas doces do Vero, e bateu  porta. Rita no o ouviu. Estava no jardim a arrancar ervas daninhas. O reverendo
Hammond esperou um pouco, com a Bblia debaixo do brao, e depois comeou a dar a volta  casa. Quando ela o viu, ps-se de p, surpreendida, e franziu o sobrolho
por baixo do chapu para o sol. Desde que ali vivia que o reverendo nunca a tinha visitado. De certeza que algum tinha morrido.
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- Ah, Rita, que prazer voltar a ver-te - disse ele, caminhando por cima da relva.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou ela.
- No, nada, est tudo muito bem - disse ele, percorrendo o jardim com o olhar. - Que stio encantador.
- Obrigada. Gosto muito desta casa.
- Estou a ver que h por aqui muitos pssaros - disse ele, apercebendo-se de que ela tinha um bebedouro e pratos com alpista.
- No consigo atrair tantos como Elvestree, mas de vez em quando aparecem rouxinis e alm disso h sempre as andorinhas.
- Que bonito...
Ela olhou-o intrigada, ansiosa por que ele despachasse o assunto que o levara ali e a deixasse voltar para as ervas daninhas.
- Vim aqui para falar contigo - comeou num tom pomposo, esperando que ela se mostrasse agradecida. - Ouvi dizer que agora s ceramista a tempo inteiro.
-  verdade - confirmou. No era possvel que ele tivesse ido ali de propsito para lhe falar de cermica!
- Sendo assim j no trabalhas na biblioteca?
- No.
- Muito bem. Suponho que saibas o que ests a fazer...
- Acho que sim - respondeu ela, friamente. - Foi sobre isso que veio falar comigo?
- E se nos sentssemos um bocadinho? - sugeriu ele.
Rita levou-o para um recanto onde tinha uma mesa e um banco corrido de madeira e viu-o instalar-se confortavelmente. Respirou fundo, com resignao.
- Quer tomar alguma coisa? - perguntou, percebendo que ele tinha inteno de demorar-se.
- Agradecia um copo de gua. Est um dia muito quente, no est? - Quando ela voltou com um jarro e dois copos, encontrou-o a ler a Bblia com os culos de lentes
grossas empoleirados no nariz.
- A palavra de Deus  para mim um refgio e um conforto - disse ele olhando-a com gravidade.
-  esse o seu ofcio - respondeu Rita com um esgar. Havia qualquer coisa de cmico nos rodeios do reverendo Hammond antes de falar do assunto que o levara ali.
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- No  preciso ter o meu vasto conhecimento da Bblia para retirar dela um forte encorajamento. Tenho reparado, Rita, que ultimamente deixaste de frequentar a igreja.
Queres falar-me do assunto?
- Nem por isso.
Ele bebeu um gole de gua e pediu em silncio ao Senhor que o ajudasse naquele mau bocado. Estava perante uma ovelha especialmente teimosa.
- Antigamente no falhavas um nico domingo. A igreja parece vazia sem ti.
- Duvido muito - respondeu ela com rispidez.
- Em tempos, Deus vivia no teu corao, Rita - disse ele, olhando-a por cima dos culos, como um mestre-escola.
- Oh, mas continua a viver, reverendo. A minha av diz que Deus est em toda a parte e no precisamos de ir  igreja para falar com Ele.
A simples meno de Mrs. Megalith bastou para que o reverendo Hammond ficasse rgido.
- E tem toda a razo - disse ele de forma precipitada. - Deus est de facto em toda a parte. Mesmo assim, tenho a impresso que no tens evitado a igreja por falta
de devoo, mas devido  presena de George Bolton e da mulher, Susan.
Foi a vez de Rita se sentir pouco  vontade. Fechou os olhos, exasperada, e abanou a cabea.
- Imagino que tenha sido Miss Hogmier que lhe meteu essa ideia na cabea... - disse Rita em tom interrogativo, mas com uma voz fria como ao.
- Claro que no. De maneira nenhuma! - mentiu o reverendo, ao mesmo tempo que pedia perdo em silncio pela sua falta.
- Bem, a verdade  que ela tem razo. No vou  igreja porque no quero encontrar George com Susan. Pode ser mesquinho, mas no tenho pretenses a santidade como
o reverendo. Sou uma simples pecadora.
- Deus ensina o perdo - arriscou corajosamente o reverendo.
- Ainda no estou pronta para isso.
- Roma no se fez num dia.
- Para mim seria precisa uma vida inteira, reverendo.
- Mas algum dia ter de comear.
- Quando estiver preparada para o fazer.
O reverendo Hammond coou a cabea.
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- Nesse caso, permite que te deixe esta Bblia. Ia ler-te um ou dois passos hoje, mas lembrei-me que tenho outro stio onde ir.
- Tem a certeza que quer deix-la?  um livro antigo e muito bonito - disse Rita pegando no volume e passando a mo pela velha capa irregular e gasta pelo uso.
- Tenho a certeza absoluta. Precisas dela mais do que eu. Um homem na minha posio tem muitas Bblias. Quando deixares de precisar dela devolve-a.
Rita suspirou, com a impresso de que tinha sido demasiado brusca. No fundo, ele no era um mau homem.
-  muito amvel, reverendo - disse com sinceridade. Depois de reflectir um instante, acrescentou com voz firme: - De vez em quando hei-de aparecer na igreja.
O rosto do reverendo pareceu iluminar-se. Tranquilamente, deu graas ao Senhor pela sua orientao. Rita viu-o partir, depois levou a Bblia para dentro de casa.
Pousou-a numa mesa na sala de estar e nunca mais pensou no assunto.
No domingo seguinte, obediente  sua palavra, foi  igreja. Como sabia que George estaria l, passou mais tempo do que era costume  frente do espelho, a pentear-se
e a tentar recordar como lhe dissera Maddie que devia usar a base e o ruge, e tambm a escolher um vestido bonito de Vero.
Na altura em que estacionou  frente da igreja, os seus nervos estavam num feixe. Deixou-se ficar um pouco a ver as pessoas entrarem, assustada com a possibilidade
de se encontrar frente a frente com George e no saber que dizer. Por fim, viu os pais com Maddie e os midos e saiu do carro para ir ao encontro deles. A surpresa
de todos foi evidente. Humphrey deu-lhe uma palmada nas costas um tanto exagerada e Hannah convenceu-a a almoar com eles, tentando-a com um pudim de po e a possibilidade
de observar um pssaro raro naquelas paragens. Harry tinha ficado em casa. Estava a escrever outro livro, que o mantinha agarrado  secretria e mergulhado nos seus
pensamentos. Daisy andava  procura de Charlie, que se tinha tornado o seu melhor amigo. Freddie estava amuado porque no lhe apetecia aguentar um sermo do reverendo
Hammond do princpio ao fim, e Elsbeth tinha feito um chapu espampanante com algumas das penas da sua coleco. Rita sentiu-se feliz por estar na companhia de todos
eles e tambm mais forte por entrar na igreja acompanhada.
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- J estava na altura de comeares a usar um pouco de maquilhagem - disse Maddie, aprovadoramente, depois de se terem sentado. - Fica-te bem. J no pareces to
plida e triste.
- Eu nunca pareo plida e triste - retorquiu Rita, ofendida.
- Pareces sim. Essa histria de andares a lamentar-te por causa de George  um disparate - disse Maddie. Rita ficou irritada e abriu o livro de hinos. - Devias ter
casado com Max.
- Como soubeste que ele me pediu em casamento? - perguntou Rita, surpreendida, porque no tinha falado do assunto a ningum.
- A av contou  me.
- Estava-se mesmo a ver!
- Bom, o que conta  que foste uma pateta - disse a irm num sussurro.
- Importas-te de te meter na tua vida?! - Maddie, de repente, pegou-lhe num brao.
- Olha, ali vai o George com a Susan. A Daisy tem uma paixoneta pelo Charlie. A histria parece repetir-se.
Rita voltou-se para os ver subir a nave central, com falta de flego porque vinham atrasados. O reverendo Hammond j comeava a bater o p de impacincia.
Susan viu Maddie e sorriu-lhe, antes de ter reparado que Rita estava sentada ao lado dela. Para surpresa de Susan, o rosto de Rita parecia ter adquirido uma beleza
subtil inesperada. A irm de Maddie j no tinha o rosto cor de cinza que vira na loja, no Inverno anterior, nem a cara infantil da criana cuja fotografia ornamentava
a lareira de Mrs. Megalith. O seu rosto parecia de uma transparncia delicada e o cabelo estava forte e brilhante, caindo-lhe pelas costas em caracis. Perdera algum
peso, o que lhe acentuava as mas do rosto, mas o seu encanto tinha mais a ver com a sua atitude do que com as feies por si ss. Os olhos de Susan saltaram imediatamente
para o marido, mas ele estava ocupado a procurar lugares e no tinha reparado em nada.
Rita tinha a impresso que todas as pessoas presentes na igreja a olhavam, ansiosas por no perder pitada da sua reaco. Continuou muito quieta, mas o suor corria-lhe
em bica por baixo dos joelhos e dos braos. O reverendo Hammond esperou que George e a famlia se sentassem para comear o servio religioso. Como estavam algumas
filas  frente deles e do outro lado da nave, Rita pde observ-lo sem recear ser vista.
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George tinha agora quarenta e dois anos. Continuava a ter cabelo forte e encaracolado, mas comeava a ficar grisalho nas tmporas e as entradas na testa iam aumentando.
Os seus ombros pareceram-lhe mais largos, alm de que a sua cintura tambm tinha aumentado. J no era o heri esbelto da Batalha de Inglaterra, mas continuava atraente
e cheio de personalidade e Rita achava que continuava a am-lo. Depois comeou a observar Susan. O seu cabelo louro bem penteado, apanhado atrs, lembrava-lhe Faye.
Alm disso, o colar de prolas, o vestido e o chapu elegantes e discretos traam uma sofisticao que ela nunca teria. Depois notou a cicatriz, mas o tempo tinha
contribudo muito para sarar a ferida que desfigurara com tanta crueldade o rosto de Susan, tornando-a menos saliente e visvel. Teve a impresso que a cicatriz
no diminua em nada a beleza de Susan e no conseguiu impedir-se de a invejar, porque ela tinha tudo o que ela prpria desejava. Era como ver outra pessoa viver
a vida dela em seu lugar. Uma pessoa mais bonita, mais sofisticada, que fazia tudo muito melhor do que ela poderia ter feito. No sentiu o desconforto de Susan nem
a hostilidade que a rodeava, impedindo-a de se integrar realmente na comunidade. Tambm nunca teria adivinhado que isso acontecia por lealdade com ela prpria, porque
fazia parte do seu grupo e Susan era uma usurpadora. S quando Rita se levantou para comungar  que George a viu, e a surpresa dele por pouco no o fez tropear
quando voltava ao lugar.
George ficou branco como a cal. O tempo no tinha reduzido em nada o encanto dela; pelo contrrio, parecia t-la tornado mais interessante. No era a criatura trgica
de que a me lhe falara, mas a rapariga confiante com que ele tinha sonhado, que corria pela areia de braos no ar ou perseguia os pssaros em voo. No pde fazer
nada seno v-la caminhar em direco a ele, a apenas alguns passos de distncia, mas completamente fora do seu alcance, enquanto ele aguardava em fila com Susan
e os filhos a sua vez de comungar. Rita procurou recompor-se e caminhar de ombros erguidos. Tinha a impresso de viver o momento em cmara lenta, porque o tempo
lhe pareceu dilatado de forma pouco natural. Quando se aproximou viu qualquer coisa no semblante dele que a perturbou. Qualquer coisa estranha, pouco familiar. Apressadamente,
procurou sob a superfcie o jovem despreocupado que amara em tempos, mas no o encontrou. Ele j no existia.
Voltou a sentar-se ao lado de Maddie, que lhe pegou na mo procurando reconfort-la, sem perceber que ela j no precisava do seu apoio.
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Quando George voltou do altar, olhou apressadamente na direco dela antes de desviar os olhos e voltar para o lugar. O seu rosto parecia cinzento. Susan vinha atrs
dele, mas no olhou para Maddie. Determinada a no deixar que Rita lhe provocasse mais ansiedade, procurou no pensar na intensidade com que ela tinha observado
o seu marido. No tinha qualquer razo para se sentir insegura. H muito que George tinha feito a sua escolha e os dois eram felizes juntos. Se Rita o fazia sentir-se
pouco  vontade, era porque encontr-la to obviamente sozinha devia faz-lo sentir-se culpado.
No fim do servio, as pessoas presentes dirigiram-se  sada pela nave central e George no conseguiu aproximar-se de Rita. Queria falar com ela. Talvez isso o ajudasse
a acalmar-se. Via a cabea dela um pouco  frente. Dirigia-se  sada com Maddie e ambas procuravam atravessar os grupos de ociosos que discutiam as novidades da
semana. Susan observava-o com ateno. Sabia o que lhe ia no esprito e tentou convencer-se de que seria bom os dois falarem um com o outro. Isso iria certamente
exorcizar o fantasma de uma vez por todas. Reparou que Charlie j tinha passado  frente do pai e falava com Daisy na rua, ao sol, e com a me dela e os avs, enquanto
Ava tinha encontrado Elsbeth a fazer piruetas em cima de uma campa.
Frustrado por no conseguir andar mais depressa, George sentiu-se tentado a afastar  fora as pessoas que se acotovelavam  sua frente. Por fim, a massa compacta
que saa lentamente da igreja dispersou  sada, e George teve de semicerrar os olhos por causa da luz. Procurou o rosto de Rita entre os que se encontravam  sua
volta. Susan viu o gesto do marido e percebeu o desapontamento que se instalou no seu rosto por no a ter encontrado. Depois, o barulho de um motor chamou-lhe a
ateno e ele voltou-se para o stio onde Rita ligava o carro. Susan ia logo atrs dele, mas no lhe deu a mo, como em tempos teria feito. Ambos viram o carro arrancar
e Rita voltar-se e olhar para eles. Os olhos dela detiveram-se em George durante o que lhes pareceu a todos uma eternidade. Depois foi-se embora.


CAPTULO 33
Rita estava sentada na praia com Pepper, uma das jovens bomias que a tinha acampado com o seu Volkswagen cor de laranja durante todo o Vero. Era o princpio de
Setembro. O brilho mbar do pr do Sol parecia ainda mais nostlgico por entre o fumo do charro. Ao longe ouvia-se o toque de uma guitarra, levado por uma brisa
delicada que trazia consigo os tons frescos do Outono. Os amigos de Pepper estavam no outro extremo da praia a fazer uma fogueira e a instalar-se para a noite. Rita
tinha-se afeioado a todos eles, especialmente a Pepper, cuja natureza positiva e simples lhe recordava a sua prpria maneira de ser antes de George ter regressado
da guerra.
Mas naquele momento no era em George que pensava, e sim em Max. Sentia tanto a falta dele como de uma parte vital do seu corpo. O que mais a incomodava era que
a amizade dos dois tivesse terminado de uma maneira to feia. Tinham gritado um com o outro, tinham dito daquelas coisas que mais tarde se lamentam e eram ambos
demasiado orgulhosos para estender em primeiro lugar o ramo de oliveira. Rita sonhava que ele lhe telefonaria para lhe pedir desculpa. Tinha repetido mentalmente
a conversa que teriam uma e outra vez, imaginando o que ela prpria lhe responderia. No entanto, ainda no tinha coragem para reconhecer os seus sentimentos mais
profundos.
- Ests a pensar em Max, no ests? - perguntou Pepper com a sua voz aristocrtica.
O verdadeiro nome de Pepper era Petruska. Tinha nascido na Esccia e era filha de um conde escocs que abandonara a mulher legtima, uma inglesa, para fugir com
uma bailarina russa que conhecera em Moscovo entre a primeira e a segunda guerra. Pepper era o fruto dessa unio.
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Tinha mais dinheiro do que algum dia seria capaz de gastar e pais que estavam muito mais interessados um no outro do que nela.
- Porque no lhe telefonas e lhe pedes desculpa? - perguntou, passando a mo pelo longo cabelo ruivo.
- Ele  que devia pedir-me desculpa - respondeu Rita, indignada. Acariciou Tarka, que dormia ao lado dela, e deu mais uma passa no charro. - Afinal, foi ele que
se foi embora e me deixou.
- Um dos dois tem de o fazer, seno ainda te tornas uma velha solteirona solitria.
- Eu no sou uma mulher solitria. Tenho-vos a vocs todos.
- Ns brevemente vamos embora.
- Vo-se embora?
- No esperavas que ficssemos aqui para sempre, pois no? - Rita ficou chocada.
- Pensei que gostavam deste stio.
- No Vero, quando o tempo est bom. Agora j est a ficar mais frio. E eu tinha pensado em inscrever-me numa escola de Artes. Sempre gostei de pintura. A minha
me queria que eu fosse bailarina, como ela, mas os meus ps so grandes de mais. Ela preferiria que eu fosse baixa e bonita, como ela. Infelizmente, sa ao meu
pai. Talvez v para Florena.
- Vou sentir a tua falta - confessou Rita.
Pepper tinha-se tornado uma boa amiga de Rita. Era uma pessoa em quem podia confiar, e que no tinha nada a ver com Frognal Point.
- Vem para Florena comigo. Podias estudar escultura com os melhores mestres, e rodeada pelas maiores obras de arte do mundo.
Rita sentia-se divertida por Pepper imaginar que todos tinham tanto dinheiro como ela. A verdade  que, desde que deixara de trabalhar na biblioteca, Rita estava
com dificuldade em pagar as contas.
- No posso deixar a Tarka.
- Leva-a contigo. Florena  a cidade do amor. Com aqueles italianos todos num instante vais esquecer tanto o George como o Max.
- O meu problema  esse, Pepper.  que eu no quero esquecer. Gosto de viver aqui, rodeada pelas minhas recordaes e pela minha famlia. Se ao menos Max no tivesse
estragado tudo com a declarao dele...
- Nesta altura j ele se esqueceu de ti. Sabes como so os homens, inconstantes. O Archie passa pelas mulheres como um papa-formigas
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por um formigueiro - disse ela, e riu-se ao lembrar-se do amigo que todas as semanas ia  cidade  procura de sangue novo. - Ele tem de ir para Oxford. O ano acadmico
comea em Outubro. Por mim no quero nem marido nem namorado. S servem para nos complicar a vida.
- O amor complica tudo. S de pensar que durante tanto tempo pensei que ele era o meu melhor amigo e afinal estava era apaixonado por mim! - disse ela. - E eu nunca
tinha pensado nele dessa maneira. E agora ele est destroado.
- E ainda h o George... - acrescentou Pepper. Rita suspirou.
- Sempre amei o George... E da, no sei...
- Que queres dizer com isso? - perguntou Pepper, apagando a ponta do charro na areia.
Rita semicerrou os olhos para evitar o Sol, que comeava a descer em direco ao horizonte.
- Talvez o Max tivesse razo em relao a George.
- Que  que ele dizia? - Rita franziu o sobrolho.
- Que durante todos estes anos estive apaixonada por uma pessoa que j no existe.
O Outono instalou-se com as suas tempestades e temporais e o bando dos amigos de Rita fez as malas e partiu, de regresso s suas vidas privilegiadas. Os meses de
Inverno eram escuros e frios. Rita pensava muitas vezes em Max, pegava no telefone e acabava por pous-lo antes de ter coragem de falar. No voltou a ver George,
porque Susan tinha-o convencido a ir  missa numa parquia prxima e, pouco a pouco, ele tinha acabado por deixar de ocupar o pensamento dela como antes. Voltou
uma ou duas vezes  gruta secreta dos dois em busca do calor da presena dele, como se ele prprio tivesse procurado o conforto das recordaes comuns nesse mesmo
lugar apenas alguns instantes antes dela. Mas o sabor agridoce dessas recordaes ia-se tornando distante e intangvel, porque j percebera que no era possvel
recuper-las, nem de resto ao George com quem crescera. Max tinha razo.
O Natal foi triste em todos os sentidos. Max no veio a casa e Mrs. Megalith ficou mais indisposta do que nunca, acusando constantemente Rita de ser a culpada da
ausncia dele. Como poderia ela explicar-lhe que
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sentia tanto a falta dele como a av? Elvestree no era a mesma sem ele. Era um stio menos mgico, e, alm disso, nesse ano nem sequer nevou.
Rita instalou-se na sua nova rotina feita sobretudo do trabalho com o barro, que a isolava ainda mais da vida exterior. Ao princpio, Mrs. Megalith ajudava-a encomendando-lhe
uma pea de vez em quando e Hannah encomendava imagens e mais imagens de pssaros, mas a verdade  que s muito a custo ela conseguia ir pagando as contas.
Por altura da Primavera, Mrs. Megalith tinha perdido a pacincia para as tolices da neta e retirou-lhe o seu mecenato. Hannah j tinha pssaros de mais e no tinha
stio para os pr, e tambm as encomendas ocasionais que lhe chegavam da biblioteca iam diminuindo. Embora os seus objectos fossem encantadores, no ofereciam grandes
atractivos aos que no a conheciam. Rita comeava a mergulhar num sentimento permanente de desnimo. Tinha sido imprudente abandonar o emprego na biblioteca, mas
desde a discusso com Max que lhe faltava coragem para continuar a organizar eventos com autores convidados. Tinha sido ele a chave de toda a organizao e fora
tambm ele que a pusera em contacto com todos os autores. Quando tinha contactado as editoras de forma independente, ningum mostrara interesse pela sua pequena
biblioteca e alguns tinham mesmo sido desagradveis. Fora com prazer que mudara de ocupao, mas a nova actividade no era muito compensadora no que dizia respeito
a dinheiro. Rita perguntava a si mesma se Max sentiria tanto a falta dela como ela dele, ou se a teria eliminado da sua vida e seguido em frente. De vez em quando,
lia qualquer coisa sobre ele nos jornais ou sabia notcias por Ruth, que o fora visitar com Mitzi.
A felicidade de Ruth era evidente. A filha era uma fonte de alegria constante para ela e, alm disso, era evidente que o marido a amava. Os dois pareciam cheios
de alegria e serenidade e Rita no podia deixar de sentir uma certa inveja.
Max lidava com a sua prpria infelicidade de maneira muito diferente. Procurou esquecer com outras mulheres, sempre belas. Levava-as para o seu apartamento de Londres,
em Cheyne Walk, fazia amor com elas, mas acordava na manh seguinte desapontado porque todas lhe pareciam iguais, encantadoras por fora e ocas por dentro. No havia
nelas nada de singular por que pudesse apaixonar-se. Lembrava-se de Rita e sentia-se desesperado por ter a certeza de que nunca encontraria ningum com quem pudesse
vir a partilhar a sua vida. Alm disso, tinha um desejo
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profundo de ter filhos. Pensava muito em Lydia, que no tivera possibilidade de viver mais de um ou dois anos. Quase no chegara a ser mortal; fora apenas um gro
de poeira que nunca tinha encontrado um lugar para assentar, mas ele prprio estava decidido a assentar, a criar razes e a continuar o ciclo da vida. Assim, poderia
assegurar a sua imortalidade e a de toda a sua famlia.
Em segredo, continuava a alimentar o sonho de comprar o Teatro Imperial, como se dessa maneira pudesse recuperar o seu mundo da infncia. Sonhava sentar-se no camarote
privado do pai na companhia de Rita, enquanto no palco uma actriz de grande beleza repetia os passos da sua me noutros tempos. Era um sonho infantil. Eram castelos
no ar construdos pela parte dele que nunca crescera. Contudo, nunca voltara a Viena. Tinha receio de no reconhecer a cidade.
Quando Max conheceu Delfine Bonville, apreciou o seu carcter delicado e imaginou que poderia afeioar-se a ela. Era uma francesa de vinte e poucos anos, cujos pais
se tinham fixado em Londres depois da guerra. Trabalhava na embaixada de Frana em Londres como secretria e todos os dias levava para casa um saco de folhas amarrotadas
por ter vergonha de encher o cesto dos papis com os seus erros dactilogrficos. Era ingnua e facilmente impressionvel, mas tambm encantadora. Max gostava do
aspecto dela, dos seus olhos castanho-escuros e do seu cabelo curto, porque nada nele lhe recordava Rita. Era baixa e muito feminina, e deixava-se deslumbrar pelo
brilho de tudo o que a rodeava. Ele no tinha dvida de que ela estava deslumbrada pela riqueza e pela celebridade de Max, mas tambm era verdade que fora ele o
primeiro homem a lev-la para a cama que soubera satisfaz-la. A maior parte dos seus amantes ingleses parecia encarar o sexo como uma competio, um jogo de tnis,
ganho com o primeiro orgasmo. Max era diferente. Era sensual, e quanto mais o amor se prolongava melhor. Max parecia deleitar-se com ela horas a fio e o entusiasmo
continental dela pelo sexo fazia-os rir a ambos.
Max oferecia-lhe jias, que ela tirava dos estojos todas as noites para brincar, como se fossem bonecas. Punha os anis e os colares e via como ficavam em diferentes
poses ao espelho, em conjunto com os vestidos que ele lhe comprava. Max achava estas infantilidades divertidas e a felicidade dela era uma fonte de prazer para ele.
E estragava-a com mimos. Passavam fins-de-semana em Paris, em Veneza ou em Marrocos e ele comprava-lhe tudo aquilo de que ela gostava. Cobria-a de bens materiais
381
porque no podia dar-lhe o seu amor. O seu corao sempre pertencera e pertenceria a Rita. S lamentava que ela o tivesse tratado com to pouca delicadeza.
Quando Rita, por fim, decidiu engolir o orgulho e se preparou para dar o primeiro passo, Mrs. Megalith anunciou, com a falta de tacto costumeira, que Max estava
apaixonado.
- Ela  francesa - contou, cheia de admirao. -  muito bonita,  encantadora, e Max diz que nunca foi to feliz.
Mesmo Rita ficou surpreendida com a sua reaco. Ficou destroada. Acabava de perder Max para sempre por causa da sua obsesso sem sentido por George.
Os meses foram passando e Rita s dava pela passagem do tempo porque as estaes iam mudando. Sentia-se cada vez mais desesperada. No tinha coragem para voltar
a trabalhar na biblioteca. No podia admitir que tinha falhado. Alm disso, a ideia de trabalhar em casa agradava-lhe cada vez mais. Podia modelar o barro de manh
 noite sem sequer ter de mudar de roupa, se isso no lhe apetecesse, e a privacidade de que gozava em casa permitia-lhe viver uma espcie de declnio sem que ningum
se apercebesse disso. Depois, um dia em que sentia que estava prestes a bater no fundo, um estranho bateu-lhe  porta.
Rita estava na cozinha a abrir uma lata de leite condensado para fazer uma sobremesa para os filhos de Maddie, quando algum lhe bateu  porta. Tarka deu um salto
e ps-se a ladrar muito excitada. Rita ficou logo irritada porque no se tinha dado ao trabalho de se vestir e continuava de camisa de dormir e chinelos de quarto,
alm de que ainda no se tinha penteado. S esperava que fosse algum conhecido. Quando abriu, deparou-se-lhe um homem idoso apoiado  porta e com ar embaraado.
- Desculpe ter aparecido sem ter avisado - disse ele com uma voz profunda e melodiosa.
Rita ajustou melhor o robe e procurou ajeitar o cabelo com a mo.
- No tem importncia. Que deseja? - perguntou, notando que o homem usava um fato de qualidade, de caxemira, e um chapu de feltro.
- A senhora  a talentosa ceramista da biblioteca, no ? - perguntou ele com um sorriso. Rita endireitou-se e mostrou-se mais interessada. - O meu nome  Benjamin
Bradley - disse ele estendendo-lhe a mo.
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- Rita Fairweather - respondeu ela, apertando-a. - No quer entrar? - perguntou, e depois fechou a porta atrs dele e encaminhou-o para a cozinha. Tarka seguiu o
visitante com curiosidade, a abanar a cauda. - - Posso servir-lhe uma bebida? - perguntou Rita, lamentando no ter tido tempo de arrumar a casa, que estava to suja
e desarrumada como a praia na mar baixa.
- Agradecia uma chvena de ch - respondeu ele, abrindo espao para a pasta em cima da mesa. Rita ps a chaleira ao lume e procurou uma chvena e uma colher lavadas.
- Sente-se, por favor. Eu sei que a minha casa est um tanto catica.
- A senhora  uma artista. Chama-se a isso criatividade.
- O senhor  mais amvel do que eu mereo. Ainda nem sequer me vesti.
-  um luxo permitido a quem trabalha em casa. O que est a cozinhar? Pelo cheiro parece delicioso.
-  uma sobremesa para os meus sobrinhos.
- No tem filhos?
- No sou casada.
- Imagino que no por falta de pretendentes - disse o velho senhor com um sorriso, e Rita sentiu-se corar.
O visitante tirou o casaco e o chapu e sentou-se.
- Peo-lhe s um momento para ir mudar de roupa - disse Rita, que deixou a chaleira ao lume. Voltou minutos mais tarde de calas e camisola e com o cabelo apanhado
num rabo-de-cavalo. Reparou que Tarka estava sentada aos ps de Mr. Bradley, a esfregar o focinho nas calas dele.
- J vi que fez um amigo - disse ela com um sorriso. - A Tarka no gosta de toda a gente.
- Sim? Sinto-me orgulhoso... - respondeu ele, com uma carcia no focinho amarelado da cadela.
Rita serviu o ch e coou o leite para a leiteira, num esforo por parecer mais civilizada. Depois sentou-se  mesa da cozinha e olhou para o visitante com expectativa.
- O senhor viu o meu trabalho? - perguntou, esperanada.
O seu interlocutor fez um sinal afirmativo, ao mesmo tempo que mexia o acar na chvena.
- Vi, e fiquei muito impressionado. A gara que est na biblioteca  uma pea muito boa. Muito, muito boa.
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- A srio?! - disse ela, incrdula.
- Parece-me que a Rita tem muito talento e potencial.
- Na verdade, a cermica no  mais que um passatempo. Fao pouco dinheiro com as minhas peas.
- Pois eu acho que podia fazer mais - disse o visitante, enquanto ia bebericando o ch. As suas sobrancelhas brancas e fofas uniram-se ao meio quando ele exclamou
com prazer: - Ah, isto  mesmo o que o mdico me recomendou. Que bom!
- Eu no trabalho em cermica por dinheiro, mas sim porque gosto - disse ela, tentando no pensar nas contas que se amontoavam na secretria.
- Bom, mas eu estou aqui para lhe fazer uma oferta. Tenho uma pequena loja em Londres e  por isso que ando sempre  procura de novos talentos. Se isso lhe parecer
bem, gostava de lhe encomendar um certo nmero de peas por ano.
Rita olhou para ele com desconfiana.
- Isto quase parece bom de mais para ser verdade.
- Se lhe parecer demasiado, eu compreendo - comeou ele.
- No, no. No  demasiado. Uma encomenda dessas seria uma excelente oportunidade. Quantas peas quer?
- Podamos comear com umas cinco ou seis, vamos como se vendiam e depois logo pensvamos melhor. Trabalho com um pintor que faz trinta ou quarenta quadros por
ano, que se vendem muito bem. Mesmo muito bem.
Rita ganhou coragem e perguntou, tentando dar a impresso de que tinha alguma experincia de negcios:
- E quanto me pagaria?
- Para comear, pagaria umas cem libras por cada pea e depois, se se vendessem bem, podamos pensar num aumento.
- Cem libras por cada pea?
- No lhe parece suficiente? - perguntou ele, subitamente embaraado.
-  mais que suficiente. - Mr. Bradley voltou a sorrir.
- Os preos de Londres so muito diferentes dos preos na provncia. As pessoas em Londres tm mais dinheiro e parecem dispostas a gastar mais. O seu trabalho 
de grande qualidade. Se vendermos as peas
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por pouco dinheiro, as pessoas comeam a pensar que no esto a comprar do melhor. - Nessa altura, abriu a pasta e tirou de l trezentas libras em notas de vinte.
Rita nunca tinha visto tanto dinheiro junto e olhou para o molho de notas com reverncia.
Nessa tarde, foi dar um longo passeio pela praia, excitada por ter um objectivo, algo que lhe desse uma razo para se levantar pela manh. Quando voltou para casa
telefonou a Maddie e contou-lhe as novidades. Maddie ficou impressionada.
- Sempre  melhor que apodrecer na maldita biblioteca - disse ela. - Fazer cermica  muito mais interessante. Agora s precisas de um amante para as coisas ficarem
perfeitas.
Rita ignorou-a e convidou-se para lanchar.
- Fiz um doce para os midos - explicou.
- ptimo - respondeu a irm com um sorriso. - Eles convidaram alguns amigos da escola, por isso vem mesmo a calhar. Alm disso, no tenho nada de jeito em casa.
Rita escondeu o dinheiro por baixo de uma tbua solta no quarto e foi de carro  cidade fazer compras. A dona da casa onde ela costumava abastecer-se ficou surpreendida
por encontr-la to bem-disposta.
- Comecei a vender as minhas peas para uma loja de Londres - contou-lhe Rita, orgulhosa. - Querem umas quarenta por ano!
- Isso vai mant-la muito ocupada - disse-lhe a vendedora, impressionada e ansiosa por contar a Faye Bolton que a sorte de Rita Fairweather parecia ter mudado.
 tarde, Rita foi a Bray Cove a p com Tarka. Foi pelo caminho de terra junto ao mar e apreciou realmente a vista das pequenas enseadas e do mar picado. O ar cheirava
a sal e a ozono e as nuvens escuras corriam pelo cu empurradas pelo vento forte e gelado. Rita fez o caminho com um passo vivo. Por fim, um raio de sol penetrara
na sua alma triste
e escura.
Quando chegou a casa da irm, os midos estavam todos no jardim a jogar s escondidas. Elsbeth acenou-lhe do seu esconderijo, enquanto Freddie percorria o terreno
em busca dos outros. Ela usava um chapu alto de bruxa que tinha feito na escola e uma velha capa que tirara de uma arca que havia na sala de brinquedos. Maddie
estava na cozinha a ler uma revista e a lanchar.
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- A Elsbeth no te faz lembrar a Eddie? - perguntou Rita mal entrou em casa, enquanto pendurava o casaco e libertava os ps das botas de borracha.
- A capa que ela traz era da Eddie. Ela sempre quis ser uma bruxa - respondeu Maddie com uma gargalhada.
- Bem me parecia que a conhecia de algum lado.  estranho como a histria se repete, no ?
Maddie concordou e, erguendo as sobrancelhas, acrescentou:
- Isso  verdade. Havias de ver a Daisy e o Charlie Bolton. So tal qual como tu e o George com a idade deles. No h maneira de se separarem.
De repente, Rita pareceu apreensiva:
- O Charlie est aqui?
- Est - respondeu Maddie, que se levantou para preparar o ch para as duas. Quando viu como a irm parecia nervosa, teve uma expresso de impacincia. - Por amor
de Deus, Rita! No deixes que o Charlie te incomode. Ele parece-se com toda a gente menos com o George.  a cara da me.
- No estou incomodada - disse Rita, pondo a chaleira ao lume e tirando uma chvena do armrio.
- Parabns pelas tuas encomendas. Isso s mostra que no percebo nada de arte.
- Que queres dizer com isso?
- Sempre achei aquela gara horrorosa!
- A srio?
- Gosto das tuas imagens de crianas. Tm um certo encanto rude. Mas  como te digo. Isto s mostra que no percebo nada de arte.
- Bom, o Benjamin Bradley acha que consegue vender umas quarenta por ano - disse Rita, tentando no deixar transparecer que se sentia ofendida.
- Oxal tenha sorte. Deve conhecer o mercado dele, e se no conhecer pouco importa. Desde que te continue a pagar. - Rita mudou de assunto e perguntou-lhe como ia
o livro que Harry andava a escrever. -  acerca de um amor no correspondido - respondeu Maddie. - Tu s um modelo perfeito para ele. Na verdade, devamos pagar-te
uma comisso. Ainda bem que afinal vais ser to rica que no vais precisar dela!
Antes que Rita tivesse oportunidade de retaliar, a porta abriu-se e os midos entraram a correr, vindos do frio, e comearam a libertar-se dos
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agasalhos e a deix-los em monte no cho. Elsbeth correu para Rita e abraou-a.
- Eu sou uma bruxa - disse ela. - S tenho pena de no ser uma bruxa a srio, porque podia transformar o Freddie num sapo! Fui sempre a primeira que ele apanhou!
- Ento no devias esconder-te em stios to estpidos! - gritou-lhe ele, passando por ela a correr para arranjar lugar  mesa. - H bolo de chocolate, me?
- A tia Rita fez-vos um doce - respondeu ela pondo-o na mesa.
- Boa! - exclamou ele, satisfeito. - Podes vir c sempre que queiras, tia! Charlie, vem sentar-te aqui! Vou servir o doce.
Charlie trepou para o banco que estava encostado  parede. Rita j o tinha visto uma vez na loja da aldeia e outra na igreja, mas nesse dia pde olhar melhor para
ele. Maddie tinha alguma razo em relao  parecena dele com a me, mas a verdade  que o seu sorriso recordava o do pai.
- Daisy, passa-me as natas, se fazes favor - disse Freddie, servindo-se generosamente do doce da tia.
- De que  que morreu o teu ltimo escravo? - perguntou Daisy, friamente, sentando-se ao lado de Charlie. - Vai busc-las tu.
- Elsbeth! - ordenou ele.
A irm mais nova suspirou e abriu o frigorfico. Tirou a embalagem das natas, encontrou um frasco de pickles aberto e tirou um pepino que meteu dentro da embalagem.
Com a cara mais sria do mundo, deu-lha e sentou-se ao lado de Ava, que comia tranquilamente o seu doce no seu lugar  cabeceira da mesa. Daisy comeou a olh-la
com mais ateno. Percebia sempre quando a irm andava a fazer alguma. Elsbeth bebeu um gole de leite com ar inocente, deixando uma linha branca sobre o lbio superior.
Freddie nem sequer lhe agradeceu e estava to entretido a falar com Charlie que no viu o pickle cair-lhe no doce. Daisy viu e conseguiu abafar uma gargalhada. Deu
um pontap a Charlie por baixo da mesa. Este voltou-se para ela com ar interrogador e ela apontou-lhe o prato de Freddie com os olhos. No tiveram de esperar muito
para verem Freddie levar uma boa colherada  boca. Quando mastigou o pepino, Freddie deu um grito e cuspiu pepino e doce em todas as direces, sujando a imaculada
toalha branca. Maddie limitou-se a revirar os olhos, resignada, e a encolher os ombros.
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- Se Frognal Point no me deixar doida, os meus filhos ho-de consegui-lo - desabafou com um sorriso.
Rita olhou para Ava, sossegada e tmida, com olhos cinzentos como o pai e cabelo muito louro como a me. Ps-se a pensar qual teria sido o aspecto dos seus filhos
se ela prpria tivesse casado com George. Enquanto a observava assim, sonhadoramente, reparou no pingente que a garota trazia ao pescoo. Quando olhou mais de perto,
para sua imensa surpresa, pareceu-lhe exactamente a mesma pomba que tinha atirado ao mar. Incapaz de conter a curiosidade, aproximou-se da mesa.
- Que pingente to bonito, Ava. Onde o arranjaste? - Ava tocou-o com os dedos brancos e finos.
- Foi a minha me que mo deu - respondeu. - O meu pai encontrou-o numa gruta na praia.
Rita teve a impresso de ter sido atingida por um murro violento no estmago.
-  muito bonito - disse, com voz fina.
- Obrigada. Foi uma sorte para mim a minha me no o ter querido.
Quando pensou que Susan estivera a ponto de ficar com o pingente, Rita sentiu a fria subir-lhe no peito. Porque no teria George ficado com ele? Parecia falta de
interesse d-lo assim, sem pensar. Em tempos fora muito especial para ambos. Tentou fazer mais algumas perguntas a Ava acerca dos pais, mas ela respondeu por monosslabos,
de maneira que Rita teve de desistir e de se retirar para o extremo oposto da cozinha, onde Maddie folheava as suas revistas. Comeou a sentir-se pouco  vontade,
como se estivesse ali deslocada. De repente sentiu uma mozinha pegajosa meter-se na sua. Olhou e viu Elsbeth, a bruxa, olhar para ela com olhos adoradores.
- Tia Rita, vens brincar comigo? - pediu. Sentindo o corao derreter-se, Rita respondeu:
- Boa ideia. E se fssemos l para fora e nos sentssemos nas rochas? Eu podia contar-te histrias de bruxas, de bruxas verdadeiras, como a av - disse ela, caminhando
para a porta.
Maddie nem levantou os olhos da revista e os outros midos estavam demasiado felizes de volta do doce para repararem que a tia Rita ia contar as suas preciosas histrias
 luz suave do luar.
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Depois de ter desistido de Rita e determinado a no ficar preso aos vestgios dos seus sonhos destroados, Max pediu Delfine em casamento. A francesa era demasiado
jovem e estava demasiado ofuscada pelo brilho das jias para reparar que ele no a amava. Aceitou a oferta e mudou-se para casa dele.
- Tudo o que eu tenho vai ser teu - disse-lhe ele. - Mas h uma diviso da casa que s me pertence a mim.  o meu quarto privado e est sempre fechado. No quero
partilh-lo com ningum e espero que respeites o meu desejo e nunca ali entres. Todos os outros quartos da casa so teus.
Delfine assegurou-lhe que nunca o trairia. Estava feliz de mais para se ralar com um quarto secreto fechado com uma chave misteriosa. Estava prestes a ser Mrs. Guinzberg
e nada mais lhe interessava.
Quando a av lhe deu a notcia, Rita ficou desolada. Max nem sequer se tinha dado ao trabalho de lhe dar a notcia pessoalmente. Era evidente que j nada representava
para ele. Sentiu-se trada. Caminhou ao longo da falsia com Tarka, recordando o tempo em que quase se atirara dali por causa de George. Tudo aquilo lhe parecia
ter acontecido h muito tempo, noutra era, numa altura em que era uma rapariga muito diferente. Percebeu que as vidas de todas as outras pessoas se moviam continuamente,
como um rio, sempre para diante. A dela, contudo, era apenas um lago estagnado onde nada crescia. Estava farta dela.

CAPTULO 34
Trees j morrera h quase trs anos e Faye estava farta do luto. As visitas furtivas a casa de Thadeus j no lhe bastavam. George andava muito ocupado com a quinta
e os filhos, e Alice tambm tinha a sua prpria vida. E ela? Ela trabalhava a cermica no seu estdio e apreciava a companhia dos netos, mas deixara de ter algum
de quem cuidar e sentia-se incompleta por isso. Tinha vontade de tomar conta de Thadeus, que estava velho e precisava dela. Apetecia-lhe cozinhar para ele, lavar
a roupa dele e pass-la a ferro, fazer-lhe companhia  lareira nas longas noites de Inverno, falar com ele de livros que os dois tivessem lido e da msica de que
gostavam. Sonhava tocar piano, acompanhando-o quando ele tocava violino, e partilhar os momentos de melancolia em que o corao dele parecia desfazer-se em lgrimas.
Amava-o, e v-lo uma vez por outra j no lhe chegava.
Faye estava quase com setenta anos e j no se ralava com o que as pessoas pensavam dela. Hannah podia no aprovar, Miss Hogmier podia coscuvilhar com o reverendo
e a mulher se lhe apetecesse, a igreja podia vibrar com o escndalo do seu caso extraconjugal que isso j pouco lhe importava. "A liberdade  deixarmos de nos ralar
com o que as pessoas dizem", pensou para si mesma enquanto fazia as malas. "A partir de agora vou viver para mim." Nessa tarde, quando George chegou para lanchar
com ela depois de um dia de trabalho na quinta, as malas de Faye estavam preparadas  porta.
- Para onde vai? - perguntou ele, servindo-se de bolo.
- Vou viver com o Thadeus Walizhewski - disse ela, como se isso no tivesse grande importncia.
George sentou-se e coou o queixo.
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- E a casa? - perguntou, porque no se lembrou de mais nada para dizer.
- A casa  tua, filho. O teu pai deixou-te tudo.
- E porque no vem o Thadeus para aqui?
Faye ps o prato do bolo sobre a mesa e sentou-se.
- Porque esta casa era do teu pai e eu tenho demasiadas recordaes dele para poder ser feliz aqui com outro homem.
- J contou  Alice?
- No, filho, s a ti.
- Toda a gente vai fazer perguntas. Est preparada para isso? Tem a certeza? - Lembrou-se de Susan e da hostilidade que continuava a enfrentar apenas por no ser
da terra. No queria que a me tivesse de passar pelo mesmo.
- Tenho a certeza absoluta. Amei o teu pai e lamentei a morte dele como qualquer viva tem a obrigao de fazer. Mas agora j passaram trs anos, trs Natais que
no passei com ele. E eu no quero perder mais tempo. A vida  curta, eu no tenho muitos anos pela frente e quero passar os que me restam com o homem que me ama.
No posso viver sem amor, George.
- Ningum devia viver sem amor - concordou ele com solenidade, pensando em Rita.
- Sabias que o Max a pediu em casamento? - disse ela, lendo os pensamentos do filho.
- O Max pediu a Rita em casamento? - O seu sentimento de posse surpreendeu-o. - Mas ela no aceitou, ou aceitou? - replicou, mas procurou corrigir-se: - Quer dizer,
nunca me lembraria deles como casal.
- Recusou-o - respondeu-lhe a me, vendo os cimes reflectidos no rosto do filho.
George disfarou como pde o seu profundo sentimento de alvio. - J a viste, George?
- S uma vez, ao longe - disse ele de olhos baixos e levando mais um pouco de bolo  boca.
- Estou a ver - disse-lhe a me, observando-o um pouco em silncio, e depois acrescentou: -  estranho como  possvel duas pessoas viverem a meia dzia de quilmetros
de distncia e nunca se verem.
Por muito que George tentasse no pensar em Rita, era incapaz de suprimir uma nostalgia que quase o sufocava. Enquanto vivesse em Frognal
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Point, entre as recordaes da infncia dos dois, nunca se libertaria dela. A sua figura fantasmagrica ia continuar a assombr-lo nas falsias, na gruta e na praia.
Continuaria a procur-la com os olhos no alto das falsias, receando v-la, mas ao mesmo tempo ansiando por isso. Ela era uma parte to importante daquele lugar
como as aves e ele prprio. No podia mais. Louco de excitao, no pensou na sua mulher; no conseguia pensar seno em Rita. Tinha de falar com ela.
Com o corao a bater-lhe com fora no peito, percorreu o caminho ao longo da costa de carro. As estradas estavam cobertas de folhas que ficavam a danar atrs do
carro  sua passagem, com o sol a brilhar nas gotas de gua que cobriam o seu tom dourado. Abriu a janela e sentiu com prazer o vento frio bater-lhe no rosto. Estava
nervoso e tinha um n no estmago. Tinha a impresso de estar ao comando do seu Spitfire em busca de bombardeiros alemes. As perspectivas de voltar a ver Rita eram
quase igualmente assustadoras. Quando chegou a casa dela deixou-se ficar dentro do carro a uma pequena distncia, a pensar no que havia de dizer e a tentar adivinhar
o que ela responderia.
Mordeu a pele do polegar, que ficou quase a sangrar. As suas mos estavam speras no trabalho do campo. No eram as mos do piloto que fora em tempos. Viu-se ao
espelho retrovisor e reparou pela primeira vez nas rugas que lhe rodeavam os olhos, no rosto mais largo, na pele mais dura e vermelha, no cabelo mais fraco e que
recuava sobre a testa. J no era o homem por quem Rita se apaixonara muitos anos antes, e ela provavelmente tambm j no era a mesma rapariga. Reuniu foras e
saiu do carro, que deixou parado  beira do caminho de terra que levava  casa. Sentia-se to culpado como se j tivesse sido infiel.
Percorreu a p o curto caminho at  casa, sob as copas dos castanheiros. As castanhas, as folhas e os ramos partidos apodreciam no cho. Aproximou-se da casa consciente
de que o que acontecesse nos momentos seguintes podia selar para sempre o passado ou abri-lo de forma violenta, deixando-o mais desorientado que nunca. Estava a
entrar num jogo. Esperava que, na realidade, Rita no fosse to ameaadora como lhe parecia. Endireitou os ombros, inspirou profundamente e tocou  campainha. Do
interior no vinha qualquer rudo; s ouvia as batidas do prprio corao. Lembrou-se que ela tinha um co e ps-se  escuta de um ladrido ou de um barulho de patas.
Voltou a tocar. Nada, absolutamente nada. O seu nervosismo transformou-se em frustrao. Ela no estava
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em casa. Achou que no voltaria a ter coragem de a visitar e s com dificuldade dominou a frustrao. Depois de uns minutos parado  frente da porta, decidiu com
relutncia ir-se embora.
Estava quase a entrar no carro quando se lembrou de voltar atrs e de dar uma vista de olhos pelo jardim. Em que tipo de mulher se teria transformado? No fim de
contas, qualquer stio reflecte a pessoa que l vive, ia pensando enquanto voltava a subir o caminho em direco ao pequeno porto que dava para o jardim. Ficou
espantado com o seu tamanho. Como a casa era relativamente pequena, estava a contar com um jardim igualmente exguo. A relva descia em direco  praia, onde o mar
se agitava e as gaivotas planavam. Enfiou as mos nos bolsos e percorreu com os olhos o esturio, onde as vagas suaves se erguiam e esbatiam  luz suave de Outono.
Seguiu o seu instinto e desceu o caminho muito batido em direco  praia. A areia estava molhada, porque a mar descia lentamente, deixando os pequenos crustceos
expostos  voracidade das aves. Uma brisa salgada despenteava-o, como a carcia familiar da mo de uma amante, despertando nele uma doce nostalgia. Lembrou-se de
Rita, e tambm de Jamie Cordell, de Rat Bridges e de Lorrie Hampton, e os rostos dos amigos fundiram-se no dela nas imagens vindas do passado, que se misturavam
na sua memria. Como uma guia poderosa, abriu os braos acompanhado pela msica suave do mar, e comeou a percorrer a praia em passo de corrida. Quanto mais corria,
mais animado se sentia, at que, num breve momento de xtase, redescobriu o rapazinho que h muito crescera em Frognal Point. Encontrou-o bem escondido no fundo
de si mesmo, no seu esprito despreocupado e risonho, e dirigiu-se  gruta em busca da rapariga que em tempos ali vivera com ele.
No fim, percorreu de novo o carreiro que levava at junto do jardim de Rita. Sentia o cheiro dela nas flores que ali cresciam e na erva que brilhava com o orvalho.
Decidiu esperar ali por ela e dizer-lhe que ainda a amava e fora um erro t-la deixado.
 esquerda do stio onde se encontrava havia um muro que comeava a desmoronar-se e um porto aberto. Caminhava devagar, retirando um prazer inesperado ao observar
o jardim selvagem que lhe parecia reflectir de forma perfeita a personalidade de Rita, e espreitou atravs das rvores. Ali, deitada na relva ao lado de um co adormecido,
estava Rita. Encontrava-se a alguma distncia dele, numa posio em que no podia v-lo. De mos estendidas, tentava levar dois chapins a comerem-lhe
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 mo. Enquanto os passaritos saltitavam ao lado dela, tentando decidir-se a confiar nela, Rita mantinha-se perfeitamente imvel. O co parecia velho, com plos
brancos  volta da boca e dos olhos, e no pressentiu a presena dele junto do porto. George recuou horrorizado, subitamente preocupado com a ideia de que ela o
pudesse ver.
Respirou o mais silenciosamente possvel, recomps-se e voltou a espreitar atravs dos arbustos como um espio. Rita pareceu-lhe linda, com o seu rosto plido e
srio com a concentrao. Era precisamente assim que a recordava. No parecia nem um dia mais velha. Continuava a ter cabelo comprido e meio despenteado, um corpo
com curvas e uma maneira descuidada de vestir. Mesmo quando tentava vestir-se bem, parecia sempre um pouco descuidada. Inclinou o rosto, esqueceu o nervosismo e
fruiu da cena encantadora, deixando o amor inundar-lhe o corao.
Uma brisa leve agitou os arbustos que o escondiam e fez voar o cabelo dela, expondo-lhe um pouco o rosto. Aquele rosto que ele tantas vezes beijara e acariciara.
Onde provara o sal do mar e a amargura das lgrimas dela. Quantas vezes tivera o corpo dela entre os seus braos? Ainda conseguia senti-la, como se tivesse sido
no dia anterior. O calor do corpo dela, a confiana slida do seu afecto, o entusiasmo sem limites da sua juventude. E ele desperdiara tudo aquilo. Foi nessa altura
que se apercebeu de um brilho, no momento em que ela mexeu a mo. Reconheceu imediatamente o diamante que lhe dera e sentiu-se invadido por um sentimento de orgulho.
Ela ainda tinha o anel que ele lhe dera. De repente, as promessas que tinham feito um ao outro no dia da partida dele regressaram num eco das palavras trocadas muitos
anos antes: "Sempre que olhares para ele quero que te lembres de como te amo." "E eu quero que sempre que olhares para a Lua te lembres de que eu te amo a ti."
Entretanto, o chapim tinha comeado a comer-lhe  mo. George recuou contra a parede, como se se tivesse queimado. Tinha jurado perante Deus amar Susan para sempre.
Se nesse momento cedesse ao desejo, perderia tudo. Sentiu o corao bater mais depressa contra o peito. Sufocado de arrependimento, confuso, recuou pelo relvado
com passo incerto, desesperado por fugir antes que ela o visse. No podia falar com ela naquele momento. No confiava o suficiente nele mesmo. Como era possvel
amar duas mulheres? A ideia de perder Susan deixava-o desolado. A ideia de se encontrar com Rita frente a frente enchia-o de terror.
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Apressou o passo em direco  estrada e entrou no carro. Quando ligou a ignio viu o co acastanhado de Rita correr em direco ao stio onde se encontrava. Foi-se
embora sem voltar a olhar para atrs.
Rita chamou Tarka.
- Sua tonta! - exclamou quando a viu correr em direco a ela pelo jardim. - Que foi que viste ali? - disse, e afagou-lhe o pescoo e a cabea. - Ests a ficar velha!
A correr atrs de fantasmas...
Estava satisfeita por ter conseguido que os chapins tivessem comeado a comer-lhe  mo. Tinha aprendido a domestic-los com a me. Em tempos, Maddie pintava pssaros
to bonitos, pensou consigo mesma. Era uma pena que tivesse voltado s revistas e aos filmes. Quando entrou em casa no fazia ideia de que George tinha estado a
to poucos passos dela, a observ-la, nem de que tinha estado a ponto de realizar anos e anos de devaneios fteis.
Enquanto ia conduzindo em direco a Lower Farm, George ia pensando que no podia voltar a ver Rita. Como a me tinha dito, era possvel viver perto de outra pessoa
sem nunca a ver. Talvez ele pudesse viver o resto da vida em Frognal Point sem voltar a encontrar-se com ela. Tanto por Susan como pelo casamento dos dois, Rita
teria de deixar de existir para ele.
Susan estava a fazer o jantar. Comeava a habituar-se a viver em Lower Farm. Faye tinha levado todos os seus livros e partituras, as molduras com fotografias e os
pequenos objectos, mas mesmo assim a casa continuava cheia de recordaes da famlia. Susan tencionava redecorar a casa. Na melhor das hipteses, o gosto de Faye
podia ser considerado excntrico, na pior, chocante. Mesmo um cego podia ter feito melhor. A desculpa agradava-lhe, porque tencionava transformar aquele lugar na
casa deles. De momento, continuava a sentir-se uma hspede, envergonhada de mudar as coisas de stio com receio de magoar a sogra. George gostava das coisas como
estavam, por lhe recordarem a infncia, mas percebia a necessidade dela de tornar aquele stio um lar para a sua famlia.
A mulher de George olhou para o relgio e perguntou a si mesma quando acabaria ele o dia de trabalho. Depois, ouviu um carro parar l fora. Olhou ansiosamente pela
janela e viu George. Quando ele saiu do carro, Susan reparou que ele parecia outra pessoa. Tinha o rosto corado
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e o cabelo despenteado. Parecia mais jovem, como o rapaz que conhecera a bordo do Fortuna muitos anos antes. Onde teria andado? E com quem?
George entrou em casa e viu Susan de p na cozinha, encostada  bancada. Nesse momento pareceu-lhe mais velha. O seu rosto estava macilento e havia rugas  volta
da boca dela, que a faziam parecer descada. Olharam um para o outro cautelosamente. Nenhum deles disse nada. A cozinha cheirava aos cozinhados dela. Susan nunca
fora muito boa cozinheira. Na Argentina tinham a sorte de ter Marcela. Na Argentina tinham a sorte de ser felizes.
Susan estudou o rosto do marido com olhos frios e pouco amigveis.
- Tens uma amante, George?
A pergunta dela foi to inesperada como agressiva. George ficou atnito. Abriu muito os olhos e a expresso infantil desapareceu deles para permitir que o homem
se recompusesse.
- No - respondeu com firmeza.
- Onde andaste?
- Estive na praia.
- Sozinho?
- Nunca queres vir comigo.
- Porque nunca me convidas - respondeu-lhe ela, com um aperto no corao, por perceber que ele se tinha afastado dela e ela lhe tinha permitido que o fizesse.
- Estou a convidar agora - disse George com um sorriso que se viu nos olhos dele. - Queres vir comigo ver o pr do Sol?
Susan combateu as lgrimas a custo. Sempre detestara a fraqueza e as pessoas que tinham pena de si mesmas, incluindo ela prpria. Voltou-se para tirar o jantar do
forno, no fosse ele queimar-se enquanto estivessem fora, e respondeu:
- Gostava muito de ir.
Depois desse dia no voltaram a falar de Rita. O fantasma dela comeou a desaparecer aos poucos do seu casamento, relegado para a gruta, a praia e o cimo das falsias,
onde permanecia como o sussurro das ondas. George sentia a presena dela nesses lugares quando passeava sozinho, mas no deixava que ela interferisse na sua vida,
e muito menos permitia que a sua nostalgia ocasional transparecesse. Tinha tomado a sua deciso.
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- Reverendo, acha que a Faye j convivia com o Thadeus Walizhewski enquanto o marido ainda era vivo? - perguntou Miss Hogmier, inclinando-se sobre o balco de maneira
que o reverendo no pde deixar de sentir o cheiro a mofo que a rodeava. Estas palavras foram ditas quase em sussurro, apesar de no haver quase ningum na loja.
- Este assunto no nos diz respeito, Miss Hogmier - respondeu o reverendo num tom reprovador. - O marido dela j est na companhia de Deus e por isso ela tem o direito
de voltar a amar.
Os olhos de Miss Hogmier pareceram transformar-se em fendas e a sua boca sorriu tanto quanto a sua pequena boca o permitia.
- Ouvi dizer, embora prefira no mencionar nomes, que Faye estava com ele no dia em que Trees morreu.
- Sim, tinha ido entregar-lhe uma pea.
- Pelo menos  o que ela diz... - disse Miss Hogmier, de braos cruzados. - Se me perguntar, e para mais no sou pessoa de mexericos, para mim  viver e deixar viver,
ela tem estado mortinha para ir viver com Thadeus desde que enterrou o marido. Deve pensar que ningum percebe, mas a mim no me engana ela.
- Faye no  pessoa de falar da vida dela - disse o reverendo, tamborilando os dedos sobre as compras na esperana de que ela notasse e se despachasse a atend-lo.
Miss Hogmier acenou afirmativamente com grande vagar.
- Que ho-de os mais novos pensar?  a ns que cabe dar o bom exemplo. No admira que George se tenha casado com uma americana, se a me fugiu com um polaco!
- Todos somos filhos de Deus - retorquiu o reverendo com irritao. Comeava a perder a pacincia com aquela mulher. - Ps isto tudo na minha conta?
- Est com pressa? J ningum est para perder tempo a falar com uma solteirona como eu nos tempos que correm. Andam sempre todos a correr, sem vagar para uma conversa.
No que eu me queixe. Sou uma mulher muito humilde. Vive a tua vida com humildade, como dizia a minha me. No espero muito dos outros. S um pouco de bondade. Hoje
em dia, as pessoas so to desagradveis, no lhe parece?,
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Dito isto, abriu um velho livro vermelho e escreveu o valor da compra do reverendo com a sua letra tortuosa.
O reverendo Hammond ficou incomodado. Se Faye tivesse de facto cometido adultrio, tratava-se de um pecado muito grave. Decidiu ir visit-la. O caminho para o Cu
passava pelo arrependimento, e fazia parte das suas funes assegurar-se de que ela l chegava.

CAPTULO 35
Passaram-se dois anos e Max continuava a arranjar desculpas para no marcar a data do casamento. Ao princpio, Delfine no se queixava. Usava no dedo um grande anel
com trs diamantes e comeou a redecorar a casa. Nunca fez qualquer tentativa de abrir o quarto secreto do marido. Andava ocupada de mais a fazer compras, a almoar
com as amigas, a participar em comisses de obras de caridade de ricos e a acompanh-lo em viagens, pelo menos quando os destinos eram suficientemente glamorosos.
Adorava ser a futura Mrs. Guinzberg, posava sem vergonha para os fotgrafos nas festas e no se importava de dar entrevistas s revistas cor-de-rosa. Max gostava
que ela se divertisse e dava-lhe constantemente prendas caras. Quando Mrs. Megalith lhe disse que ela pouco passava de um cozinho de luxo limitou-se a rir, mas
quando falou de Rita ps-se srio.
- O trabalho dela parece estar a vender-se muito bem em Londres - informou-o ela por telefone. - Por isso, sente-se independente e realizada. Porque no te vs livre
daquela pateta e a pedes outra vez em casamento?
- Ela no me quer. Foi ela mesma que o disse, e que vai amar George at  morte.
Mrs. Megalith fez um estalido com a lngua.
- Muitas vezes  a persistncia que conquista as mulheres, Max. Que andas tu a fazer com esse cozinho horroroso?
- Gosto muito da Delfine. Ela faz-me feliz - disse ele, despreocupado.
- A Delfine no passa de uma criana mimada. Espera que se transforme numa mulher mimada e vais ver como deixa de te fazer feliz.
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- No seja cnica. Ela  encantadora, toda a gente gosta dela...
- Menos tu - disse ela sem cerimnia.
- Como vai a Ruth? - perguntou ele, mudando de assunto. Seria possvel que ela no percebesse como lhe doa ouvir falar de Rita?
- A gravidez j comea a notar-se. Fica-lhe bem.
- Ainda bem! - exclamou Max, detendo-se um momento no seu prprio desejo profundamente enraizado de dar origem a novas vidas, para substituir as que se tinham perdido.
Nunca tinha falado a Delfine dos sonhos com a irm beb que no tinha chegado a crescer. S Rita conhecia os recantos mais secretos do seu corao e as sombras que
a se escondiam.
- Graas a ti, est feliz e vive bem. s um homem muito generoso. - Max riu-se.
- O dinheiro tem pouco significado para mim, como sabe. Estou em boa posio para ajudar. E fao o que posso.
Mrs. Megalith sabia que ele teria gostado de fazer o mesmo por Rita.
- Se a Rita tivesse casado contigo, no teria de trabalhar tanto - disse ela, continuando a pensar, em voz alta.
- A deciso foi dela, no minha.
- Vocs so uns tolos os dois. S complicam a vida. Mesmo assim, louvado seja Mister Bradley.
Quando pousou o telefone, Max sentiu-se abatido. Em geral, era um prazer falar com Mrs. Megalith, mas tinha a certeza que ela no tinha razo. Enquanto George fosse
vivo, Rita nunca encontraria espao no seu corao para o amar a ele. Alm disso, no lhe interessava ficar com o papel de substituto de George Bolton. Quando a
secretria tentou passar-lhe uma chamada, aborreceu-se com ela sem razo para isso.  hora de almoo teria de lhe trazer um ramo de flores e de lhe pedir desculpa.
Para irritao de Max, Mrs. Megalith parecia ter razo, como de costume. Quanto mais o tempo passava, menos graa tinha Delfine. Tudo aquilo de que Max gostava nela
foi sendo posto de parte, como roupas velhas que tivessem deixado de lhe servir. Pouco a pouco, deixou de se mostrar impressionada com as prendas dele, os hotis
onde ficavam comearam a no ser suficientemente luxuosos, as festas a que iam passaram a aborrec-la e as festas de caridade, que tinham sido o passaporte dela
para entrar na sociedade, comearam a parecer-lhe enfadonhas. Fora um cozinho dedicado, satisfeita com uma festa de vez em quando, at
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que comeou a ser exigente e amarga quando no a conseguia. Comeou a pression-lo com a data do casamento.
Delfine tinha percebido que havia uma presena invisvel entre ela e o noivo. Recusava-se a ir com ele a Frognal Point e a ficar em Elvestree porque, alm de ter
a impresso que Mrs. Megalith no gostava dela, pressentia ali, mais que em qualquer outro lugar, aquela presena invisvel mas incontornvel. Max nunca lhe dissera
que a amava. Dizia-lhe que gostava dela, que a adorava, que ela o fazia feliz, mas nunca tinha usado a palavra "amor". Ao princpio, no tinha prestado ateno.
As prendas dele eram to generosas... Nunca esperara que um homem como Max se interessasse por ela. Sentia-se lisonjeada pelo mais simples dos sorrisos, pelo mais
pequeno gesto. Agora, que viviam juntos h dois anos, comeou a habituar-se  riqueza e  fama dele. Queria-o, mas no podia t-lo. Havia algum no caminho dela,
e estava certa de que o segredo se escondia por trs da porta trancada do nico quarto da casa que no lhe pertencia.
Depois, num dia triste e sombrio, Ruth telefonou a Max e, com uma voz pesada de tristeza, disse-lhe que Mrs. Megalith estava a morrer e queria falar com ele. Max
deixou uma mensagem a Delfine e partiu para Devon o mais depressa que conseguiu. Quando chegou a Elvestree, a casa pareceu-lhe vazia e fria, como se por algum passe
de mgica tambm ela estivesse a morrer. Sufocado de tristeza, entrou a correr e encontrou a irm  espera dele no trio.
- Graas a Deus j chegaste. Ela j mal se aguenta - conseguiu Ruth dizer, atirando-se para os braos dele. Ele beijou-a afectuosamente e depois subiu os degraus
para o primeiro andar dois a dois. Dirigiu-se ao fundo do corredor, onde a porta do quarto dela estava aberta, como se ele fosse esperado. Ruth seguiu-o, a roer
as unhas e a tentar conter as lgrimas. Para horror de Max, o quarto estava cheio de gatos. Estes ocupavam todas as superfcies livres e olhavam para a cama com
olhos grandes e sabedores. Mrs. Megalith estava sentada, apoiada em enormes almofadas brancas. O seu rosto estava to cinzento como o cu l fora e os olhos brilhavam
com emoo.
- Vem c, Max - disse ela, estendendo com dificuldade um brao fraco. Tinha uma camisa de dormir vermelha, mas os seus dedos estavam despidos de anis. A nica pedra
que usava era a selenite que pendia do fio ao seu pescoo, como sempre. - Ruth, tambm quero falar contigo -
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acrescentou quase sem foras. Max sentou-se  beira da cama e segurou a mo dela entre as suas. Ruth conseguiu arranjar um pequeno espao do outro lado da cama depois
de expulsar dois gatos. - O meu tempo chegou ao fim. O Denzil e o Trees esto  minha espera do lado de l com uma garrafa de Dom Perignon, Deus os abenoe. Aposto
que em esprito ainda sabe melhor. - Conseguiu esboar uma risada, mas isso f-la tossir e respirar com dificuldade. - Vocs so os meus filhos - continuou com seriedade.
- Amo-vos mais que a qualquer das minhas filhas e no tenho vergonha nenhuma disso! Quando vocs chegaram a minha casa, dois pequenos refugiados assustados e desprotegidos,
acho que vos amei naquele momento preciso. Meu querido Max - disse ela com um longo suspiro, retirando a mo da dele e percorrendo com ela o seu rosto. - Tu s um
bom rapaz. No desistas da Rita, ela precisa de ti.  uma pateta, tem uma estranha maneira de o mostrar, l isso  verdade...
- Eu tomo conta dela, prometo - respondeu ele, voltando-se para lhe beijar a mo.
- Eu sei que sim. Foi por isso que te deixei a casa a ti. O tempo h-de mostrar que no sou to tola como pareo. H uma razo para todas as minhas aces.
Depois voltou-se para Ruth.
- O Max vai assegurar-se de que tens tudo aquilo de que precisas. Tu s uma boa me, Ruth. Esse beb vai ser grande e saudvel e abenoado com um grande encanto.
Vou deixar-te este aqui disse ela, tocando o pingente de selenite. Durante todos os anos que foi meu quase no o tirei. S Deus sabe o que vais fazer com todos estes
gatos! Ficas encarregada de te assegurar de que Eddie e Elsbeth partilham a minha caixa - acrescentou, querendo com isto dizer as suas cartas de taro, os seus cristais
e outros objectos esotricos. - Ficou tudo escrito naquela carta que est na minha mesa-de-cabeceira.
Virou-se de novo para Max e a sua voz voltou a ter um som impessoal e prtico.
- No quero que me faam um funeral. Deus me livre de deixar a ltima palavra quele velho pomposo do reverendo! Quero ser cremada e que as minhas cinzas sejam espalhadas
no jardim. Este corpo serviu-me com lealdade, por isso quero que seja tratado com respeito. No quero choradeiras nem pieguices. No vou para stio nenhum, s vou
desaparecer da vossa vista, embora a Eddie e a Elsbeth vo continuar a ver-me,
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porque elas herdaram o meu dom.  uma sorte que isso no acontea com a Antoinette. Se ela soubesse a verdade acerca dos espritos, no teria graa nenhuma atorment-la.
- De repente olhou para cima e abanou a cabea com impacincia. - Ainda no, Denzil. Ainda tenho uma coisa para dizer. - Pegou-lhes nas mos e disse com determinao:
- Nem tudo se perdeu...
Mas antes que conseguisse completar a frase o seu esprito foi-lhe arrancado do corpo. Procurou resistir, determinada a dizer o que queria, mas a morte no pde
esperar. Mesmo assim, conseguiu dizer uma ltima frase:
- Uma estranha vir ter convosco para vos pedir ajuda... - Depois partiu, com o seu habitual trejeito de irritao.
- J foi - disse Ruth, inclinando-se para lhe fechar os olhos.
- Que te parece que quis dizer? - perguntou Max, pressionando os lbios contra a mo dela.
- No sei - disse Ruth, limpando as lgrimas  manga do casaco. - De repente o mundo parece muito vazio, no achas?
Max acenou afirmativamente, com ar grave.
- Acho que afinal no acredito que ela fosse humana.
- Que vamos fazer com todos estes gatos? - Max coou a cabea.
- Isso agora no  o mais importante. Primeiro vamos ter de dizer a Hannah, a Antoinette, a Maddie...
- E  Rita?
- Sim, e  Rita.
Ruth olhou-o com simpatia. De repente o rosto dele pareceu desolado.
- Vai v-la, Max. Desde aquele Natal que j correu muita gua por baixo das pontes. A vida  curta de mais.
Quando estacionou em frente do jardim de Rita, Max sentiu-se animado por ver fumo sair da chamin, o que queria dizer que ela estava em casa. Olhou as rvores geladas
e retorcidas pelo vento e depois o Sol branco que brilhava num cu plido. Sentiu que o seu corao cedia um pouco, inspirado pelas recordaes das muitas vezes
que parara naquele mesmo stio,  porta dela. Pensou no calor da cozinha dela, no cheiro do caf, no caos habitual e sorriu interiormente. Contudo, exteriormente
havia um esgar nervoso na sua boca.
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Saiu do carro e bateu  porta. Ouviu Tarka a ladrar no trio e depois os passos de Rita, que lhe abriu a porta. Quando viu o rosto sombrio dele, corou de surpresa,
sem saber que fazer. Estava furiosa por ele no lhe ter voltado a falar desde o dia da conversa no esturio, a ponto de no lhe ter sequer falado no seu noivado,
mas os olhos tristes dele, os ombros descados fizeram-na ter um sobressalto. Abanou a cabea com resignao.
- Tenho sentido a tua falta - arriscou-se ele, enfiando as mos nos bolsos do sobretudo. Baixou os olhos para o cho. - Desculpa. Tenho sido um pssimo amigo.
- Tambm senti a tua falta - respondeu ela com suavidade. - Embora me tenhas deixado mais furiosa do que alguma vez estive na minha vida.
Olharam um para o outro um longo momento. O msculo do maxilar dele comeou a latejar, na expectativa da fria dela, mas a boca de Rita alargou-se num sorriso tmido
e ela comeou a rir-se. O alvio de Max no podia ter sido maior.
- Somos amigos h tempo de mais para deixarmos um pedido de casamento interferir na nossa relao - disse ele, caminhando para ela e atraindo-a a si. Continuava
a cheirar a violetas.
- Que tolos temos sido! - suspirou ela, envolvendo-o nos seus braos e deixando a cabea repousar no ombro dele. - Saboreou o abrao dele, como quem goza o momento
de chegar a casa, e desejou poder prolong-lo um pouco. - Ainda bem que voltaste - disse, e afastou-se para estudar o rosto dele, sombrio apesar de um sorriso. Franziu
a testa. - Que aconteceu, Max? - perguntou, afastando-se e vendo-o entrar em casa, onde Tarka se ps a cheirar as suas calas, muito excitada.
- Infelizmente vim trazer-te uma notcia triste - disse ele. - A tua av morreu hoje de manh.
Houve uma longa pausa enquanto ela apreendia as palavras. A sua tristeza era suavizada pela gratido, porque era evidente que fora a morte dela que inspirara a reconciliao
dos dois.
- Sempre gostei da velha bruxa. Era boa para mim - disse ela. - Entra, vamos pr a chaleira ao lume.
Ele entrou atrs dela na cozinha, um stio onde tantas vezes se tinham sentado juntos e trocado segredos. O cheiro era o de sempre: po e caf, e Max teve a impresso
que os anos que tinham passado
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desapareciam com o gelo das rvores quando o sol aquecia. Tirou o sobretudo e sentou-se no lugar do costume  mesa da cozinha, como nos velhos tempos. Durante alguns
minutos nenhum deles falou. Ele viu-a pr ao lume a chaleira, tirar as chvenas do armrio e procurar duas colheres limpas. Durante tantos anos, desde que a conhecia,
Rita parecia no ter mudado nada, como a av. A pele continuava branca e sardenta como um ovo de um tordo, o cabelo selvagem e embaraado. Apenas os seus olhos tinham
perdido a inocncia e se tinham tornado sombrios. Parecia uma criana perdida no mar, pensou ele, e foi dominado pelo desejo de a abraar.
Ela voltou-se e surpreendeu-o a olhar para ela. Sorriu-lhe com timidez e aproximou-se com o ch.
- Estavas com ela quando morreu? - perguntou, puxando uma cadeira e sentando-se.
- Sim, eu e a Ruth - respondeu ele.
A tristeza de Max com a morte da av dela modificou o seu rosto de
um momento para o outro. Rita sentiu-se dominada pela compaixo e estendeu a mo para a dele.
- Tenho muita pena, Max. Eu sei que ela para ti era como uma me.
- Estava velha, e teve uma vida boa. Mas vou sentir a falta dela. - Teve a impresso de sentir o cheiro familiar a canela e a cnhamo, como se ela estivesse ali
consigo, e os seus olhos brilharam. - Ela era o nico lao que eu e Ruth tnhamos com o passado, e agora j partiu. Tenho a impresso que um pouco de mim foi com
ela. Mas no posso continuar a olhar para trs. O passado so s recordaes. A realidade  o presente, e todos os momentos so preciosos. S que foi tudo to inesperado...
Pensei que ela nunca havia de morrer.
- A vida dela tem de ser celebrada, e no lamentada.
- Tens razo. Tenho a certeza que ela no havia de querer que andssemos todos a chorar pelos cantos com pena de ns mesmos.
- Morreu tranquilamente?
- Disse-nos que o Denzil estava ali  espera dela, mas estava determinada a falar connosco antes de partir. Acho que ele teve de a obrigar a ir.
- Isso  mesmo da av - riu-se Rita, afectuosamente. - Espero que me tenha perdoado antes de partir. Nos ltimos anos no nos demos muito bem.
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- Contou-me que ultimamente tens vendido as tuas peas em Londres - disse ele, mudando de assunto.
- Sim, um senhor muito simptico, Mister Bradley, compra-me umas trinta todos os anos para vender na loja dele. Chego a ter dificuldade em satisfazer as encomendas
todas. No fao ideia de quem as comprar.
- Tu tens muito talento. No te diminuas.
- Pelo menos, d-me para pagar as contas. Nunca pensei que havia de conseguir. Pensei que ia ter de voltar para a biblioteca.
- Detestava saber que continuavas a ir todos os dias para aquele lugar bafiento. Ainda bem que tens um trabalho criativo.  melhor para a alma. - Max coou a cabea
e olhou-a com tal intensidade que ela sentiu um n no estmago. - Tens bom aspecto. Pareces feliz.
- Estou bem e feliz - disse ela com firmeza. - Sobretudo agora que ests aqui. - Foi a vez dele de corar. - Sem ti sentia-me sozinha. O velho chavo  verdadeiro:
s comeamos a dar valor s pessoas quando elas se vo embora.
- Eu no vou deixar-te outra vez, prometo.
- Que vais fazer agora? Fiquei contente por a av te ter deixado a casa. Ningum gosta dela como tu, e agora que voltmos a ser amigos posso ir l sempre que quiser.
- No sei ainda. Tenho de resolver as coisas com a Delfine. Ela detesta este stio. - O nome de Delfine enervou Rita, que se sentiu como um animal cujo territrio
era invadido. Tinha esquecido completamente a noiva dele. Retirou a mo da dele. - Uma coisa  certa. Vou comear a passar aqui mais tempo. Algum tem de viver em
Elvestree. Para comear,  preciso dar comida queles gatos todos.
Rita recuperou a presena de esprito, grata por saber que Delfine nunca se adaptaria  casa da av, e torceu o nariz.
- Vamos fingir que a av deixou tudo  tia Antoinette! - disse, com um sorriso matreiro.
Quando Max voltou a Elvestree, os gatos tinham desaparecido todos. Ruth j tinha telefonado a toda a gente e organizado a cremao. O corpo de Mrs. Megalith tinha
sido levado e a casa pareceu-lhe subitamente vazia, como se o seu esprito tambm tivesse sido levado. Ruth estava to perturbada como Max.
- Onde se tero metido todos? - perguntou-lhe ela, de mos na cintura, perplexa.
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No longe da casa do reverendo Hammond o telefone tocou. O reverendo atendeu e ouviu a voz estridente de Miss Hogmier.
- Calma, Miss Hogmier. No consigo perceber uma palavra do que me est a dizer!
- Entraram aqui e meteram-se por toda a parte! Por toda a parte! Esto a dar cabo da minha loja! - guinchava ela.
- Quem  que entrou? Quer que chame a polcia? - respondeu ele, alarmado.
- Os gatos. Os gatos da bruxa!
- Os gatos de Mistress Megalith? Tem a certeza?
- Tem de vir c com uma caadeira! Esto a dar-me cabo da loja e da cabea. A mim, que no tenho marido que me proteja! Estou sozinha no mundo. Ningum se rala com
uma pobre solteirona como eu - lamentava-se Miss Hogmier num tom dramtico.
- Vou j para a, depois de chamar a Protectora dos Animais.
- No seja tolo, Elwyn, mate mas  os estupores!
Contudo, quando o reverendo olhou pela sua janela viu pelo menos uns vinte gatos a brincarem no jardim e a rebolarem na relva. Coou pensativamente o queixo. Mrs.
Megalith j devia ter morrido.
Delfine no ficou satisfeita quando percebeu que Max tinha ido para Devon sem ela. Embora detestasse o lugar, no confiava nele sozinho ali. Caminhando de um lado
para o outro na sala, ps-se a pensar no que fazer. Lembrou-se da presena invisvel e da porta fechada e percebeu que todas as respostas se encontravam ali. Ressentida
por ele no lhe ter confiado os seus segredos mais ntimos, ps-se a procurar a chave. Ia dar uma vista de olhos e ele no havia de perceber nada. Enquanto revistava
as gavetas do escritrio dele, a campainha tocou. A empregada tinha sado mais cedo porque estava com gripe, de maneira que teve de atender ela mesma. Praguejou
em voz baixa e atravessou o corredor com os saltos altos a ouvirem-se no cho de mrmore.
- Faz favor? - perguntou com impacincia quando viu um homem idoso de fato completo em frente da porta, ao frio. Era um homem alto, mesmo de ombros curvados. Tinha
um pacote volumoso nas mos.
- Chamo-me Benjamin Bradley. A senhora  a dona de casa?
- Sim, isso  para mim? - perguntou bruscamente.
-  para o senhor Guinzberg.
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- O que ?
Mr. Bradley escondeu a hesitao por trs de um sorriso amvel.
- Mister Guinzberg est?
- No - respondeu, deixando que a voz trasse a impacincia.
- Nesse caso volto noutra altura. - Delfine olhou-o com desconfiana.
- No  preciso, eu entrego-lhe o seu pacote disse ela, - pegando no volume.
Mr. Bradley franziu o sobrolho, mas no pde fazer nada. Impotente, viu-a fechar-lhe a porta na cara. Ento, voltou costas e foi-se embora. Percebeu que tinha cometido
um erro. Em geral, dava as suas encomendas  empregada. Esperava que Mr. Guinzberg no se aborrecesse com ele. Pagava-lhe bem e o dinheiro fazia-lhe falta. Se no
fosse ele, quem daria trabalho a um pobre talhante reformado da idade dele?
Delfine abriu o pacote e encontrou uma imagem de cermica de uma criana a dormir. Era pouco sofisticada, mas encantadora. Percorreu com as mos a curva delicada
do corpo da criana, que dormia como um gato, com os dedos a apertarem um objecto de tecido. A sua fria transformou-se em compaixo. Havia na pea qualquer coisa
que lhe encheu os olhos de lgrimas. Era inocente, vulnervel. De repente sentiu-se culpada. Talvez Max a tivesse comprado para lhe fazer uma surpresa.  pressa,
voltou a embrulh-la.
Pousou-a na mesa da entrada e continuou a procurar a chave. Como no conseguiu encontr-la, decidiu tentar desmontar a fechadura. Usou vrias ferramentas sem sucesso.
A sua curiosidade ia aumentando com a frustrao. Havia de entrar naquele quarto, nem que fosse  fora. Por fim, encantada, conseguiu que o puxador girasse. De
p, deu a volta e preparou-se para entrar. Mas quando estava a ponto de o fazer perdeu a coragem, sem saber que horrores se encontrariam ali dentro. E se ele fosse
um assassino e escondesse ali os corpos das suas vtimas? E se Max descobrisse? Teria coragem de a matar tambm? Abalada, mas decidida, entreabriu a porta e espreitou
para dentro do quarto. As persianas estavam fechadas e o quarto estava s escuras. Procurou o interruptor s apalpadelas e acendeu a luz. O que viu deixou-a de boca
aberta. Havia prateleiras e mais prateleiras com figuras de cermica. Algumas eram grosseiras e outras impressionantes, mas era evidente que todas tinham sado das
mesmas mos que tinham feito a criana adormecida.
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O quarto estava pouco arrumado e cheio de poeira, mas Delfine identificou o aroma do amor como um escano o melhor dos vinhos. Percorreu todas as peas com os olhos.
Havia muitas aves. Aves em voo, com as asas abertas, aves pousadas no cho, a debicarem na areia. Era suficientemente esperta para perceber que se tratava sempre
de cenas da costa. Havia peixes, gaivotas e crianas com pequenas redes. Desconfiou que o autor era de Devon. Reconheceu o toque feminino e teve a certeza, sem qualquer
dvida, que a pessoa que fizera aquelas peas era a presena invisvel na vida dele, que estava sempre entre os dois. S no percebia porque coleccionava ele aquelas
obras. O quarto fechado respondia a muitas perguntas, mas deixava outras tantas por responder.
Quando Max voltou, alguns dias mais tarde, encontrou o pacote na mesa da entrada e a porta do quarto secreto fechada como antes, mas Delfine esperava-o sentada nas
escadas. Deduziu do olhar dela que estava furiosa. Olhou de novo o pacote e percebeu que tinha sido aberto.
- Estiveste no meu quarto, no estiveste? - perguntou ele, calmamente, pousando a mala e tirando o sobretudo.
- Quem  ela? - perguntou Delfine, pondo-se de p. - No me mintas, Max. A mulher que faz aquelas peas horrorosas  a mulher que tu amas. Que sempre amaste. Porque
ests comigo se no me amas? As peas nem so grande coisa, no sei se reparaste. Na verdade, so horrorosas! - disse, e deu-lhe uma bofetada. Ele recuou, mas quando
olhou outra vez para ela os seus olhos estavam cheios de tristeza. - Sinto desprezo pela maneira como te aproveitaste de mim - continuou, com a voz a transformar-se
num grito. - Quem  ela? Exijo que me digas. Tenho o direito de saber.
Quando estava zangada, a sua pronncia francesa acentuava-se. Max suspirou, resignado, e tirou uma chave do bolso. Foi at ao fundo do corredor e abriu a porta do
seu quarto secreto. Ela entrou atrs dele.
- No vou mentir-te, Delfine - disse-lhe com calma, acendendo a luz. - Ela chama-se Rita e crescemos juntos em Frognal Point.  neta de Mistress Megalith, a mulher
que me adoptou quando fugi da ustria no princpio da guerra. E eu amo-a. Sempre a amei, mas ela no me ama a mim.
- E por isso compras todas as peas dela.  pattico! - retorquiu ela com desprezo.
- Comecei a comprar as suas peas porque ela estava com problemas de dinheiro. Como sabia que ela nunca aceitaria o meu
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dinheiro, pedi a um conhecido que se apresentasse como dono de uma loja interessado no trabalho dela.  a minha maneira de a ajudar.
- Ests  espera que acredite em ti?
- No tenho razo para mentir.
- H quanto tempo andas a comprar estas coisas?
- H uns trs anos, parece-me. J perdi a conta. No tem importncia. Hei-de compr-las at deixar de ter espao para as guardar.
- H sculos que desconfio que amas outra mulher. Explica-me s porque ests comigo.
- Porque gosto de ti. Fazes-me rir. Gosto da tua companhia. Ao princpio no eras feliz?
- Agora est tudo estragado. Nunca me amaste. Mesmo que me tivesses amado ao princpio, agora j no consigo lembrar-me - disse ela comeando a chorar. - Vou-me
embora.
- Delfine!
- No, desta vez ouve-me, para variar. Eu quero um homem que me ame. Nunca fui um substituto para ningum, uma segunda escolha, e no  agora que vou comear a s-lo.
Max viu-a guardar as coisas e entrar num txi. O alvio sobreps-se a todos os seus outros sentimentos.
E foi assim que Max voltou a Elvestree. Mudou-se para a casa mgica de Mrs. Megalith, sem saber se as coisas voltariam a ser as mesmas sem ela ali. Sabia que uma
relao feliz e o riso de crianas traria a magia de volta, mas, apesar de todos os seus esforos, ambas as coisas lhe haviam sido negadas. Lembrou-se de Lydia e,
na primeira noite que passou na casa, quando a escurido escondeu o seu desespero de todos os fantasmas que habitavam o local, chorou. Tinha pena de no recordar
o rosto dela, mas a verdade  que quase no se lembrava da irm. Apeteceu-lhe telefonar a Rita, mas quela hora no teve coragem. Mas nesse momento, em que mais
do que nunca viu o vazio do seu esprito, sentiu-se rodeado por um forte sentimento de amor, como na primeira noite que ali passara, muitos anos antes. Depois teve
a impresso que algum lhe aconchegava o cobertor e o beijava com ternura na testa. No se atreveu a abrir os olhos para no acordar no meio do que era certamente
um sonho, embora tivesse a certeza que no estava a dormir. Em seguida, sentiu o cheiro familiar do cnhamo e da canela e soube que no estava sozinho.

CAPTULO 36
Nos meses que se seguiram, Max administrou a sua empresa a partir de Elvestree, com visitas ocasionais a Londres para uma ou outra reunio. Alm disso, manteve os
seus interesses culturais e convidou polticos estrangeiros, escritores famosos, artistas e compositores de todo o mundo para a casa em tempos mgica de Mrs. Megalith.
Financiou exposies, comprou uma editora, cujo nome alterou para Guinzberg & Megalith, e continuou a trabalhar incansavelmente para uma organizao de apoio a judeus
em dificuldades. Mantinha-se ocupado para no pensar na esterilidade da sua vida particular. No entanto, havia uma ambio que no havia maneira de esquecer: comprar
o Teatro Imperial, em Viena, nem que fosse para sentir de novo os cheiros que tinham marcado a sua infncia e ouvir os ecos das vozes reverberarem atravs dos anos
para preencherem o vazio que as dcadas de silncio tinham aberto na sua alma.
Sem a presena de Mrs. Megalith, Elvestree no era a mesma. Os gatos tinham partido, mas a magia tambm. As rvores exticas secavam e morriam, os vegetais tinham
deixado de crescer nas antigas propores, e a Primavera no era diferente da dos outros stios. As aves estranhas j no faziam desvios para passar o Vero no jardim.
S as andorinhas continuavam a fazer os ninhos no canto mais afastado da sala de visitas, como sempre tinham feito. Max no modificou nada na casa. Deu, como tinha
prometido, a caixa de Mrs. Megalith a Elsbeth e a Hannah para a partilharem com Eddie, mas no alterou nada. Mesmo assim, o ambiente da casa j no era o mesmo.
- Como  possvel que uma s mulher deixe uma marca to poderosa numa casa? - disse um dia a Rita, a meio do Vero. -
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Elvestree continua um stio encantador, mas j no tem aquela magia especial. J nada tem o sabor que tinha quando a tua av era viva. E as coisas j no crescem
como cresciam. Mesmo os pssaros so iguais aos dos outros stios. So pssaros tpicos do Devonshire.
- No me parece que devas queixar-te assim. Quase todas as pessoas ficariam encantadas com um stio como Elvestree - disse ela, bebendo um licor que j no sabia
como nos tempos de Mrs. Megalith. Olhou  volta, para os arbustos aparados e a relva cortada, e para mais longe, na direco do esturio, que nunca deixaria de lhe
recordar a discusso com Max, e sentiu-se maravilhada com as recordaes que tudo aquilo tinha para ela.
- Eu sei que ficariam, mas ns  que sabemos como este stio foi em tempos - argumentou ele.
- A av era uma bruxa, Max, e tu no s - riu-se ela, encolhendo os ombros.
- Ser possvel que as casas reflictam realmente a personalidade de quem l vive? - perguntou ele, perplexo.
- Tenho a certeza que sim. Tu vais deixar aqui a tua marca, como ela deixou a dela. H-de ser igualmente especial, mas especial de outro tipo.
Max tinha vontade de fazer perguntas a Rita sobre George, mas sabia que no podia faz-lo. Era um assunto sensvel. Tinha a certeza que ela ainda o amava e que as
possibilidades de esse amor vir a diminuir eram escassas. A amizade dos dois continuava a mesma, s que Rita j no partilhava com ele essa parte da vida dela. A
questo nunca voltara a surgir, apesar de estar na mente de ambos. Rita parecia contente com a vida que tinha, mas Max tinha necessidades fsicas que no conseguia
esquecer, de maneira que comeou a ter amantes em Londres. Eram encontros sem significado que serviam o seu objectivo e o impediam de enlouquecer. Tentou aceitar
a relao platnica com Rita, mas a sua necessidade de uma famlia quase o fazia enlouquecer. Apetecia-lhe pedi-la outra vez em casamento, convenc-la de que podiam
ser felizes juntos. Estava mesmo disposto a aceitar que ela no o amava. Podia continuar a amar George se quisesse, desde que tivesse com ele um casamento assente
no afecto, na amizade e na confiana. Podiam ter filhos e viver em Elvestree; ela gostava tanto do stio como ele. O lugar dela era ali. No entanto, no se arriscou
a falar-lhe outra vez no assunto; no queria cometer de novo o mesmo erro. Enquanto usasse o anel de George, continuava a pertencer-lhe.
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Depois, numa tarde de domingo, a meio do Inverno, em que via a neve cair da janela do escritrio e pensava no Natal em que tinha discutido com Rita no esturio,
ouviu bater  porta com fora. Pousou o brande e atravessou o trio, onde a lareira estava acesa, sem ter bem o mesmo cheiro que no tempo de Mrs. Megalith. Abriu
a porta e viu uma jovem parada  sua frente na neve com um beb ao colo.
- Entre, por amor de Deus, ou apanha uma gripe que a mata - disse ele, puxando-a para dentro de casa por um brao ensopado de gua. A rapariga deixou-se ficar 
porta, olhando tudo o que a rodeava com olhos medrosos. O cabelo muito louro e os lbios vermelhos acentuavam ainda mais a palidez. No devia ter mais de dezasseis
anos. Parecia quase impossvel que pudesse ter um filho. O beb dormia, ao colo, embrulhado no casaco dela. - Aconteceu alguma coisa? - perguntou ele, partindo do
princpio de que o carro dela se tinha avariado ou se tinha perdido
na neve.
- Sim - respondeu ela, com uma fungadela. - O senhor  Max de Guinzberg?
- Sou, sim. Oua, no me interprete mal, mas estou a ver que est muito molhada. No seria melhor despir o casaco e vestir um roupo meu?
- Obrigada - respondeu ela com um forte sotaque alemo. Curioso, deixou-a  frente da lareira e subiu a correr. Voltou com uma toalha e um roupo. Quando voltou,
ela tinha despido o casaco e estava a aquecer-se  frente da lareira. Sem uma palavra, entregou-lhe o beb, que ele segurou enquanto ela secava o cabelo com a toalha
e vestia o roupo, deliciosamente quente por ter estado pendurado junto da canalizao da gua quente.
Max olhou para o beb que dormia nos seus braos e sentiu uma fora insistente pressionar-lhe o corao. Na sua mente, teve a impresso de ver o rosto da irm pequena.
Lembrou-se de a ter nos braos em rapaz, como naquele momento tinha aquele beb. Afastou a imagem, mas recordou o rosto bonito de Lydia e teve a impresso de que
ela lhe pertencia.
- Como se chama? - perguntou.
- Mitzi - respondeu a jovem. Max olhou para ela, surpreendido. - Mitzi era o nome da minha av. Da sua me, Mister Guinzberg.
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- Quem  voc? - perguntou ele, pronunciando as palavras devagar, as lgrimas a virem-lhe aos olhos espoletadas por recordaes antigas.
- Chamo-me Rebecca. A minha me foi Lydia, a sua irm.
Max sentou-se no velho cadeiro de cabedal ao lado da lareira. "Ento era isto que ela estava a tentar dizer-me", pensou consigo mesmo. "Nem tudo est perdido."
- Mas a minha irm morreu num campo de concentrao, como os meus pais - disse ele, perturbado, entregando-lhe o beb.
- No, no morreu - disse Rebecca. - Quando os seus pais o mandaram a si e a Ruth para Londres, um vizinho generoso ofereceu-se para tomar conta de Lydia at o pior
ter passado. Os Alemes foram buscar os seus pais, mas Lydia estava a salvo. A minha me cresceu com estas pessoas. No fim da guerra adoptaram-na e, para a protegerem,
nunca lhe contaram quem ela era, por isso ela sempre acreditou que era Lydia Steiner, at que morreu, h alguns anos, de um tumor.
- Ela nunca soube? - perguntou Max, desolado por todo o tempo que ele e Ruth tinham imaginado que a irm estava morta, quando na realidade continuava viva na ustria.
- Eles sentiam-se culpados e acabaram por lhe revelar a sua verdadeira identidade antes de ela morrer. Deram-lhe uma caixa de fotografias e de objectos de valor
sentimental que a me tinha deixado.
- Ainda tem essa caixa?
- Tenho.
- Onde? - perguntou ele, olhando para o casaco ensopado que ela tinha pendurado junto da entrada.
Rebecca baixou os olhos e respondeu-lhe que tinha deixado as malas
na rua.
- A apanharem neve?
- No tinha a certeza que quisesse receber-me.
Max saiu e trouxe para dentro a mala castanha de cabedal, limpando a neve que a cobria com a mo.
- Como chegou aqui? - perguntou ele. No se via sinal de nenhum carro.
- Apanhei um comboio e depois vim de txi.
-  uma rapariga corajosa - disse-lhe ele com amabilidade.
- Estou desesperada - respondeu ela. - No tenho mais ningum de famlia.
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- Onde est o seu marido?
- No sou casada - disse ela, corando.
- Estou a ver.
- O meu namorado deixou-me quando eu engravidei.
Max pensou em Ruth e como ela por pouco no se vira na mesma situao. Ambas tinham dado o nome de Mitzi s filhas.
- Veio directamente da ustria?
- Vim.
- Deixe-me ver a caixa - pediu ele, interessado em verificar que ela era realmente quem dizia ser.
Rebecca inclinou-se para a abrir. Tinha feito a mala com muito cuidado. A pouca roupa que trazia estava muito bem dobrada. Depois de a retirar, tirou da mala uma
caixa vermelha de carto com ar usado. P-la sobre a mesa e levantou a tampa. Para surpresa de Max estava cheia de fotografias dele e de Ruth quando ainda eram pequenos,
de Lydia ainda beb e mais tarde j crescida. Estudou-as uma a uma, aturdido de saudades e surpresa.
- Esta  a minha me pouco depois de eu ter nascido - disse ela apontando para a fotografia, a preto e branco, de uma jovem bonita com um beb ao colo, muito parecido
com Mitzi. - Tenho muitas saudades dela.
- Que aconteceu ao seu pai? - perguntou Max.
- A minha me no teve um casamento feliz. A vida dela era muito dura. O meu pai trocou-a por outra mulher, com quem casou depois da morte dela. Nunca chegaram a
divorciar-se e eu perdi-o de vista.
- A Rebecca  filha nica?
- Sou. Nunca o teria incomodado, Mister Guinzberg, se no estivesse desesperada. Mas no sabia a quem pedir ajuda. No tenho dinheiro, e com um beb pequeno... -
A sua voz tornou-se mais arrastada e ela comeou a chorar.
- Rebecca - disse ele, docemente, levantando-se e pondo-lhe um brao sobre o ombro. - No imagina como me sinto feliz por me ter encontrado. Foi o destino que a
conduziu a mim. A Rebecca  a filha da minha irm, tudo o que me resta dela.
- Nunca tive curiosidade de o conhecer... - comeou ela, mas ele interrompeu-a.
- No faz mal, no precisa de me explicar nada. A Rebecca ainda  uma criana. E  nova de mais para criar um beb sozinha. A sua casa
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 esta. Sua e da Mitzi. Aqui est segura, e eu vou tomar conta das duas, prometo - disse ele, pondo a tampa na caixa. - Venha para a cozinha para eu lhe arranjar
qualquer coisa para comer. Deve estar com fome. E a Mitzi?
- Ainda lhe estou a dar de mamar, Mister Guinzberg - disse ela, seguindo-o.
- Chame-me Max - pediu. - Afinal sou seu tio.
Com isto, Rebecca comeou outra vez a chorar e acordou Mitzi.
Max fez-lhe uma omeleta enquanto ela dava discretamente de mamar  filha por baixo do roupo. Ia-lhe contando a histria da me, mas ele queria sempre saber mais,
tudo at ao cheiro da pele dela.
- Ela sempre cheirou a rosas,  maneira antiga. Em criana, lembro-me de brincar com o cabelo dela. Penteava-a ou ento lavava-o. Ela tinha um cabelo forte muito
bonito. Como o seu. Eu tenho o cabelo do meu pai. Ele tambm  louro, mas o cabelo dele no  forte.
- O meu j no  to forte como antigamente, mas isso  da idade - disse ele, voltando-se para olhar para ela.
Era uma rapariga muito bonita, sobretudo quando no chorava. Os olhos dela eram da cor dos dele, sodalite azul, do mais azul dos azuis, e o sorriso era rasgado e
encantador como o da av Mitzi, muito celebrado no seu tempo.
Rebecca comeu a omeleta com apetite, enquanto Max explorava a caixa dela com curiosidade crescente. Havia um velho pingente com uma estrela de David e uma pregadeira
em forma de borboleta feita de diamantes, que pertencera  me dele, e um bloco de apontamentos do pai com algumas oraes escritas pela mo dele, uma velha Bblia
de capa preta e um anel de sinete, em ouro. Achou graa a um velho programa de teatro com o nome da me na capa. Era evidente que tinham escolhido alguns objectos
soltos ao acaso para deixar, caso no voltassem. Ao pegar em todas aquelas coisas com devoo, sentiu um aperto na garganta. Rebecca era jovem de mais para perceber
o significado de tudo aquilo.
Depois de instalar a sobrinha no quarto onde ele e a irm tinham dormido a sua primeira noite naquela casa, telefonou a Ruth, que ficou to surpreendida como ele
ficara.
- Tens a certeza que no  uma fraude? - perguntou-lhe ela.
- Absoluta. Entre outras coisas, at  parecida connosco.
- Como  possvel que Lydia tenha tido uma filha que esteja agora com dezasseis anos?
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- Faz as contas. Basta que tivesse dezoito anos quando ela nasceu.  incrvel.
- Eu sei. Parece impossvel. Para comear, parece impossvel que a Rebecca j tenha idade para ter uma filha, mas, alm disso, veio da ustria sozinha. No  nenhuma
tola e  eficiente e capaz. A mala dela estava irrepreensivelmente arrumada. Amanh tens de c vir, o mais cedo que puderes. As fotografias ento so um verdadeiro
milagre.
- Ainda me custa acreditar que a Lydia tenha sobrevivido - disse ela, calmamente. - E ns todo este tempo convencidos de que ela estava morta.
- Quem me dera que a tivssemos conhecido. O mnimo que podemos fazer  tomar conta da filha dela - disse ele em voz baixa.
- Tu s um homem bom, Max.
- No, Ruth. A Rebecca e a Mitzi so uma bno para mim.
Era verdade. De repente, Max sentia-se completo. O vazio no seu esprito fora preenchido. A sua vida tinha um sentido mais elevado do que aquele que podia ser inspirado
por qualquer negcio.
Na manh seguinte, quando correu as cortinas, viu com surpresa um casal de gansos-do-norte no meio do relvado. Abriu e fechou os olhos incrdulo. Continuavam ali,
o sol a iluminar-lhes a plumagem imaculada enquanto olhavam o jardim coberto de neve por cima dos bicos curtos.
- E eu que ia jurar que eles viviam no Canad - murmurou consigo mesmo, recordando a famosa histria de The Snow Goose, de Paul Gallico.
Encolheu os ombros e vestiu-se  pressa, sorrindo ao recordar os pormenores do dia anterior. Era impressionante como a sua vida mudara de um momento para o outro.
Nunca um dia lhe parecera to belo.
Quando desceu as escadas, o cheiro que vinha da lareira, em que ainda havia brasas do dia anterior, pareceu-lhe o mesmo que no tempo de Mrs. Megalith. Toda a casa
parecia ter voltado a ser a mesma. Com um andar cheio de vivacidade entrou na cozinha. Mrs. Gunter, a cozinheira, chegaria dali a pouco para fazer o almoo e o jantar.
At l, tinha a cozinha para ele. Ps-se a preparar caf, ch, sumo de laranja, ovos escalfados, torradas e papas de aveia para Rebecca. No sabia do que ela gostava
mais, mas queria que ficasse contente.
Quando desceu, a sobrinha parecia outra pessoa. Tinha lavado o cabelo e aplicado maquilhagem e vestira um par de calas de ganga e uma
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camisola azul-clara. Parecia mais velha do que era realmente e o seu sorriso deixava transparecer a sua satisfao. Trazia Mitzi nos braos, acordada e a olhar 
sua volta cheia de curiosidade.
- Isto  tudo para mim? - perguntou quando viu a mesa posta para o pequeno-almoo.
- No sabia o que preferias - respondeu Max com um encolher de ombros.
- Obrigada. Nem sei por onde comear - disse ela, com uma risada suave e quente.
- Porque no me deixas tomar conta de Mitzi? Ela no se vai importar, pois no? - sugeriu ele com entusiasmo. - Assim j podes comer mais  vontade.
- Tem a certeza?
- Claro que sim. Afinal sou o tio-av dela.
- O Max no  um homem tpico, pois no?
- Tenho pena de no ter filhos meus - respondeu ele com um sorriso triste, pegando na beb.
Mitzi no protestou. Limitou-se a tentar agarrar o queixo dele com as mozinhas sapudas.
- Max, quando ontem me disse que eu tinha aqui uma casa estava a falar a srio? - perguntou ela, apreensiva.
- Claro que sim. Tu s da minha famlia. O teu lugar  aqui.
- No sei como agradecer-lhe.
- No precisas de agradecer nada, Rebecca. Eu cresci convencido de que a minha irm tinha morrido, e essa ideia atormentou-me anos a fio. Se no tivesses aparecido
ontem  noite, eu nunca teria sabido a verdade. Teria morrido infeliz por isso. Agora posso morrer contente, por saber que ela te teve a ti e  pequena Mitzi. Afinal,
teve um futuro e esse futuro tambm  meu. - Max olhou para o rosto surpreendido dela. - Percebes o que quero dizer?
- Acho que sim - disse ela, docemente.
- No tem importncia. Toma o teu pequeno-almoo que a minha irm Ruth est a chegar para te conhecer; depois acho que devamos ir s compras. A pobre Mitzi nem
sequer tem um bero!
Quando Ruth chegou abraou o irmo e, em seguida, espontaneamente, fez o mesmo com Rebecca. Olhou a sobrinha com os olhos cheios de lgrimas e sem saber que dizer.
Reconhecia Max e a me nas
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feies dela, e at as suas. Esqueceu-se de pedir explicaes. Percebeu que Rebecca era da sua famlia. Sentiu-o com o corao, porque ela tinha iluminado a sua
parte escura, aquela em que se escondiam as mesmas sombras que em Max. Por fim, conseguiu falar acerca do passado. Os trs passearam pelo jardim partilhando histrias
e recordaes, fazendo perguntas a que apenas Rebecca podia responder. Pegavam em Mitzi  vez e iam mostrando  sobrinha a sua nova casa, falando do futuro, os horrores
do passado perdidos na sua inocncia. Tomaram caf e choraram com as velhas fotografias. Rebecca recordava a me e eles puderam, por fim, recordar a deles.
Quando Rita chegou para almoar, reparou logo que qualquer coisa mgica acontecera.
- Sabes que a casa parece outra? - disse ela a Max. - Tem um cheiro diferente.
- Sim, eu tambm noto - concordou ele com um sorriso.
- Cheira a madeira, a fumo, a aconchego, como dantes.
- Viste os gansos-do-norte?
- Viste gansos-do-norte?! - exclamou, muito excitada.
- Sim, dois. Abri as cortinas esta manh e l estavam eles, no jardim.
- Mas eles so do Canad e migram para o Mxico!
- Nesse caso, o lugar deles  em Elvestree...
- Parece milagre - disse ela.
- No tanto como Rebecca.
- Isso  verdade. - Tocou-lhe ao de leve no brao e acrescentou com um pouco de tristeza: - Estou muito feliz por ti, Max.
Rita tambm gostaria de ser capaz de dar uma volta  sua vida. J tinha passado os quarenta e perdera qualquer esperana de um dia vir a ter filhos. George no passava
de uma recordao, de uma baforada de fumo sem qualquer consistncia. Ps-se a brincar distraidamente com o anel de noivado e a perguntar a si mesma que lhe reservaria
o futuro, uma vez que Max j tinha uma famlia. Em tempos, ele amara-a. A ironia  que, depois, fora ela que comeara a am-lo. O amor por ele no tinha aparecido
de repente, tinha crescido lentamente e impusera-se-lhe aos poucos, de tal maneira que ela nem se tinha apercebido da mudana do seu corao. Durante muito tempo
nem se atrevera a admiti-lo a si mesma. Mas
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a vida de Max estava a tomar um curso diferente, e ela percebeu que ele a estava a deixar para trs, o que a fazia sofrer.
Depois de Rebecca e Mitzi se instalarem em Elvestree, a magia regressou com a Primavera. O renascer da natureza era ali mais espectacular que em qualquer outro stio.
Os frutos e os vegetais raros cresciam em abundncia, deixando os jardineiros boquiabertos, e havia pssaros de todo o mundo que faziam os ninhos em rvores que
h sculos observavam aquele recanto misterioso de Inglaterra. No esturio foram vistos lavandiscas, papagaios-do-mar e at um albatroz. A casa voltou a encher-se
dos risos das crianas, com as filhas de Ruth a brincarem no jardim. Rebecca fazia amigos com facilidade, e Max gostava de ouvir os tachos a tilintarem na cozinha
quando ela convidava outras mes jovens para lanchar com os filhos pequenos. Os dois tinham-se tornado to prximos como seria possvel entre um pai e uma filha.
Rita via isto acontecer com alguma inveja. Embora ela prpria adorasse Rebecca e Mitzi, percebia com tristeza que a ateno dele j no se concentrava nela como
antes. Tinha deixado de a olhar com o antigo anseio. Recordava a tarde de neve no esturio e perguntava a si mesma se ele a teria esquecido.
Depois, no meio de toda esta alegria, George teve um acidente vascular. Hannah soube da notcia por Faye e contou a Rita, que ficou de rastos. Apetecia-lhe ir visit-lo,
mas sabia que no seria bem recebida. Alm disso, no estado dele no seria aconselhvel. Ia pedindo notcias  me, mas elas no eram boas.
A vida tinha sido dura para ele. Talvez o trauma da guerra, talvez a presso de viver. Ou talvez a dureza do amor, porque George amara intensamente e amara de mais.

CAPTULO 37
Susan sentou-se na areia a chorar. Raramente o fazia, mas pelo menos ali, ao crepsculo, ningum daria por ela, a ver a sua felicidade desaparecer entre a nvoa
do horizonte, onde o mar desaparecia na eternidade, a porta da morte. Olhou o mar, como se George j tivesse partido. Ele sempre fora um homem com uma forte presena
fsica, cheio de vitalidade, como um carvalho jovem e slido. Fora ele o seu apoio e a sua fora. E naquele momento quase no conseguia falar nem mexer-se, como
um velho decrpito. E tinha apenas quarenta e sete anos.
Tudo acontecera sem aviso prvio. George estava na quinta, a trabalhar como de costume, quando sentiu uma dor sbita na cabea, como se uma mo de ferro lhe apertasse
o crebro. Um dos rapazes da quinta tinha ido a correr pedir ajuda. Susan estava no jardim com Charlie, j um jovem de vinte anos, apaixonado por Daisy Weaver. Tinham
chamado uma ambulncia e George fora levado para o Hospital de Exeter. Tal como o pai, Charlie era digno de confiana e sensato, mas Susan estava preocupada de mais
para pensar em sentir-se orgulhosa. Nesse momento, George estava numa casa de repouso, a Yew Tree, onde havia enfermeiras que podiam cuidar dele melhor que ela.
No estado em que ele se encontrava mal conseguia olh-lo, porque imaginava como ele se sentiria, como um urso sem garras ou um leo sem dentes. Uma parte de George
morrera e uma parte dela tambm.
Deixou que o barulho das ondas acalmasse o seu esprito atormentado; tal como a msica, as ondas tinham o seu prprio ritmo. Permitiu que a sua mente divagasse pelas
alamedas do seu passado, recordou o encontro dos dois a bordo do Fortuna, a altura em que ela o rejeitara com frieza, e mais tarde o tempo passado na praia no Uruguai,
quando o seu
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corpo estremecera com qualquer coisa incontrolvel e infinitamente mais primitiva que amizade. Sorriu da prpria tolice, da maneira como comeara por encar-lo com
desconfiana, sem perceber que ele seria a melhor coisa que lhe aconteceria na vida. Fora muito hbil quando conseguira que a convidassem para Crdoba. E a felicidade
que os dois ali tinham construdo... Concentrou-se na primeira vez que ele beijara a sua cicatriz e as lgrimas comearam a cair-lhe pelo rosto por saber que no
voltaria a faz-lo. Fora ele que a ensinara a amar-se a ela mesma e a am-lo. George tinha galopado pela alma dela como um cavaleiro sobre um cavalo branco e destrura
todos os seus demnios.
E os demnios dele? Teria conseguido destruir os dele ou teria sido vencido por eles? Estariam eles enroscados no fundo da sua alma sob a forma de uma serpente,
 espera do melhor momento para saltarem? Fora um homem torturado pelo passado. Rita e a guerra. Talvez ele ainda a amasse e tivesse sido esse amor reprimido, no
recompensado, que tivesse sufocado o seu corao. Mas isso j pouco importava. O amor dos dois tinha resistido, apesar de Frognal Point e os seus fantasmas lhe terem
tirado um pouco da sua intensidade.
Deixou-se ficar na praia at a escurido a envolver nos seus braos longos e as estrelas povoarem o cu. A mar estava a subir e as ondas esmagavam-se contra as
rochas. Um sopro de vento acariciava-lhe o rosto. Sentiu-se parte da natureza, como uma concha na praia ou um caranguejo vigilante meio enterrado na areia, e de
repente sentiu a presena de Deus, a dizer-lhe com o sopro do vento que tudo na vida tem uma finalidade, que nada  deixado ao acaso, nem a subida e a descida das
mars. O destino de George era aquele. Estava condenado a sofrer aquele ataque. Comeou a sentir algum alvio por perceber que lutar no faria qualquer diferena.
Nada estava sob o seu domnio. Apenas podia render-se a um poder mais alto e rezar. Rezou, por isso, para que Ele se mostrasse misericordioso porque no sabia viver
sem George. Tinha esquecido o que era estar sozinha e tornara-se dependente do amor dele.
Naquela praia escura percebeu, pela primeira vez, que o seu lugar era Frognal Point. Para sua surpresa, depois de uma vida errante, conseguira construir um lar de
afectos e memrias, um lar que no desapareceria. Nunca se sentiria ali como George as pegadas dele estavam bem marcadas na areia, enquanto as dela eram frescas,
mas apareciam no seu lugar, ao lado das dele. Viu o filho e Daisy e esperou que um dia se casassem
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e mostrassem aos filhos as poas deixadas na areia pelas mars e as aves marinhas, como George e Maddie lhas tinham mostrado a eles. Apreciava a amizade entre Ava
e Elsbeth e sabia que uma delas seria um apoio para si ao longo da vida. Apesar dos seus medos, os filhos dela e de George estavam bem enraizados naquela aldeia
da costa, tal como George.
Quando chegou a casa, Charlie e Ava estavam  espera dela na cozinha. Ava tinha feito o jantar enquanto Charlie tinha passado uma hora ao telefone com Daisy. Viram
o rosto da me marcado pelas lgrimas e quase no a reconheceram. Nas ltimas semanas parecia ter definhado. Cada visita ao pai parecia roubar-lhe um pouco mais
de vida, mas no percebiam o amor dela, porque eram demasiado jovens e o seu amor demasiado verde. Charlie planeava casar com Daisy. Tinha esquecido o desamparo
e a dor nos braos de Daisy na gruta secreta que tinham descoberto por acaso, escondida por canas altas e pela subida da mar. Ava sabia, porque Elsbeth de vez em
quando espiava-os e contava-lhe quando eles saam juntos de barco para pescar ou trocar segredos.
Susan sentia-se grata pelo apoio dos filhos. Ava fazia as compras e assegurava-se de que havia sempre comida feita em casa. Charlie levava-a de carro  casa de repouso,
para ela no ter de ir sozinha, e sentava-se l fora, na varanda, a fumar, enquanto ela visitava o pai, recordando velhos tempos, contando-lhe novidades dos filhos
ou apenas lendo em voz alta. Do que ele mais gostava era de contos, especialmente de Oscar Wilde e de Maupassant. Olhava-a com olhos tristes e ela mobilizava todos
os msculos da cara para parecer animada, quando na verdade s ansiava por se encostar e adormecer.
Agora, Charlie e Ava viram-na entrar em casa. O seu rosto estava vermelho do vento e o cabelo, que usava pelos ombros, estava despenteado.
- Queres um copo de vinho, me? - perguntou Charlie.
- Sim, obrigada - respondeu ela. - H aqui qualquer coisa que cheira bem - acrescentou, voltando-se para a filha.
- Galinha assada no forno com hortalias. Tambm fiz batatas, para o Charlie. Tem de estar forte, se quiser continuar a fazer exerccio desta maneira - disse ela
com um sorriso dissimulado, tentando animar a atmosfera com uma referncia as actividades sexuais do irmo na gruta da praia.
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Susan franziu o sobrolho, mas estava cansada de mais para fazer perguntas. Charlie e Ava estavam sempre a implicar um com o outro, mas ela, em geral, ignorava-os.
Charlie serviu-lhe um copo de chardonnay frio e ela deixou-se cair sobre uma cadeira. Apesar da companhia deles sentia-se s. O futuro dos filhos estava cheio de
possibilidades de amor e de realizao e o dela morria aos poucos na casa de repouso de Yew Tree. Susan sabia que nunca voltaria a amar.
Ao jantar, Charlie disse que queria casar com Daisy, mas no queria falar-lhe nisso enquanto a sade do pai no melhorasse.
- No sejas tolo - disse Susan. - Isso at era capaz de o animar. Do que ele mais precisa  de boas notcias.
Os olhos de Charlie brilharam com excitao e Susan percebeu que, por muito que lamentassem o que acontecera ao pai, ambos tinham as suas vidas em que pensar. Invejou
a sua juventude. Se ao menos ela pudesse comear de novo com George... Que faria de diferente? Ficaria em Las Dos Vizcachas? Observou a felicidade dos filhos e percebeu
que, por dura que a deciso de viverem em Frognal Point tivesse sido para ela, tinha sido a mais acertada.
O dia seguinte amanheceu quente e luminoso. O sol de Agosto brilhava com mais entusiasmo que em qualquer outro dia no resto do Vero. Charlie e Ava foram com a me
 casa de sade. Ambos queriam ver o pai, Charlie para lhe falar das suas intenes em relao a Daisy e Ava porque j no o via h alguns dias. Fizeram o percurso
em silncio, olhando as ondas e o brilho da luz ao longo da costa. Encontraram George na varanda, que dava para uma enseada com areia branca e um mar muito azul.
Estava sentado na cadeira de rodas com uma manta sobre os joelhos e um bloco de apontamentos e uma caneta a postos. Era a sua nica maneira de comunicar. Quando
viu a famlia, conseguiu esboar um sorriso retorcido, agora mais do que nunca, depois do ataque. Susan achou que ele tinha pestanejado com uma satisfao invulgar
e sentiu-se cheia de esperana. Talvez o momento de viragem fosse aquele, uma nova atitude que desencadeasse a sua recuperao. Beijou-o afectuosamente no rosto
e tomou a mo dele nas suas. No interior do seu corpo intil o corao dele estava cheio de amor.
Susan notou a mudana. No percebeu qual era a causa, mas George parecia ter aceitado a sua condio e o entusiasmo pela vida irradiava dele como uma aura calorosa
de luz.
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- Vou pedir  Daisy que case comigo - disse Charlie, ansioso por dar as suas notcias ao pai.
"Os midos no reparam em nada", pensou Susan. A transformao de George parecia-lhe to bvia como se de repente ele tivesse comeado a falar, mas Charlie parecia
s estar interessado em falar nele mesmo. George olhou encorajadoramente para o filho e rabiscou "espero que ela diga que sim" com a mo incerta. Charlie riu-se,
certo de que diria. George reparou no paralelo, mas dessa vez no haveria uma guerra para distorcer o esprito do filho e baralhar os valores dele. George tinha
a estranha impresso de que Charlie e Daisy viveriam a vida que estava feita para ele e Rita, que viveriam a felicidade que a eles lhes tinha escapado.
- Quero casar na igreja de Frognal Point - continuou Charlie.
- Felizmente o reverendo Hammond j no est l - disse Susan, baixando a voz, uma vez que ele tambm residia na casa de sade. - Sempre o achei arrogante. O novo
vigrio  um homem muito simptico.
George esboou um sorriso e conseguiu acenar afirmativamente.
- Tu podes ser dama de honor - disse Charlie  irm com um esgar trocista.
- Nem que me pagues! - respondeu ela com uma risada.
- Pago-te para te portares bem - soprou-lhe ele. Ava sorriu e segredou ao ouvido do pai: - Eles descobriram uma gruta na praia - disse ela, erguendo sugestivamente
as sobrancelhas.
- Cala-te, Ava! - disse Charlie.
- O pap achou graa, tolo - ralhou ela, fazendo uma careta.
Por um momento, os olhos de George encheram-se de lgrimas. Ento, os dois tinham encontrado o seu refgio secreto e marcado o lugar com a sua forma particular de
amor. Sentiu-se nostlgico, como se a mar tivesse subido e apagado as pegadas dele e de Rita. E eles que as tinham imaginado indelveis... Em breve, deixaria de
haver qualquer vestgio dos dois, apenas novas recordaes, todas elas de outras pessoas. Era esse o facto imutvel da vida.
Pouco depois, Charlie e Ava foram dar um passeio pela praia, deixando os pais a ss. Ela sentou-se ao lado dele a ver os filhos desaparecerem e apertou-lhe a mo.
- Hoje pareces melhor, George - disse-lhe com um suspiro. - Eu sei que deve ser frustrante no poderes falar, mas com o tempo vais ser
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capaz de falar outra vez, porque o teu esprito  forte. Tenho a certeza que vais vencer isto. - Voltou-se para ele e viu que os olhos dele se tinham tornado tristes.
O seu corao teve um aperto ao ver como ele parecia indefeso. - Ns gostamos tanto de ti - disse ela, surpreendendo-se a si prpria por a sua voz se ter transformado
num sussurro.
George olhou para ela e uma lgrima desceu-lhe pelo rosto. Com ternura, ela limpou-a. Depois inclinou-se e beijou-o. Ele olhou-a um longo momento e depois escrevinhou
no bloco: "No te mereo."
- Mereces sim - protestou ela, encostando o rosto ao dele. - Mereces todo o amor que tenho para te dar.
George olhou na direco do mar e do horizonte. O cu estava mais azul que nunca e o mar brilhava com os reflexos do sol. Sentiu-se atrado por ele, como se uma
fora o puxasse, atraindo-o para longe, para que banhasse o corpo abatido nas suas guas regeneradoras. Apeteceu-lhe saltar da cadeira de rodas e descer a correr
o caminho de terra para a praia, mas sentiu-se paralisado pelos ossos e pela carne inteis do seu corpo. Depois, viu uma figura que se dirigia para ele de braos
estendidos, com o cabelo embaraado a esvoaar, o riso como os gritos das gaivotas, levada pelo vento ao longo da areia. Usava um vestido fino de Vero e um casaco
e o seu rosto sardento parecia vivo com alegria. Tentou gritar-lhe: "Rita! Rita!", mas a voz ficou-lhe presa no peito, onde o corao pareceu explodir de saudade.
Conseguiu erguer a mo. Talvez ela visse o pequeno gesto e percebesse que ele estava a cham-la. Depois, ela voltou-se e comeou a acenar-lhe, encorajando-o a segui-la.
Como era possvel que no percebesse que ele no podia? As mos dela moviam-se em cmara lenta, o seu sorriso era lento e convidativo. Tentou fazer-lhe um gesto
com a cabea, dizer-lhe que estava invlido. Que no conseguia mexer-se, por muito que quisesse. Mas nessa altura a sua vontade tornou-se mais forte que a resistncia
fsica do seu corpo. Saiu a flutuar da cadeira de rodas, deixando para trs o corpo inerte. Sentiu uma onda de alvio enquanto atravessava o relvado e sobrevoava
a praia onde Rita lhe acenava alegremente e seguiu na direco do mar. Os seus membros pareceram-lhe feitos de raios de Sol. O seu esprito estava cheio de um xtase
sobrenatural quando passou pelas aves em direco a uma luz mais forte. Depois viu-os, os rostos jovens e cheios de satisfao. Jamie Cordell, Rat Bridges, Lorrie
Hampton e o pai, Trees, e muitos outros, ao longe, dando-lhe as boas-vindas.
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Rita nunca pegara na Bblia do reverendo Hammond. Deixou-a ficar na mesa pequena da sala, imvel, anos a fio. At quele dia. Pegou nela e passou os dedos pela capa
de cabedal. O reverendo estava s a tentar ajud-la. Todos tinham tentado, mas ela no os percebera. Sempre tivera medo de seguir em frente e de ser de novo desapontada.
Os desapontamentos do passado j eram familiares: habituara-se a viver com eles, mas, agora, Rebecca tinha reescrito o passado de Max e tudo tinha mudado. E ela
queria fazer parte dessa mudana.
Meteu-se no carro e conduziu em direco a Elvestree. Max estava a trabalhar no escritrio. Quando ela parou  porta, sorridente, radiante, ele inclinou a cabea
e olhou-a um pouco intrigado.
- Queres almoar comigo? - perguntou-lhe.
- Aconteceu alguma coisa? - Max estava surpreendido pela mudana de expresso dela. Parecia mais jovem, como se tivesse largado uma pele mais velha, como as cobras.
Sentiu o estmago s voltas. Ao fim de todos aqueles anos, ela continuava a ter aquele efeito sobre ele.
- Preciso de falar contigo.
- Onde queres ir?
- Queria ir devolver esta Bblia ao reverendo Hammond, que est na casa de sade de Yew Tree. No fica longe. Podamos procurar um pub e comer na esplanada. H anos
que no fao isso.
Max estava curioso de mais para no aceitar.
- Vou s dizer  Rebecca.
Desceram ao longo da costa com Max ao volante.
- Porque decidiste devolv-la agora? - perguntou ele.
- H muito tempo que ele ma emprestou.  um livro antigo muito bonito. Achei que estava na altura de o devolver.
- Mas porque  que ele to deu?!
- Achou que eu era uma ovelha tresmalhada porque deixei de ir  missa.
- E resultou?
- Queres saber se voltei a ir  missa? Voltei. Mas nunca li a Bblia.
- Sempre me surpreendeu que ele nunca tivesse tentado converter-me a mim e  Ruth.
- No, isso j era de mais. Vocs estavam completamente perdidos. E ele no gostava de falhar. S tentava com ovelhas desorientadas como
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eu. Assim, podia pensar que tinha servido Deus quando ns voltvamos. Tambm nunca tentou converter a av. Sabia que era uma batalha perdida.
- Afinal tinha algum bom senso. - Max sorriu olhando a estrada  sua frente. Tambm comeava a sentir-se nervoso, como se tivessem voltado os dois a ser adolescentes.
Agarrou o volante com fora e concentrou-se na conduo.
Atravessaram os portes brancos da casa de sade e subiram a alameda rodeada de teixos.  frente surgiu um magnfico edifcio vitoriano, em tempos a manso de um
milionrio. Max acompanhou-a at  recepo. Das portas da varanda via-se o mar e ele disse a Rita que esperava por ela na varanda.
- No me demoro - disse ela, e depois voltou-se para uma enfermeira de uniforme.
- Vim visitar o reverendo Hammond. Chamo-me Rita Fairweather. - A enfermeira acenou que sim e sorriu-lhe.
- Esteja  vontade. Primeiro andar, quarto catorze. Volte aqui  direita e siga at ao fundo do corredor. A escada fica em frente.
O corredor cheirava a cera. O soalho de madeira original brilhava de asseio e nas paredes da escada havia quadros de paisagens de cores alegres e barcos no mar.
As escadas rangiam como as de Lower Farm, s que aquelas eram mais largas e grandiosas, com muita luz. Quando chegou ao quarto dele descobriu com desapontamento
que ele no estava. Esperou um pouco, depois decidiu escrever-lhe uma nota, que deixou em cima da cama ao lado da Bblia, num stio onde ele no podia deixar de
a ver.
"Desculpe ter-me desencontrado de si, reverendo Hammond", escreveu ela. "Tal como o reverendo me disse uma vez, Roma no se fez num dia. Eu s agora estou pronta
para assentar a primeira pedra. Obrigada, Rita." Olhou para o pequeno anel que parecia brilhar menos do que antes e perguntou a si mesma porque teria continuado
a us-lo tanto tempo depois de ele ter perdido todo o significado. S tinha mais uma coisa a fazer.
Com um passo ligeiro, percorreu o corredor na outra direco, demasiado preocupada para ver a jovem de ar solene que o percorria na direco oposta com uma velha
caixa de carto. Foi de encontro a ela, fazendo cair a caixa ao cho. A mulher mais jovem caiu de joelhos.
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- Desculpe - gritou Rita, horrorizada. - Ia mesmo a leste de tudo. - Depois reconheceu Ava, que olhou para ela sem a reconhecer, embora soubesse que a conhecia de
algum lado. - Sou Rita Fairweather, e imagino que seja a Ava Bolton. Que veio fazer aqui?
- O meu pai morreu ontem e eu vim arrumar as coisas dele.
- O George morreu? - perguntou Rita, incrdula, abanando lentamente a cabea num gesto de negao. - Mas ele era to novo!
- Teve outro ataque.
Houve uma pausa longa enquanto Rita digeria as notcias. "George morreu? George j no est connosco?"
- Lamento muito - conseguiu dizer, baixando-se para a ajudar a apanhar as coisas.
- Obrigada - respondeu Ava. - Foi tudo muito repentino, mas tenho a certeza que foi para um stio melhor. Estou realmente convencida disso.
- Tambm eu - disse Rita, apanhando os livros dele e uma caneta. Para sua surpresa, embora se sentisse triste, tambm se sentia estranhamente desprendida, percebendo
que o George que em tempos amara morrera h muitos anos e ela j fizera o luto por ele.
Nesse momento reparou numa velha fotografia que em tempos lhe dera, j um pouco sumida e coberta com uma proteco de plstico. Sentou-se e estudou-a por um momento,
surpreendida por encontr-la ali.
- Quem ? - perguntou.
- No sei. Uma pessoa especial, imagino - respondeu Ava pondo a tampa na caixa. - Encontrei-a no bolso do casaco de pijama dele. Desconfio que a trazia sempre com
ele.
Rita sorriu e devolveu-lha. Ava agradeceu-lhe de novo e Rita viu-a descer as escadas, com os saltos a fazerem barulho nos degraus de madeira. Afinal, ele nunca tinha
deixado de a amar. Como tinha prometido, trouxera a fotografia com ele at  morte. Mas isso j no tinha importncia. Teria significado tudo dez anos atrs, mas,
entretanto, Rita deixara de ser uma rapariga e tinha-se libertado. Brincou um momento com o anel e depois desceu as escadas com passos firmes.
Encontrou Max a fumar na varanda. Sem uma palavra pegou-lhe na mo e caminhou com ele pelo carreiro de terra at  praia. Ele seguiu-a, perguntando a si mesmo porque
teria o rosto dela um brilho que nunca lhe vira antes. Quase a chegar s ondas, ela voltou-se, olhou-o fixamente e tirou o anel.
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- H muitos anos que devia ter feito isto - disse, e atirou-o ao mar.
Em silncio, ambos o viram fazer um plop ao cair no mar e depois desaparecer para sempre. Max no soube que dizer. Sentiu a habitual impresso no estmago, mas no
se atreveu a esperar demasiado.
- Uma vez pediste-me que casasse contigo - comeou ela com voz arrastada. Talvez o momento tivesse passado. Talvez ele j no a quisesse. Ela j no era jovem e
bonita como fora ento, e, alm disso, ele agora tinha Rebecca e Mitz. Mas Max no precisou de encorajamento. Tomou-lhe o rosto entre as mos e beijou-a como sonhava
fazer h quase trinta anos. Ela fechou os olhos para conter as lgrimas e abraou-o para retribuir o beijo.
Por fim, ele afastou-se um pouco e percorreu-lhe o contorno do rosto com um dedo. Tinha tanto a dizer-lhe, mas no conseguia encontrar as palavras com que poderia
aliviar o que lhe ia no peito. Limitou-se a olh-la com adorao. Ela beijou-lhe a palma da mo.
- Quero envelhecer contigo, Max. Quero passear pelo esturio, nos dias de neve ou de nevoeiro, e dizer-te como te amo, como devia ter feito naquele Natal em que
quase te perdi para sempre. Quero partilhar tudo contigo, o teu passado e o teu futuro. - Os olhos dela puseram-se a brilhar. - Leva-me a Viena, Max. Mostra-me o
Teatro Imperial, onde a tua me representou para o teu pai. Talvez em breve venha a pertencer-te com todas as recordaes que ali se encontram.
Max olhou-a longamente,  espera que os aromas familiares da sua infncia o alcanassem, vindos dos recantos mais obscuros do seu corao. Contudo, eles no chegaram.
- No - disse ele, por fim, e o seu olhar tornou-se to intenso que ela quase teve de desviar o dela. - A Viena da minha infncia j no existe. H muito que foi
destruda. J nem os meus fantasmas ali vivem. - Depois passou-lhe um brao  volta da cintura e tomou-lhe a mo na dele. Com os passos de valsa que imaginava ter
esquecido h muito, envolveu-a e disse:
- Vamos para casa, Rita. Vamos construir Viena juntos.
